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sexta-feira, 14 de abril de 2017

Sexta-feira da #Paixão - Amor levado ao extremo


Amor levado ao extremo - Frei Alvaci Mendes da Luz

Nossas igrejas se enchem, choramos Aquele que morre na cruz, caminhamos lado a lado com o Senhor Morto. É a sexta-feira da Paixão. Aquele que ontem havia celebrado a Ceia com os seus, mas que havia sido na mesma noite entregue aos “homens deste mundo”, agora jaz no madeiro.

Contudo, e aqui está a beleza da liturgia integrada como única celebração de vida, adoramos o madeiro e o beijamos porque ele, o madeiro da dor, é sinal de glória. Nele adoramos aquele que viverá, que ressurgirá da morte e nos libertará a todos. Identificamo-nos tanto com Ele neste dia que até entendemos que nossas cruzes diárias são parte de nossa humanidade, e que aceitá-las e tentar entendê-las talvez seja um primeiro passo para a vida nova, que todos buscamos. A cruz lembra dor, mas reforça a certeza da vitória.

Cristo ofereceu-se por nós - Do Tratado sobre a fé de Pedro, de São Fulgêncio de Ruspe, bispo (Cap.22.62: CCL 91A, 726.750-751)

Os sacrifícios das vítimas materiais, que a própria Santíssima Trindade, Deus único do Antigo e do Novo Testamento, tinha ordenado que nossos antepassados lhe oferecessem, prefiguravam a agradabilíssima oferenda daquele sacrifício em que o Filho unigênito de Deus feito carne iria, misericordiosamente, oferecer-se por nós.

De fato, segundo as palavras do Apóstolo, ele se entregou a si mesmo a Deus por nós, em oblação e sacrifício de suave odor (Ef 5,2). É ele o verdadeiro Deus e o verdadeiro sumo-sacerdote que por nossa causa entrou de uma vez para sempre no santuário, não com o sangue de touros e bodes, mas com o seu próprio sangue. Era isto que outrora prefigurava o sumo-sacerdote, quando, uma vez por ano, entrava no santuário com o sangue das vítimas.

É Cristo, com efeito, que, por si só, ofereceu tudo o quanto sabia ser necessário para a nossa redenção; ele é ao mesmo tempo sacerdote e sacrifício, Deus e templo. Sacerdote, por quem somos reconciliados; sacrifício, pelo qual somos reconciliados; templo, onde somos reconciliados; Deus, com quem somos reconciliados. Entretanto, só ele é o sacerdote, o sacrifício e o templo, enquanto Deus na condição de servo; mas na sua condição divina, ele é Deus com o Pai e o Espírito Santo.

Acredita, pois, firmemente e não duvides que o próprio Filho Unigênito de Deus, a Palavra que se fez carne, se ofereceu por nós como sacrifício e vítima agradável a Deus. A ele, na unidade do Pai e do Espírito Santo, eram oferecidos sacrifícios de animais pelos patriarcas, profetas e sacerdotes do Antigo Testamento. E agora, no tempo do Novo Testamento, a ele, que é um só Deus com o Pai e o Espírito Santo, a santa Igreja católica não cessa de oferecer em toda a terra, na fé e na caridade, o sacrifício do pão e do vinho.

Antigamente, aquelas vítimas animais prefiguravam o corpo de Cristo, que ele, sem pecado, ofereceria pelos nossos pecados, e seu sangue, que ele derramaria pela remissão desses mesmos pecados. Agora, este sacrifício é ação de graças e memorial do Corpo de Cristo que ele ofereceu por nós, e do sangue que o mesmo Deus derramou por nós. A esse respeito, fala São Paulo nos Atos dos Apóstolos: Cuidai de vós mesmos e de todo o rebanho, sobre o qual o Espírito Santo vos colocou como guardas, para pastorear a Igreja de Deus, que ele adquiriu com o sangue do seu próprio Filho (At 20,28). Antigamente, aqueles sacrifícios eram figura do dom que nos seria feito; agora, este sacrifício manifesta claramente o que já nos foi doado.

Naqueles sacrifícios anunciava-se de antemão que o Filho de Deus devia sofrer a morte pelos ímpios; neste sacrifício anuncia-se que ele já sofreu essa morte, conforme atesta o Apóstolo: Quando éramos ainda fracos, Cristo morreu pelos ímpios, no tempo marcado (Rm 5,6). E ainda: Quando éramos inimigos de Deus, fomos reconciliados com ele pela morte do seu Filho (Rm 5,10).

O sentido da morte na morte de Jesus  - Pe. João Batista Libânio, sj

Essa leitura longa já é uma grande homilia da comunidade primitiva para nós.

Gostaria somente de deixar uma única frase: “Essa é a única morte que nos pode dar força diante das outras mortes!” Só esta frase. Esta é a única morte que pode nos dar força diante de todas as mortes que nos cercam, como uma mãe, cujo filho morreu assassinado. Onde essa mulher vai buscar força? É na morte desse Homem, que a assumiu exatamente para estar ao nosso lado nessas horas. A morte de um filho inocente, vítima de um câncer. Onde a mãe, o pai, o irmão vão encontrar forças? É nessa morte. A morte de um pai, a morte de um ente querido, de um amigo, a morte de uma criança... Todas elas são para nós um absurdo, porque a morte é o nada que entra na nossa história, e seria nada mesmo, se não houvesse essa morte que deu sentido a todas as outras. Só por isso valeu a morte de Jesus.

Havia um judeu que estava sendo procurado pela polícia alemã, chamada Gestapo. Ele e sua esposa viviam no mais terrível medo, quando chega a polícia e o prende. Ele volta-se para a esposa e diz esta frase: “O tempo do medo acabou. Agora só existe para nós o tempo da esperança!”.

Uma pessoa faz uma biópsia, não sabe qual o resultado - é o tempo do medo. Vem o resultado, é doença. Começa o tempo da esperança. É esse tempo da esperança que a morte de Jesus nos dá, porque virão doenças, virão dores sobre nós, sobre nossas famílias. Quando chega um diagnóstico terrível, qual a palavra que eu tenho? Nenhuma, a não ser olhar para este Homem que assumiu a morte para estar conosco, não para curar, mas para estar ao nosso lado até à morte, se for o caso. Ele não vai curar. Não procurem milagres, não. Procurem sim, encontrá-Lo nessa hora, para que Ele lhes dê força, para que vocês, na dor, na tristeza, possam levantar a cabeça e dizer: “Eu espero, eu acredito, eu confio. Eu sou capaz até de encontrar alegria aí, porque o meu Senhor morreu da forma que morreu”. Amém!

Pe. João Batista Libânio, sj – Um outro olhar, vol. 1 

Confira a reflexão de Frei Valdecir Schwambach para esta Sexta-feira da Paixão: