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sexta-feira, 31 de março de 2017

5º domingo da #Quaresma - O desafio de soltar a vida


Ez 37, 12-14
Sl 129 (130)
Rm 8, 8-11
Jo 11, 1-45

O desafio de soltar a vida – Pe. Adroaldo Palaoro, sj

Os relatos evangélicos do 3º, 4º e 5º domingo da Quaresma do Ciclo A, tomados do evangelista João, apresentam Jesus como Fonte de Água viva (samaritana), Luz do mundo (cego de nascença) e Vida (ressurreição de Lázaro). Três símbolos de nossas necessidades humanas mais fortes (água, luz e vida) e que só o encontro com Jesus pode preenchê-las.

A Quaresma termina com um chamado à vida. Não qualquer vida, mas a Vida verdadeira, a Vida que deseja ser despertada para romper com tudo aquilo que a limita. Por isso, o relato da ressurreição de Lázaro é toda uma catequese sobre o encontro com Aquele que é Vida e que é fonte de vida em crescente amplitude. Jesus não vem prolongar a vida biológica, vem comunicar a Vida de Deus que Ele mesmo possui pelo Espírito e da qual pode dispor.

Em Jesus acontece algo totalmente novo; Ele traz uma nova maneira de viver e de comunicar vida que não cabe nos nossos esquemas. É justamente isso o que mais atrai em sua pessoa. Quem entra em comunhão de vida com Ele, conhece uma vida diferente, de qualidade nova, expansiva... Nesse sentido, a experiência do Seguimento de Jesus é uma verdadeira “escola de vida”, cujo aprendizado nos leva ao âmago do nosso ser, para enraizar nossa vida no coração da Trindade, dele haurir a seiva da vida divina e deixar-nos plenificar pela graça transbordante de Deus. Nada mais contrário ao espírito do Evangelho que a vida instalada e uma existência estabilizada de uma vez para sempre, tendo pontos de referência fixos, definitivos, tranquilizadores...

Para o evangelista João, a “vida” é uma totalidade, ou seja, a vida presente, a vida atual, possui tal plenitude que, com toda razão, podemos chamá-la de “vida eterna”; uma vida com tal força e tão sem limites, que nem a morte mesma terá poder sobre ela. A “vida eterna”, então, não é um prolongamento ao infinito de nossa vida biológica. É a dimensão inesgotável e decisiva de nossa existência. Ela torna-se “eterna” desde já.

Precisamos adquirir uma consciência mais profunda da vida do Espírito, perceber as pulsações desta vida eterna que está em nós, do mesmo modo que, prestando atenção, percebemos as batidas do coração de toda a criação. Nesse sentido, a vida tem a dimensão do milagre e até na morte anuncia o início de algo novo; ela carrega no seu interior o destino da ressurreição. “Minha vida é uma sucessão de milagres interiores” (Etty Hillesum).

Vida plena prometida por Jesus: “Eu vim para que tenham a vida e vida em abundância” (Jo 10,10)
Nem sempre sabemos viver de maneira intensa: conformamo-nos com uma vida estreita, estéril, fechada ao novo, carregada de “murmurações”, atada com faixas. O dinamismo do Seguimento de Jesus, no entanto,  é gerar vida, possibilitar que o(a) discípulo(a) viva a partir da verdade mais profunda de si mesmo; ou seja, viver a partir do coração, do “ser profundo”.

A imagem de Jesus, presente junto às vidas feridas e bloqueadas, nos ajuda a conhecer nossa própria interioridade e desperta nossa vida, arrancando-a de seu fatal “ponto morto”, de seus limites estreitos e constituindo-a como vida expansiva em direção a novos horizontes.

O seguimento proporciona vigor inesgotável, nossa vida se destrava e torna-se potencial de inovação criadora, expressão permanente de liberdade, consciência, amor, arte, alegria, compaixão... É vida em movimento, gesto de ir além de nós mesmos; vida fecunda, potencial humano. Vida com fome e sede de significado, que busca o sentido... Vida que é encontro, interação, comunhão, solidariedade. Vida que é seduzida pelo amor, pela ternura. Vida que desperta o olhar para o vasto mundo. Vida que é voz, é canto, é dança, é festa, é convocação...

“Lázaro” representa a humanidade ferida e amada, com dimensões de sua vida necrosadas, amarradas, presas nos sepulcros. Nós mesmos podemos perceber parcelas de nossa vida paralisadas e atrofiadas. Mas Lázaro, que está presente em cada um, não está morto, apenas dorme. As fontes da alegria, as fontes da criatividade e da confiança, as fontes do agradecimento e das bem-aventuranças... não estão mortas; estão adormecidas e necessitadas de que alguém tire os escombros e afaste a pedra que bloqueia o impulso da vida. E cabe a nós, como seguidores (as) de Jesus, despertá-las com a voz, com os gestos, com o olhar, com as mãos.

O primeiro passo é remover a pedra. Quem jaz atrás da pedra está fechado a qualquer tipo de relação. Quando a pedra é removida, Jesus ora e diz: “Lázaro, vem para fora!”. Chama seu amigo, e suas palavras de amizade e amor ressoam dentro da sepultura para levantá-lo, despertá-lo e insistir para sair por seus próprios pés. A palavra de amizade de Jesus o alcança inclusive naquilo que está necrosado em Lázaro.

 “Lázaro vem para fora”: “Ele tinha as mãos e os pés amarrados com faixas e um pano em volta do rosto”. Ainda não está livre; está preso pelas faixas. Algumas ligaduras podem ser bloqueios internos, dependências, medos, inseguranças, carências...

Diante do túmulo, Jesus mobiliza a todos: para ressuscitar a Lázaro pede a uns que afastem a pedra, a outros que estendam as mãos e desatem as faixas, a outros que o ajudem a pôr-se de pé.

Como podemos crescer em uma corresponsabilidade que nos faça a todos e cada um extrair o melhor de nós mesmos para contribuir com a vida, para que entre luz em nossas relações humanas, para construir entre todos os seus seguidores que caminham, livres das amarras, ao ritmo do Espírito?
“Lázaro, vem para fora!”. Não é este o grito diário de Deus em nossas vidas? Este apelo “vem para fora” é para todos. Todos somos portadores de um sepulcro que nos fecha, nos isola e nos asfixia, privando-nos de nossa liberdade. É preciso dar asas à vida, soltá-la em direção à imensidão do universo.

“Lázaro, vem para fora!” Esta palavra é preciso dizê-la desde agora, com Jesus. Venhamos todos para fora, de maneira que não vivamos mais de morte, que não permaneçamos na letargia, envolvidos em sudários e faixas, compactuando com a violência e a injustiça, dando cobertura àqueles que matam.
Temos de sair de um mundo no qual, de um modo ou de outro, nos habituamos com a morte e nos sentimos impotentes: “Senhor, já cheira mal: é o quarto dia”

Cada dia Deus nos tira do sepulcro e nos devolve a vida sempre enriquecida e iluminada. É um milagre que cada dia possamos amanhecer com vida. Ninguém vive só de momentos extraordinários e de grandes festas; o que mais influi em nossas vidas é a alegria de cada dia, a festa de cada dia, a vida de cada dia, o amor de cada dia, a esperança de cada dia.

Jesus nos oferece a oportunidade de deixar-nos amar pelo Deus da vida, que gera vida, proximidade e abertura, fraternidade profunda e sincera. Podemos fazer isso porque carregamos ricas potencialidades de vida dentro de nós e que, muitas vezes, permanecem atadas, impedindo-nos viver a comunhão e a convivência com os outros. Vir para fora do túmulo significa viver para a vida, na justiça e solidariedade, condenando toda violência que atrofia a vida.

A comunhão de vida com Cristo nos faz ter um “caso de amor com a vida”.

Texto bíblico: Jo 11,1-45

Na oração: “Vem para fora!”, não te feches em ti mesmo, sai de tudo o que há de morte em tua vida; sai de teu individualismo, de teu orgulho, de tua indiferença! Sai de tua insensibilidade à dor dos outros! sai da vulgaridade e superficialidade  de tua vida e vive a elegância da santidade!

Pe. Adroaldo Palaoro, sj

Vaticano: Pregação de Quaresma reflete sobre a fé na vida eterna


Cidade do Vaticano – O Papa Francisco participou na manhã de sexta-feira, 31, da quarta pregação de Quaresma, proposta pelo Frei capuchinho Raniero Cantalamessa para os colaboradores da Cúria. Na Capela Redemptoris Mater, a meditação teve o tema “O Espírito Santo nos introduz no mistério da Ressurreição de Cristo”.

O pregador iniciou a reflexão com uma abordagem histórica da ressurreição. Pelo fato de ninguém ter visto o momento em que Jesus ressuscita, mas só tê-lo visto ressuscitado, os historiadores se baseiam em dois fatos: a súbita e inexplicável fé dos discípulos; e a explicação de tal fé que os interessados nos deixaram. Negando o caráter histórico e objetivo da ressurreição, o nascimento da fé e da Igreja se tornaria um mistério ainda mais inexplicável do que a própria ressurreição. Segundo Frei Cantalamessa, “não basta constatar historicamente os fatos, é necessário ‘ver’ o Ressuscitado, e isso a história não pode dar, mas só a fé”.   

Mas o que é a ressurreição, considerada do ponto de vista da fé?, questionou ainda o frade. A morte de Cristo não torna verdadeira a sua causa; somente testemunha que eles acreditavam na verdade dela. “Que Cristo tenha morrido todo mundo acredita, inclusive os pagãos, mas que tenha ressuscitado, só os cristãos acreditam e não é cristão quem não acredita”, prosseguiu.

A fé cristã na ressurreição dos mortos responde também ao desejo mais instintivo do coração humano

A verdade é que tudo o que diz respeito à nossa condição no pós-vida permanece um mistério impenetrável; a eternidade não é uma entidade que existe a parte e que pode ser definida em si mesma, como se fosse um tempo esticado infinitamente. É o modo de ser de Deus. A eternidade é Deus! Entrar na vida eterna significa simplesmente ser admitidos, por graça, a compartilhar o modo de ser de Deus.

O pregador oficial da Casa Pontifícia concluiu com uma citação de Santo Agostinho: “Quando se quer atravessar um braço de mar, a coisa mais importante não é sentar-se na costa e aguçar a visão para ver o que está do outro lado, mas é subir no barco que leva àquela margem. E também para nós a coisa mais importante não é especular sobre como será a nossa vida eterna, mas fazer as coisas que sabemos que nos levam a ela”.  

quinta-feira, 30 de março de 2017

Papa Francisco: os ídolos nos escravizam, só Deus nos ama


Cidade do Vaticano – É preciso estar atento para não se afastar do Senhor em busca de falsos ídolos e da mundanidade: esta foi a advertência feita pelo Papa na homilia da missa celebrada na quinta-feira (30/03) na capela da Casa Santa Marta. O Pontífice se inspirou no Livro do Êxodo para refletir sobre o “sonho e as desilusões de Deus”. O povo, disse ele, é o “sonho de Deus. Sonhava porque amava”. Aquele povo, porém, trai os sonhos do Pai e Deus “começa a se sentir desiludido” e pede a Moisés para que desça da montanha onde subiu para receber a Lei. O povo “não teve a paciência de esperar Deus” por 40 dias. Eles fizeram um bezerro de ouro. Um deus “para se divertir” e se esqueceram do “Deus que os salvou”.

O profeta Baruc, acrescentou Francisco, “tem uma frase que define bem este povo: ‘Vocês se esqueceram de quem os criou’”:

“Esquecer Deus que nos criou, que nos fez crescer, que nos acompanhou na vida: esta é a desilusão de Deus. E muitas vezes no Evangelho, nas Parábolas, Jesus fala daquele homem que faz um vinha e depois faliu, porque os operários a queriam para si. No coração do homem, há sempre esta inquietação! Não está satisfeito com Deus, com o amor fiel. O coração do homem está sempre orientado para a infidelidade. Esta é a tentação.”

Deus, portanto, “por meio de um profeta, repreende este povo” que “não tem constância, não sabe esperar, se perverteu”, se afasta do verdadeiro Deus e busca outro deus: “E há a desilusão de Deus: a infidelidade do povo… E também nós somos povo de Deus e conhecemos bem como é o nosso coração e todos os dias devemos retomar o caminho para não escorregar lentamente em direção aos ídolos, às fantasias, à mundanidade, à infidelidade. Creio que hoje nos fará bem pensar no Senhor desiludido: ‘Diga-me, Senhor, está desiludido comigo?’. Com certeza sim, por algum motivo. Mas pensar e fazer esta pergunta”.

Francisco recordou que Deus tem “um coração terno, um coração de pai”. E lembrou quando Jesus chorou sobre Jerusalém. Por isso, devemos nos perguntar se “Deus chora por mim?”, se “está desiludido comigo?”, se “me afastei do Senhor?”.

“Quantos ídolos tenho dos quais não sou capaz de me desfazer, que me escravizam? Esta idolatria que temos dentro de nós… E Deus chora por mim. Pensemos hoje nesta desilusão de Deus que nos fez por amor e nós vamos em busca de amor, de bem-estar, de conforto em outro lugar e não em Seu amor. Nós nos afastamos deste Deus que nos criou. E esta é uma reflexão de Quaresma. Isso nos fará bem. E isso, fazê-lo todos os dias; um pequeno exame de consciência: ‘Senhor, que teve tantos sonhos para mim, eu sei que me afastei, mas me diga onde, como voltar…’. E a surpresa será que Ele sempre nos espera, como o pai do filho pródigo, que o viu chegar de longe porque o aguardava”.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Papa na Audiência Geral: "Como Abraão, esperar contra toda esperança"


Cidade do Vaticano – A catequese proferida pelo Papa na Audiência Geral desta quarta-feira (29/03), foi inspirada no episódio narrado por Paulo na Carta aos Romanos. Segundo Francisco, este trecho é um ‘grande dom’, porque mostra Abraão como ‘pai da esperança’ e preanuncia a Ressurreição: a vida nova que vence o mal e até a morte.

“Abraão não vacilou na fé, apesar de ver o seu físico desvigorado por sua idade e considerando o útero de Sara já incapaz de conceber”, diz o trecho lido em várias línguas aos 13 mil fiéis presentes na Praça São Pedro.

O Apóstolo nos ensina que somos chamados a viver esta experiência, a ‘esperar contra toda esperança’; a acreditar no Deus que salva, que chama à vida e nos tira do desespero e da morte. “Que aquele hino a Deus, que liberta e regenera, se torne profecia para nós”, disse o Papa, prosseguindo:

“Deus ‘ressuscitou dos mortos a Jesus’ para que nós também possamos passar Nele da morte à vida. Pode-se bem dizer que Abraão se tornou ‘pai de muitos povos’, porque resplandece como o anúncio de uma nova humanidade, resgatada por Cristo do pecado e conduzida para sempre ao abraço do amor de Deus”.

A esperança cristã vai além da esperança humana

Paulo nos ajuda a compreender a íntima relação entre fé e esperança. A esperança cristã não se baseia em raciocínios, previsões e garantias humanas; ela se manifesta quando não há mais nada em que esperar, exatamente como o fez Abraão ante sua morte iminente e a esterilidade de Sara, sua esposa. Era o fim para eles... não podiam ter filhos... mas Abraão acreditou, teve esperança”.

A grande esperança se fundamenta na fé e precisamente por isso é capaz de ir além de qualquer esperança. Não se baseia em nossa palavra, mas na Palavra de Deus, explicou Francisco à multidão.

“E é neste sentido que somos chamados a seguir o exemplo de Abraão, que mesmo diante da evidencia de uma realidade que o levaria à morte, confia em Deus, plenamente convencido de que Ele tem poder para cumprir o que prometeu”.

Improvisando, a pergunta aos fiéis

Dirigindo-se à Praça, o Papa perguntou aos fiéis: “Estamos convencidos realmente de que Deus nos quer bem? Que ele pode cumprir o que prometeu? Qual seria o seu preço?

Abrir o coração! A força de Deus ensinará o que é a esperança. Este é o único preço: abrir o coração á fé... e Ele fará o resto!”.

“Eis, portanto, o paradoxo e ao mesmo tempo, o elemento mais forte, mais elevado, da nossa esperança! Ela é fundada em uma promessa que do ponto de vista humano parece ser incerta e imprevisível, mas que se manifesta até mesmo diante da morte, quando quem a promete é o Deus da Ressurreição e da vida”.

Firmes na esperança

“Queridos irmãos e irmãs, peçamos ao Senhor a graça de permanecer firmes não apenas em nossas seguranças, em nossas capacidades, mas na esperança que brota da promessa de Deus. Assim, a nossa vida terá uma nova luz, na certeza de que Aquele que ressuscitou o seu Filho ressuscitará a nós também, tornando-nos uma só coisa com Ele, junto de todos os nossos irmãos na fé”.

O Papa encerrou o encontro concedendo a bênção aos fiéis.

terça-feira, 28 de março de 2017

Papa Francisco: ‘A preguiça nos deixa paralíticos’


Cidade do Vaticano  – O Evangelho do dia, que narra o episódio do paralítico curado por Jesus, foi o centro da homilia do Papa na Missa celebrada na manhã desta terça-feira (28/03), na Casa Santa Marta. Um homem que estava doente havia trinta e oito anos estava deitado na beira de uma piscina com cinco pórticos, chamada Betsaida. Muitos doentes ficavam ali deitados – cegos, coxos e paralíticos -, esperando que a água se movesse. Diziam que quando um anjo descia e movimentava a água da piscina, os primeiros doentes que entrassem, depois do borbulhar da água, ficava curado de qualquer doença que tivesse.

Jesus viu o homem deitado e sabendo que estava doente há tanto tempo, disse-lhe: ‘Quer ficar curado?’

“É belo, Jesus sempre nos diz ‘Quer ficar curado? Quer ser feliz? Quer melhorar a sua vida? Quer estar cheio do Espírito Santo?’… a palavra de Jesus… Todos os outros que estavam ali – doentes, cegos, paralíticos – disseram: ‘Sim, Senhor, sim!’. Mas aquele homem, estranho, respondeu a Jesus: ‘Senhor, não tenho ninguém que me leve à piscina quando a água é agitada. Quando estou chegando, outro entra na minha frente’. Sua resposta é uma lamentação: ‘Veja, Senhor, como é ruim e injusta a vida comigo. Todos os outros podem entrar e se curar e eu tento há 38 anos, mas…’

“Este homem – observa o Papa – era como a árvore plantada nos braços de um rio – como diz o primeiro Salmo – ‘mas tinha as raízes secas’ e ‘as raízes não tocavam a água, não podiam extrair saúde das águas’”: “Isto se entende pelo comportamento, pelas lamentações… sempre tentando dar a culpa ao outro: ‘Mas são os outros que vão antes de mim, eu sou um coitadinho que está aqui há 38 anos…”. Este é um pecado feio, o pecado da preguiça, que é pior do que ter o coração morno, bem pior. É viver, mas ‘viver sem vontade de ir avante, de fazer alguma coisa na vida; é perder a memória da alegria’. “Este homem não conhecia nem de nome a alegria, a havia perdido. Isto é pecado, é uma doença muito ruim”. ‘Mas eu estou bem assim, me acostumei… A vida foi injusta comigo…’. “Sente-se o ressentimento, a amargura do seu coração”.

Jesus não o repreende, mas lhe diz: ‘Levanta-te, pega a tua cama e anda’. O paralítico se cura; mas era sábado, os Doutores da Lei lhe dizem que não lhe é permitido carregar a cama e lhe perguntando quem o havia curado naquele dia. ‘É contra a lei, este homem não é de Deus’. O Paralítico não tinha ainda agradecido Jesus, não lhe havia nem perguntado seu nome. “Levantou-se com a preguiça de quem vive porque o oxigênio é grátis”, disse o Papa.

“Daqueles que vivem sempre vendo que os outros são mais felizes e vivem na tristeza, esquecendo-se da alegria. A preguiça – explicou Francisco – é um pecado que paralisa, que nos deixa paralíticos, que não deixa caminhar. Hoje também o Senhor olha por todos nós; todos temos pecadores, mas vendo este pecado, nos diz: ‘Levanta’”: “Hoje o Senhor diz a cada um de nós: ‘Levanta, pega a sua vida como ela é: boa, ruim, como for, pegue-a e vá adiante. Não tenha medo, vai adiante, com a tua cama’. ‘Mas Senhor, não é o último modelo…’. ‘Vai avante! Com a cama ruim, mas avante! É a sua vida e a sua alegria!’ “Quer ser curado? – é a primeira pergunta que o Senhor nos faz hoje. ‘Sim, Senhor’. ‘Levanta’. E na antífona, no início da Missa, havia aquele trecho tão bonito: ‘Vós, que tendes sede, vinde às águas – são grátis, não a pagamento – vinde e bebei com alegria’. E se dissermos ao Senhor ‘Sim, quero ser curado; sim, Senhor, ajuda-me porque quero me levantar’, saberemos como é a alegria da salvação”.

domingo, 26 de março de 2017

#Rocinha acolhe o novo #diácono, Frei Alan Maia


Érika Augusto

Rocinha (RJ) - Neste sábado, 25 de março, Solenidade da Anunciação do Senhor, a Província Franciscana da Imaculada Conceição acolheu mais um diácono. A comunidade da Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem celebrou com alegria a ordenação diaconal de Frei Alan Maia, concluindo assim uma semana intensa de missões, visitas, celebrações e muitas atividades.

A Paróquia, localizada na Rocinha, ficou repleta de fiéis. Muitos tiveram que acompanhar a Missa de um telão, montado fora da igreja para que todos pudessem acompanhar a celebração. Além da família de Frei Alan Maia, amigos de Bangu, bairro de origem do frade, e de Nilópolis, onde ele já trabalhou, marcaram presença. A Missa teve início às 18 horas e foi presidida pelo Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, Dom Orani João Tempesta,  e os concelebrantes Frei César Külkamp, Vigário Provincial, Frei Sandro Roberto da Costa, Vigário Paroquial; Frei Diego Melo, Coordenador do Serviço de Animação Vocacional (SAV). Frades vindos das Fraternidades do Convento Santo Antônio, Nilópolis, São João do Meriti, Convento São Francisco em São Paulo, frades estudantes de Teologia, em Petrópolis, padres da Congregação dos Legionários de Cristo, padres e seminaristas diocesanos, além de duas clarissas do Mosteiro Nossa Senhora dos Anjos.

Em sua homilia, Dom Orani destacou a Solenidade celebrada neste dia 25, a Anunciação do Senhor. “Isso não é só um fato do passado. O Senhor também está presente hoje no meio de todos nós. Deus está aqui na Rocinha. Deus habita no meio de nós”, afirmou o Arcebispo, que acrescentou: todos são chamados à missionariedade, transformando assim a realidade onde vive.

O Arcebispo destacou ainda que a missão de todo cristão batizado é ser sinal da proximidade de Deus, e frisou a importância da opção pela pobreza e simplicidade feita pelos franciscanos.

No momento de ação de graças, Frei César agradeceu ao Arcebispo pela presença na celebração, e leu a mensagem do Ministro Provincial, Frei Fidêncio Vanboemmel, prestando solidariedade a toda a Fraternidade, que vive um momento delicado com a internação de Frei Márcio de Araújo Terra, devido a um acidente doméstico nesta semana e está na UTI.

Emocionado, Frei Alan agradeceu sua família, os frades e toda a comunidade da Rocinha, que o acolheu e se preparou para viver intensamente este dia de festa. Frei Sandro reforçou os agradecimentos e acrescentou: “Não esqueceremos tudo o que a comunidade fez nestes dias”.

Após a Missa, todos foram convidados para uma recepção no salão paroquial.

4º domingo da #Quaresma: Jesus, aquele que "vê" e "faz ver"


1Sm 16, 1b.6-7.10-13a
Sl 22 (23)
Ef 5, 8-14
Jo 4, 5-42

Jesus afasta-se do Templo, fugindo dos fariseus que queriam apedrejá-lo por ter dito: “Eu sou a luz do mundo”. Ele vai repetir isso e demonstrar com atos, dando ao cego a capacidade da visão. Não conhecemos o nome deste cego. Só sabemos que é um mendigo, cego de nascimento, que pede esmola nas proximidades do templo. Não tem experiência da luz, não a conhece, nunca a viu. Estava sentado, não podia caminhar nem orientar-se por si mesmo; estava imóvel, dependendo sempre dos outros. Sua vida transcorria nas trevas. Nunca poderia conhecer uma vida digna. 

Também não se menciona que era sábado, somente ao longo da narração. Jesus não leva em conta essa circunstância à hora de fazer bem ao ser humano. “Amassar barro” estava explicitamente proibido pela interpretação farisaica da lei. O amassar o barro no sétimo dia, prolonga o sexto dia da criação. Jesus termina a criação do ser humano.

Este ponto de partida é chave para ressaltar o ponto de chegada. Jesus vai ativar no cego a mobilidade e a independência, vai lhe devolver a capacidade de ver, vai reconstruí-lo como ser humano por inteiro. Jesus vê na cegueira uma ocasião para a manifestação da atividade salvífica de Deus. As obras que Deus realiza consistem em libertar o ser humano de sua inatividade e dar-lhe capacidade de ação.

Enquanto é dia, temos de realizar as obras d’Aquele que me enviou”. 

Jesus não consulta ao cego se ele quer ficar curado, pois sendo cego de nascimento não tem experiência da luz e não a pode desejar de maneira especial. Mas a cura não acontece automaticamente; o cego tem de aceitar a luz e optar livremente por ela. Jesus não lhe tira a liberdade: oferece-lhe a oportunidade e coloca diante dos seus olhos o projeto de Deus sobre o ser humano. A decisão de recuperar a vista fica nas mãos do cego: ela se manifesta no fato de ir à piscina de Siloé por sua própria iniciativa, de caminhar livremente, de poder sair do seu lugar, lavar-se na piscina, para chegar a ser ele mesmo.

Jesus passa à ação. João usa dois verbos para indicar a aplicação do barro nos olhos: aqui untar-ungir tem relação com o título de Jesus “Messias” (que significa o “ungido”). Mais adiante dirá simplesmente “aplicar”. Aqui está a chave de todo o relato. O cego é agora um “ungido”, como Jesus. O homem ferido na sua cegueira foi transformado pelo Espírito.

A reação das pessoas (parentes, vizinhos...) sobre a identidade do cego manifesta a novidade que o Espírito realiza. Sendo o mesmo, é outro. O que era cego revela a nova identidade de homem reconstruído pelo Espírito: ele agora é um ungido, encontrou-se a si mesmo – “Ele afirmava: sou eu”.

Ao “ungir-lhe os olhos”, Jesus convida o cego a ser homem “acabado, reconstruído, restaurado...”
Os outros personagens continuam em sua cegueira: fariseus, conterrâneos, pais… São símbolos da dificuldade de aceitar a luz quando esta ilumina o que não se quer ver.

Há uma grande diferença entre o cego sem iniciativa, sem liberdade no início da cena, e o homem livre depois da cura. Daí que ele utilize as mesmas palavras que tantas vezes, no evangelho de João, Jesus utilizava para identificar-se: “Sou eu”. Esta fórmula deixa transparecer a identidade do ser humano recriado pelo Espírito; descobre a transformação que se realizou em sua pessoa e quer que os outros a vejam.

O cego opta livremente pela luz. Segue o caminho apontado por Jesus e chega à meta indicada. Ele, que era só limitação, recupera sua autonomia e deixa-se conduzir pelo Espírito. O que de verdade importa é que este homem estava limitado e carecia de toda liberdade antes de encontrar-se com Jesus. Agora descobre o que significa ser pessoa e se sente completamente realizado. O Espírito o capacitou para desatar todas as possibilidades de ser “humano”.

Sua vida, escondida e dependente, está agora cheia de sentido. Perde o medo e começa a ser ele mesmo, não só em seu interior mas diante dos outros. O horizonte que se abre para ele é indescritível. O mundo mudou radicalmente; agora ele poderá dar orientação à própria vida: não dependerá mais que os outros o conduzam.

O relato do evangelho de hoje é, sobretudo, uma catequese cristológica. Como aparece Jesus nele? Em primeiro lugar, Jesus é Aquele que vê. Na cena do “cego de nascença”, onde os discípulos viam um pecador, Jesus via um ser humano. Seu olhar não se detinha na máscara, mas contemplava um rosto.

O “cego de nascença” encontra em Jesus um olhar encorajador, compreensivo, que acredita nele e lhe inspira confiança; um olhar que não se prende ao passado, mas abre uma nova possibilidade de vida. Um olhar que ativa nele a capacidade de olhar a própria vida de maneira diferente. Por isso, Jesus aparece também como Aquele que faz ver. É o mestre que vai curando a cegueira e trazendo luz, para que a pessoa, descobrindo sua identidade, possa dizer como o cego curado: “sou eu”.

Neste tempo quaresmal, sentimos a urgência de uma conversão do nosso olhar; é preciso purificar o olhar, cristificá-lo. Olhar com os “olhos cristificados”. Não se trata de qualquer olhar. É o olhar limpo, diáfano, gratuito e desinteressado, que destrava e expande a vida do outro numa nova direção. Contemplar o rosto do outro é sentir sua presença, sem pré-conceitos e pré-juízos..., vendo nele o sinal da ternura de Deus. Passar da contemplação à acolhida: este é o movimento da oração dos olhos.

O “olhar contemplativo” está perdendo sua força criativa no contexto atual; marcado pela ansiedade de querer “ver” tudo ao mesmo tempo, o ser humano já não é mais capaz de fazer uma “pausa” para se deixar “ver” pela realidade. Sob o peso do olhar do racionalismo, ele tudo examina, compara, esquadrinha, mede, analisa, separa... mas nunca “exprime”. Daí o olhar reprimido, desviado, insensível, frio, duro, ríspido...

Este é o pecado contra o olhar: olhar supérfluo e imediatista, olhar esquizofrênico e narcisista, olhar morno, sem vibração, sem brilho, sem assombro... Nesse olhar não há lugar para a admiração, nem para a acolhida e a presença do outro. Só existe o olhar que “fixa”, escraviza e aliena.

A arte de viver consiste, fundamentalmente, em chegar a ver tudo com o coração. Só o coração descobre em tudo as pegadas da Presença Última, que olha a partir do rosto de cada pessoa, a partir da beleza de cada criatura. O amor nos abraça em tudo quanto vemos.

Texto bíblico:  Jo 9,1-41

Na oração: Ver mais além, a partir do coração, transcender, despertar nossa visão interna e intuitiva das coisas e das pessoas, tirar as cataratas de nossos olhos e abrir-nos a Deus.

- Abro os olhos para olhar de outra maneira.

- Quê há de fechamento, de intransigência, de superficialidade, de rotina em minha vida, que não quero ver?

- Estou aberto a acolher a Luz da verdade, do amor, da justiça, da gratuidade... venha de onde vier?

- Creio ter a posse da verdade ou me deixo questionar pelos outros?

- Em quê aspectos de minha vida pessoal e relacional preciso abrir-me à luz do Evangelho?

- Sou luz que ajudo os outros a verem?

Pe. Adroaldo Palaoro sj
Fonte: Centro Loyola BH

CONFIRA A REFLEXÃO DE FREI GUSTAVO MEDELLA: 

quinta-feira, 23 de março de 2017

Ordenação Diaconal da Rocinha: preparativos começam com Tríduo


Rocinha (RJ) - A Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem, na comunidade da Rocinha, no Rio de Janeiro, está em festa. O motivo? A preparação para a ordenação diaconal de Frei Alan Victor Maia. E, como é de costume, a ordenação está sendo preparada com um tríduo vocacional, que conta com a presença de mais cinco frades, além dos que moram na própria fraternidade da Rocinha.

Assim, na quarta-feira (22/03), durante o dia, os frades missionários passaram pelas casas das famílias na comunidade Sagrada Família, na Cachopa. Foi uma experiência marcante para todas as pessoas que visitaram as casas e que receberam os missionários. Subindo e descendo pelas vielas, os missionários puderam conhecer melhor a realidade do povo local. A mensagem do Evangelho chegou nos becos e nas casas mais distantes da comunidade.

A alegria expressiva daqueles que receberam os missionários foi um fato evidente da atividade durante o dia. No final da tarde, os missionários foram acolhidos pela comunidade na Capela Sagrada Família, que é o local onde os moradores da região se reúnem para celebrar a sua fé. A oração, dirigida pelos Frades, foi no estilo de círculo bíblico, com leitura do Evangelho e partilha da Palavra de Deus. Além disso, a comunidade pode receber em seu meio a presença do Cristo Eucarístico através de uma adoração ao Santíssimo Sacramento. Por fim, a saudação de Paz e Bem, envolvida por um clima festivo, encerrou aquela celebração comunitária.

À noite, às 19h30, Frei Diego Melo presidiu a celebração do primeiro dia do tríduo, tendo como concelebrante a Frei Sandro Roberto da Costa, pároco, que acolheu os missionários apresentando-os para a comunidade, que os recebeu com uma calorosa salva de palmas.

Após a homilia, Frei Alan fez a sua profissão de fé diante do povo reunido. Como o Evangelho do dia convidava para uma busca autêntica da vivência de fé, todos os participantes da celebração receberam uma nobre missão. Assim, cada um recebeu uma fitinha onde estava escrita uma das 14 obras de Misericórdia, cujo objetivo era fazê-los recordar da importância de a fé se expressar também através de atos.

Encerrando a celebração, Frei Sandro reiterou os convites para os demais dias do tríduo, bem como pediu as orações de todos pela pronta recuperação da saúde de Frei Márcio Araújo Terra, membro desta fraternidade e que se encontra hospitalizado após ter sofrido um acidente doméstico.

Que o bom Deus possa continuar abençoando a Frei Alan que está se preparando para a sua ordenação diaconal, bem como por Frei Márcio e todos os demais frades enfermos da Província.

Frei Gabriel Dellandrea 

Acompanhe a entrevista

Papa em Santa Marta: Quando nos distanciamos de Deus o coração se endurece


Cidade do Vaticano - “Ouvir a Palavra de Deus para evitar o risco de endurecer o coração”, disse o Papa Francisco na missa celebrada, esta quinta-feira, 23, na Casa Santa Marta.

Quando o povo não escuta a voz de Deus e vira as costas para Ele, acaba se distanciando Dele. Baseando-se num trecho do Livro do Profeta Jeremias, o Papa desenvolveu a sua meditação sobre a escuta da Palavra de Deus.

“Quando não paramos para ouvir a voz do Senhor, nos distanciamos Dele, viramos as costas para Ele. E quando não ouvimos a voz de Deus, ouvimos outras vozes.”

Se não ouvimos a Palavra de Deus, ouvimos os ídolos do mundo

“No final”, constatou amargamente o Pontífice, “fechamos os ouvidos e nos tornamos surdos à Palavra de Deus”.

“Se hoje todos nós pararmos um pouco e olharmos para o nosso coração, veremos quantas vezes fechamos os ouvidos e quantas vezes nos tornamos surdos. Quando um povo, uma comunidade, mas também uma comunidade cristã, uma paróquia, uma diocese, fecha os ouvidos e se torna surda, não ouve a Palavra de Deus, procura outras vozes, outros senhores e acaba seguindo os ídolos, os ídolos que o mundo, a mundanidade, a sociedade lhes oferece. Se distancia do Deus vivo.”

Quando o coração se endurece, tornamo-nos católicos ateus

“Quando nos distanciamos do Senhor”, prosseguiu o Papa, “o nosso coração se endurece”. Quando não ouvimos, o coração se torna mais duro, mais fechado em si mesmo. Duro e incapaz de receber alguma coisa. Não só fechamento, mas dureza do coração. Vive então naquele mundo, naquela atmosfera que não lhe faz bem, que o distancia cada dia mais de Deus”.

“E estas duas coisas – não escutar a Palavra de Deus e ter o coração endurecido, fechado em si mesmo – fazem perder a fidelidade. Perde-se o sentido da fidelidade. O Senhor diz na Primeira Leitura: ‘A fidelidade desapareceu’ e nós nos tornamos católicos infiéis, católicos pagãos ou pior ainda, católicos ateus, porque não temos uma referência de amor ao Deus vivo. Não escutar e virar as costas – que nos endurece o coração – que nos conduz ao caminho da infidelidade”.

“Esta infidelidade, como se traduz esta infidelidade?”, perguntou o Papa. “Traduz-se com a confusão: não se sabe aonde está Deus, aonde não está, se confunde Deus com o diabo”. Francisco fez referência ao Evangelho do dia e observou que “a Jesus, que faz milagres, que faz tanto pela salvação e as pessoas estão felizes, as pessoas dizem: ‘E o faz isto porque é um filho do diabo. Faz o poder de Belzebu’”.

Escutamos realmente a Palavra de Deus?

“Esta – disse o Papa – é a blasfêmia. a blasfêmia é a palavra final deste percurso, que começa com o não-escutar, que endurece o coração, que ‘causa confusão’, que faz esquecer a fidelidade... e no fim, vem a blasfêmia”. Ai daquele povo que se esquece da surpresa do primeiro encontro com Jesus:

“Hoje, podemos todos nos perguntar: Eu paro para ouvir a Palavra de Deus, pego a Bíblia, que fala a mim? Meu coração se endureceu? Eu me afastei do Senhor? Perdi a fidelidade ao Senhor e vivo com os ídolos que a mundanidade me propõe todos os dias? Perdi a alegria da maravilha do primeiro encontro com Jesus? Hoje é um dia para ‘escutar’: ‘Escutem hoje a voz do Senhor’, rezamos antes. ‘Não endureçam seu coração’. Peçamos esta graça. A graça de escutar, para que nosso coração não se endureça”.

Frei Felipinho: A Campanha da Fraternidade nos convida à ação

quarta-feira, 22 de março de 2017

Frei Felipinho: Não apenas ler a Palavra de Deus, mas colocá-la em prática

Papa na Audiência Geral: não existem fiéis da "série A"e "série B"


Cidade do Vaticano - "É nas Escrituras que o Pai do Senhor nosso Jesus Cristo se revela como Deus da perseverança e da consolação". Na Audiência Geral desta quarta-feira da terceira semana da Quaresma, a 11ª de 2017, o Papa Francisco deu continuidade ao seu ciclo de catequeses sobre a esperança cristã, destacando a perseverança e a consolação, tratadas pelo Apóstolo Paulo na Carta aos Romanos.

Dirigindo-se aos cerca de 15 mil fiéis presentes na Praça São Pedro, o Papa explicou que "a perseverança ou paciência, é a capacidade de suportar, permanecer fiel, mesmo quando o peso é demasiado grande e somos tentados a abandonar tudo".

A consolação, por sua vez, "é a graça de saber perceber e manifestar a presença e a ação compassiva de Deus, em todas as circunstâncias, mesmo quando marcadas pela decepção e sofrimentos. Deste modo nos tornamos fortes, a fim de poder permanecer próximos aos irmãos mais fracos, ajudando-os em suas fragilidades".

Francisco recorda que a perseverança e a consolação nos são transmitidas em modo particular pelas Escrituras. "A Palavra de Deus, em primeiro lugar, nos leva a dirigir o olhar a Jesus, a conhecê-lo melhor a conformar-nos a Ele, a nos assemelhar a Ele. Em segundo lugar, a Palavra nos revela que o Senhor é realmente "o Deus da perseverança e da consolação", que permanece sempre fiel ao seu amor por nós e que cuida de nós, cobrindo as nossas feridas com o carinho da sua bondade e da sua misericórdia".

A expressão de São Paulo "nós que somos fortes, devemos suportar a fraqueza dos fracos e não procurar o que nos agrada"  -  explica o Papa - poderia parecer presunçosa, "mas na lógica do Evangelho sabemos que não é assim, é justamente o contrário, pois sabemos que a nossa força não vem de nós, mas do Senhor":

"Quem experimenta na própria vida o amor fiel de Deus e a sua consolação é capaz, ou melhor, tem a obrigação de estar próximo aos fieis mais frágeis, assumindo as suas fragilidades. E pode fazer isto sem autosatisfação, mas sentindo-se simplesmente como um "canal" que transmite os dons do Senhor; e assim se torna concretamente um "semeador" de esperança".

E o fruto deste estilo de vida - alerta o Santo Padre - não é uma comunidade "em que alguns são de "série A", isto é os fortes, e outros de "série B", isto é, os fracos. O fruto, ao contrário, como diz São Paulo, "é ter os mesmos sentimentos uns com os outros. A Palavra de Deus alimenta uma esperança que se traduz concretamente na partilha e no serviço recíproco":

"Porque também quem é "forte" experimenta cedo ou tarde a fragilidade e tem necessidade do conforto dos outros; e vice-versa na fraqueza se pode sempre oferecer um sorriso ou uma mão ao irmão em dificuldade. E é uma comunidade assim que "que a uma só voz dá glória a Deus". Mas tudo isto é possível somente se coloca no centro Jesus e a sua Palavra. Somente Ele é o "irmão forte" que cuida de cada um de nós. De fato, todos temos necessidade de ser carregados pelo Bom Pastor e de sermos envolvidos pelo seu olhar terno e cuidadoso".

Ao final de sua catequese, Francisco lançou um apelo a todas as comunidades para viverem com fé a iniciativa "24 horas com o Senhor", de 23 a 24 de março, voltado ao Sacramento da Reconciliação: "Desejo que também este ano tal momento privilegiado de graça do caminho quaresmal seja vivido em tantas igrejas para experimentar o alegre encontro com a misericórdia do Pai, que todos acolhe e perdoa".

terça-feira, 21 de março de 2017

Vocação: Frei Alan Maia de França será ordenado #diácono no dia 25


Moacir Beggo

O carioca Frei Alan Maia de França Victor será ordenado diácono por Dom Orani João Tempesta no dia 25 de março, às 18 horas, na Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem, na Rocinha, Rio de Janeiro. Para ele, esta nova etapa em sua vida é “uma opção preferencial pelo serviço” a Deus e à Igreja como frade menor. Natural do Rio de Janeiro, onde nasceu no dia 5 de fevereiro de 1980, no bairro de Bangu, um dos mais quentes da capital carioca, é filho de Marinaldo e Anita Maria de França Victor e irmão de Aline, quatro anos mais nova.

Há dez anos, quando ainda trabalhava numa empresa particular de Banco de Sangue, decidiu buscar orientação vocacional. “Sentia o desejo de servir a Igreja de uma forma mais radical, participava ativamente da Paróquia São Judas Tadeu, onde fui coroinha por 7 anos, atuei como coordenador dos coroinhas por três anos, frequentei várias pastorais na Paróquia, era membro do conselho paroquial e do círculo bíblico de jovens. Participando das atividades da Paróquia, o pároco sempre me incentivava a participar do grupo vocacional do Vicariato oeste da Arquidiocese do Rio de Janeiro, que tinha sua sede em Bangu. Era um padre muito bom que coordenava este grupo, com meninos e meninas, e direcionava para o seminário ou casa religiosa, conforme a busca pessoal de cada um”, conta Frei Alan, até que, com ajuda da internet, fez contato com congregações e ordens religiosas.

“Entrei em contato com os frades a partir do e-mail disponível no site da nossa Província e respondeu um aspirante em nome do Frei Paulo lá do Seminário de Ituporanga. Depois de trocas de e-mail, me pediu que procurasse o Frei Hermenegildo Pereira, no Convento de Santo Antônio. No início de junho de 2006, fui acolhido por ele, conversamos durante umas duas horas no jardim do convento lá de cima. Ele, então, me convidou para o encontro vocacional no sítio Taquara, reunindo os jovens da Baixada e Frei Paulo Pereira e Frei Florival. Gostei do encontro, da acolhida. No mês de julho retornei ao Convento para conversar com Frei Hermenegildo, que me convidou para participar uma vez por mês dos encontros vocacionais. Participei durante quatro meses. Em novembro fui para o estágio em Guaratinguetá e, em 14 de fevereiro 2007, entrei no Seminário de Ituporanga”, recordou Frei Alan, que fez o Postulantado em 2008, e o noviciado em 2009, professando temporariamente no dia 3 de janeiro de 2010.

Frei Alan cursou Filosofia em Rondinha e Teologia em Petrópolis, onde morou de 2013 a 2014 no Sagrado e, 2015 a 2016, na Fraternidade Nossa Senhora de Guadalupe. Professou solenemente na Ordem dos Frades Menores no dia 6 de dezembro de 2014 e, ao concluir o Curso de Teologia, foi transferido para a Paróquia da Rocinha, no dia 22 de dezembro de 2016, onde reside e vai ser ordenado.

Site Franciscanos – Como é para você dar esse novo passo na sua vida religiosa?

Frei Alan – Sou feliz como frade menor e agradeço por tudo que a Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil me proporcionou durante estes anos de formação na caminhada formativa, com os estudos, as casas de formação e as fraternidades onde morei e conheci nos estágios. Aos confrades que me incentivaram a continuar a caminhada durante o processo formativo também faço meu agradecimento.

Depois de 10 anos na formação inicial, no último ano de Teologia, é o momento de pensar, discernir em relação a dar mais um passo como frade menor em relação aos ministérios ordenados. Fiz o discernimento e apresentei ao mestre o desejo de poder servir a Igreja como frade menor sendo ministro ordenado. Esse novo passo na minha vida religiosa é para servir a Igreja, a Província e o povo de Deus como frade menor no serviço da Palavra, no cuidado aos enfermos e pobres, no auxílio à liturgia como diácono nesta Fraternidade e ao povo bom e religioso da nossa Rocinha. Coloco-me à disposição para da melhor maneira possível exercer este ministério a serviço do povo. É uma responsabilidade o diaconato.

Enquanto sacramento de Cristo-Servo é expressão de uma Igreja servidora, uma Igreja em saída como nos pede o Papa Francisco. Como coloquei no convite: “Eis o teu servo, Senhor… Faça-se em mim segundo a tua Palavra” (Lc, 1,38), deixar Deus agir na minha vida como frade menor no exercício do ministério de diácono da Igreja. Viver a Palavra de Deus na minha vida religiosa e ser um instrumento para os irmãos e irmãs.

Site Franciscanos – O que significa ser diácono da Igreja para você?

Frei Alan – Ser diácono da Igreja é ser servidor de todos. Pela imposição das mãos do bispo, o diácono recebe publicamente, de modo irrevogável e definitivo, o mandato e a missão do serviço, consagrado pela graça do sacramento. Pelo testemunho de vida sou chamado a construir um mundo mais de acordo com o projeto de Deus. Quero viver o diaconato a partir da opção preferencial pelo serviço, missão e partilha de vida, a exemplo do amor de Jesus Cristo, que não veio para ser servido, mas para servir. Viver o ministério diaconal na Igreja é hoje um tesouro para fecundar a missão evangelizadora, como frade menor, no atendimento de tantas urgências e necessidades, no anúncio do Evangelho e na busca de uma vivência autêntica e comprometida da fé. O diácono é hoje uma presença amorosa de Cristo Servo na Igreja e na vida da sociedade, anunciando o Reino de Deus a todas as pessoas. É isso que quero viver como diácono na Igreja, de modo particular na paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem, na Rocinha e na Província.


Papa em Santa Marta: "Confessionário não é lavanderia onde tirar manchas"


Cidade do Vaticano - “Ser perdoados e perdoar: um mistério difícil de entender. É preciso oração, arrependimento e vergonha”. A afirmação é do Papa, na homilia da missa da manhã de terça-feira, 21, na Casa Santa Marta. O Pontífice reiterou a importância de estar consciente da maravilha que Deus realiza conosco com a sua misericórdia, e de exercê-la depois, com os outros.

O perdão é um mistério difícil de se entender

O primeiro passo para “penetrar neste mistério”, a grande “obra de misericórdia de Deus”, é envergonhar-se dos próprios pecados, uma graça que não podemos obter sozinhos. O povo de Deus, triste e humilhado por suas culpas, é capaz de senti-la, enquanto o protagonista do Evangelho do dia não consegue fazê-lo. É o servo que o patrão perdoa apesar de suas grandes dívidas, mas que por sua vez, é incapaz de perdoar seus devedores. “Ele não entendeu o mistério do perdão”, destacou Francisco, falando da realidade de hoje:

“Se eu pergunto: ‘Vocês são todos pecadores?’ – ‘Sim, padre, todos’ – ‘E para receber o perdão dos pecados?’- ‘Nos confessamos’ – ‘E como você se confessa?’- ‘Vou, digo meus pecados, o padre me perdoa, me dá três Ave Marias para rezar e vou embora em paz’.

“Você não entendeu! Fazendo assim, você foi ao confessionário fazer uma operação bancária ou um processo burocrático. Não foi lá envergonhado pelo que fez. Viu algumas manchas em sua consciência e errou, porque pensou que o confessionário fosse uma lavanderia para limpar as manchas. Você foi incapaz de envergonhar-se por seus pecados”. 

Maravilha deve entrar na consciência

Assim, o perdão recebido de Deus, a “maravilha que fez em seu coração” – prossegue o Papa – deve poder “entrar na consciência”, caso contrário, “você sai, encontra um amigo, uma amiga e começa e falar pelas costas de alguém, e continua a pecar”. “Eu posso perdoar, somente se me sinto perdoado”:

“Se você não tem consciência de ser perdoado, nunca poderá perdoar, nunca. Sempre existe aquele comportamento de querer acertar as contas com os outros. O perdão é total. Mas somente se pode dar quando eu sinto o meu pecado, me envergonho, tenho vergonha e peço o perdão a Deus e me sinto perdoado pelo Pai e assim posso perdoar. Caso contrário, não se pode perdoar, somos incapazes disto. Por esta razão o perdão é um mistério”.

O servo, o protagonista do Evangelho – diz o Papa – tem a sensação de “ter conseguido”, ter sido “esperto”; mas pelo contrário, não entendeu a generosidade do patrão. É aquela que o Papa define como “a hipocrisia de roubar um perdão, um perdão fingido”:

"Peçamos hoje ao Senhor a graça de entender este “setenta vezes sete”. Peçamos a graça da vergonha diante de Deus. E’ uma grande graça! Envergonhar-se dos próprios pecados e assim receber o perdão e a graça da generosidade de dá-lo aos outros, porque se o Senhor me perdoou tanto, quem sou eu para não perdoar?”.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Frei Felipinho: Hoje é dia de São José

São José nos dê a capacidade de sonhar coisas grandes

Cidade do Vaticano – O Papa começou a semana celebrando a missa na capela da Casa Santa Marta nesta segunda, 20. Francisco dedicou sua homilia a São José, cuja solenidade foi transferida de 19 para 20 de março para não coincidir com o domingo de Quaresma.

São José obedece ao anjo que aparece em seu sonho e toma consigo Maria, grávida por obra do Espírito Santo, como narra o Evangelho de Mateus. Um homem silencioso, mas obediente. José é um homem que carrega sobre seus ombros as promessas de “descendência, de herança, de paternidade, de filiação e de estabilidade”:

“E este homem, este sonhador, é capaz de aceitar esta tarefa, esta tarefa difícil e que muito tem a nos dizer neste período de uma grande sensação de orfandade. E assim este homem toma a promessa de Deus e a leva avante em silêncio com fortaleza, a leva avante para aquilo que Deus quer que seja realizado”.

São José é um homem que pode “nos dizer muito, mas não fala”, “o homem escondido”, o homem do silêncio, “que tem a maior autoridade naquele momento, sem a demonstrar”. E o Papa destaca que aquilo que Deus confia ao coração de José são “coisas fracas”: “promessas” e uma promessa é fraca. E depois também o nascimento da criança, a fuga ao Egito, situações de fraqueza. José carrega no coração e leva avante “todas essas fraquezas” como se deve fazer: “com muita ternura”, “com a ternura com a qual se pega uma criança”: 

“É o homem que não fala, mas obedece, o homem da ternura, o homem capaz de levar adiante as promessas para que se tornem firmes, seguras. O homem que garante a estabilidade do Reino de Deus, a paternidade de Deus, a nossa filiação como filho de Deus. Gosto de pensar José como guardião das fraquezas, de nossas fraquezas: é capaz de fazer nascer muitas coisas bonitas de nossas fraquezas, de nossos pecados.”

José é o custódio das fraquezas para que se tornem firmes na fé, mas esta tarefa ele recebeu durante um sonho: “É um homem capaz de sonhar”, observou o Papa. É também o “guardião do sonho de Deus”: o sonho de Deus de nos salvar, de nos redimir, foi confiado a ele”. “É grande este carpinteiro!”, exclamou o Papa: “silencioso, trabalhador e guardião que carrega as fraquezas e é capaz de sonhar. Uma figura que tem uma mensagem para todos”:

“Eu hoje quero lhe pedir que dê a todos nós a capacidade de sonhar, porque quando sonhamos coisas grandes, coisas bonitas, nos aproximamos do sonho de Deus, das coisas que Deus sonha para nós. Que aos jovens dê, porque ele era jovem, a capacidade de sonhar, de arriscar e assumir as tarefas difíceis que viram nos sonhos. E dê a todos nós a fidelidade que geralmente cresce num comportamento justo, e ele era justo, cresce no silêncio, poucas palavras, e cresce na ternura que é capaz de proteger as próprias fraquezas e as dos outros”.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Liturgia - 3º domingo da Quaresma ::: Samaritana: história de uma sede


Ex 17, 3-7
Sl 94
Rm 5, 1-2.5-8
Jo 4, 5-42

Jesus sacia a sede do homem

 5 Chegou, então, a uma cidade da Samaria chamada Sicar, perto do campo que Jacó tinha dado ao seu filho José. 6 Aí ficava a fonte de Jacó. Cansado da viagem, Jesus sentou-se junto à fonte. Era quase meio-dia.
7 Então chegou uma mulher da Samaria para tirar água. Jesus lhe pediu: «Dê-me de beber.» 8 (Os discípulos tinham ido à cidade para comprar mantimentos). 9 A samaritana perguntou: «Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou samaritana?» (De fato, os judeus não se dão bem com os samaritanos). 10 Jesus respondeu: «Se você conhecesse o dom de Deus, e quem lhe está pedindo de beber, você é que lhe pediria. E ele daria a você água viva.»
11 A mulher disse a Jesus: «Senhor, não tens um balde, e o poço é fundo. De onde vais tirar a água viva? 12 Certamente não pretendes ser maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu este poço, e do qual ele bebeu junto com seus filhos e animais!» 13 Jesus respondeu: «Quem bebe desta água vai ter sede de novo. 14 Mas aquele que beber a água que eu vou dar, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe darei, vai se tornar dentro dele uma fonte de água que jorra para a vida eterna.» 15 A mulher disse a Jesus: «Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede, nem precise vir aqui para tirar.»
16 Jesus disse à samaritana: «Vá chamar o seu marido e volte aqui.» 17 A mulher respondeu: «Eu não tenho marido.» Jesus disse: «Você tem razão ao dizer que não tem marido. 18 De fato, você teve cinco maridos. E o homem que você tem agora, não é seu marido. Nisso você falou a verdade.» 19 A mulher então disse a Jesus: «Senhor, vejo que és profeta! 20 Os nossos pais adoraram a Deus nesta montanha. E vocês judeus dizem que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar.»
21 Jesus disse: «Mulher, acredite em mim. Está chegando a hora, em que não adorarão o Pai, nem sobre esta montanha nem em Jerusalém. 22 Vocês adoram o que não conhecem, nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. 23 Mas está chegando a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores vão adorar o Pai em espírito e verdade. Porque são estes os adoradores que o Pai procura. 24 Deus é espírito, e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade.» 25 A mulher disse a Jesus: «Eu sei que vai chegar um Messias (aquele que se chama Cristo); e quando chegar, ele nos vai mostrar todas as coisas.» 26 Jesus disse: «Esse Messias sou eu, que estou falando com você.»
* 27 Nesse momento, os discípulos de Jesus chegaram. E ficaram admirados de ver Jesus falando com uma mulher, mas ninguém perguntou o que ele queria, ou por que ele estava conversando com a mulher. 28 Então a mulher deixou o balde, foi para a cidade e disse para as pessoas: 29 «Venham ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Será que ele não é o Messias?» 30 O pessoal saiu da cidade e foi ao encontro de Jesus.
31 Enquanto isso, os discípulos insistiam com Jesus, dizendo: «Mestre, come alguma coisa.» 32 Jesus disse: «Eu tenho um alimento para comer, que vocês não conhecem.» 33 Os discípulos comentavam: «Será que alguém trouxe alguma coisa para ele comer?» 34 Jesus disse: «O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra. 35 Vocês não dizem que faltam quatro meses para a colheita? Pois eu digo a vocês: ergam os olhos e olhem os campos: já estão dourados para a colheita. 36 Aquele que colhe, recebe desde já o salário, e recolhe fruto para a vida eterna; desse modo, aquele que semeia se alegra junto com aquele que colhe. 37 Na verdade é como diz o provérbio: ‘Um semeia e outro colhe’. 38 Eu enviei vocês para colher aquilo que vocês não trabalharam. Outros trabalharam, e vocês entraram no trabalho deles.»
* 39 Muitos samaritanos dessa cidade acreditaram em Jesus, por causa do testemunho que a mulher tinha dado. «Ele me disse tudo o que eu fiz.» 40 Os samaritanos então foram ao encontro de Jesus e lhe pediram que ficasse com eles. E Jesus ficou aí dois dias. 41 Muitas outras pessoas acreditaram em Jesus ao ouvir sua palavra. 42 E diziam à mulher: «Já não acreditamos por causa daquilo que você disse. Agora, nós mesmos ouvimos e sabemos que este é, de fato, o salvador do mundo.»

Bíblia Sagrada - Edição Pastoral

Samaritana: história de uma sede – Pe. Adroaldo Palaoro, sj


Comprovamos hoje uma atrofia ou um “déficit de interioridade”, pois a volatilidade das sensações passageiras nos dificulta ter acesso à nossa própria identidade. Continuamente, chegam até nós sensações inteligentes e sedutoras elaboradas pelos técnicos da publicidade em laboratórios e ilhas de edição e semeadas na nossa afetividade subconsciente. Estamos rodeados por telas iluminadas (tvs, smart, tablets, computadores...) que emitem uma mensagem “interessada” e nos forçam a permanecer na superfície de nós mesmos, esvaziando-nos de toda densidade humana. Precisamos redescobrir uma pedagogia que nos conduza até o mais profundo de nossa intimidade, onde o Espírito alimenta a originalidade de nosso ser único, através de uma fonte que nunca se esgota. Precisamos, sob a ação da Graça, destravar nosso centro vivo e sempre inédito, de tal maneira que brote a novidade que tudo renova e plenifica nossa existência.


Vamos, pois, buscar inspiração no encontro instigante de Jesus com a Samaritana, junto a um poço.
Assim como a água, necessária para a vida, é preciso extraí-la do fundo da terra, também a água do Espírito é preciso tirá-la das profundezas de si mesmo.

No início do relato vemos uma mulher caminhando em direção ao poço de Siquém em busca de água; ela vive um “eu fragmentado”, perdida em sua solidão, sedenta de um sentido para sua existência... Tinha graves problemas, estava confusa, em toda sua vida havia buscando o grande amor. No entanto, seus casamentos fracassados continuavam a perturbá-la. Era uma mulher que havia se perdido no caminho: tantos cântaros quebrados, tantos pedaços para recolher.

Jesus rompe com as fronteiras culturais e religiosas, assenta-se junto ao poço de Jacó e, através de um diálogo provocativo, ajuda a mulher samaritana a encontrar, dentro dela mesma, esse centro de onde mana sem cessar uma água que mata a sede, e não buscá-la em tantos poços secos ou rachados. Com sua presença instigante, Jesus ajuda a mulher a integrar suas rupturas existenciais, reconstruindo-a como pessoa, a partir de sua própria interioridade.

O encontro com Jesus fez a samaritana viver uma verdadeira “páscoa”, passando de uma vida trivial e dispersa à missão de anunciar aos outros Aquele com quem se havia encontrado. Como uma água “que jorra para a vida eterna”, uma torrente de gratuidade percorre a cena e transfigura a mulher. Ela foi sendo conduzida até sua própria interioridade através de um paciente processo que a fez passar da dispersão à unificação, da exterioridade à interioridade, da desarmonia à unidade interior, da solidão à comunhão com os outros.

Ela entra em cena como “uma mulher da Samaria” e sai dela como conhecedora do manancial de “água viva”, consciente de ser buscada pelo Pai para fazer dela uma adoradora. Sua identidade transformada a converte em uma evangelizadora que consegue, através de seu testemunho, que muitos se aproximem de Jesus e creiam nele. Aquela que falava de “tirar água” como uma tarefa de esforço e trabalho, abandona agora seu cântaro: Jesus a fez descobrir um dom que lhe é entregue gratuitamente.

Na realidade, ela passou a ter a sensação de estar nascendo pela primeira vez e que Deus a amava. Caíam as etiquetas. Tudo o que tinha sido, a samaritana, filha de sangues misturados e de religião meio pagã, a mulher com uma vida afetiva fracassada, a amante que, depois de compartilhar sua vida com seis homens, duvidava de ter sido amada de verdade alguma vez... tudo aquilo parecia deixar de existir.

Os véus que cobriam o verdadeiro rosto da mulher do cântaro vazio foram levados pelo vento. Ela se tornou “pessoa”.

Estamos, aqui, diante de uma vida em processo. Ao longo do relato assistimos a tentativa da mulher de permanecer em um nível superficial e mover-se em seu diálogo com Jesus no âmbito da superficialidade. Uma e outra vez ela procura escapar e desviar a conversação para terrenos que não permitem descer em sua profundidade e que não a deixam enfrentar-se com a verdade de sua existência.

Mas ela não contava com a tenacidade de Jesus e com sua determinação de alargar aquela vida atrofiada. Ao longo do encontro, Ele é o verdadeiro protagonista, o condutor da cena e aquele que marca as estratégias da conversação.

Como hábil pescador, Jesus joga suas redes e lança seus anzóis para tirar a mulher, com quem dialoga, das águas enganosas da trivialidade e do desejo de auto-justificação que a afogam.
Como bom pastor que conhece suas ovelhas, Jesus a faz sair do deserto da superficialidade, vai guiando-a para a profundidade e autenticidade, para a terra do dom da água viva. Como amigo que busca criar relações pessoais, em nenhum momento emite juízos morais de desaprovação ou condenação: em lugar de acusar, prefere dialogar e propor, emprega uma linguagem dirigida ao coração da mulher.

Como “expert” em humanidade, Jesus mostra-se profundamente atento e interessado pela interioridade de sua interlocutora e lhe faz descobrir o manancial que pode brotar do mais profundo dela mesma. Revela-lhe também a interioridade de Deus como Pai que busca adoradores em espírito e em verdade.

Jesus desperta a samaritana a cair na conta que é preciso abrir-se a um “manancial” novo, que lhe vem através d’Ele e que “brota em seu interior” de um modo permanente. Ele é o manancial e com sua presença desperta o manancial interior da samaritana, entupido.

“Dá-me um pouco de sede porque estou morrendo de água!”

Eis o clamor da nossa geração que tendo quase tudo, parece que não consegue descobrir o sentido da própria existência. Morre de sede junto ao poço de água viva.

A sede se refere à busca de sentido presente em todo ser humano, busca daquilo que traz definitivamente a paz: a “água viva” que coincide com o “dom de Deus”. Por isso, o relato se situa intencionadamente em chave de oferta: “se conhecesses o dom de Deus...”. Acabou-se o tempo dos templos; a adoração passa pelo coração, é interior e verdadeira, corresponde a uma vida em fidelidade.

A experiência acontece quando escutamos em nosso interior o “eco” que a água viva produz, saciando nossos desejos mais plenos. “Uma água viva murmura dentro de mim e me diz: Venha para o Pai” (S. Inácio de Antioquia)

Como a samaritana, também diante de nós se apresenta uma alternativa: continuar buscando água viva e justificação em poços secos e esgotados ou eleger “vida eterna” e deixar-nos arrastar pela oferta de transformação proposta pelo Jesus que nos busca, porque deseja ampliar nossa existência e comunicar-nos alegria e plenitude.

Texto bíblico: Jo 4, 5-42

Na oração:

A cena do encontro de Jesus com a samaritana nos remete à experiência fundante de nossa vida. Tal experiência significa abertura, dilatação do coração, expansão da consciência ao ver que tudo parte de Deus (Fonte do rio da vida) e tudo volta para Deus (rio que mergulha no Mar).

A experiência de oração junto ao nosso poço nos conduz à outra fonte, aquela que brota do coração, e que estava ressequida, impedindo-nos de reconhecer o murmúrio da água viva.

De quê tenho sede? Onde busco saciar minha sede?

Pe. Adroaldo Palaoro, sj - Fonte: Centro Loyola BH

CONFIRA A REFLEXÃO DE FREI GUSTAVO MEDELLA PARA ESTE 3º DOMINGO DA QUARESMA

Santo do dia: São #Patrício


Há poucos dados sobre a origem de Patrício, mas os que temos foram tirados do seu livro autobiográfico 'Confissão'. Nele, Patrício diz ter nascido numa vila de seu pai, situada na Inglaterra ou Escócia, no ano 377. Era filho de Calpurnius. Apesar de ter nascido cristão, só na adolescência passou a professar a fé.

Aos dezesseis anos, foi raptado por piratas irlandeses e vendido como escravo. Levado para a Irlanda foi obrigado a executar duros trabalhos em meio a um povo rude e pagão. Por duas vezes Patrício tentou a fuga, até que na terceira vez conseguiu se libertar. Embarcou para a Grã-Bretanha e depois para a Gália, atual França, onde frequentou vários mosteiros e se habilitou para a vida monástica e missionária.

A princípio, acompanhou São Germano do mosteiro de Auxerre, numa missão apostólica na Grã-Bretanha. Mas seu destino parecia mesmo ligado à Irlanda, mesmo porque sua alma piedosa desejava evangelizar aquela nação pagã, que o escravizara. Quando faleceu o Bispo Paládio, responsável pela missão no país, o Papa Celestino I o convocou para dar seguimento à missão. Foi consagrado bispo e viajou para a 'Ilha Verde', no ano 432.

Sua obra naquelas terras ficará eternamente gravada na História da Igreja Católica e da própria humanidade, pois mudou o destino de todo um povo. Em quase três décadas, o bispo Patrício converteu praticamente todo o país. Não contava com apoio político e muito menos usou de violência contra os pagãos. Com isso, não houve repressão também contra os cristãos. O próprio rei Leogário deu o exemplo maior, possibilitando a conversão de toda sua corte. O trabalho desse fantástico e singelo bispo foi tão eficiente que o catolicismo se enraizou na Irlanda, vendo nos anos seguintes florescer um grande número de Santos e evangelizadores missionários.

O método de Patrício para conseguir tanta conversão foi a fundação de incontáveis mosteiros. Esse método foi imitado pela Igreja também na Inglaterra e na evangelização dos alemães do norte da Europa. Promovendo por toda parte a construção e povoação de mosteiros, o bispo Patrício fez da Ilha um centro de irradiação de fé e cultura. Dali partiram centenas de monges missionários que peregrinaram por terras estrangeiras levando o Evangelho. Temos, como exemplo, a atuação dos célebres apóstolos Columbano, Galo, Willibrordo, Tarásio, Donato e tantos outros.

A obra do bispo Patrício interferiu tanto na cultura dos irlandeses, que as lendas heroicas desse povo falam sempre de monges simples com suas aventuras, prodígios e graças, enquanto outras nações têm como protagonistas seus reis e suas façanhas bélicas.

Patrício morreu no dia 17 de março de 461, na cidade de Down, atualmente Downpatrick. Até hoje, no dia de sua festa os irlandeses fixam à roupa um trevo, cuja folha se divide em três, numa homenagem ao venerado São Patrício que o usava para exemplificar melhor o sentido do mistério da Santíssima Trindade: 'um só Deus em três pessoas'.

A data de 17 de março há séculos marca a festa de São Patrício, a glória da Irlanda. Os irlandeses sempre sentiram um enorme orgulho de sua pátria, tanto, por ter ela nascido na chamada Ilha dos Santos, quanto, por ter sido convertida pelo venerado bispo. Só na Irlanda existem duzentos santuários erguidos em honra a São Patrício, seu padroeiro.

Fonte: Paulinas Internet

Retiro dos benfeitores franciscanos


Sexta-feira da 2ª semana da Quaresma


A divindade de Cristo: segunda pregação da #Quaresma


Cidade do Vaticano – O Papa Francisco participou na manhã desta sexta-feira (17/03), na capela Redemptoris Mater, da II pregação de Quaresma.

O título proposto pelo pregador da Casa Pontifícia, Fr. Raniero Cantalamessa, foi: “O Espírito Santo nos introduz no mistério da divindade de Cristo”.

O frade capuchinho propõe a seguinte pergunta: Que lugar ocupa Jesus Cristo em nossa sociedade e na própria fé dos cristãos? Para ele, deve-se falar de “uma presença-ausência de Cristo”. “Em um certo nível – o do espetáculo e da mídia no geral – Jesus Cristo está muito presente. Em uma série infinita de histórias, filmes e livros, os escritores manipulam a figura de Cristo. Tornou-se uma moda, um gênero literário. Chamo tudo isso de parasitismo literário. Mas se olharmos para o âmbito da fé, ao qual ele pertence em primeiro lugar, notamos, pelo contrário, uma ausência perturbadora, ou até mesmo rejeição da sua pessoa.” 

A divindade de Cristo, afirma ainda Fr. Cantalamessa, não é um "postulado" prático, como é, para Kant, a própria existência de Deus. Não é um postulado, mas a explicação de um dado de fato, de uma experiência de salvação. “Em outras palavras, não é na salvação que se fundamenta a divindade de Cristo, mas é na divindade de Cristo que se fundamenta a salvação.”

“Mas é hora voltar a nós e tentar ver o que podemos aprender hoje da épica batalha sustentada em sua época pela ortodoxia. A divindade de Cristo é a pedra angular que sustenta os dois mistérios principais da fé cristã; a Trindade e a encarnação. Elas são como duas portas que se abrem e se fecham juntas. Se retirada a divindade de Cristo, tudo se desmorona e antes de mais nada, a Trindade.”

“Eu quero misericórdia” - tema da iniciativa 24 horas para o Senhor

O Papa presidirá a liturgia penitencial na Basílica de São Pedro, nesta sexta-feira (17/03), antecipando de uma semana a data em que todas as Igrejas colocarão o Sacramento da Reconciliação no centro do caminho da nova evangelização em toda a Igreja. 

O tema deste ano é “Eu quero misericórdia”, extraído do Evangelho de Mateus (Mt 9,13).

Para participar da liturgia na Basílica de São Pedro, na tarde de sexta-feira, são necessários bilhetes que são distribuídos gratuitamente pela Prefeitura da Casa Pontifícia. 

Na sexta-feira, 24 de março, a partir das 20h até a manhã do dia seguinte, as Igrejas de Santa Maria in Trastevere e a dos Estigmas de São Francisco ficarão abertas para a adoração eucarística e confissões. 

No sábado, 25, às 17h locais, se concluirá a iniciativa “24 horas para o Senhor” na Igreja de Santo Spirito in Sassia, com a celebração de ação de graças das Primeiras Vésperas do IV Domingo do Senhor, presididas pelo Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, Dom Rino Fisichella.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Santo do dia: José Gabriel del Rosario #Brochero


Presbítero e Missionário, primeiro santo argentino.

José Gabriel del Rosario Brochero nasceu em 16 de março de 1840, em Santa Rosa de Río Primero, Córdoba.

Entrou no seminário maior de Córdoba em 5 de março de 1856, aos 16 anos. Um amigo escreveu: “muitas vezes ouvi Brochero falar que a constante preocupação de sua juventude foi o sacerdócio... Não sabia que vocação seguir: se a laical ou a sacerdotal... Seu espírito flutuava e seu coração sofria com esta indecisão. Um dia, dominado por esta preocupação, assistiu a um sermão no qual se descreveram as exigências e os sacrifícios de uma e da outra... e apenas concluiu escutá-lo, a dúvida já não atormentava sua alma, e ser sacerdote era para ela uma resolução inquebrantável” (Cárcano, Ramón J.).

Foi ordenado presbítero em 4 de novembro de 1866 por Dom Vicente Ramírez de Arellano. Em 10 de dezembro do mesmo ano celebra sua primeira Missa na capela do Colégio Seminário “Nuestra Señora de Loreto”, quando esta se encontrava na casa por detrás da Catedral, onde hoje se encontra a pracinha do Fundador.

Em dezembro de 1869 assume o Curado de São Alberto, sendo San Pedro a vila que fazia cabeceira naquele departamento. Por aquele tempo o extenso Curado de San Alberto (de 4.336 quilômetros quadrados) contava com pouco mais de 10.000 habitantes que viviam em lugares distantes, sem estradas e sem escolas, espalhados pelas Serras Grandes de mais de 2.000 metros de altura. Era triste o estado moral e a indigência material daquela gente. O coração apostólico de Brochero não desanima, senão que, desde o primeiro momento, dedicará sua vida inteira não somente a levar o Evangelho, senão, a educar e promover a seus habitantes.

No ano seguinte de sua chegada, começou a levar a homens e mulheres a Córdoba, para fazer os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, percorrendo uns 200 km, cruzando as serras. Ditas cujas travessias requeriam três dias no lombo de uma mula e as caravanas muitas vezes superam umas quinhentas pessoas. Mais de uma vez foram surpreendidos por fortes tormentas de neve.

Ao regressarem, após nove dias de silêncio, oração e penitência, seus as pessoas iam mudando de vida, seguindo o Evangelho e buscando o desenvolvimento econômico da região.

Em 1875, com a ajuda de seus paroquianos, começou a construção da Casa de Exercícios da então Villa del Transito (localidade que hoje leva seu nome). Foi inaugurada em 1877 com inscritos que superaram umas 700 pessoas, passando pela mesma, durante o ministério paroquial do Santo, mais de 40.000 pessoas. Também construiu a casa para as religiosas, o Colégio de meninas e a residência para os sacerdotes.

Com seus paroquianos construiu mais de 200km de caminhos e várias igrejas, fundou povoados e preocupou-se pela educação de todos. Solicitou perante as autoridades e obteve “mensagerias”, oficinas de correio e estafetas telegráficas. Projetou o ramal ferroviário que atravessaria o Vale de Traslasierra unindo Villa Dolores e Soto para retirar a seus queridos serranos do isolamento e pobreza em que se encontravam, “abandonados de todos, porém, não por Deus”, como gostava de repetir.

“Um sacerdote que viveu uma verdadeira paixão pelo Evangelho, que testemunhou e transmitiu em meio de uma considerável transformação cultural o nosso país depois dos acontecimentos de organização nacional. Sem ingenuidade, porém também sem ceder a lamentos ou enfrentamentos estéreis, dedicou-se com empenho e com espírito construtivo à maravilhosa tarefa de evangelização. De sua paixão pelo Evangelho brotava também sua paixão por seus irmãos e o desejo de brindar-lhes as condições de uma vida digna. Por isso trabalhou incansavelmente por levantar templos ou capelas, a casa de Exercícios Espirituais e a Villa del Transito, escolas e outras obras que asseguraram a todos uma existência que mereceria o título de humana e cristã” (Mons. Carlos Náñez, homilia da Missa Crismal de 01 de abril de 2010).

Poucos dias depois de sua morte, o diário católico de Córdoba escreve: “É sabido que o Cura Brochero contraiu a enfermidade que o levou à tumba porque visitava frequentemente e até abraçava a um leproso abandonado por aí”. Devido à sua enfermidade, renunciou ao Curado, vivendo uns anos com suas irmãs em seu povoado natal. Porém, respondendo à solicitude de seus antigos paroquianos, regressou à sua casa de Villa del Transito, morrendo leproso e cego no dia 26 de janeiro de 1914.
  
O processo de canonização iniciou-se na década de 1960. Foi declarado Venerável pelo papa São João Paulo II em 2004. Foi beatificado na pequena localidade cordobesa de Villa Cura Brochero em 14 de setembro de 2013, logo após a comprovação sua intercessão milagrosa ante o menino Nicolás Flores , que esteve às portas da morte, com perda de massa óssea do crânio e de massa encefálica como resultado de um acidente automobilístico sofrido em Falda del Cañete (Córdoba).

A recuperação da menina Camila Brusotti, logo haver sido golpeada por sua mãe e seu padrasto e de sofrer um infarto massivo no hemisfério cerebral direito, foi considerada como um acontecimento extraordinário e inexplicável pela ciência médica por parte de uma junta composta por sete médicos e como um milagre por parte do tribunal eclesiástico de Roma. Segundo a Comissão Teológica, esse fato aconteceu pela intercessão de Brochero.

Em 22 de janeiro de 2016, o papa Francisco assinou o decreto que confirma o segundo milagre. Sua canonização aconteceu no dia 16 de outubro de 2016. 

Em carta enviada ao Arcebispo de Santa Fé e Presidente da Conferência Episcopal Argentina, D. José María Arancedo, o Papa Francisco expressou sua alegria com, na época, a beatificação do "Cura Brochero". Ele afirmou: "Gosto de imaginar hoje Brochero pároco em cima da sua mula com a franja branca (malacara), enquanto percorria as longas sendas áridas e desoladas dos duzentos quilómetros quadros da sua paróquia, procurando de casa em casa os vossos bisavós e trisavós, para lhes pedir se necessitavam de algo e para os convidar a fazer os exercícios espirituais de santo Inácio de Loyola. Conheceu todos os cantos da sua paróquia. Não ficou nas sacristias a pentear as ovelhas do rebanho.

O Cura Brochero era uma visita do próprio Jesus a cada família. Levava consigo a imagem da Virgem, o livro de orações com a Palavra de Deus, o necessário para celebrar a Missa diária. Convidavam-no a beber mate, dialogavam e Brochero falava com eles de um modo que todos entendiam, porque lhe saía do coração, da fé e do amor que sentia por Jesus.

Aquela coragem apostólica de Brochero cheia de zelo missionário, aquele fervor do seu coração compassivo como o de Jesus que lhe fazia dizer: «Ai de mim se o diabo me roubar a alma!», levou-o a conquistar para Deus até pessoas de má fama e concidadãos difíceis. Contam-se milhares de homens e mulheres que, graças ao trabalho sacerdotal de Brochero, abandonaram vícios e desavenças. Todos recebiam os sacramentos durante os exercícios espirituais e, com eles, a força e a luz da fé para ser bons filhos de Deus, bons irmãos, bons pais e mães de família, numa grande comunidade de amigos comprometidos no bem de todos, que se respeitavam e ajudavam reciprocamente.

Numa beatificação a actualidade pastoral é muito importante. 

O Cura Brochero tem a actualidade do Evangelho, foi um pioneiro no deslocar-se até às periferias geográficas e existenciais para levar a todos o amor, a misericórdia de Deus. Não permaneceu fechado no escritório paroquial, desgastou-se nas suas viagens de mula e acabou adoecendo de lepra, por tanto ter procurado o povo como sacerdote de rua, da fé. Jesus quer precisamente isto hoje, discípulos missionários, «callejeros» da fé!

Brochero era um homem normal, frágil, como qualquer um de nós, mas conheceu o amor de Jesus, deixou-se forjar no coração pela misericórdia de Jesus. Soube sair do túnel «eu-me-meu-para mim», do egoísmo mesquinho que todos temos, vencendo a si mesmo, superando com a ajuda de Deus as forças interiores das quais o demónio se serve para nos acorrentar nas modalidades, na procura do prazer do momento, na pouca vontade de trabalhar. Brochero ouviu a chamada de Deus e escolheu o sacrifício de trabalhar para o seu Reino, para o bem comum que a dignidade enorme de cada pessoa merece como filha de Deus, e foi fiel até ao fim: continuava a rezar e a celebrar a missa até quando já era cego e tinha lepra.

Deixemos que o Cura Brochero entre hoje, com a mula e o resto, na casa do nosso coração e nos convide à oração, ao encontro com Jesus, que nos liberta dos vínculos para sair pelas estradas à procura do irmão, para tocar a carne de Cristo naquele que sofre e necessita do amor de Deus. Só assim poderemos saborear a alegria que o Cura Brochero experimentou, antecipação da felicidade da qual agora goza como beato no céu.

Peço ao Senhor que vos conceda esta graça, que vos abençoe, e rezo à Virgem Santa para vos proteger. (Papa Francisco, 14 de setembro de 2013.)