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segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Liturgia: Festa do Batismo do Senhor


Is 42, 1-4.6-7 ou At 10, 34-38
Sl 28 (29)
Mt 3, 13-17

3 João foi anunciado pelo profeta Isaías, que disse: «Esta é a voz daquele que grita no deserto: Preparem o caminho do Senhor, endireitem suas estradas!» 4 João usava roupa feita de pêlos de camelo, e cinto de couro na cintura; comia gafanhotos e mel silvestre. 5 Os moradores de Jerusalém, de toda a Judéia, e de todos os lugares em volta do rio Jordão, iam ao encontro de João. 6 Confessavam os próprios pecados, e João os batizava no rio Jordão.

7 Quando viu muitos fariseus e saduceus vindo para o batismo, João disse-lhes: «Raça de cobras venenosas, quem lhes ensinou a fugir da ira que vai chegar? 8 Façam coisas que provem que vocês se converteram. 9 Não pensem que basta dizer: ‘Abraão é nosso pai’. Porque eu lhes digo: até destas pedras Deus pode fazer nascer filhos de Abraão. 10 O machado já está posto na raiz das árvores. E toda árvore que não der bom fruto, será cortada e jogada no fogo. 11 Eu batizo vocês com água para a conversão. Mas aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu. E eu não sou digno nem de tirar-lhe as sandálias. Ele é quem batizará vocês com o Espírito Santo e com fogo. 12 Ele terá na mão uma pá: vai limpar sua eira, e recolher seu trigo no celeiro; mas a palha ele vai queimar no fogo que não se apaga.»

13 Jesus foi da Galileia para o rio Jordão, a fim de se encontrar com João, e ser batizado por ele. 14 Mas João procurava impedi-lo, dizendo: «Sou eu que devo ser batizado por ti, e tu vens a mim?» 15 Jesus, porém, lhe respondeu: «Por enquanto deixe como está! Porque devemos cumprir toda a justiça.» E João concordou. 16 Depois de ser batizado, Jesus logo saiu da água. Então o céu se abriu, e Jesus viu o Espírito de Deus, descendo como pomba e pousando sobre ele. 17 E do céu veio uma voz, dizendo: «Este é o meu Filho amado, que muito me agrada.»

* 3,1-12: João Batista convida a uma mudança radical de vida, porque já se aproxima o Reino, que vai transformar radicalmente as relações entre os homens. É o tempo do julgamento, e nada adianta ter fé teórica, pois o julgamento se baseará nas opções e atitudes concretas que cada um assume. Os fariseus, com a falsa segurança de suas observâncias religiosas, e os saduceus, com suas intrigas políticas para conservar o poder, pertencem à estrutura que vai ser superada pelo Reino.
* 13-17: Neste Evangelho, as primeiras palavras de Jesus apresentam o programa de toda a sua vida e ação: cumprir toda a justiça, isto é, realizar plenamente a vontade de Deus e seu projeto salvador.
Bíblia Sagrada - Edição Pastoral

No batismo, a humanidade de Jesus – Pe. João Batista Libânio

Talvez, ouvindo essa leitura, tenhamos uma ideia um pouco fantástica do batismo de Jesus. Mas ele não deve nos impressionar. É o oposto do nosso batismo. Pelo batismo, nós, seres humanos, nos mergulhamos no mistério de Deus. Divinizamo-nos e nos tornamos mais próximos de Deus. É como se bebêssemos a sua luz e começássemos a irradiá-la através de nossa existência. Isso é ser cristão, é ser a luz que anuncia Deus na escuridão da história.

O batismo de Jesus é o oposto: é Deus que mergulha no mais profundo da humanidade. Inverte. Por isso, Ele entrou na vida dos pecadores. Eu não imagino o batismo de Jesus como algo sensacional. É a coisa mais humana de sua vida. Vocês podem imaginar João diante daquele rio, que para nós não passa de um riachozinho – o rio Jordão – e todos aqueles pecadores. Pessoas, às vezes, com uma vida desvairada, que João ia batizando. E, na medida em que João batizava, a fila ia crescendo, como as nossas filas.

Um Homem se colocou na fila, e Ele se chamava Jesus. Era apenas mais um, perdido no meio da fila. Não passou na frente, como passam os nossos grandes políticos, não tocou sino para anunciá-lo. Apenas entrou na fila. Imergiu no mais profundo de nossa humanidade. Quis captá-la de baixo, porque Ele já era Deus. Jesus não precisava mostrar que era Deus, esse é o nosso grande engano! Ele tinha que mostrar que era humano, pois isso é que Ele não era. Tinha que aprender a ser humano, e isto é misterioso: Deus teve que aprender a ser humano. Ele não sabia!

Vocês acham que o Espírito Santo sabe como somos? Não. A Trindade não pode saber como é a dor de uma mãe que perde um filho. Jesus, o Verbo de Deus, não podia saber dos nossos sofrimentos, não podia conhecer as nossas dores, saudades, aflições, tristezas, frustrações, nossos momentos difíceis. Ele não sabia de nada disso. O Verbo de Deus precisou conhecer a vida dos homens. Como podia salvar-nos, se não nos conhecia? Como podia dizer-nos para ter coragem e fé? Pode parecer fácil, mas não é. Ele precisou experimentar a fila do SUS.

E lá está Jesus, seguindo a fila. Quanto mistério terá vivido nesse momento! João Batista era bravo – ele não era fácil não! A gente imagina-o como um santinho. Mas era bravo, severo. Repreendia os soldados que organizavam as pessoas. Tudo isso, e Jesus ali, vendo e ouvindo o que estava acontecendo.

E chegou a vez dele. Encostado em profunda humanidade, imergindo na água dos pecadores, na água suja do rio Jordão, abriu para nós o caminho da humanidade. E nos diz, talvez, a coisa mais importante: que devíamos ser humanos, para não nos afastar de Deus. Muita gente pensa que, para aproximar-se de Deus, deve deixar de ser humano. Não! Quanto mais ético, quanto mais comprometido, quanto mais pai, quanto mais mãe, quanto mais filho, quanto melhor profissional e bom trabalhador, mais divinos somos.

Seremos divinos, destacando-nos no humano, imergindo-nos no humano. Jesus não se fez Deus, porque o Espírito Santo falou, porque a Voz falou. Nós é que estamos agarrados a isso, que é o mais secundário no batismo. O mais importante é Jesus na fila dos pecadores, experimentando a humanidade, sentindo nossas fraquezas, para que pudéssemos imergir na água que nos diviniza. Amém.

Pe. João Batista Libânio, sj - Um outro olhar, vol. 6