PESQUISAR TEMAS E ARQUIVOS DO BLOG

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Solenidade da Sagrada Família


A família é lugar de contradições - Pe. João Batista Libânio

13 Depois que os magos partiram, o Anjo do Senhor apareceu em sonho a José e lhe disse: ‘Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito! Fica lá até que eu te avise! Porque Herodes vai procurar o menino para matá-lo.’ 14José levantou-se de noite, pegou o menino e sua mãe, e partiu para o Egito. 15Ali ficou até à morte de Herodes, para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta: ‘Do Egito chamei o meu Filho.’ 19Quando Herodes morreu, o anjo do Senhor apareceu em sonho a José, no Egito, 20e lhe disse: ‘Levanta-te, pega o menino e sua mãe, e volta para a terra de Israel; pois aqueles que procuravam matar o menino já estão mortos.’ 21José levantou-se, pegou o menino e sua mãe, entrou na terra de Israel. 22Mas, quando soube que Arquelau reinava na Judéia, no lugar de seu pai Herodes, teve medo de ir para lá. Por isso, depois de receber um aviso em sonho, José retirou-se para a região da Galiléia, 23e foi morar numa cidade chamada Nazaré. Isso aconteceu para se cumprir o que foi dito pelos profetas: Ele será chamado Nazareno.’

* 2,1-12: Jesus é o Rei Salvador prometido pelas Escrituras. Sua vinda, porém, desperta reações diferentes. Aqueles que conhecem as Escrituras, em vez de se alegrarem com a realização das promessas, ficam alarmados, vendo em Jesus uma séria ameaça para o seu próprio modo de viver. Outros, apenas guiados por um sinal, procuram Jesus e o acolhem como Rei Salvador. Não basta saber quem é o Messias; é preciso seguir os sinais da história que nos encaminham para reconhecê-lo e aceitá-lo. A cena mostra o destino de Jesus: rejeitado e morto pelas autoridades do seu próprio povo, é aceito pelos pagãos.

* 13-23: O lugar da Terra Prometida tornou-se novo Egito, lugar de opressão. Mateus apresenta o significado da vida e ação de Jesus: ele será o novo Moisés. Vai liderar o processo de libertação das estruturas que oprimem e escravizam, simbolizadas pela Judéia e Jerusalém. A Galiléia, terra dos pagãos, será o ponto de partida para esse novo êxodo que Jesus realiza através do seu ensinamento e atividade.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

A família é lugar de contradições - Pe. João Batista Libânio, sj

Para celebrar a festa da Sagrada Família, a liturgia escolheu esse evangelho, bastante conflituoso. Ao invés de momentos felizes, fala de momentos difíceis, quando Jesus vivia com Maria e José, quando tiveram que fugir à noite, eram perseguidos e ameaçados de morte. É que a família é uma das realidades que carrega mais tensões, paradoxos e contradições dentro de si.

É muito interessante pensarmos cultural, existencial e estatisticamente nas famílias. Quando os poetas e romancistas escrevem, a família é tecida com palavras bonitas, coloridas, em poesias para serem lidas pelas crianças nos dias de pais e de mães, todas azuis e cor-de-rosa. Ficamos pensando que a família é isto: lugar de paz, amor, repouso, serenidade, aconchego. É um desejo e um sonho. Mas, quando tomamos conhecimento da realidade, estudamos um pouco, ficamos sabendo, por exemplo, que a maioria dos crimes violentos são cometidos dentro das famílias, que muitos assassinatos acontecem entre pessoas que têm relacionamentos íntimos, percebemos a dor e o sofrimento que dilaceram tantas delas. Aqui mesmo, em Vespasiano – não foi na Coreia do Norte, não – ouvi de uma criança que o seu pai não a amava. Ela me disse isso e desatou a chorar.

A família é o lugar dos maiores amores, das maiores alegrias, mas também dos maiores sofrimentos, das maiores dores e problemas. Essa é a realidade real mais forte que se impõe em nossa vida.

A liturgia nos apresenta um exemplo de Maria, José e Jesus vivendo um grande problema. Os conflitos não pouparam a família de Jesus, a começar do nascimento. Ele nasceu durante uma viagem, em meio a desconforto. Logo depois do nascimento, foram obrigados a fugir. Um pouco mais tarde, o Menino se perde dos pais. Maria não foi aquela mãezinha bonitinha que fazia cachinhos no cabelo louro do Menino, mas uma mulher preocupada e pobre, tendo que se adaptar a um Filho original, surpreendente mesmo. O próprio evangelho afirma que os parentes chegaram a considerá-lo louco. A família não foi lugar de serenidade, nem mesmo para Jesus. Tudo isso para nos mostrar que qualquer família está sujeita ao sofrimento. Outro dia, uma pediatra me disse algo que me impressionou. Ela tratava de duas crianças numa UTI, com a mesma gravidade.

Para ambas, usava o mesmo tratamento, a mesma terapia, e, enquanto uma renasceu, a outra morreu. Ela me dizia que a reação da criança se devia à presença afetiva e amorosa da mãe, que cuidou e envolveu o seu filho em imensa ternura. Parece que, assim, ela se recarrega de energia e consegue vencer até doenças graves.

Num dos natais mais antigos, João XXIII (*), um papa muito querido, do qual os mais velhos devem se lembrar, quis comemorar a sua ceia de natal entre os presos, num famoso presídio de Roma. Depois de todas as pompas preparadas para receber o papa na prisão, ele fez questão de servir pessoalmente a cada preso. Tocado pela emoção, disse-lhes que ele poderia ser como cada um deles, mas agradecia a Deus por ter tido uma mãe e um pai e, por isso, não estar ali.

Tudo isso me leva a pensar muito mais seriamente na família. Precisamos pensar nela como lugar de dificuldade, trabalho e, sobretudo, de um esforço gigantesco de se criar um ambiente de cuidado, pois, se não cuidarmos da família, será um desastre. E cuidado significa olhar para o outro, sentir seus desejos, necessidades, carências, buscas, sentimentos e se colocar a serviço da família.

Nesse dia, eu queria falar apenas para vocês, pais. Preocupa-me muito, doi-me muito ver a realidade da família aqui no Brasil. Se saíssemos agora e fôssemos visitar um presídio, encontraríamos homens e mulheres que, certamente, cometeram crimes bárbaros. Fiquem sabendo que aquele criminoso ou criminosa começou a surgir nos primeiros meses de vida, quando, ainda uma criança, toda pura, foi envolvida pelo descaso, pela perversidade, pelo mal de um pai e de uma mãe. Sempre digo isso aos pais quando celebro batizados. Saibam que, para o bem ou para o mal, a personalidade começa a ser gestada nos primeiros meses da infância. Li, num jornal, a história de uma mãe que, diante de um boletim com três ou quatro notas vermelhas de seu filho, se armou para conversar com a professora. Imaginem uma criança que tem uma mãe dessas, munida de raiva, ódio, capaz de cometer crimes! A criança introjeta essa cena.

Pai e mãe são aqueles que amam! Se não amam, se não cuidam, não são pais, e a criança será órfã de pais vivos. A biologia é muito pobre, é animal. Procriar, os animais também o fazem. O que nos distingue, nos separa do animal é que nós amamos. Pais e mães, se quiserem ser felizes e ver seus filhos felizes, amem e cuidem gratuitamente! Não forcem amor, não chantageiem, não comprem! Outra estatística alarmante que a gente lê é que, no dia do natal e aniversário, os pais separados são os que dão mais presentes, porque querem compensar a ausência com presentes. A criança não é boba! Ela intui e, ainda que não saiba formular, saberá que ali não há amor, mas há coisa, há culpa. Arranquem de vocês e de suas crianças toda e qualquer culpa, não passem para elas o complexo, pois isso inocula nelas a perversidade que poderá explodir na adolescência e na juventude.

Cuidem pelo olhar, pelo abraço, pela compreensão e paciência. Quantas mães carregam seus filhos nos braços e ficam olhando de lado?! Saibam que é pelo olhar da mãe que a criança estrutura sua psique, é pelo olhar que vai descobrindo que é amada, que existe e merece viver. Há mães que puxam a criancinha pela rua, como nem um cachorrinho merece ser puxado, sem sequer olharem para ela.

O que podem esperar dessa criança: que seja um anjo límpido e transparente, se não conheceu o cuidado e o amor nos primeiros anos de sua existência? E esse amor tem que ser gratuito. O filho deve ser amado por ele mesmo, precisa sentir que os pais o colocaram em primeiro lugar, que o amam como ele é. Assim ele crescerá e será melhor pela força do olhar, da presença e do testemunho.

Pais, nunca batam numa criança pequena! É terrível isso! O que uma criança pequena pode fazer que mereça uma surra? Dói-me ver uma criança espancada, sabendo que estará estragada, e logo será um adolescente que não poderá ser suportado, porque só conheceu a violência. Outra coisa fundamental, pais e mães: nunca alterem, nunca gritem entre si diante de um filho pequeno.

Se quiserem brigar, tranquem-se no quarto, estapeiem-se, puxem os cabelos, mas nunca diante de uma criança pequena. Um pai que chega bêbado, trocando os pés pelas mãos, quebrando coisas, agredindo a esposa, envenenando-se diante dos filhos, não poderá reclamar quando ele, já adolescente, entrar para o caminho de bebidas e drogas, pois esse caminho terá começado na infância.

A festa da família é importantíssima para perguntarmo-nos como estamos cuidando de nossas crianças, pois é com elas que começa tudo de bom e de mal. Qualquer psicologia mais elementar sabe que é nos primeiros anos que semeamos o que serão os adolescentes, jovens e adultos. As crianças precisam ser amadas e cuidadas pelo pai e pela mãe, pelo olhar, pelo tom de voz, pelo modo de falar, de acariciar. Deitem-se no chão, deixem de lado a maldita televisão, o onipresente celular, que afasta e impede o diálogo, a troca. Não deixem seus filhos de lado, sem um toque, uma palavra, um abraço, sentindo-se largados e desconhecidos! Que neste domingo de pais, mães, filhos e família, Deus nos dê sabedoria! Amém.

(30.12.07/Festa da Sagrada Família)