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sábado, 24 de dezembro de 2016

Liturgia: Voltar a Belém - José Antonio Pagola


Is 9, 1-6
Sl 95 (96)
Tt 2, 11-14
Lc 2, 1-14

1 Naqueles dias, o imperador Augusto publicou um decreto, ordenando o recenseamento em todo o império. 2 Esse primeiro recenseamento foi feito quando Quirino era governador da Síria. 3 Todos iam registrar-se, cada um na sua cidade natal. 4 José era da família e descendência de Davi. Subiu da cidade de Nazaré, na Galiléia, até à cidade de Davi, chamada Belém, na Judéia, 5 para registrar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. 6 Enquanto estavam em Belém, se completaram os dias para o parto, 7 e Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou, e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles dentro da casa.

8 Naquela região havia pastores, que passavam a noite nos campos, tomando conta do rebanho. 9 Um anjo do Senhor apareceu aos pastores; a glória do Senhor os envolveu em luz, e eles ficaram com muito medo. 10 Mas o anjo disse aos pastores: «Não tenham medo! Eu anuncio para vocês a Boa Notícia, que será uma grande alegria para todo o povo: 11 hoje, na cidade de Davi, nasceu para vocês um Salvador, que é o Messias, o Senhor. 12 Isto lhes servirá de sinal: vocês encontrarão um recém-nascido, envolto em faixas e deitado na manjedoura.» 13 De repente, juntou-se ao anjo uma grande multidão de anjos. Cantavam louvores a Deus, dizendo: 14 «Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados.»

Voltar a Belém – José Antonio Pagola

Em meio a congratulações e presentes, entre ceias e barulho, quase oculto por luzes, árvores e estrelas, é ainda possível entrever no centro das festas natalinas "um menino deitado numa manjedoura". A mesma coisa acontece no relato de Belém. Há luzes, anjos e cantos, mas o centro dessa cena grandiosa é ocupado por um menino numa manjedoura.

O evangelista narra o nascimento do Messias com uma sobriedade surpreendente. Para Maria "chegou o momento do parto e ela deu à luz seu filho". Nenhuma palavra a mais. O que realmente parece interessante é a maneira como o menino é acolhido. Enquanto em Belém "não há lugar" nem sequer na hospedaria, em Maria Ele encontra uma acolhida comovente. A mãe não tem meios materiais, mas tem coração: "Envolveu-o em panos e deitou-o numa manjedoura"

O leitor não pode continuar o relato sem expressar sua primeira surpresa: neste menino encarna-se Deus? Nunca o teríamos imaginado assim. Nós pensamos num Deus majestoso e onipotente, e Ele se nos apresenta na fragilidade de um menino fraco e indefeso. Imaginamo-lo grande e longínquo, e Ele se nos apresenta na ternura de um recém-nascido. Como sentir medo deste Deus? Teresa de Lisieux, declarada doutora da Igreja em 1997, dizia assim: "Não posso temer um Deus que se fez tão pequeno por mim. [ ... ] Eu o amo!"

O relato oferece uma chave para aproximar-nos do mistério desse Deus. Lucas chega a insistir três vezes na importância da "manjedoura". É como que urna obsessão. Maria o deita numa manjedoura. Aos pastores se dá outro sinal: encontrá-lo-ão numa manjedoura. Efetivamente, encontram-no na manjedoura ao chegar a Belém. A manjedoura é o primeiro lugar da terra onde descansa esse Deus feito criança. Essa manjedoura é o sinal para reconhecê-lo, o lugar onde é preciso encontrá-lo. O que se esconde por trás desse enigma?

Lucas está aludindo a algumas palavras do profeta Isaías, nas quais Deus se queixa assim: "O boi conhece seu dono; o asno conhece a manjedoura de seu dono. Mas Israel não me conhece, não pensa em mim" (Is 1,3). Deus não deve ser procurado no admirável e maravilhoso, mas no ordinário e cotidiano. Não se deve investigar no grande, mas rastrear no pequeno.

Os pastores nos mostram em que direção procurar o mistério do Natal: "Vamos a Belém". Mudemos nossa ideia de Deus. Façamos uma releitura de nosso cristianismo. Voltemos ao início e descubramos um Deus próximo e pobre. Acolhamos sua ternura. Para o cristão, celebrar o Natal é "retornar a Belém”.

José Antonio Pagola - Caminho aberto por Jesus, “Vozes”.