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sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Solenidade da Sagrada Família


A família é lugar de contradições - Pe. João Batista Libânio

13 Depois que os magos partiram, o Anjo do Senhor apareceu em sonho a José e lhe disse: ‘Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito! Fica lá até que eu te avise! Porque Herodes vai procurar o menino para matá-lo.’ 14José levantou-se de noite, pegou o menino e sua mãe, e partiu para o Egito. 15Ali ficou até à morte de Herodes, para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta: ‘Do Egito chamei o meu Filho.’ 19Quando Herodes morreu, o anjo do Senhor apareceu em sonho a José, no Egito, 20e lhe disse: ‘Levanta-te, pega o menino e sua mãe, e volta para a terra de Israel; pois aqueles que procuravam matar o menino já estão mortos.’ 21José levantou-se, pegou o menino e sua mãe, entrou na terra de Israel. 22Mas, quando soube que Arquelau reinava na Judéia, no lugar de seu pai Herodes, teve medo de ir para lá. Por isso, depois de receber um aviso em sonho, José retirou-se para a região da Galiléia, 23e foi morar numa cidade chamada Nazaré. Isso aconteceu para se cumprir o que foi dito pelos profetas: Ele será chamado Nazareno.’

* 2,1-12: Jesus é o Rei Salvador prometido pelas Escrituras. Sua vinda, porém, desperta reações diferentes. Aqueles que conhecem as Escrituras, em vez de se alegrarem com a realização das promessas, ficam alarmados, vendo em Jesus uma séria ameaça para o seu próprio modo de viver. Outros, apenas guiados por um sinal, procuram Jesus e o acolhem como Rei Salvador. Não basta saber quem é o Messias; é preciso seguir os sinais da história que nos encaminham para reconhecê-lo e aceitá-lo. A cena mostra o destino de Jesus: rejeitado e morto pelas autoridades do seu próprio povo, é aceito pelos pagãos.

* 13-23: O lugar da Terra Prometida tornou-se novo Egito, lugar de opressão. Mateus apresenta o significado da vida e ação de Jesus: ele será o novo Moisés. Vai liderar o processo de libertação das estruturas que oprimem e escravizam, simbolizadas pela Judéia e Jerusalém. A Galiléia, terra dos pagãos, será o ponto de partida para esse novo êxodo que Jesus realiza através do seu ensinamento e atividade.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

A família é lugar de contradições - Pe. João Batista Libânio, sj

Para celebrar a festa da Sagrada Família, a liturgia escolheu esse evangelho, bastante conflituoso. Ao invés de momentos felizes, fala de momentos difíceis, quando Jesus vivia com Maria e José, quando tiveram que fugir à noite, eram perseguidos e ameaçados de morte. É que a família é uma das realidades que carrega mais tensões, paradoxos e contradições dentro de si.

É muito interessante pensarmos cultural, existencial e estatisticamente nas famílias. Quando os poetas e romancistas escrevem, a família é tecida com palavras bonitas, coloridas, em poesias para serem lidas pelas crianças nos dias de pais e de mães, todas azuis e cor-de-rosa. Ficamos pensando que a família é isto: lugar de paz, amor, repouso, serenidade, aconchego. É um desejo e um sonho. Mas, quando tomamos conhecimento da realidade, estudamos um pouco, ficamos sabendo, por exemplo, que a maioria dos crimes violentos são cometidos dentro das famílias, que muitos assassinatos acontecem entre pessoas que têm relacionamentos íntimos, percebemos a dor e o sofrimento que dilaceram tantas delas. Aqui mesmo, em Vespasiano – não foi na Coreia do Norte, não – ouvi de uma criança que o seu pai não a amava. Ela me disse isso e desatou a chorar.

A família é o lugar dos maiores amores, das maiores alegrias, mas também dos maiores sofrimentos, das maiores dores e problemas. Essa é a realidade real mais forte que se impõe em nossa vida.

A liturgia nos apresenta um exemplo de Maria, José e Jesus vivendo um grande problema. Os conflitos não pouparam a família de Jesus, a começar do nascimento. Ele nasceu durante uma viagem, em meio a desconforto. Logo depois do nascimento, foram obrigados a fugir. Um pouco mais tarde, o Menino se perde dos pais. Maria não foi aquela mãezinha bonitinha que fazia cachinhos no cabelo louro do Menino, mas uma mulher preocupada e pobre, tendo que se adaptar a um Filho original, surpreendente mesmo. O próprio evangelho afirma que os parentes chegaram a considerá-lo louco. A família não foi lugar de serenidade, nem mesmo para Jesus. Tudo isso para nos mostrar que qualquer família está sujeita ao sofrimento. Outro dia, uma pediatra me disse algo que me impressionou. Ela tratava de duas crianças numa UTI, com a mesma gravidade.

Para ambas, usava o mesmo tratamento, a mesma terapia, e, enquanto uma renasceu, a outra morreu. Ela me dizia que a reação da criança se devia à presença afetiva e amorosa da mãe, que cuidou e envolveu o seu filho em imensa ternura. Parece que, assim, ela se recarrega de energia e consegue vencer até doenças graves.

Num dos natais mais antigos, João XXIII (*), um papa muito querido, do qual os mais velhos devem se lembrar, quis comemorar a sua ceia de natal entre os presos, num famoso presídio de Roma. Depois de todas as pompas preparadas para receber o papa na prisão, ele fez questão de servir pessoalmente a cada preso. Tocado pela emoção, disse-lhes que ele poderia ser como cada um deles, mas agradecia a Deus por ter tido uma mãe e um pai e, por isso, não estar ali.

Tudo isso me leva a pensar muito mais seriamente na família. Precisamos pensar nela como lugar de dificuldade, trabalho e, sobretudo, de um esforço gigantesco de se criar um ambiente de cuidado, pois, se não cuidarmos da família, será um desastre. E cuidado significa olhar para o outro, sentir seus desejos, necessidades, carências, buscas, sentimentos e se colocar a serviço da família.

Nesse dia, eu queria falar apenas para vocês, pais. Preocupa-me muito, doi-me muito ver a realidade da família aqui no Brasil. Se saíssemos agora e fôssemos visitar um presídio, encontraríamos homens e mulheres que, certamente, cometeram crimes bárbaros. Fiquem sabendo que aquele criminoso ou criminosa começou a surgir nos primeiros meses de vida, quando, ainda uma criança, toda pura, foi envolvida pelo descaso, pela perversidade, pelo mal de um pai e de uma mãe. Sempre digo isso aos pais quando celebro batizados. Saibam que, para o bem ou para o mal, a personalidade começa a ser gestada nos primeiros meses da infância. Li, num jornal, a história de uma mãe que, diante de um boletim com três ou quatro notas vermelhas de seu filho, se armou para conversar com a professora. Imaginem uma criança que tem uma mãe dessas, munida de raiva, ódio, capaz de cometer crimes! A criança introjeta essa cena.

Pai e mãe são aqueles que amam! Se não amam, se não cuidam, não são pais, e a criança será órfã de pais vivos. A biologia é muito pobre, é animal. Procriar, os animais também o fazem. O que nos distingue, nos separa do animal é que nós amamos. Pais e mães, se quiserem ser felizes e ver seus filhos felizes, amem e cuidem gratuitamente! Não forcem amor, não chantageiem, não comprem! Outra estatística alarmante que a gente lê é que, no dia do natal e aniversário, os pais separados são os que dão mais presentes, porque querem compensar a ausência com presentes. A criança não é boba! Ela intui e, ainda que não saiba formular, saberá que ali não há amor, mas há coisa, há culpa. Arranquem de vocês e de suas crianças toda e qualquer culpa, não passem para elas o complexo, pois isso inocula nelas a perversidade que poderá explodir na adolescência e na juventude.

Cuidem pelo olhar, pelo abraço, pela compreensão e paciência. Quantas mães carregam seus filhos nos braços e ficam olhando de lado?! Saibam que é pelo olhar da mãe que a criança estrutura sua psique, é pelo olhar que vai descobrindo que é amada, que existe e merece viver. Há mães que puxam a criancinha pela rua, como nem um cachorrinho merece ser puxado, sem sequer olharem para ela.

O que podem esperar dessa criança: que seja um anjo límpido e transparente, se não conheceu o cuidado e o amor nos primeiros anos de sua existência? E esse amor tem que ser gratuito. O filho deve ser amado por ele mesmo, precisa sentir que os pais o colocaram em primeiro lugar, que o amam como ele é. Assim ele crescerá e será melhor pela força do olhar, da presença e do testemunho.

Pais, nunca batam numa criança pequena! É terrível isso! O que uma criança pequena pode fazer que mereça uma surra? Dói-me ver uma criança espancada, sabendo que estará estragada, e logo será um adolescente que não poderá ser suportado, porque só conheceu a violência. Outra coisa fundamental, pais e mães: nunca alterem, nunca gritem entre si diante de um filho pequeno.

Se quiserem brigar, tranquem-se no quarto, estapeiem-se, puxem os cabelos, mas nunca diante de uma criança pequena. Um pai que chega bêbado, trocando os pés pelas mãos, quebrando coisas, agredindo a esposa, envenenando-se diante dos filhos, não poderá reclamar quando ele, já adolescente, entrar para o caminho de bebidas e drogas, pois esse caminho terá começado na infância.

A festa da família é importantíssima para perguntarmo-nos como estamos cuidando de nossas crianças, pois é com elas que começa tudo de bom e de mal. Qualquer psicologia mais elementar sabe que é nos primeiros anos que semeamos o que serão os adolescentes, jovens e adultos. As crianças precisam ser amadas e cuidadas pelo pai e pela mãe, pelo olhar, pelo tom de voz, pelo modo de falar, de acariciar. Deitem-se no chão, deixem de lado a maldita televisão, o onipresente celular, que afasta e impede o diálogo, a troca. Não deixem seus filhos de lado, sem um toque, uma palavra, um abraço, sentindo-se largados e desconhecidos! Que neste domingo de pais, mães, filhos e família, Deus nos dê sabedoria! Amém.

(30.12.07/Festa da Sagrada Família)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Santo do dia: Santos inocentes


Somente a monstruosidade de uma mente assassina, cruel e desumana, poderia conceber o plano executado pelo sanguinário rei Herodes: eliminar todas os meninos nascidos no mesmo período do nascimento de Jesus para evitar que vivesse o rei dos judeus. Pois foi isso que esse tirano arquitetou e fez.

Impossível calcular o número de crianças arrancadas dos braços maternos e depois trucidadas. Todos esses pequeninos se tornaram os "santos inocentes", cultuados e venerados pelo Povo de Deus. Eles tiveram seu sangue derramado em nome de Cristo, sem nem mesmo poderem "confessar" sua crença.

Quem narrou para a história foi o apóstolo Mateus, em seu Evangelho. Os reis magos procuraram Herodes, perguntando onde poderiam encontrar o recém-nascido rei dos judeus para saudá-lo. O rei consultou, então, os sacerdotes e sábios do reino, obtendo a resposta de que ele teria nascido em Belém de Judá, Palestina.

Herodes, fingindo apoiar os magos em sua missão, pediu-lhes que, depois de encontrarem o "tal rei dos judeus", voltassem e lhe dessem notícias confirmando o fato e o local onde poderia ser encontrado, pois "também queria adorá-lo".

Claro que os reis do Oriente não traíram Jesus. Depois de visitá-lo na manjedoura, um anjo os visitou em sonho avisando que o Menino-Deus corria perigo de vida e que deveriam voltar para suas terras por outro caminho. O encontro com o rei Herodes devia ser evitado.

Eles ouviram e obedeceram. Mas o tirano, ao perceber que havia sido enganado, decretou a morte de todos os meninos com menos de dois anos de idade nascidos na região. O decreto foi executado à risca pelos soldados do seu exército.

A festa aos Santos Inocentes acontece desde o século IV. O culto foi confirmado pelo papa Pio V, agora santo, para marcar o cumprimento de uma das mais antigas profecias, revelada pelo profeta Jeremias: a de que "Raquel choraria a morte de seus filhos" quando o Messias chegasse.

Esses pequeninos inocentes de tenra idade, de alma pura, escreveram a primeira página do álbum de ouro dos mártires cristãos e mereceram a glória eterna, segundo a promessa de Jesus. A Igreja preferiu indicar a festa dos Santos Inocentes para o dia 28 de dezembro por ser uma data próxima à Natividade de Jesus, uma vez que tudo aconteceu após a visita dos reis magos. A escolha foi proposital, pois quis que os Santinhos Inocentes alegrassem, com sua presença, a manjedoura do Menino Jesus.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Santo do dia: São João Evangelista


João quer dizer “graça de Deus”, ou “em quem está a graça”, ou “ao qual foi dada a graça”, ou “aquele que recebeu um dom de Deus”. É muito difícil imaginar que esse autor do quarto evangelho e do Apocalipse tenha sido considerado inculto e não douto. Mas foi dessa forma que o sinédrio classificou João, o apóstolo e evangelista, conhecido como “o discípulo que Jesus amava”. Ele foi o único apóstolo que esteve com Jesus até a sua morte na cruz.

João, filho de Zebedeu e de Salomé, irmão de Tiago Maior, de profissão pescador, originário de Betsaida, como Pedro e André, ocupa um lugar de primeiro plano no elenco dos apóstolos. O autor do quarto Evangelho e do Apocalipse, será classificado pelo Sinédrio como indouto e inculto. No entanto, o leitor, mesmo que leia superficialmente os seus escritos, percebe não só o arrojo do pensamento, mas também a capacidade de revestir com criativas imagens literárias os sublimes pensamentos de Deus. A voz do juiz divino é como o mugido de muitas águas.

João é sempre o homem da elevação espiritual, mais inclinado à contemplação que à ação. É a águia que desde o primeiro bater das asas se eleva às vertiginosas alturas do mistério trinitário: “No princípio de tudo, aquele que é a Palavra já existia. Ele estava com Deus e ele mesmo era Deus.”

Ele está entre os mais íntimos de Jesus e nas horas mais solenes de sua vida João está perto. Está a seu lado na hora da ceia, durante o processo, e único entre os apóstolos, assiste à sua morte junto com Maria. Mas contrariamente a tudo o que possam fazer pensar as representações da arte, João não era um homem fantasioso e delicado. Bastaria o apelido humorista que o Mestre impôs a ele e a seu irmão Tiago: “Filhos do trovão” para nos indicar um temperamento vivaz e impulsivo, alheio a compromissos e hesitações, até aparecendo intolerante e cáustico.

No seu Evangelho designa a si mesmo simplesmente como “o discípulo a quem Jesus amava.” Também se não nos é dado indagar sobre o segredo desta inefável amizade, podemos adivinhar uma certa analogia entre a alma do Filho do homem e a do filho do trovão, pois Jesus veio à terra não só trazer a paz mas também o fogo. Após a ressurreição, João está quase constantemente ao lado de Pedro. Paulo, na epístola aos Gálatas, fala de Pedro, Tiago e João como colunas na Igreja.

No Apocalipse, João diz que foi perseguido e degredado para a ilha de Patmos “por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus Cristo”. Conforme uma tradição unânime ele viveu em Éfeso em companhia de Maria e sob o imperador Domiciano foi colocado dentro de uma caldeira com óleo a ferver, mas saiu ileso e, todavia, com a glória de ter dado testemunho. Depois do exílio de Patmos voltou definitivamente para Éfeso, onde exortava continuamente os fiéis ao amor fraterno, resultando em três cartas, acolhidas entre os textos sagrados, assim como o Apocalipse e o Evangelho. Morreu em Éfeso durante o império de Trajano (98-117), onde foi sepultado.

A vida se manifestou em nossa carne - Dos Tratados sobre a Primeira Carta de São João, de Santo Agostinho, bispo

O que era desde o princípio, o que nós ouvimos, o que vimos com os nossos olhos e as nossas mãos tocaram da Palavra da Vida (1Jo 1,1). Quem poderia tocar a Palavra com suas mãos, a não ser porque a Palavra se fez carne e habitou entre nós? (Jo 1,14).

A Palavra que se fez carne para ser tocada com as mãos, começou a ser carne no seio da Virgem Maria; mas não foi então que a Palavra começou a existir porque, diz João, ela era desde o princípio. Vede como sua Carta é confirmada pelas palavras do seu Evangelho, que acabais de escutar: No princípio era a Palavra, e a Palavra estava junto de Deus (Jo 1,1).

Alguns talvez julguem que a expressão Palavra da Vida designe de modo geral a Cristo e não o próprio Corpo de Cristo que foi tocado pelas mãos. Reparai no que vem em seguida: E a Vida manifestou-se (1Jo 1,2). Por conseguinte, Cristo é a Palavra da Vida.

E como se manifestou esta Vida? Ela existia desde o início, mas não tinha se manifestado aos homens; manifestara-se aos anjos que a contemplavam e se alimentavam dela como de seu pão. E o que diz a Escritura? O homem se nutriu do pão dos anjos (Sl 77,25).

Portanto, a Vida se manifestou na carne, para que, nesta manifestação, aquilo que só o coração podia ver, fosse visto também com os olhos, e desta forma curasse os corações. De fato, o Verbo só pode ser visto com o coração, ao passo que a carne pode ser vista também com os olhos corporais. Éramos capazes de ver a carne, mas não éramos capazes de ver a Palavra. Por isso, a Palavra se fez carne que nós podemos ver, para curar em nós o que nos torna capazes de vê-la.

E somos testemunhas, diz João, e vos anunciamos a Vida eterna, que estava junto do Pai e que se tornou visível para nós (1Jo 1,2), isto é, que se manifestou entre nós ou, falando mais claramente, nos foi manifestada.

Isso que vimos e ouvimos, nós vos anunciamos (1Jo 1,3). Prestai atenção: Isso que vimos e ouvimos, nós vos anunciamos. Eles viram o próprio Senhor presente na carne, ouviram da boca do Senhor suas palavras e no-las anunciaram. E nós ouvimos certamente, mas não vimos.

Somos, por isso, menos felizes do que eles que viram e ouviram? Por que então acrescenta: Para que estejais em comunhão conosco? (1Jo 1,3). Eles viram, nós não vimos e, contudo, estamos em comunhão com eles porque temos uma fé comum.

E a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo. Nós vos escrevemos estas coisas, diz João, para que a vossa alegria fique completa (1Jo 1,4). Essa alegria completa encontra-se na mesma comunhão, na mesma caridade, na mesma unidade.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Santo do dia: Santo Estêvão


Depois do Pentecostes, os apóstolos dirigiam o anúncio da mensagem cristã aos mais próximos, aos hebreus, aguçando o conflito apenas acalmado da parte das autoridades religiosas do judaísmo. Como Cristo, os apóstolos conheceram logo as humilhações dos flagelos e da prisão, mas apenas libertados das correntes retomam a pregação do Evangelho. A primeira comunidade cristã, para viver integralmente o preceito da caridade fraterna, colocou tudo em comum, repartindo diariamente o que era suficiente para o seu sustento. Com o crescimento da comunidade, os apóstolos confiaram o serviço da assistência diária a sete ministros da caridade, chamados diáconos.

Entre eles sobressaía o jovem Estêvão, que em grego quer dizer “coroa”, em hebraico “regra”. Ele foi a coroa, isto é, o líder dos mártires do novo testamento, assim como Abel foi do Antigo.

Estevão, além de exercer as funções de administrador dos bens comuns, não renunciava ao anúncio da Boa Nova, e o fez com tanto sucesso que os judeus “apareceram de surpresa, agarraram Estêvão e levaram-no ao tribunal. Apresentaram falsas testemunhas, que declararam: “Este homem não faz outra coisa senão falar contra o nosso santo templo e contra a Lei de Moisés. Nós até o ouvimos afirmar que esse Jesus de Nazaré vai destruir o templo e mudar as tradições que Moisés nos deixou”.

Estêvão, como se lê nos Atos dos Apóstolos, cheio de graça e de força, como pretexto de sua autodefesa, aproveitou para iluminar as mentes de seus adversários. Primeiro, resumiu a história hebraica de Abraão até Salomão, em seguida afirmou não ter falado contra Deus, nem contra Moisés, nem contra a Lei, nem fora do Templo. Demonstrou, de fato, que Deus se revelava também fora do Templo e se propunha a revelar a doutrina universal de Jesus como última manifestação de Deus, mas os seus adversários não o deixaram prosseguir no discurso, “taparam os ouvidos e atiraram-se todos contra ele, em altos gritos. Expulsaram-no da cidade e apedrejaram-no.”

Dobrando os joelhos debaixo de uma tremenda chuva de pedra, o primeiro mártir cristão repetiu as mesmas palavras de perdão pronunciadas por Cristo sobre a Cruz: “Senhor, não os condenes por causa deste pecado.”

Estêvão foi lapidado no ano da ascensão do Senhor, no começo do mês de agosto, na manhã do terceiro dia. Os santos Gamaliel e Nicodemos, que defendiam os cristãos em todos os conselhos dos judeus, sepultaram-no num terreno pertencente a Gamaliel e realizaram seus funerais com grande reverência. O bem-aventurado Estêvão era um dos principais cristãos de Jerusalém, e após sua morte começou uma onda de perseguição a eles que, excetuados os apóstolos, que eram os mais corajosos, os cristãos dispersaram-se por toda a província da Judeia, conforme o Senhor havia recomendado: “Se forem perseguidos numa cidade, fujam para outra”.

Em 415 a descoberta das suas relíquias suscitou grande emoção na cristandade. A festa do primeiro mártir foi sempre celebrada imediatamente após a festividade do Natal.

A oração e o perdão de Estêvão, o primeiro mártir

Ao ouvirem tais palavras, encheram-se intimamente de raiva e rangeram os dentes contra Estêvão. Mas este, cheio do Espírito Santo e de olhos fixos no Céu, viu a glória de Deus e Jesus de pé, à direita de Deus. «Olhai, disse ele, eu vejo o Céu aberto e o Filho do Homem de pé, à direita de Deus.» Eles, então, soltaram um grande grito e taparam os ouvidos; depois, à uma, atiraram-se a ele e, arrastando-o para fora da cidade, começaram a apedrejá-lo. As testemunhas depuseram as capas aos pés de um jovem chamado Saulo. E, enquanto o apedrejavam, Estêvão orava, dizendo: «Senhor Jesus, recebe o meu espírito.» Depois, posto de joelhos, bradou com voz forte: «Senhor, não lhes atribuas este pecado.» Dito isto, adormeceu. Saulo aprovava também essa morte. No mesmo dia, uma terrível perseguição caiu sobre a igreja de Jerusalém. À excepção dos Apóstolos, todos se dispersaram pelas terras da Judeia e da Samaria. Entretanto, homens piedosos sepultaram Estêvão e fizeram por ele grandes lamentações. Quanto a Saulo, devastava a Igreja: ia de casa em casa, arrastava homens e mulheres e entregava-os à prisão. Os que tinham sido dispersos foram de aldeia em aldeia, anunciando a palavra da Boa-Nova.
(Atos 7,54-8,4)


Estêvão é acusado de falar contra o Templo de Jerusalém e a Lei de Moisés (Atos 6, 13). Na sua defesa, começa por falar da longa história de Deus e do seu povo, falando depois das duas acusações. Relativamente ao Templo, explica que, de facto, desde o estabelecimento da Aliança no Monte Sinai, Deus escolheu permanecer com o seu povo e ordenou a Moisés que construísse um santuário móvel, a arca da aliança. Mais tarde, Salomão, filho de David, erige um templo em Jerusalém. Contudo, Estêvão cita textos bíblicos para provar que Deus permanece no céu e na terra, no universo inteiro. Sobre a Lei de Moisés, Estêvão vira a sua acusação contra os seus acusadores. Não são os que acreditam em Jesus que infringem a lei de Deus, mas sim os que o traíram e mataram.

Provavelmente, Estêvão não tinha intenção de concluir o seu discurso com o assassínio de Jesus. Nos Atos dos Apóstolos, a acusação «Mataram Jesus» é sempre seguida do anúncio da Boa Nova: «mas Deus ressuscitou-o!» Naquele momento, as palavras de Estêvão são de tal forma intoleráveis para os seus juízes que não o querem deixar terminar. No entanto, apesar da sua fúria, ele continua. Não está já a falar com eles. Já não está a argumentar. O Espírito Santo permite-lhe ver o invisível, e Estêvão é apenas uma testemunha. Vê Cristo Ressuscitado na glória de Deus e limita-se a confirmar o que vê. Então, os juízes fecham os seus ouvidos e começam a berrar para não ouvirem a blasfêmia de Estêvão.

O problema não está na visão dos céus que se abrem. Antes dele, profetas como Isaías e Ezequiel viram os céus abertos e a glória de Deus no seu templo celestial, um que não foi feito com mãos humanas. O que leva os juízes a acusarem Estêvão de blasfêmia é a sua alegação de que vê o homem Jesus em Deus. Como poderia um homem condenado e crucificado partilhar a glória de Deus? Tal significaria que há em Deus espaço para sofrimento e morte. Foi por compreender exatamente o que estava em causa que o futuro apóstolo Paulo, que ali estava presente, aprovou a morte de Estêvão. Se aquilo de que Estêvão dá testemunho é verdade – e, mais tarde, Paulo convencer-se-á de que sim – então, em Deus há «loucura» e «fraqueza» (1 Cor 1,25).

Estêvão vê que Jesus é um com Deus. A sua visão da unidade de Deus e Jesus dá forma e orienta a sua oração. As orações anteriomente mencionadas nos Atos dos Apóstolos são sempre dirigidas a Deus. Estêvão é a primeira pessoa a rezar a Jesus. Na cruz, Jesus dirigiu-se a Deus com um versículo do Salmo 31, adicionando a palavra Pai: «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.» Estêvão dirige a mesma oração a Jesus: «Senhor Jesus, recebe o meu espírito». Reza a Jesus da mesma forma que as pessoas rezam a Deus, não apenas devido ao que aprendeu sobre fé na Trindade, mas porque, ao olhar para Deus, vê Jesus.

A unidade de Cristo Ressuscitado com Deus na sua eterna Glória tem ainda uma outra consequência. Pela sua lealdade até à morte, Estêvão assemelha-se aos sete irmãos e sua mãe que foram mártires no tempo dos Macabeus dois séculos depois (2 Macabeus 7). Contudo, há uma diferença importante. Os sete irmãos pedem a Deus que lhes faça justiça e ameaçam o seu carrasco: «Mas não julgues que ficarás impune; (...) Não escaparás à mão de Deus.» (2 Macabeus 7,19.31). Estêvão reza «Senhor, não lhes atribuas este pecado!». Não pode pedir retribuição porque, olhando para Deus, vê Jesus, o Filho do homem crucificado. Não podem rezar a Deus sem que Jesus lhe apareça. Como poderia pedir a Jesus, que amou os seus inimigos, por retribuição e vingança?

A perseguição que inicia com o martírio de Estêvão não pode impedir que o Evangelho se espalhe. Pelo contrário, a Boa Nova ultrapassa fronteiras com os que precisam de fugir e estão dispersos.

- De que forma o modo como vemos Deus influencia a nossa oração?
- O que faz nascer e crescer o desejo de perdoar?
- Que momentos difíceis, na minha vida pessoal e na vida da Igreja ou da minha comunidade, se tornaram ocasiões para ultrapassar uma etapa ou ir mais longe?

Textos bíblicos com comentário, Taizé.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Liturgia: Voltar a Belém - José Antonio Pagola


Is 9, 1-6
Sl 95 (96)
Tt 2, 11-14
Lc 2, 1-14

1 Naqueles dias, o imperador Augusto publicou um decreto, ordenando o recenseamento em todo o império. 2 Esse primeiro recenseamento foi feito quando Quirino era governador da Síria. 3 Todos iam registrar-se, cada um na sua cidade natal. 4 José era da família e descendência de Davi. Subiu da cidade de Nazaré, na Galiléia, até à cidade de Davi, chamada Belém, na Judéia, 5 para registrar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. 6 Enquanto estavam em Belém, se completaram os dias para o parto, 7 e Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou, e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles dentro da casa.

8 Naquela região havia pastores, que passavam a noite nos campos, tomando conta do rebanho. 9 Um anjo do Senhor apareceu aos pastores; a glória do Senhor os envolveu em luz, e eles ficaram com muito medo. 10 Mas o anjo disse aos pastores: «Não tenham medo! Eu anuncio para vocês a Boa Notícia, que será uma grande alegria para todo o povo: 11 hoje, na cidade de Davi, nasceu para vocês um Salvador, que é o Messias, o Senhor. 12 Isto lhes servirá de sinal: vocês encontrarão um recém-nascido, envolto em faixas e deitado na manjedoura.» 13 De repente, juntou-se ao anjo uma grande multidão de anjos. Cantavam louvores a Deus, dizendo: 14 «Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados.»

Voltar a Belém – José Antonio Pagola

Em meio a congratulações e presentes, entre ceias e barulho, quase oculto por luzes, árvores e estrelas, é ainda possível entrever no centro das festas natalinas "um menino deitado numa manjedoura". A mesma coisa acontece no relato de Belém. Há luzes, anjos e cantos, mas o centro dessa cena grandiosa é ocupado por um menino numa manjedoura.

O evangelista narra o nascimento do Messias com uma sobriedade surpreendente. Para Maria "chegou o momento do parto e ela deu à luz seu filho". Nenhuma palavra a mais. O que realmente parece interessante é a maneira como o menino é acolhido. Enquanto em Belém "não há lugar" nem sequer na hospedaria, em Maria Ele encontra uma acolhida comovente. A mãe não tem meios materiais, mas tem coração: "Envolveu-o em panos e deitou-o numa manjedoura"

O leitor não pode continuar o relato sem expressar sua primeira surpresa: neste menino encarna-se Deus? Nunca o teríamos imaginado assim. Nós pensamos num Deus majestoso e onipotente, e Ele se nos apresenta na fragilidade de um menino fraco e indefeso. Imaginamo-lo grande e longínquo, e Ele se nos apresenta na ternura de um recém-nascido. Como sentir medo deste Deus? Teresa de Lisieux, declarada doutora da Igreja em 1997, dizia assim: "Não posso temer um Deus que se fez tão pequeno por mim. [ ... ] Eu o amo!"

O relato oferece uma chave para aproximar-nos do mistério desse Deus. Lucas chega a insistir três vezes na importância da "manjedoura". É como que urna obsessão. Maria o deita numa manjedoura. Aos pastores se dá outro sinal: encontrá-lo-ão numa manjedoura. Efetivamente, encontram-no na manjedoura ao chegar a Belém. A manjedoura é o primeiro lugar da terra onde descansa esse Deus feito criança. Essa manjedoura é o sinal para reconhecê-lo, o lugar onde é preciso encontrá-lo. O que se esconde por trás desse enigma?

Lucas está aludindo a algumas palavras do profeta Isaías, nas quais Deus se queixa assim: "O boi conhece seu dono; o asno conhece a manjedoura de seu dono. Mas Israel não me conhece, não pensa em mim" (Is 1,3). Deus não deve ser procurado no admirável e maravilhoso, mas no ordinário e cotidiano. Não se deve investigar no grande, mas rastrear no pequeno.

Os pastores nos mostram em que direção procurar o mistério do Natal: "Vamos a Belém". Mudemos nossa ideia de Deus. Façamos uma releitura de nosso cristianismo. Voltemos ao início e descubramos um Deus próximo e pobre. Acolhamos sua ternura. Para o cristão, celebrar o Natal é "retornar a Belém”.

José Antonio Pagola - Caminho aberto por Jesus, “Vozes”.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Santo do dia: Pedro Canísio


A catequese sempre exerceu um fascínio tão grande sobre Pedro Canísio que, quando tinha menos de treze anos, ele já reunia meninos e meninas à sua volta para ensinar passagens da Bíblia, orações e detalhes da doutrina da Igreja. Mais tarde, seria autor de um catecismo que, publicado pela primeira vez em 1554, teve mais de duzentas edições e foi traduzido em quinze línguas. Mas teve também grande atuação no campo teológico, combatendo os protestantes.

Peter Kanijs para os latinos, Pedro Canísio nasceu em 8 de maio 1521, no ducado de Geldern, atual Holanda. Ao contrário dos demais garotos, preferia os livros de oração às brincadeiras. Muito estudioso, com quinze anos seu pai o mandou estudar em Colônia e, com dezenove, recebeu o título de doutor em filosofia. Mas não aprendeu somente as ciências terrenas. Com um mestre profundamente católico, Pedro também mergulhou, prazerosamente, nos estudos da doutrina de Cristo, fazendo despertar a vocação que se adivinhava desde a infância.

No ano seguinte ao da sua formatura, os pais, que planejaram um belo futuro financeiro para a família, lhe arranjaram um bom casamento. Mas Pedro Canísio recusou. Não só recusou como aproveitou e fez voto eterno de castidade. Foi para Mainz, dedicar-se apenas ao estudo da religião. Orientado pelo padre Faber, célebre discípulo do futuro santo Inácio de Loyola, em 1543 ingressou na recém-fundada Companhia de Jesus. Três anos depois, ordenado padre jesuíta, recebeu a incumbência de voltar para Colônia e fundar uma nova Casa para a Ordem. Assim começou sua luta contra um cisma que abalou e dividiu a Igreja: o protestantismo.

Quando era professor de teologia em Colônia, sendo respeitado até pelo imperador, Pedro Canísio conseguiu a deposição do arcebispo local, que era abertamente favorável aos protestantes. Depois, participou do Concílio de Trento, representando o cardeal Oto de Augsburg. Pregou e combateu o cisma, ainda, em Roma e Messina, onde lecionou teologia. Mas teve de voltar à Alemanha, pois sua presença se fazia necessária em Viena, onde o protestantismo fazia enormes estragos.

Foi nesse período que sua luta incansável trouxe mais frutos e que também escreveu a maior parte de suas obras literárias. Fundou colégios católicos em Viena, Praga, Baviera, Colônia, Innsbruck e Dillingen. Foi nomeado pelo próprio fundador, Inácio de Loyola, provincial da Ordem para a Alemanha e a Áustria. Pregou em Strasburg, Friburg e até na Polônia, sempre denunciando os seguidores do sacerdote Lutero, pai do protestantismo.

Admirado pelos pontífices e governantes do seu tempo, respeitado como primeiro jesuíta de nacionalidade alemã, Pedro Canísio morreu em 21 de dezembro de 1597, em Friburg, atual Suíça, após cinqüenta e quatro anos de dedicação à Companhia de Jesus e à Igreja. Foi canonizado por Pio XI, em 1925, para ser festejado, no dia de sua morte, como são Pedro Canísio, doutor da Igreja, título que também recebeu nessa ocasião.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

4º domingo do Advento - O véu que cobre o mistério


4º domingo do Advento

1ª Leitura: Is 7,10-14
Sl 23
2ª Leitura: Rm 1,1-7
Evangelho: Mt 1, 18-24

* 18 A origem de Jesus, o Messias, foi assim: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José, e, antes de viverem juntos, ela ficou grávida pela ação do Espírito Santo. 19 José, seu marido, era justo. Não queria denunciar Maria, e pensava em deixá-la, sem ninguém saber. 20 Enquanto José pensava nisso, o Anjo do Senhor lhe apareceu em sonho, e disse: «José, filho de Davi, não tenha medo de receber Maria como esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo. 21 Ela dará à luz um filho, e você lhe dará o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados.»

22 Tudo isso aconteceu para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta: 23 «Vejam: a virgem conceberá, e dará à luz um filho. Ele será chamado pelo nome de Emanuel, que quer dizer: Deus está conosco.» 24 Quando acordou, José fez conforme o Anjo do Senhor havia mandado: levou Maria para casa.

* 18-25: Jesus não é apenas filho da história dos homens. É o próprio Filho de Deus, o Deus que está conosco. Ele inicia nova história, em que os homens serão salvos (Jesus = Deus salva) de tudo o que diminui ou destrói a vida e a liberdade (os pecados).

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

O véu que cobre o mistério – Pe. João Batista Libânio, sj

Propositalmente, a liturgia equilibra os textos. Colheu um texto do Antigo Testamento, lá do tempo de Isaías, que falava de uma jovem que seria mãe de um futuro rei, que ajudaria Israel a enfrentar os adversários – esse, o fato histórico. Aquilo foi só um aviso, uma espécie de antecipação. Aquela moça simbolizava uma outra, que Isaías não podia saber quem era naquele momento, mas que depois Mateus saberia: Maria, a esposa de José. Quando lemos, as leituras parecem óbvias, simples, diretas, imediatas, claras, transparentes, lúcidas, tratando da coisa mais corriqueira, mas encerram um mistério muito grande.

Os judeus apenas conheciam o lado humano de Jesus: viam aquele Homem que tinha todas as necessidades de um ser humano, foi criança como qualquer outra. Era muito difícil para o povo de Israel entender que ali havia um mistério maior. Mateus quer nos dizer alguma coisa muito profunda: esse Homem tem duas faces. A primeira é a que estão vendo: nasceu de uma mulher, era humano como nós, participaria de nossa humanidade, mas nele haveria um mistério que, unicamente na fé, poderíamos descobrir. O grande mistério é que há uma presença única, original no surgimento desse Jesus. Toda a grandeza de Jesus, que será descoberta lentamente na vida pública e, sobretudo, na ressurreição.

Quando a genética pretende decodificar o genoma, quer conhecer, já naquele nucleozinho, todo o itinerário físico, corpóreo da pessoa. Essa é a grande pretensão do ser humano. De uma maneira teológica, é isto que Mateus nos diz: na origem dessa criança, já está a totalidade de Deus, não apenas o biológico, que é muito pouco. No início dessa criança já está o infinito! No genoma teológico de Jesus, estava escrito que Ele era o Filho de Deus que seria revelado. José aceitou ser o véu que cobriria esse mistério.

Para mim, a grande imagem de José é o véu que cobre o mistério, que eu comparo com uma mulher grávida: um mistério maravilhoso de vida que está sendo gestada no corpo de uma mulher! O marido é o véu que cobre um mistério, que só irá se manifestar nove meses depois. Durante nove meses, aquele homem fica olhando, observando a barriga crescer, a criança já dando seus pequenos sinais e se perguntando: o que irá sair, como irá nascer, como será dez, vinte anos depois? Já depois de nascida, aquela criança saía com Maria e com José, e todos achavam que era filho do casal. Passam os anos, e ninguém se dá conta. O véu continuava cobrindo o mistério daquela criança. Ela cresce e começa a pregar.
Não pensem que eles viam Jesus como o vemos hoje. Pensavam-no como profeta, interessante, até fazia milagres, como muitos outros naquela época. Ninguém podia imaginar o mistério coberto até a morte e ressurreição. Só aí o mistério se abre; só aí os apóstolos, que viveram ao seu lado, entenderam alguma coisa. E nós, dois mil anos depois, ainda estamos procurando entender esse mistério, que José cobriu como um véu. Quantas vezes, em nossas vidas, fomos chamados para cobrir o mistério?! Penso numa mãe que tem um filho num presídio. Ela não o rejeitará, mas o cobrirá com o véu do amor. É criminoso, está condenado, mas ela não o condenará. Será sempre sangue do seu sangue, carne de sua carne.

As mães cobrem, com o véu do seu amor, tantos filhos que se perdem por aí afora. Cobrem também, com o véu do mistério, a beleza de seus filhos. O amor, a inteligência, o futuro são os véus com que os cobrimos onde quer que estejam. Todos nós somos chamados a ser José!
Imaginemos que alguém hoje chegue aqui e nos pergunte se estamos contentes com a situação política e econômica que temos, com a honestidade maravilhosa que nos é exibida. Aparece um profeta (*), e nos pede que olhemos para o rio. Ele irá nos dizer alguma coisa daqui a alguns anos. Esse rio se chama São Francisco. Talvez essas águas sejam jogadas em outro lugar para beneficiar megainvestidores. O rio é essa criança da qual Isaías falou, talvez o grande profeta de amanhã. Alguém já disse, e quem viver verá!

O evangelho de hoje é de um pudor, de uma beleza, de uma delicadeza enormes. Guardemos a grandeza desse homem, que no silêncio acompanhou Maria, deixando que o mistério de Jesus fosse desvelado lentamente, o grande mistério que José e Maria guardaram no profundo de seus corações. Amém. (23.12.07/4º. domingo do Advento)

(*) referência a Dom Luiz Flávio Cappio, bispo de Barra (BA), que protestava contra o projeto de transposição do Rio São Francisco, através de greve de fome.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Papa: "Cristãos têm esperança mesmo quando tudo parece perdido"


Cidade do Vaticano – Quarta-feira, 14 de dezembro, o Papa recebeu os fiéis para a Audiência Geral na Sala Paulo VI e fez a todos uma catequese centrada no livro de Isaías. Cerca de 6 mil pessoas participaram do encontro.

Nesta leitura do Advento, o profeta narra o convite feito a Jerusalém para que desperte e vista sua roupa de festa, porque o Senhor veio para libertar o seu povo, e acrescenta: “Meu povo ficará sabendo o meu nome: ‘Aqui a teu lado eu estou!’”.

Israel pode reencontrar a fé

Francisco explicou que esta expressão dita por Deus resume toda a vontade de salvação, pois, liberada do exílio, Israel pode reencontrar Deus e na fé, reencontrar-se a si mesma. Em seguida, o profeta insere um canto de exaltação:

“Que beleza, pelas montanhas, os passos de quem traz boas-novas, que vem anunciar a felicidade, noticiar a salvação, dizendo a Sião:

“Teu Deus começou a reinar!”

“Vamos explodir de alegria, ruínas de Jerusalém, pois o Senhor consolou o seu povo, recuperou a liberdade para Jerusalém!”

“O Senhor arregaçou as mangas de seu braço santo, enfrentando todos os povos.

E, assim, os confins da terra hão de ver a salvação que vem do nosso Deus”.

O mais importante são os rápidos passos dos mensageiro

Os versos de Isaías se referem ao milagre da paz, mas dão destaque especial aos passos velozes do mensageiro, para anunciar a libertação e a salvação, e proclamar que “Deus reina”: são estas as palavras da fé em um Senhor cuja potência se inclina sobre a humanidade para oferecer misericórdia e libertar o homem. E a realização deste imenso amor será precisamente o Reino instaurado por Jesus, o Reino de perdão e de paz que celebramos com o Natal e se realiza definitivamente na Páscoa.
O Papa afirmou que “são estes os motivos de nossa esperança”:

“Quando tudo parece acabado, quando nos vem a tentação de crer que nada mais tem sentido, surge a bela notícia trazida por aqueles passos velozes. Deus está vindo para realizar algo de novo, arregaçou as mangas e nos traz liberdade e consolação; o mal não triunfará para sempre, há um fim para a dor. O desespero foi vencido”.

Na conclusão do Pontífice, “nós também somos solicitados a levantarmos, atendendo ao convite do profeta, e a nos tornarmos homens e mulheres de esperança”.

A graça de Deus é maior do que o pecado. A improvisação do Papa

Improvisando, Francisco disse “como é feio o cristão que perde a esperança, que acha que tudo está terminado, que vê somente muros diante de si... Mas o Senhor abate os muros com o seu perdão”.
“A mensagem da Boa Nova é urgente, nós também devemos correr como o mensageiro, porque o mundo não pode esperar, a humanidade tem fome e sede de justiça, de verdade e de paz. Ao ver o Menino de Belém, as crianças do mundo podem saber que a promessa se cumpriu: naquele pequeno recém-nascido se encerra toda a potencia de Deus que salva. É preciso abrir o coração àquela pequenez e maravilha; é a maravilha do Natal, a que nos estamos preparando. É a surpresa de um Deus menino, de um Deus pobre, de um Deus frágil, de um Deus que abandona sua grandeza para se fazer próximo de cada um de nós”. 

Santo do dia: São João da Cruz


Seu nome de batismo era Juan de Yepes. Nasceu em Fontivaros, na província de Ávila, Espanha, em 1542, talvez em 24 de junho. Ainda na infância, ficou órfão de pai, Gonzalo de Yepes, descendente de uma família rica e tradicional de Toledo. Mas, devido ao casamento, foi deserdado da herança. A jovem, Catarina Alvarez, sua mãe, era de família humilde, considerada de classe "inferior". Assim, com a morte do marido, que a obrigou a trabalhar, mudou-se para Medina, com os filhos.

Naquela cidade, João tentou várias profissões. Foi ajudante num hospital, enquanto estudava gramática à noite num colégio jesuíta. Então, sua espiritualidade aflorou, levando-o a entrar na Ordem Carmelita, aos vinte e um anos. Foi enviado para a Universidade de Salamanca a fim de completar seus estudos de filosofia e teologia. Mesmo dedicando-se totalmente aos estudos, encontrava tempo para visitar doentes em hospitais ou em suas casas, prestando serviço como enfermeiro.

Ordenou-se sacerdote aos vinte e cinco anos, mudando o nome. Na época, pensou em procurar uma Ordem mais austera e rígida, por achar a Ordem Carmelita muito branda. Foi então que a futura santa Tereza de Ávila cruzou seu caminho. Com autorização para promover, na Espanha, a fundação de conventos reformados, ela também tinha carta branca dos superiores gerais para fazer o mesmo com conventos masculinos. Tamanho era seu entusiasmo que atraiu o sacerdote João da Cruz para esse trabalho. Ao invés de sair da Ordem, ele passou a trabalhar em sua reforma, recuperando os princípios e a disciplina.

João da Cruz encarregou-se de formar os noviços, assumindo o cargo de reitor de uma casa de formação e estudos, reformando, assim, vários conventos. Reformar uma Ordem, porém, é muito mais difícil que fundá-la, e João enfrentou dificuldades e sofrimentos incríveis, para muitos, insuportáveis. Chegou a ser preso por nove meses num convento que se opunha à reforma. Os escritos sobre sua vida dão conta de que abraçou a cruz dos sofrimentos e contrariedades com prazer, o que é só compreensível aos santos. Aliás, esse foi o aspecto da personalidade de João da Cruz que mais se evidenciou no fim de sua vida.

Conta-se que ele pedia, insistentemente, três coisas a Deus. Primeiro, dar-lhe forças para trabalhar e sofrer muito. Segundo, não deixá-lo sair desse mundo como superior de uma Ordem ou comunidade. Terceiro, e mais surpreendente, que o deixasse morrer desprezado e humilhado pelos seres humanos. Para ele, fazia parte de sua religiosidade mística enfrentar os sofrimentos da Paixão de Jesus, pois lhe proporcionava êxtases e visões. Seu misticismo era a inspiração para seus escritos, que foram muitos e o colocam ao lado de santa Tereza de Ávila, outra grande mística do seu tempo. Assim, foi atendido nos três pedidos.

Pouco antes de sua morte, João da Cruz teve graves dissabores por causa das incompreensões e calúnias. Foi exonerado de todos os cargos da comunidade, passando os últimos meses na solidão e no abandono. Faleceu após uma penosa doença, em 14 de dezembro de 1591, com apenas quarenta e nove anos de idade, no Convento de Ubeda, Espanha.

Deixou como legado sua volumosa obra escrita, de importante valor humanístico e teológico. E sua relevante e incansável participação como reformador da Ordem Carmelita Descalça. Foi canonizado em 1726 e teve sua festa marcada para o dia de sua morte. São João da Cruz foi proclamado doutor da Igreja em 1926, pelo papa Pio XI. Mais tarde, em 1952, foi declarado o padroeiro dos poetas espanhóis.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Santo do dia: Santa Luzia


Somente em 1894 o martírio da jovem Luzia, também chamada Lúcia, foi devidamente confirmado, quando se descobriu uma inscrição escrita em grego antigo sobre o seu sepulcro, em Siracusa, Nápoles. A inscrição trazia o nome da mártir e confirmava a tradição oral cristã sobre sua morte no início do século IV.

Mas a devoção à santa, cujo próprio nome está ligado à visão ("Luzia" deriva de "luz"), já era exaltada desde o século V. Além disso, o papa Gregório Magno, passado mais um século, a incluiu com todo respeito para ser citada no cânone da missa. Os milagres atribuídos à sua intercessão a transformaram numa das santas auxiliadoras da população, que a invocam, principalmente, nas orações para obter cura nas doenças dos olhos ou da cegueira.

Diz a antiga tradição oral que essa proteção, pedida a santa Luzia, se deve ao fato de que ela teria arrancado os próprios olhos, entregando-os ao carrasco, preferindo isso a renegar a fé em Cristo. A arte perpetuou seu ato extremo de fidelidade cristã através da pintura e da literatura. Foi enaltecida pelo magnífico escritor Dante Alighieri, na obra "A Divina Comédia", que atribuiu a santa Luzia a função da graça iluminadora. Assim, essa tradição se espalhou através dos séculos, ganhando o mundo inteiro, permanecendo até hoje.

Luzia pertencia a uma rica família napolitana de Siracusa. Sua mãe, Eutíquia, ao ficar viúva, prometeu dar a filha como esposa a um jovem da Corte local. Mas a moça havia feito voto de virgindade eterna e pediu que o matrimônio fosse adiado. Isso aconteceu porque uma terrível doença acometeu sua mãe. Luzia, então, conseguiu convencer Eutíquia a segui-la em peregrinação até o túmulo de santa Águeda ou Ágata. A mulher voltou curada da viagem e permitiu que a filha mantivesse sua castidade. Além disso, também consentiu que dividisse seu dote milionário com os pobres, como era seu desejo.

Entretanto quem não se conformou foi o ex-noivo. Cancelado o casamento, foi denunciar Luzia como cristã ao governador romano. Era o período da perseguição religiosa imposta pelo cruel imperador Diocleciano; assim, a jovem foi levada a julgamento. Como dava extrema importância à virgindade, o governante mandou que a carregassem à força a um prostíbulo, para servir à prostituição. Conta a tradição que, embora Luzia não movesse um dedo, nem dez homens juntos conseguiram levantá-la do chão. Foi, então, condenada a morrer ali mesmo. Os carrascos jogaram sobre seu corpo resina e azeite ferventes, mas ela continuava viva. Somente um golpe de espada em sua garganta conseguiu tirar-lhe a vida. Era o ano 304.

Para proteger as relíquias de santa Luzia dos invasores árabes muçulmanos, em 1039, um general bizantino as enviou para Constantinopla, atual território da Turquia. Elas voltaram ao Ocidente por obra de um rico veneziano, seu devoto, que pagou aos soldados da cruzada de 1204 para trazerem sua urna funerária. Santa Luzia é celebrada no dia 13 de dezembro e seu corpo está guardado na Catedral de Veneza, embora algumas pequenas relíquias tenham seguido para a igreja de Siracusa, que a venera no mês de maio também.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Oração do Angelus: Papa Francisco faz novo apelo pela Síria


“Não devemos esquecer que Aleppo é uma cidade, que ali se encontram pessoas: famílias, crianças, anciãos, pessoas enfermas... Infelizmente, nos acostumamos com a guerra, a destruição, mas não devemos esquecer que a Síria é um país repleto de história, de cultura, de fé. Não podemos aceitar que isso seja negado pela guerra, que é um cúmulo de arbitrariedades e de falsidades.”

“Apelo ao compromisso de todos, a fim de que seja feita uma escolha de civilidade: não à destruição, sim à paz, sim ao povo de Aleppo e da Síria”, acrescentou Francisco durante a Oração do Angelus deste domingo (11/12).

O pensamento do Santo Padre voltou-se também para os atentados que nas últimas horas atingiram vários lugares, entre os quais o Cairo, no Egito, onde um atentado numa igreja próxima da Catedral copta de São Marcos deixou dezenas de mortos e feridos.

“Rezemos também pelas vítimas de alguns ferozes ataques terroristas que nas últimas horas atingiram vários países. Os lugares são vários, mas, infelizmente, única é a violência que semeia morte e destruição, e única é também a resposta: fé em Deus e unidade nos valores humanos e civis.”

Francisco quis expressar sua particular proximidade ao Papa Tawadros II – Papa da Igreja copta ortodoxa e Patriarca de Alexandria, no Egito - e a sua comunidade, rezando pelos mortos e pelos feridos.

Alegrai-vos sempre no Senhor

Na alocução que precedeu a oração mariana, o Papa Francisco ressaltou que o terceiro Domingo do Advento é caracterizado pelo convite de São Paulo: “Alegrai-vos sempre no Senhor, repito-vos, alegrai-vos, o Senhor está próximo” (Fil 4,4-5).

“A alegria à qual nos exorta o Apóstolo não é uma alegria superficial ou puramente emotiva, e nem mesmo mundana ou a alegria do consumismo. Não, não é esta, mas se trata de uma alegria mais autêntica, da qual somos chamados a redescobrir o sabor. O sabor da verdadeira alegria.”

É uma alegria que toca o íntimo do nosso ser, continuou o Pontífice, “enquanto esperamos Jesus que veio trazer a salvação ao mundo, o Messias prometido, nascido em Belém, nascido da Virgem Maria”.

Referindo-se à liturgia dominical, o Papa disse-nos que esta nos dá o contexto adequado para compreender e viver esta alegria. A salvação é finalmente anunciada: “Sede fortes! – diz o profeta Isaías (35,4). “Eis que o vosso Deus vem para salvar-vos. E imediatamente tudo se transforma: o deserto floresce, a consolação e a alegria invadem os corações”.

Salvação trazida por Jesus alcança o ser humano em sua totalidade e o regenera

Estes sinais anunciados pelo Profeta como reveladores da salvação já presente, se realizam em Jesus, frisou o Santo Padre.

“Não são palavras, são fatos que demonstram como a salvação, trazida por Jesus, alcança o ser humano em sua totalidade e o regenera. Deus entrou na história para libertar-nos da escravidão do pecado; colocou sua tenda no meio de nós para partilhar a nossa existência, curar as nossas chagas, enfaixar nossas feridas e doar-nos a vida nova. A alegria é o fruto dessa intervenção de salvação e do amor de Deus.”

“Somos chamados a deixar-nos envolver pelo sentimento de júbilo. Este júbilo, esta alegria”, acrescentou Francisco fazendo uma oportuna e pertinente apreciação: “Um cristão que não é alegre, falta-lhe alguma coisa ou não é cristão. A alegria do coração, a alegria interior nos leva adiante e nos dá a coragem. O Senhor vem, vem em nossa vida como libertador, vem libertar-nos de todas as escravidões internas e externas.”

Reconhecer, nos mais fracos e necessitados, o Senhor que vem

O Papa lembrou ainda que o Natal está próximo, que os sinais de seu aproximar-se são evidentes em nossas ruas, em nossas casas, acrescentado que “estes sinais convidam-nos a acolher o Senhor que sempre vem e bate à nossa porta, bate em nosso coração, para vir próximo a nós, convidam-nos a reconhecer Seus passos entre aqueles irmãos que nos passam ao lado, especialmente os mais fracos e necessitados”.

Por fim, exortou-nos a partilhar esta alegria com os outros, dando conforto e esperança aos pobres, aos doentes, às pessoas sozinhas e infelizes.

PAPA SE ENCONTRA COM SEMINARISTAS

“Um sacerdote que se separa do povo não é capaz de dar a mensagem de Jesus.” Foi o que disse o Papa Francisco no discurso espontâneo feito no sábado (10/12) à comunidade do “Pontifício Seminário Romano Regional Pugliese Pio XI”, cujo texto integral foi publicado à noite pela Sala de Imprensa da Santa Sé.

Ao todo, mais de 300 pessoas recebidas pelo Santo Padre na Sala Clementina, no Vaticano, em sua maioria, seminaristas da referida região do sul da Itália. Tendo entregado o discurso preparado para a ocasião, o Pontífice falou sem texto.
Francisco pediu aos sacerdotes que estejam próximos do povo, que sejam pais, que deem ao povo as carícias de Jesus e que não tenham medo da pobreza, que “é mãe e muro”.

Tratou-se de um discurso intenso, espontâneo e exortativo. O Papa recomendou aos futuros presbíteros que sejam, antes de tudo, pais para os fiéis. E aludiu aos escândalos dos sacerdotes: “A imprensa compra bem aquelas notícias, paga bem por elas. Porque é assim: a regra do escândalo tem uma alta cotação na bolsa da mídia! Como formar um sacerdote a fim de que sua vida não seja um falimento, não desmorone? Só isso! Não, mais que isso! Para que sua vida seja fecunda. Sim, fecunda! Não somente para que seja um bom padre que segue todas as regras. Não, não. Que dê vida aos outros! Que seja pai de uma comunidade. Um sacerdote que não é pai não serve.”

Em seguida, recordou a história de tantos bravos párocos na Itália. “Olhem para seus pais na fé”, exortou Francisco, e peçam a graça da “memória eclesial”.

É preciso assumir a longa tradição de bravos sacerdotes, que a Igreja tem, levá-la adiante e deixá-la como herança: “Padres que recebem a paternidade dos outros e a dão aos outros”.

Sacerdotes sejam próximos do povo

E para entender o que significa ser próximo do Povo, Francisco falou de um pároco de uma pequena localidade, que conhecia o nome de cada paroquiano. “Proximidade com o povo”, como Jesus que se fez próximo “a ponto de assumir nossa carne”. Em seguida, fez referência ao que dissera antes o Reitor, que havia citado uma imagem em que o pé de Jesus impede que se feche a Porta da Misericórdia: “Um sacerdote que se separa do povo não é capaz de dar a mensagem de Jesus. Não é capaz de fazer as carícias de Jesus ao povo; não é capaz – e tomo a sua imagem – de colocar o pé para que a porta não se feche. Proximidade às pessoas. E proximidade significa paciência; significa gastar a vida, porque – falemos a verdade – o santo Povo de Deus cansa, cansa! Mas que bonito encontrar um sacerdote que termina o dia cansado e que não precisa de pastilhas para dormir bem!”

A pobreza protege o sacerdote: é mãe e muro

O Papa deteve-se em seu discurso sobre a pobreza, que é “mãe e muro” e protege. Por vezes se tem a paróquia e se quer outra coisa, quem sabe abrir uma escola. “Se você tem medo da pobreza, sua vocação está em perigo”, disse Francisco, porque “a pobreza será aquilo que fará sua doação ao Senhor crescer” e servirá de muro “para protegê-lo, porque a pobreza na vida consagrada, na vida dos sacerdotes, é mãe e muro”.

Quando um sacerdote se distancia do povo faz mal à Igreja. Não há outro caminho a não ser o da Encarnação: “As propostas gnósticas são muitas hoje, e um indivíduo pode ser um bom sacerdote, mas não católico, gnóstico, mas não católico. Não, não! Católico, encarnado, próximo, que sabe acariciar e sofrer com a carne de Jesus nos doentes, nas crianças, no povo, nos problemas, nos muitos problemas que nosso povo tem. Essa proximidade os ajudará muito, muito, muito!”

A coisa mais importante é estar com Jesus

Em seguida, Santo Padre exortou os sacerdotes a passar tempo diante do Tabernáculo: “Não deixar Jesus sozinho no Tabernáculo!”, exclamou, porque é Ele que dá a força, e “você deve ser para seu povo como Jesus”. Francisco ressaltou que a coisa mais importante é estar com Jesus: é Ele quem fará o resto: “Porque a Igreja não é uma Ong, e a pastoral não é um plano pastoral. Isso ajuda, é um instrumento; mas a pastoral é o diálogo, o colóquio contínuo – quer sacramental, quer catequético, quer de ensinamento – com o povo. Estar próximo do povo e dar aquilo que Jesus me diz. E a pastoral, quem a leva adiante? O Conselho pastoral da diocese? Não. Também este é um instrumento. O Espírito Santo a leva adiante.”

Portanto, no centro está o Espírito Santo. e o Pontífice exortou a saber distinguir as inspirações que vêm do Espírito Santo daquelas que, ao invés, são do outro espírito, o espírito maligno. E pediu para se refletir, na vida pastoral, sobre a “docilidade ao Espírito” e sobre o “zelo apostólico”.

Os quatro pilares na vida do seminarista

O Papa recordou os quatro pilares na vida do seminarista: a oração, a vida comunitária, a vida de estudo e a vida apostólica. Também o estudo é importante, porque o mundo não tolera o papelão de um sacerdote que não entende as coisas, ressaltou. Para Francisco, todos os quatro pilares são necessários na formação e se falta um deles, a formação não é equilibrada. Por fim, exortou-os, caso tivessem algum problema com o bispo, que o fizessem saber ao próprio por primeiro, e não aos outros nos mexericos: “Vocês jamais fofocam!” – ressaltou.

Irmã Bernadetta e o sacerdote que mantém o telefone no criado-mudo

Francisco havia iniciado seu discurso recordando a figura de uma Irmã, Bernadetta, que era “da região de vocês”, disse aos seminaristas da Puglia.

Na Argentina, contou o Papa, ela vivia próximo “da nossa casa de formação”. Como mestre de noviços e também como Provincial, quando havia algum problema com alguém, mandava a pessoa em questão falar com essa Irmã. “E ela, dois “bofetes espirituais” e a coisa se resolvia”, disse o Pontífice, que elogiou a “sabedoria das mulheres de Deus, mães”, “que sabem dizer as coisas que o Senhor quer que sejam ditas”.

Francisco rendeu homenagem a essa Irmã e a todas aquelas mulheres sábias que “consagram a vida ao Senhor” e que se fazem próximas na formação dos padres nos seminários”. Em seguida, concluiu seu discurso sobre a vida sacerdotal com um ícone, o do pároco que mantém o telefone no criado-mudo e que, se chamado, se levanta a qualquer hora da noite, para acorrer até um doente ou para dar os sacramentos:

“Este é o zelo apostólico, isto é consumir a vida no serviço aos outros. E no final o que nos resta? Que coisa? A alegria do serviço do Senhor!”

sábado, 10 de dezembro de 2016

3º domingo do Advento - Olhos e ouvidos expansivos


1ª Leitura: Is 35, 1-6a.10
Sl 145
2ª Leitura: Tg 5,7-10
Evangelho: Mt 11, 2-11

* 1 Quando Jesus terminou de dar essas instruções aos seus doze discípulos, partiu daí, a fim de ensinar e pregar nas cidades deles.

2 João estava na prisão. Quando ouviu falar das obras do Messias, enviou a ele alguns discípulos, 3 para lhe perguntarem: «És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?» 4 Jesus respondeu: «Voltem e contem a João o que vocês estão ouvindo e vendo: 5 os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciada a Boa Notícia. 6 E feliz aquele que não se escandaliza por causa de mim!»

* 7 Os discípulos de João partiram, e Jesus começou a falar às multidões a respeito de João: «O que é que vocês foram ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? 8 O que vocês foram ver? Um homem vestido com roupas finas? Mas aqueles que vestem roupas finas moram em palácios de reis. 9 Então, o que é que vocês foram ver? Um profeta? Eu lhes afirmo que sim: alguém que é mais do que um profeta. 10 É de João que a Escritura diz: ‘Eis que eu envio o meu mensageiro à tua frente; ele vai preparar o teu caminho diante de ti’. 11 Eu garanto a vocês: de todos os homens que já nasceram, nenhum é maior do que João Batista. No entanto, o menor no Reino do Céu é maior do que ele.

* 11,1-6: Será que Jesus é verdadeiramente o Messias esperado? A resposta não é dada em palavras, porque o messianismo não é simples ideia ou teoria. É uma atividade concreta que realiza o que se espera da era messiânica: a libertação dos pobres e oprimidos.

* 7-15: Nenhum homem do Antigo Testamento é maior do que João Batista. Entretanto, João pertence ao Antigo Testamento, onde as profecias são anunciadas, e não ao Novo Testamento, onde elas já se realizaram. O v. 12 é de difícil interpretação. Provavelmente, o evangelista quer mostrar que o Reino é vítima de violência, porque a velha estrutura injusta resiste para não ser destruída e reage violentamente. Essa violência dos que se opõem à vontade de Deus será experimentada pelo próprio Jesus em sua missão.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Advento: olhos e ouvidos expansivos - Pe. Adroaldo Palaoro

A vivência cristã depende da sensibilidade e enquanto esta sensibilidade não for evangelizada não podemos ter certeza de atuar evangelicamente na vida. É preciso “evangelizar os sentidos” para que eles encontrem seu lugar insubstituível na experiência de fé e poder reagir diante da realidade com uma sensibilidade nova, diferente, transformadora, convertida.

E só podemos descobrir o “lugar e o sentido” dos sentidos através do confronto com a “sensibilidade de Jesus”. O Advento é tempo favorável para expandir os sentidos e assim ser presença diferenciada e comprometida no contexto onde vivemos.

Vivemos numa cultura que nos assalta por todos os sentidos, através de técnicas minuciosamente estudadas para invadir-nos e instalar-se nas dimensões mais profundas de nossa afetividade, de tal maneira que vejamos e escutemos a realidade segundo seus próprios quereres e interesses. Com isso, os sentidos estão ficando atrofiados e nos lançamos desesperadamente em busca de compensações virtuais. Nossos medos estão impossibilitando os sentidos ocuparem o lugar que lhes corresponde em nossos comportamentos e atitudes.

Nossos ouvidos, assaltados pelos ruídos virtuais, se desconcertam ao descobrir o silêncio. Perdemos a sintonia dos sons naturais. É exagerado pedir que distingamos o cantar de um pássaro. A contemplação auditiva não registrada em aparatos eletrônicos nos parece uma perda de tempo. A visão que, sem dúvida, é o sentido por excelência e o mais estimulado, é, ao mesmo tempo, o mais manipulado e violentado pelo excesso de imagens virtuais. Nosso campo de visão é cada vez mais reduzido, unicamente ampliado pelas telas digitais.

Talvez a pior enfermidade que hoje padecemos seja a de ter perdido a capacidade de assombro e de agradecimento, ou seja, a capacidade de abertura aos outros e ao Outro. Talvez hoje, mais do que nunca, precisamos de uma ascese que purifique nossos sentidos de tantos estímulos que invadem nossa intimidade, nos intoxicam, nos aprisionam e deturpam nossa sensibilidade, impedindo-nos de perceber como “os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados” (vv. 5 e 6).

Somente mediante uma acolhida contemplativa do Evangelho podemos transfigurar nossos sentidos e converter nossa sensibilidade. À medida que vai se realizando esta conversão de nossa sensibilidade, nós nos fazemos capazes de estar presentes no mundo à maneira de Jesus de Nazaré, em sua terra e com sua gente.

Advento é tempo propício para reeducar os sentidos, de maneira a torná-los mais oblativos e expansivos.
Educar nossa sensibilidade “ao estilo de Jesus” implica empapar-nos de sua forma de ser e de sentir, de vibrar com tudo aquilo que lhe fazia vibrar, de rejeitar tudo aquilo que Ele rejeitava, e assim reagir frente à realidade e às pessoas do mesmo modo que Ele reagia. Buscando e desejando a identificação com Jesus, nossos sentidos aprendem d’Ele a ter ternura, visão, escuta, sabor...

O mestre de Nazaré desenvolveu a sensibilidade no seu sentido mais belo. Nele, ela se tornou mais do que uma característica de sua personalidade, mas uma arte poética. Era criativo, observador, detalhista, perspicaz, arguto, sutil. Destilava prazer nos pequenos eventos da vida e, ainda por cima, conseguia perceber os sentimentos mais ocultos naqueles que o cercavam. Conseguia ver encanto numa pobre viúva e perceber as emoções represadas numa prostituta. As dores e as necessidades dos outros mexiam com as raízes de seu ser. Conseguia mesclar a segurança com a docilidade, a ousadia com a simplicidade, a autoridade com a capacidade de apreciar os pequenos detalhes da vida. Por ser um exímio observador, o mestre da sensibilidade se tornou um excelente contador de histórias e parábolas.

Jesus não idealizou a realidade; Ele a contemplava como o Pai a contemplava, e se aproximava dela como o Pai mesmo se aproximava. Seu modo de olhar e sentir a realidade permitia-lhe captar a maneira de atuar do Pai, para poder unir-se a Ele em seu trabalho criador. “Meu Pai trabalha sempre, e eu também trabalho” (Jo 5,17). Com sua presença inspiradora e através de palavras e gestos compassivos Jesus trazia à luz a vida nova escondida e atrofiada entre os escombros da enfermidade e da exclusão. Ele revelava-se como Aquele que era o “Esperado”, Aquele que vinha aliviar o sofrimento humano, destravar a vida e abrir um horizonte de esperança aos pobres e doentes.

A contemplação e o seguimento de Jesus não nos transformam a fundo se não atravessa todas as camadas de nosso ser, começando pela nossa sensibilidade; em outras palavras, a transformação do coração exige uma renovação de nossa sensibilidade.

O(a) seguidor(a) de Jesus, com seus sentidos cristificados, não fugirá dos desafios e dos dramas da realidade, mas ali se revelará presente de maneira inspirada, buscando entrar em sintonia com Aquele que destrava todas as amarras que oprimem e desumanizam.

Olhar e escutar a partir de Jesus, olhar e escutar como Jesus, olhar e escutar a partir dos olhos daqueles que sofrem... essa é a dinâmica própria do tempo do Advento. Trata-se de um convite a iluminar nosso olhar e afinar nossos ouvidos, às vezes muito apagados pela mediocridade de nossa vida; outras vezes opacos pela falta de esperança em nossa capacidade de levar adiante a missão que Cristo nos confia.

O olhar e o escutar não são atitudes neutras, senão que há fatores que as limitam: o lugar a partir de onde se olha e se escuta condiciona o que se vê e o que se ouve. O olhar e o escutar estão, muitas vezes, marcados também pelas ideias e visões distorcidas que temos da realidade.

Jesus nos convida, no Evangelho de hoje (3º dom Advento), a fazer um exercício especial da visão e da audição; o que Ele nos pede é expandir os sentidos para entrar em sintonia com as pessoas que nos cercam, para perceber a Presença do Invisível, que se revela ao mundo como mistério e transparência.

Há um modo de ver, de ouvir, de sentir e de pensar que nos entorpece e nos isola em nosso pequeno mundo estreito e autocentrado, enquanto que há outro modo que nos abre e nos lança ao mundo, e que o vai revelando como presença e transparência de Deus. Os sentidos devem ser portas e janelas abertas que nos fazem viver na atitude de contínua “saída”.

Jesus insiste: quem não está desperto, quem não abre bem os olhos, quem não afina o ouvido..., o mistério divino lhe ficará oculto. No descobrir, no “ver” as pessoas às quais costumamos excluir de nosso campo visual cotidiano, começa o vislumbre, a visibilidade de Deus entre nós... É aí onde encontraremos sua pegada. É aí onde nos “esbarramos” n’Aquele que esperamos neste Advento.

Texto bíblico: Mt 11,2-11

Na oração: Os sentidos, cristificados na contemplação, nos impulsionam em direção ao outro e nos fazem acreditar na beleza e dignidade escondidas na fragilidade da condição humana.

- Mergulhar na realidade que nos cerca, por meio dos sentidos bem abertos e evangelizados, é deixar estremecer de vida divina a fragilidade de nossa condição humana.
- Na intimidade com Deus, ampliar bem os sentidos para tornar-se contemplativo no modo cotidiano de viver.

Pe. Adroaldo Palaoro sj


Confira o Caminhos do Evangelho, com Frei Gustavo Medella:

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Santo do dia: Nossa Senhora de Guadalupe


Como toda aparição de Nossa Senhora, a que é venerada hoje é emocionante também. Talvez esta seja uma das mais comoventes, pelo milagre operado no episódio e pela dúvida lançada por um bispo sobre sua aparição a um simples índio mexicano.

Tudo se passou em 1531, no México, quando os missionários espanhóis já haviam aprendido a língua dos indígenas. A fé se espalhava lentamente por essas terras mexicanas, cujos rituais astecas eram muito enraizados. O índio João Diogo havia se convertido e era devoto fervoroso da Virgem Maria. Assim, foi o escolhido para ser o portador de sua mensagem às nações indígenas. Nossa Senhora apareceu a ele várias vezes.

A primeira vez, quando o índio passava pela colina de Tepyac, próxima da Cidade do México, atual capital, a caminho da igreja. Maria lhe pediu que levasse uma mensagem ao bispo. Ela queria que naquele local fosse erguida uma capela em sua honra. Emocionado, o índio procurou o bispo, João de Zumárraga, e contou-lhe o ocorrido. Mas o sacerdote não deu muito crédito à sua narração, não dando resposta se iria, ou não, iniciar a construção.

Passados uns dias, Maria apareceu novamente a João Diogo, que desta vez procurou o bispo com lágrimas nos olhos, renovando o pedido. Nem as lágrimas comoveram o bispo, que exigiu do piedoso homem uma prova de que a ordem partia mesmo de Nossa Senhora.

Deu-se, então, o milagre. João Diogo caminhava em direção à capital por um caminho distante da colina onde, anteriormente, as duas visões aconteceram. O índio, aflito, ia à procura de um sacerdote que desse a unção dos enfermos a um tio seu, que agonizava. De repente, Maria apareceu à sua frente, numa visão belíssima. Tranqüilizou-o quanto à saúde do tio, pois avisou que naquele mesmo instante ele já estava curado. Quanto ao bispo, pediu a João Diogo que colhesse rosas no alto da colina e as entregasse ao religioso. João ficou surpreso com o pedido, porque a região era inóspita e a terra estéril, além de o país atravessar um rigoroso inverno. Mas obedeceu e, novamente surpreso, encontrou muitas rosas, recém-desabrochadas. João colocou-as no seu manto e, como a Senhora ordenara, foi entrega-las ao bispo como prova de sua presença.

E assim fez o fiel índio. Ao abrir o manto cheio de rosas, o bispo viu formar-se, impressa, uma linda imagem da Virgem, tal qual o índio a descrevera antes, mestiça. Espantado, o bispo seguiu João até a casa do tio moribundo e este já estava de pé, forte e saudável. Contou que Nossa Senhora "morena" lhe aparecera também, o teria curado e renovado o pedido. Queria um santuário na colina de Tepyac, onde sua imagem seria chamada de Santa Maria de Guadalupe. Mas não explicou o porquê do nome.

A fama do milagre se espalhou. Enquanto o templo era construído, o manto com a imagem impressa ficou guardado na capela do paço episcopal. Várias construções se sucederam na colina, ampliando templo após templo, pois as romarias e peregrinações só aumentaram com o passar dos anos e dos séculos.

O local se tornou um enorme santuário, que abriga a imagem de Nossa Senhora na famosa colina, e ainda se discute o significado da palavra Guadalupe. Nele, está guardado o manto de são João Diego, em perfeito estado, apesar de passados tantos séculos. Nossa Senhora de Guadalupe é a única a ser representada como mestiça, com o tom de pele semelhante ao das populações indígenas. Por isso o povo a chama, carinhosamente, de "La Morenita", quando a celebra no dia 12 de dezembro, data da última aparição.

Foi declarada padroeira das Américas, em 1945, pelo papa Pio XII. Em 1979, como extremado devoto mariano, o papa João Paulo II visitou o santuário e consagrou, solenemente, toda a América Latina a Nossa Senhora de Guadalupe.

Santo do dia: São Juan Diego Cuauhtlatoatzin


Os registros oficiais narram que Juan Diego nasceu em 1474 na Calpulli, ou melhor, no bairro de Tlayacac ao norte da atual Cidade do México. Era um índio nativo, que antes de ser batizado tinha o nome de Cuauhtlatoatzin, traduzido como "águia que fala" ou "aquele que fala como águia".

Era um índio pobre, pertencia à mais baixa casta do Império Azteca, sem ser, entretanto, um escravo. Dedicava-se ao difícil trabalho no campo e à fabricação de esteiras. Possuía um pedaço de terra, onde vivia feliz com a esposa, numa pequena casa, mas não tinha filhos.

Atraído pela doutrina dos padres franciscanos que chegaram ao México em 1524, se converteu e foi batizado, junto como sua esposa.

Receberam o nome cristão de João Diego e Maria Lúcia, respectivamente. Era um homem dedicado, religioso, que sempre se retirava para as orações contemplativas e penitências. Costumava caminhar de sua vila à Cidade do México, a quatorze milhas de distância, para aprender a Palavra de Cristo. Andava descalço e vestia, nas manhãs frias, uma roupa de tecido grosso de fibra de cactos como um manto, chamado tilma ou ayate, como todos de sua classe social.

A esposa, Maria Lúcia, ficou doente e faleceu em 1529. Ele, então, foi morar com seu tio, diminuindo a distância da igreja para nove milhas. Fazia esse percurso todo sábado e domingo, saindo bem cedo, antes do amanhecer. Durante uma de suas idas à igreja, no dia 9 de dezembro de 1531, por volta de três horas e meia, entre a vila e a montanha, ocorreu a primeira aparição de Nossa Senhora de Guadalupe, num lugar hoje chamado "Capela do Cerrinho", onde a Virgem Maria o chamou em sua língua nativa, nahuatl, dizendo: "Joãozinho, João Dieguito", "o mais humilde de meus filhos", "meu filho caçula", "meu queridinho".

A Virgem o encarregou de pedir ao bispo, o franciscano João de Zumárraga, para construir uma igreja no lugar da aparição. Como o bispo não se convenceu, ela sugeriu que João Diego insistisse. No dia seguinte, domingo, voltou a falar com o bispo, que pediu provas concretas sobre a aparição.

Na terça-feira, 12 de dezembro, João Diego estava indo à cidade quando a Virgem apareceu e o consolou. Em seguida, pediu que ele colhesse flores para ela no alto da colina de Tepeyac. Apesar do frio inverno, ele encontrou lindas flores, que colheu, colocou no seu manto e levou para Nossa Senhora. Ela disse que as entregasse ao bispo como prova da aparição. Diante do bispo, João Diego abriu sua túnica, as flores caíram e no tecido apareceu impressa a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe. Tinha, então, cinqüenta e sete anos.

Após o milagre de Guadalupe, foi morar numa sala ao lado da capela que acolheu a sagrada imagem, depois de ter passado seus negócios e propriedades ao seu tio. Dedicou o resto de sua vida propagando as aparições aos seus conterrâneos nativos, que se convertiam. Ele amou, profundamente, a santa eucaristia, e obteve uma especial permissão do bispo para receber a comunhão três vezes na semana, um acontecimento bastante raro naqueles dias.

João Diego faleceu no dia 30 de maio de 1548, aos setenta e quatro anos, de morte natural.

São João Paulo II, durante sua canonização em 2002, designou a festa litúrgica para 9 de dezembro, dia da primeira aparição, e louvou são João Diego, pela sua simples fé nutrida pelo catecismo, como um modelo de humildade para todos nós.

CANONIZAÇÃO DE JUAN DIEGO CUAUHTLATOATZIN - HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II

Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe, Cidade do México  - 31 de Julho de 2002

1. "Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado!" (Mt 11, 25-26).

Queridos Irmãos e Irmãs, estas palavras de Jesus no Evangelho deste dia constituem, para nós, um convite especial para louvar e dar graças a Deus pela dádiva do primeiro Santo indígena do Continente americano.

É com grande alegria que fiz a peregrinação até esta Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe, coração mariano do México e da América, para proclamar a santidade de Juan Diego Cuauhtlatoatzin, o índio simples e humilde que contemplou o rosto dócil e sereno da Virgem de Tepeyac, tão querido a todas as populações do México.

2. Agradeço as amáveis palavras que me foram dirigidas pelo Senhor Cardeal Norberto Rivera Carrera, Arcebispo da Cidade do México, assim como a calorosa hospitalidade dos homens e das mulheres desta Arquidiocese Primaz: dirijo-vos a todos a minha cordial saudação. Saúdo também com afeto o Senhor Cardeal Ernesto Corripio Ahumada, Arcebispo Emérito da Cidade do México, e os outros Purpurados, Bispos do México, da América, das Filipinas e de outras regiões do mundo. Agradeço igualmente, e de maneira particular, ao Senhor Presidente da República e às Autoridades civis a sua presença nesta celebração.

Hoje, dirijo uma saudação muito especial aos numerosos indígenas provenientes das diferentes regiões do País, representantes das diversas etnias que compõem a rica e multiforme realidade mexicana. O Papa manifesta-lhes a sua proximidade, o seu profundo respeito e admiração, enquanto os recebe fraternalmente em nome do Senhor.

3. Como era Juan Diego? Por que motivo Deus fixou o seu olhar nele? Como acabamos de escutar, o livro do Eclesiástico ensina-nos que somente "Deus é todo-poderoso e apenas os humildes o glorificam" (cf. 3, 19-20). Inclusivamente as palavras de São Paulo, também proclamadas durante esta celebração, iluminam esta maneira divina de realizar a salvação: "Deus escolheu aquilo que o mundo despreza [e que é insignificante]. Deste modo, nenhuma criatura se pode orgulhar na presença de Deus" (cf. 1 Cor 1, 28-29).

É comovedor ler as narrações guadalupanas, escritas com delicadeza e repletas de ternura. Nelas, a Virgem Maria, a escrava "que proclama a grandeza do Senhor" (Lc 1, 46), manifesta-se a Juan Diego como a Mãe do Deus verdadeiro. Ela entrega-lhe, como sinal, um ramalhete de rosas preciosas e ele, mostrando-as ao Bispo, descobre gravada no seu manto ("tilma") a imagem abençoada de Nossa Senhora.

"O acontecimento guadalupano como afirmaram os membros da Conferência Episcopal Mexicana significou o começo da evangelização, com uma vitalidade que ultrapassou qualquer expectativa. A mensagem de Cristo através da sua Mãe assumiu os elementos centrais da cultura indígena, purificou-os e atribuiu-lhes o definitivo sentido de salvação" (14 de Maio de 2002, n. 8). Desta maneira, Guadalupe e Juan Diego possuem um profundo sentido eclesial e missionário, e constituem um paradigma de evangelização perfeitamente inculturada.

4. Com o salmista, acabamos de recitar: "Do céu, o Senhor contempla e vê todos os homens" (Sl 33 [32], 13), professando uma vez mais a nossa fé em Deus, que não considera as diferenças de raça ou de cultura. Ao acolher a mensagem cristã, sem renunciar à sua identidade indígena, Juan Diego descobriu a profunda verdade da nova humanidade, em que todos são chamados a ser filhos de Deus em Cristo. Desta forma, facilitou o encontro fecundo de dois mundos e transformou-se num protagonista da nova identidade mexicana, intimamente vinculada a Nossa Senhora de Guadalupe, cujo rosto mestiço dá expressão da sua maternidade espiritual que abarca todos os mexicanos. Por isso, o testemunho da sua vida deve continuar a dar impulso à edificação da Nação mexicana, a promover a fraternidade entre todos os seus filhos e a favorecer cada vez mais a reconciliação do México com as suas origens, os seus valores e as suas tradições.

Esta nobre tarefa de edificar um México melhor, mais justo e mais solidário, exige a colaboração de todos. Em particular, hoje em dia é necessário apoiar os indígenas nas suas aspirações legítimas, respeitando e defendendo os valores autênticos de cada um dos grupos étnicos. O México tem necessidade dos seus indígenas e os seus indígenas precisam do México!

Amados Irmãos e Irmãs de todas as etnias do México e da América, ao exaltar neste dia a figura do índio Juan Diego, desejo expressar-vos a proximidade da Igreja e do Papa em relação a todos vós, enquanto vos abraço com amor e vos animo a ultrapassar com esperança as difíceis situações por que estais a passar.

5. Neste momento decisivo da história do México, tendo já passado o limiar do novo milênio, recomendo à valiosa intercessão de São Juan Diego as alegrias e as esperanças, os temores e as angústias do querido povo mexicano, que trago com muito afeto no íntimo do meu coração.

Ditoso Juan Diego, índio bondoso e cristão, em quem o povo simples sempre viu um homem santo! Nós te suplicamos que acompanhes a Igreja peregrina no México, para que seja cada dia mais evangelizadora e missionária. Encoraja os Bispos, sustenta os presbíteros, suscita novas e santas vocações, ajuda todas as pessoas que entregam a sua própria vida pela causa de Cristo e pela difusão do seu Reino.

Bem-aventurado Juan Diego, homem fiel e verdadeiro! Nós te recomendamos os nossos irmãos e as nossas irmãs leigos a fim de que, sentindo-se chamados à santidade, penetrem todos os âmbitos da vida social com o espírito evangélico. Abençoa as famílias, fortalece os esposos no seu matrimônio, apoia os desvelos dos pais, empenhados na educação cristã dos seus filhos. Olha com solicitude para a dor dos indivíduos que sofrem no corpo e no espírito, de quantos padecem em virtude da pobreza, da solidão, da marginalização ou da ignorância. Que todos, governantes e governados, trabalhem sempre em conformidade com as exigências da justiça e do respeito da dignidade de cada homem individualmente, para que desta forma a paz seja consolidada.

Amado Juan Diego, a "águia que fala"! Ensina-nos o caminho que conduz para a Virgem Morena de Tepeyac, para que Ela nos receba no íntimo do seu coração, dado que é a Mãe amorosa e misericordiosa que nos orienta para o Deus verdadeiro.

No final da celebração, antes de conceder a Bênção apostólica a todos os fiéis ali presentes, o Santo Padre disse:

Ao concluir esta Canonização de Juan Diego, desejo renovar a minha saudação a todos vós que nela pudestes participar, alguns nesta Basílica, outros nos arredores e muitos outros ainda através da rádio e da televisão. Agradeço de coração o afeto de todas as pessoas que encontrei pelas ruas que percorri. No novo Santo, encontrais o maravilhoso exemplo de um homem justo, de costumes rectos, leal filho da Igreja, dócil aos pastores, amante da Virgem e bom discípulo de Jesus. Ele seja um modelo para vós, que muito o amais, e oxalá interceda pelo México, a fim de que seja sempre fiel. Levai a todos quantos a mensagem desta celebração, além da saudação e do afeto do Papa a todos os mexicanos.