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sábado, 19 de novembro de 2016

Um Reino chamado amor - Solenidade de Cristo Rei


1ª Leitura: 2 Sm 5,1-3
Sl 121
2ª Leitura: Cl 1,12-20
Evangelho: Lc 23,35-43

35 O povo permanecia aí, olhando. Os chefes, porém, zombavam de Jesus, dizendo: «A outros ele salvou. Que salve a si mesmo, se é de fato o Messias de Deus, o Escolhido!» 36 Os soldados também caçoavam dele. Aproximavam-se, ofereciam-lhe vinagre, 37 e diziam: «Se tu és o rei dos judeus, salva a ti mesmo!» 38 Acima dele havia um letreiro: «Este é o Rei dos judeus.»

39 Um dos criminosos crucificados o insultava, dizendo: «Não és tu o Messias? Salva a ti mesmo e a nós também!» 40 Mas o outro o repreendeu, dizendo: «Nem você teme a Deus, sofrendo a mesma condenação? 41 Para nós é justo, porque estamos recebendo o que merecemos; mas ele não fez nada de mal.» 42 E acrescentou: «Jesus, lembra-te de mim, quando vieres em teu Reino.» 43 Jesus respondeu: «Eu lhe garanto: hoje mesmo você estará comigo no Paraíso.»

* 33-38: Jesus é crucificado como criminoso, entre criminosos. Por entre a curiosidade do povo e a caçoada dos chefes e soldados ecoa a palavra de perdão: os responsáveis pela morte de Jesus devem ser perdoados, porque não conhecem a gravidade e as conseqüências do próprio gesto. O letreiro da cruz, indicando a causa da condenação, proclama para todos a chegada da realeza que dá a vida.
* 39-43: No momento em que tudo parece perdido, Jesus se mostra portador da salvação. Ele anunciou a salvação aos pecadores, durante a sua vida; agora, na cruz, a oferece ao criminoso. Jesus não está sozinho na cruz. Acompanham-no todos aqueles que são condenados por uma sociedade que não aceita o projeto de Deus e que clamam: «Lembra-te de nós!»

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral
Um Reino chamado amor – Pe. João Batista Libânio, sj
Às vezes, a liturgia desconserta-nos. O nome dado à festa de hoje é Jesus Cristo, rei do universo. Foi criada no pontificado de Pio XI, um papa poderoso, que enfrentou o nazismo e o fascismo que crescia na Itália. De certa maneira, ele cria essa festa para opor-se aos regimes que propagavam o ateísmo no mundo, pregando contra Deus e a religião. O papa coloca Cristo, forte e poderoso, como rei do universo. Sendo assim, esperávamos uma liturgia que nos mostrasse um Cristo poderoso, descendo das nuvens cercado de anjos e arcanjos tocando trombetas em meio a tempestades, fogo e trovões. Mas, hoje a liturgia nos surpreende e toma um texto da paixão, justamente quando Ele está mais fraco, quando é menos rei, de acordo com os nossos conceitos. Não há nenhuma coroa, a não ser de espinhos; não há cetro, a não ser um pedaço de bambu que lhe puseram nas mãos; não há manto, a não ser sua pele ensanguentada; não há nenhum sinal das realezas mundanas de que ouvimos falar nas histórias dos faraós egípcios, dos césares romanos, até mesmo desses reis modernos, com todo o seu poder, suas carruagens, joias, pompas, súditos. Ele é rei de outra maneira, a ponto de as pessoas zombarem dele. Pilatos, num cinismo horroroso, mandou colocar no alto da cruz uma frase escrita em grego, hebraico e latim: “Este é o Rei dos Judeus”. Certamente, gargalhava, lá da Torre Antônia, poderoso, cercado de tropas, tendo nas mãos o destino daquele Homem crucificado. 

Parece que a liturgia quer trazer-nos para a história, para que a nossa fantasia não se perca num Cristo glorioso, lembrando-nos de que Ele não chegou lá de qualquer maneira. Todos nós queremos a glória, o poder, muitas vezes nos esquecendo dos caminhos que nos conduzem. A teologia atual insiste muito nesta frase: o Cristo glorificado é o mesmo Cristo crucificado. O Jesus da cruz, do sofrimento, da história, aquele que perdoava, curava, que olhou com ternura para a mulher pecadora, que acolheu as crianças, esse Jesus bem nosso, bem humano, bem sensibilidade, é o mesmo que hoje olhamos no céu, vestido de luz, de glória e poder. Só que o poder de Deus tem nome, ao contrário do poder dos homens aqui da Terra, que só pretendem fazer a própria vontade, dispondo-se das pessoas. Deus não tem súditos, pois o seu reinado se chama amor! Ele quer apenas que busquemos a plenitude de nós mesmos. Eu diria mesmo que Jesus é mais rei quanto menor, mais pobre, mais miserável é a pessoa. Ele é rei, primeiramente, para estas crianças, pois foi a elas que acolheu, abraçou, escandalizando os poderosos de sua época. Quando andava pela Palestina, encontrando toda espécie de pobres e miseráveis, era um rei andarilho, como nunca sequer podemos imaginar. Um rei sem carruagem, andando a pé, dormindo ao relento, sem ter casa ou moradia. Tiremos de nosso imaginário essas glórias vazias e voltemo-nos para a grandeza do reinado de Jesus, não para pararmos nele, mas nos perguntar como podemos ser reis e rainhas para os outros. Que sejamos reis e rainhas na busca do simplicidade, do carinho, da acolhida, da oferta gratuita da presença ao outro. Este é um reinado que todos nós podemos ter, no serviço, na entrega gratuita ao Senhor e ao próximo. 

O texto escolhido é finíssimo e eu não poderia deixar de comentar os detalhes. Precisamos de muita atenção para perceber. Lucas coloca ao lado de Jesus dois subversivos que, provavelmente, lutavam contra os desmandos do império romano, ainda que a tradição os chamem de ladrões. São três criminosos que se encontram, pois também Jesus era apresentado como tal. Foi condenado como herege, um excomungado pela religião judaica, alguém que se dizia rei não poderia estar junto de César e deveria morrer. Um desses criminosos significa a história que não entendeu Jesus, é aquele que chamamos impropriamente de mau ladrão. Ele representa a nossa incapacidade de penetrar o mistério de Jesus. 

Quantas vezes somos como esse mau ladrão, incapazes de entender o mistério do Senhor?! O outro também é como nós. Cada um de nós traz um pedaço de cada um deles. Aquele homem, que não fez nenhum curso de teologia, que, provavelmente, nunca teria se encontrado com Jesus, percebe nele alguma coisa diferente. Já pensaram nisso? Imaginem vocês, num presídio, encontrando-se com três criminosos condenados, e, entre eles, percebem um que tem algo diferente. Foi o que aconteceu com aquele bom ladrão. Ele o vê, fisicamente, como ele: criminoso, condenado à morte, um subversivo contra a ordem religiosa e romana. Mas, naquele pedaço de olhar que restara a Jesus, naquele rosto desfigurado que já não guardava nenhuma beleza, naquele corpo rijo pela perda total de sangue, ele consegue ver todo o bem que ele praticara. Diante daquela cena, ele interpela Jesus para que se lembrasse dele ao chegar ao paraíso. 

Será que algum dia teremos coragem de pedir a um bêbado, a um miserável, a uma pessoa desprezada, jogada numa sarjeta, que se lembre de nós? Aquele homem teve essa coragem e recebeu a resposta de que ainda hoje ele estaria no paraíso. Não o hoje do dia da morte, mas de cada dia. Todas as vezes em que pedirmos a um miserável que se lembre de nós junto ao Senhor, hoje, naquele momento, tocaremos o paraíso verdadeiro, não aquele das modas, da futilidade, da exterioridade, mas o paraíso de quem tem o olhar profundo, que consegue perceber que, mesmo nos corações mais miseráveis, existe o lampejo divino. 

Descobrir esse lampejo é descobrir o paraíso de Deus. Amém.