PESQUISAR TEMAS E ARQUIVOS DO BLOG

terça-feira, 1 de novembro de 2016

A morte, por Santo Alberto Hurtado


Meditação de retiro, sobre o significado cristão da morte

A vida do homem oscila entre dois pólos. A adoração de Deus ou a adoração do seu «eu»; o serviço de Deus ou a luta contra Deus. Para apreciar os verdadeiros valores em jogo nesta contenda, nada mais útil que meditar na morte, o que não quer dizer contemplação terrorística, mas, pelo contrário, visão de alento e esperança. Há duas maneiras de olhar a morte: uma puramente humana e outra cristã.

1. O conceito humano considera a morte como o grande despenhadeiro, o fim de tudo. É um conceito impregnado de tristeza (os filósofos estóicos suicidavam-se para serem plenamente donos do seu fim como queriam sê-lo da sua vida). Desde os primeiros tempos o homem sentiu pavor diante da morte. Ninguém a conhece por experiência própria e dos que passaram por ela, ninguém voltou para dizer-nos o que é: entrou num eterno silêncio.

A morte vai ordinariamente precedida por uma dolorosa enfermidade, acompanhada por uma impotência crescente, que chega a ser total. Os que rodeiam o moribundo contemplam, em completa passividade, como este ser querido é arrastado para o inevitável abismo. Quando queremos segui-lo com o olhar, parece-nos que o nada o tivesse devorado.

Quando vivemos, não parecemos tão sós diante de Deus. Há outros seres que, ainda que fracos, oferecem-nos refúgio para esconder-nos, mas, no momento da morte, não fica já onde ocultar-se: a alma é arrancada e jogada na planície infinita onde não ficam mais do que ela e seu Deus.

2. O conceito cristão da morte é imensamente mais rico e consolador: a morte, para o cristão, é o momento de achar Deus, o Deus que procurou durante toda a sua vida. A morte, para o cristão, é o encontro do filho com o Pai; é a inteligência que acha a suprema verdade, é a inteligência que se apodera do sumo Bem. A morte não é morte.

Nós o veremos cara a cara, Ele, o nosso Deus, que hoje está escondido. Veremos sua mãe, a nossa doce Mãe, a Virgem Maria. Veremos seus santos, seus amigos que serão também os nossos amigos; acharemos os nossos pais e parentes, e aqueles seres cuja partida nos precedeu. Na vida terrestre não pudemos penetrar no íntimo dos seus corações, mas na Glória ver-nos-emos sem escuridões nem incompreensões. Muitos perguntam-se se na outra vida conheceremos os seres queridos. Conhecendo a maneira de atuar de Deus, não seria uma burla estranha em seu proceder a de pôr nos nossos corações um amor imenso, ardente pelos seres que para nós são mais que nós mesmos, se esse amor fosse chamado a desaparecer com a morte? Tudo o que é nosso acompanhar-nos-á no outro mundo. Deus não rompe os vínculos que criou. Mas, acima de tudo, o grande dom do céu é estar presentes diante de Deus. O que mais posso necessitar!

Qual será a surpresa e a alegria do cristão ao terminar a sua vida terrena e ver que a sua prova terminou? As dores passaram, e chegou aquilo pelo qual lutou e sacrificou-se. Que preço tão barato por uma Glória eterna! Alguns anos difíceis. Mas, que curtos foram! Que coisa tão desprezável é a vida humana vista em si mesma! Que grande se se considera nos seus efeitos eternos! É como uma semente pequena e barata que germina e amadurece para a eternidade! Esta vida é preciosa enquanto revela-nos, nas suas sombras e figuras, a existência e os atributos do Deus todo poderoso; é preciosa porque permite-nos tratar com almas imortais que estão como nós na prova, é preciosa porque permite-nos tratar com almas imortais que estão conosco na prova, é preciosa porque permite-nos ajudá-las a conhecer Cristo e permite-nos remover os obstáculos que o mundo oferece à graça.

Dores? Nesta vida teremos dores, mas as dores não são só castigo, como tampouco morrer é só castigo. É belo poder sofrer por Cristo. Ele sofreu primeiro por nós. Desceu do Céu à terra para buscar o único que no Céu não encontrava: a dor e tomou-a sem medidas por amor do homem. Tomou-a na sua alma, tomou-a na sua imaginação, no seu coração, no seu corpo e no seu espírito, porque «me amou e se entregou a si mesmo por mim» (cf. Gl 2,20). Depois dele, Maria, sua Mãe e minha Mãe, é Rainha do Céu, porque amou e sofreu.

A vida foi dada ao homem para cooperar com Deus, para realizar o seu plano, a morte é o complemento dessa colaboração, pois é a entrega de todos os nossos poderes nas mãos do Criador. Que cada dia seja como a preparação da minha morte, entregando-me minuto por minuto à obra de cooperação que Deus me pede, cumprindo a minha missão, a que Deus espera de mim, a que não posso fazer senão eu.

A morte é a grande conselheira do homem. Ela nos mostra o essencial da vida, como a árvore no inverno, uma vez despojada das suas folhas, mostra o tronco. Cada dia vamos morrendo, como as águas vão aproximando-se, minuto por minuto, ao mar que as há de receber. Que a nossa morte cotidiana seja a que ilumine as nossas grandes determinações: na sua luz, que claras aparecerão as resoluções que devemos tomar, os sacrifícios que temos que aceitar, a perfeição de temos de abraçar.

O grande estímulo para a vida e para lutar nela, é a morte: motivo poderoso para dar-me a Deus por Deus. E enquanto o pagão nada empreende por temor da morte, o cristão apressa-se a trabalhar porque o seu tempo é breve, porque falta tão pouco para apresentar-se àquele que lhe deu tudo, àquele a quem ele ama mais do que a si mesmo. Apreça-te, alma, faz algo grande e belo porque logo tens que morrer! Fá-lo hoje, e não amanhã, que hoje Ele pode vir tomar a tua alma! Se compreendemos assim a morte, entenderemos perfeitamente que, para o cristão, a sua meditação não lhe inspira temor, antes, pelo contrário, alegria, a única autêntica alegria.

Irmãos, creio que a meditação da morte não tem sido para nós uma meditação de pavor, mas de consolo. Por que temê-la? Por que assustarmo-nos de abandonar este mundo enganador, os que fomos batizados para o outro mundo? Por que estar ansiosos de uma longa vida, de riquezas, honras e comodidades, os que sabemos que o céu será quanto desejamos de melhor, e não somente em aparência mas em verdade, e para sempre? Por que descansar neste mundo quando não é mais do que a imagem, o símbolo do outro verdadeiro? Por que contentarmo-nos com a superfície em lugar de apropriarmo-nos do tesouro que encerra?

Paro os que têm fé, cada coisa que vêem lhes fala do outro mundo, as belezas da natureza, o sol, a luz, tudo é como figura que nos dá testemunho da invisível beleza de Deus. Tudo o que vemos está destinado a florescer um dia e está destinado a ser Glória imortal.

O céu não está fora da nossa vida, mas o veremos, e assim como a neve derrete-se e mostra o que oculta, assim a criação visível desfar-se-á diante dos grandes esplendores que a dominam. Esse dia as nuvens desaparecerão; o sol empalidecerá diante da luz da qual ela não é mais que imagem, o Sol de justiça, que virá em forma visível, «Ele sai, qual Esposo da alcova» (Sl 19,6). Estes pensamentos devem fazer-nos dizer ardentemente: «Vem, Senhor Jesus» (Ap 22,20).