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sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Deus chega antes – 29º domingo do Tempo Comum


Lc 18, 1-8

1 Jesus contou aos discípulos uma parábola, para mostrar-lhes a necessidade de rezar sempre, sem nunca desistir. Ele dizia: 2 «Numa cidade havia um juiz que não temia a Deus, e não respeitava homem algum. 3 Na mesma cidade havia uma viúva, que ia à procura do juiz, pedindo: ‘Faça-me justiça contra o meu adversário!’ 4 Durante muito tempo, o juiz se recusou. Por fim ele pensou: ‘Eu não temo a Deus, e não respeito homem algum; 5 mas essa viúva já está me aborrecendo. Vou fazer-lhe justiça, para que ela não fique me incomodando’.» 6 E o Senhor acrescentou: «Escutem o que está dizendo esse juiz injusto. 7 E Deus não faria justiça aos seus escolhidos, que dia e noite gritam por ele? Será que vai fazê-los esperar? 8 Eu lhes declaro que Deus fará justiça para eles, e bem depressa. Mas, o Filho do Homem, quando vier, será que vai encontrar a fé sobre a terra?»

* 18,1-8: Insistência e perseverança só existem naqueles que estão insatisfeitos com a situação presente e, por isso, não desanimam; do contrário, jamais conseguiriam alguma coisa. Deus atende àqueles que, através da oração, testemunham o desejo e a esperança de que se faça justiça.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Deus chega antes – Pe. João Batista Libânio

As leituras de hoje são intrigantes, bonitas e carregadas de sentido. Mas, se não conhecermos a natureza do discurso, da linguagem, poderemos não as compreender. Uma compreensão superficial da primeira leitura poderá nos levar à ideia de que Deus está ao lado de Israel contra um outro povo. Será que Ele é contra os amalecitas ou qualquer outro povo, e só a favor de Israel? Será que, quando Moisés erguia os braços, os seus soldados venciam e, se ele os abaixava, os seus soldados perdiam? Será possível ser apenas isso? Portanto, antes de qualquer leitura, precisamos conhecer a natureza do seu discurso. Não é uma descrição, mas um discurso teológico e simbólico, isto é, quer falar da experiência que o povo faz. Também os amalecitas poderiam escrever a mesma coisa: que Deus estava do seu lado. O mesmo discurso poderiam fazer os brasileiros, russos, americanos. Qualquer povo pode dizer que Deus está ao seu lado, não apenas Israel e, muito menos, apenas nós, cristãos. Deus está ao lado de todos os povos de todos os tempos. 

Reparem que simbolismo bonito! Quando, na nossa vida, temos os braços levantados, temos coragem, esperança, utopia e, então, caminhamos, avançamos, crescemos. Mas, quando temos os braços caídos, estamos desanimados, deprimidos, aborrecidos, e assim, perdemos. Está claro: os deprimidos, os pessimistas perdem! Perdem, porque não lutam, não têm coragem, não erguem os braços. O símbolo de Moisés, com os braços estendidos, é para cada um de nós. Braços erguidos apontam para a transcendência, para o céu, para Deus! Com os braços erguidos, nós sempre caminhamos, mesmo que, aparentemente, estejamos parados. Diante de nossos braços abertos, Deus sempre estará derramando o seu amor, sua graça, sua presença. Podemos passar por momentos dolorosos, partidos, rasgados, mas sem abaixarmos os braços. Não podemos nunca renunciar à presença do Senhor, porque, aí sim, seremos derrotados. Se não tivermos coragem para lutar, como enfrentaremos a vida, os problemas diários na família, com o esposo, a esposa, os filhos, no trabalho?! Como poderemos enfrentar a vida com os braços caídos, desanimados?! É claro que já estaremos derrotados, e os amalecitas vencerão. Eles simbolizam todas as forças da história humana que estão por aí tramando, jogando e que, de certa maneira, nos machucam, nos ferem. Esses são os amalecitas de todos os tempos! Daqui a pouco, entraremos num ano eleitoral e, se abaixarmos os braços, apenas os corruptos, os que sabem enrolar facilmente, vencerão. Se estivermos com os braços caídos, poderão continuar devastando a Amazônia.

Viajando agora para o Mato Grosso, alguém me dizia que poderiam ser vistos dezenas e dezenas de caminhões lotados de toras extraídas de regiões imensas, onde os amalecitas sempre vencem, porque compram, subornam, enganam. E cada vez sentimos mais calor, e ainda assim não acreditamos que o aquecimento global é uma realidade, que as grandes geleiras do Polo Norte estão derretendo. Estive há pouco na Bolívia e ouvi os nativos comentando que não há mais neves eternas no alto das montanhas. São os amalecitas vencendo, conquistando, enquanto nós continuamos com os braços caídos. Que belíssima leitura! Precisamos erguer os nossos braços, para que os amalecitas se afastem. 

Jesus diz que trabalhamos na maldade, que temos medo da luz, da verdade, das pessoas honestas, que lutam. A maldade esconde a sua corrupção, que é tremenda, e vive serpenteando pela história. Também no evangelho precisamos começar buscando a natureza da linguagem, pois, à primeira vista, podemos ter uma ideia muito errada de Deus, pensando que Ele só nos atende, se insistirmos muito, como a mulher insistiu com o juiz. Não é por aí que vai a parábola. Deus não precisa ser lembrado de nada. Sua memória envolve a todos nós, nos pormenores mais pormenores. Ele conhece as mínimas fímbrias de nossa existência. Percebe a restiazinha de luz que atravessa o nosso horizonte. Ele não precisa ser acordado pelo nosso pedido, como se ficasse esperando para derramar sobre nós a sua graça. Ele já o faz, está fazendo e assim continuará. Pensar que Deus está de braços cruzados é ter uma ideia falsa. Ele está derramando sobre nós sua abundância gigantesca. Deu-nos, não apenas uma terrinha vagabundinha, mas bilhões de galáxias, e sem que precisássemos pedir. Não pedimos a vida e nascemos, não pedimos neurônios, e Ele nos deu milhões deles para que pudéssemos pensar, estudar. Ele deu tudo isso para nós e continua nos dando. Não precisamos pedir nunca! Se Jesus nos diz que precisamos insistir, não é para Deus não, mas para nós, que não nos damos conta dos bens que recebemos, de tudo que Ele está distribuindo para cada um de nós. Somos omissos e distraídos. Quantas vezes estamos numa situação profunda e passamos por ela distraidamente?! Não agarramos a realidade, não percebemos o mistério de Deus misturado à nossa vida. Somos cegos! Não nos damos conta da beleza de uma criancinha pequena que nasce e é carregada no colo. Quando ouvimos falar do envelhecimento das populações europeias é que vamos perceber a beleza das crianças que ainda enchem de alegria as ruas e praças do Brasil, para as quais precisamos nos abrir para acolhê-las como dom que Deus nos oferece.

Precisamos ter a coragem dessa mulher viúva e insistir, não com Deus, mas com nós mesmos. Precisamos acordar e ver como Deus está presente em nossa vida. Temos hoje dois casais celebrando bodas de prata (*). Evidentemente, têm uma caminhada e, se tiverem olhos, verão como Deus atravessou as suas existências, verão que até nas noites duras de insônia, quando rolavam na cama, preocupados com o amanhã, com a saúde dos filhos, não precisaram pedir a Deus que os socorressem, pois Ele sempre esteve presente.

Não precisamos ficar aborrecendo a Deus com insistentes pedidos. Precisamos, sim, ter coração e olhos abertos para saber que Ele já chegou antes, com os seus dons, a sua bondade, a sua graça. Amém.


CONFIRA A REFLEXÃO DE FREI GUSTAVO MEDELLA PARA ESTE 29º DOMINGO DO TEMPO COMUM: