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sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Além do cumprimento do dever


28º domingo do Tempo Comum

2Rs 5, 14-17
Sl 97 (98), 1-4
2Tm 2, 8-13
Lc 17,11-19

11 Caminhando para Jerusalém, aconteceu que Jesus passava entre a Samaria e a Galiléia. 12 Quando estava para entrar num povoado, dez leprosos foram ao encontro dele. Pararam de longe, e gritaram: 13 «Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!» 14 Ao vê-los, Jesus disse: «Vão apresentar-se aos sacerdotes.» Enquanto caminhavam, aconteceu que ficaram curados. 15 Ao perceber que estava curado, um deles voltou atrás dando glória a Deus em alta voz. 16 Jogou-se no chão, aos pés de Jesus, e lhe agradeceu. E este era um samaritano. 17 Então Jesus lhe perguntou: «Não foram dez os curados? E os outros nove, onde estão? 18 Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro?» 19 E disse a ele: «Levante-se e vá. Sua fé o salvou.»

Bíblia Sagrada - Edição Pastoral

Além do cumprimento do dever – Pe. João Batista Libânio

Parece que a liturgia quer nos dar dois exemplos antitéticos, paradoxais. Diria que há uma tensão, para não dizer oposição. Naaman, o sírio, foi curado e foi agradecer. Como era um homem de muitas posses, não só agradece, como leva muitos presentes para o profeta Eliseu, que não aceita o agradecimento, mas permite-lhe levar terra da Palestina para a Síria, e lá adorar o Deus verdadeiro. Se Deus é quem fez o milagre, os presentes deveriam ser dados a Ele, e não a Naaman.

No evangelho, é o contrário. Os leprosos não voltam para agradecer, e Jesus se queixa. Mas eles não deveriam voltar para agradecer a Jesus. Acho que aí Jesus se enganou, porque eles já iam agradecer a Deus. Jesus disse-lhes que fossem se apresentar ao sacerdote, e isso significava que, primeiramente, eles teriam que acreditar que estavam curados. Como naquela época não havia SUS, nem Ministério da Saúde, quem controlava a situação dos que se diziam leprosos e ficavam curados eram os sacerdotes do templo. Portanto, eles deveriam se apresentar para receberem o certificado de cura e, só assim, voltarem ao convívio social, do qual estavam excluídos. Os leprosos viviam nos arredores das cidades, com roupas rasgadas, cabelos desgrenhados, de tal maneira que eram identificados de longe, quase como pestilentos, dos quais ninguém podia se aproximar. Quando os mandou ir ao templo, Jesus jogou com a fé deles, pois, se não acreditassem na cura, não poderiam ir. Eles foram, ficaram curados e aí agradeceram a Deus, exatamente como Eliseu queria que Naaman fizesse.

Por que, então, Jesus achou ruim, se eles cumpriram o dever mais importante, voltando a fazer parte do povo de Israel? Será um simples teste de polidez, de boa educação? Agradecer é um sinal de boa educação que devemos aprender na infância. Portanto, não é virtude.

Existe um famoso filósofo e escritor francês, que é best-seller no Brasil, André Comte-Sponville, autor de um livro muito bonito “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”. O primeiro capítulo é sobre boa educação e boas maneiras, que ele diz que não são virtudes, mas base para elas. Uma pessoa mal-educada dificilmente conseguirá desenvolver a virtude. Olhem, pois, a responsabilidade dos pais de passarem aos filhos, desde crianças, o costume de agradecer, de ser atento, e assim criar condições para, mais tarde, construírem uma virtude.

Como o gesto de agradecer significava apenas boa educação, Jesus poderia apenas ter comentado que eles foram mal-educados. Mas acho que Ele queria ir mais fundo. Talvez quisesse dizer que quem o segue deve fazer alguma coisa diferente além de cumprir o dever. Os dez leprosos foram cumprir o dever, um rito prescrito pela lei de Moisés, mas um deles fez alguma coisa a mais. É desse mais que Jesus gosta, e esse mais se chama gratuidade. Aquele homem não precisava voltar, e era normal que não voltasse, mas quis voltar. Quis mostrar algo mais, quis dizer que aquele Homem, que ele nem sabia bem quem era, o havia curado. Não pensem que naquela época o povo sabia o que hoje sabemos sobre Jesus. Ele era apenas um Homem diferente, um Mestre, mas nada de especial que merecesse uma reverência. Talvez tivessem ouvido falar que tinha certos poderes, o que não era de se espantar, pois havia vários milagreiros por lá. Era um dom muito comum. Jesus era um entre tantos, por isso, não mereceria um agradecimento especial. Os outros nove foram ótimos, cumpriram o dever
e nada mais. Mas o samaritano, o estrangeiro, sabendo que Jesus era judeu, quis mostrar-lhe que estava acima das rivalidades, que o seu coração era maior. 

Naquele gesto, também acolhia o estrangeiro, o judeu, que cultuava Javé no templo e não no monte Garizim, como eles. É esse mais que é fundamental! Exatamente o estrangeiro traz o toque de originalidade, de novidade. Será que somos capazes! Já lhes falei várias vezes sobre o livro “Inteligência Emocional”, que começa exatamente com um motorista que, sozinho, transformou todo um ônibus, lotado de caras feias e tristes. Não foi notado porque dirigia bem, mas por ter sido capaz de colocar a sua atenção, a gratuidade, o afeto de sua presença.

Não interessa o cargo, o ofício que temos, mas sim a beleza de nosso coração. Olhemos um pouco para a nossa vida. Se um professor prepara bem a aula, faz a sua obrigação. Dar uma boa aula, tratar bem os alunos, é sua obrigação e nada mais. Se um guarda de trânsito apita quando precisa apitar e orienta o tráfego, não fez nada mais do que sua obrigação. Se um motorista dirige bem, é sinal de que é um bom profissional. Assim por diante, cada um vai cumprindo o seu dever. Mas será que isso basta? 

Quando eu era estudante em Roma, ia com os meus colegas de ônibus para a universidade. Passávamos numa encruzilhada, onde havia um guarda de trânsito que era diferente de todos os outros pela maneira como tratava cada pessoa. Tinha um olhar diferente para cada automóvel que passava. Olhava para os motoristas, brincava com os transeuntes, fazia gestos engraçados, mostrando sempre bom-humor e delicadeza. Era um guarda de trânsito, mas tinha algo a mais, e esse mais é que é importante. Ele cativava, e na época de Natal estava sempre rodeado de pessoas que lhe traziam presentes. Um professor que encontra um adolescente nos seus treze anos, para, conversa, se preocupa, se interessa, teve algo a mais, mesmo que não estivesse prescrito nos manuais de pedagogia. Será que um menino que presenciou uma cena de violência de seu pai embriagado pode chegar à escola e assistir à aula como os outros? Não merecerá uma atenção, um carinho especial que só a gratuidade é capaz de dar? 

Quantas vezes vamos ao médico e percebemos a diferença entre um clínico sério, competente, que examina, dá a receita e nos manda embora, e aquele que ouve, pergunta, se interessa pela pessoa? É o mais que não depende do ofício. Uma faxineira numa escola pode ter o mais que um professor não tem. Às vezes, um funcionário dos mais simples, com uma vassoura na mão, com seu sorriso, seu carinho, sua atenção, consegue falar muito mais aos adolescentes do que um professor casmurro, com a cara fechada de sexta-feira santa de tarde, que não tem nenhuma maneira de se comunicar, a não ser a profissão. 

Cada um de nós deveria cuidar, onde estivesse, fazendo o que fosse, para colocar esse mais diferente nas nossas ações. É um pouco isso que o cristianismo precisava injetar nos nossos corações. Não existem cargos mais ou menos importantes, mas pessoas que colocam a alma e o coração no que fazem. Imaginem se Vespasiano fosse assim: se cada policial, cada guarda, cada funcionário, cada caixa de banco tivesse um sorriso nos lábios! Não desses sorrisos de aeromoça para conquistar fregueses, não dessas cartilhas americanas para atender telemarketing. Nada disso! O mais que nasce de dentro, do cuidado, do zelo, do carinho, da busca, da percepção do outro é que é importante para mim. Se o outro é importante para mim, o meu olhar deve ser diferente. Amém.