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sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Nós carregamos a semente da fé - 27º domingo do Tempo Comum


Lc 17,5-10

5 Os apóstolos disseram ao Senhor: «Aumenta a nossa fé!» 6 O Senhor respondeu: «Se vocês tivessem fé do tamanho de uma semente de mostarda, poderiam dizer a esta amoreira: ‘Arranque-se daí, e plante-se no mar’. E ela obedeceria a vocês.

7 Se alguém de vocês tem um empregado que trabalha a terra ou cuida dos animais, por acaso vai dizer-lhe, quando ele volta do campo: ‘Venha depressa para a mesa’? 8 Pelo contrário, não vai dizer ao empregado: ‘Prepare-me o jantar, cinja-se e sirva-me, enquanto eu como e bebo; depois disso você vai comer e beber’? 9 Será que vai agradecer ao empregado, porque este fez o que lhe havia mandado? 10 Assim também vocês: quando tiverem cumprido tudo o que lhes mandarem fazer, digam: ‘Somos empregados inúteis; fizemos o que devíamos fazer’.»

* 17,1-10: Lucas reúne aqui sentenças de Jesus sobre o escândalo, a correção fraterna, o perdão, o poder da fé e a necessidade de estar desinteressadamente a serviço de Deus. São atitudes fundamentais para a vida do discípulo de Jesus.

Bíblia Sagrada - Edição Pastoral

 Nós carregamos a semente da fé – Pe. João Batista Libânio, sj

O evangelho de Lucas tem duas partes independentes: uma metáfora da natureza, que Jesus tira da experiência de camponês que Ele era, e uma estrutura social, típica da sociedade em que vivia. Hoje sabemos que a grande diferença entre natureza e cultura é uma das categorias mais trabalhadas pela filosofia e teologia. Quando falamos de natureza, sabemos que falamos de uma árvore.

Quando a transformamos em alguma coisa diferente, já é cultura. Se plantarmos várias árvores e fizermos um jardim, já não podemos falar de natureza, pois já é cultura. Se formos para a Amazônia e encontrarmos árvores crescendo por todas as partes, teremos natureza. Mas se chegarmos como ecologistas que cuidam, é cultura. Nós, seres humanos, culturalizamos tudo. Tudo o que tocamos vira cultura. Não comemos arroz como um cavalo. Colocamos no prato, e isso é cultura. Água é natureza, mas nós a tomamos em copos, em garrafas, e isso é cultura.

Também Jesus, apesar de não ter cursado sociologia na USP ou na UFMG (*), sabia bem distinguir natureza e cultura. Toma um exemplo da natureza: a semente, e um exemplo de cultura: um costume da época. A partir dessas duas realidades, tira sua lição.

Hoje, com a biotecnologia, com a botânica, o exemplo de Jesus se torna muito mais rico do que Ele poderia imaginar. Quando diz que a nossa fé é como uma semente, até então, achava-se que uma semente não fosse nada mais do que substâncias químicas que, depois de degradadas, fariam uma árvore. Mas hoje, os biólogos, através da biotecnologia, sabem muito bem que uma semente carrega milhares e milhões de informações. Isso é o fantástico das ciências modernas. As sementes carregam essas informações de milhões de anos. São como os cd’s que os jovens carregam o dia todo, sem se dar conta de que naquela plaquinha metálica tem milhares de notas musicais, que um olhinho de luz pode transformar em sons. Portanto, a semente não é algo assim tão simples. Dentro dela estão milhões de anos de informações. Por isso, nela está tudo marcado: para nascer determinada árvore, com as folhas com o mesmo desenho, com um tronco que cresce com maior ou menor densidade. Tudo isso é guardado como informação dentro dela.

Quando leio algum livro de biologia moderno, realmente fico parado, abismado. Como pode uma coisa tão pequena carregar tantas informações?!

Passemos para a outra metáfora de Jesus. Vocês acham que a fé, que, como Jesus diz, é um grão de mostarda, também é alguma coisa que nasce agora? Também ela tem milhares de anos de informações. Pra começar, tem dois mil anos de cristianismo. Se quisermos ir mais longe, podemos ir até Abrão, até Noé, ou mesmo até Adão e Eva. Hoje, através da ciência, sabemos que o ser humano tem de um a dois milhões de anos, e tudo isso passa e chega a cada um de nós. Carregamos uma história gigantesca e podemos ter a certeza de que pelas nossas veias corre sangue com quinze bilhões de anos, porque as substâncias que estão em nosso corpo foram geradas no mesmo instante do big-bang. A nossa fé carrega tudo isso, para nos alimentar, nos fazer viver, nos fazer felizes, mais humanos, mais comunitários, responsáveis, solidários. Tudo isso está nessa pequenina informação. Quando andamos por uma rua e encontramos uma pessoa necessitada, uma criancinha sofrendo, nos comovemos, porque trazemos essa informação de fé, de milhares de anos e de milhões de pessoas que um dia também se comoveram e passaram para nós. Recebemos tudo isso de uma herança gigantesca, de bem e, infelizmente, também de mal.

Hoje Jesus quer falar do bem, portanto, da fé. Cada um de nós deveria olhar para a semente de sua própria fé, sabendo quanta história ela carrega. É como um acumular de experiências, tradições, vivências colhidas de nossos pais, avós, parentes que nem chegamos a conhecer, vindos de outros países, de outras etnias.

Tudo isso chegou a cada um de nós. As mulheres casadas carregam a história de seus maridos e filhos. A mãe pensa que faz a história do filho, mas o filho também faz a história da mãe. Ela carrega o futuro do filho dentro de si. São coisas assim que nos deixam pasmos! Quanto mais a ciência avança, mais pensamos em quão gigantesca é a inteligência de quem criou uma coisa tão pequenina quanto uma semente. Nós somos essa semente de fé! Se tivéssemos certeza e confiança dessa grandeza, nossa cidade não seria o que é. Poderíamos chegar para uma árvore e mandar que ela se jogasse no oceano. Mas não é no sentido físico que Jesus diz. Ele quer nos lembrar a força espiritual que carregamos.

Podemos dizer aos jovens que se arranquem da inércia e se lancem. Que acordem dentro deles a força interior que a semente guarda. Temos que nos preocupar em arrancar as árvores, diria mais, os espinhos, todos os arbustos secos que estão nos corações das pessoas. Temos que arrancá-los através da nossa fé e jogar lá dentro alguma árvore mais frutífera, bela, estética, perfumada, mais cheia de vida. Isso é uma tarefa muito mais difícil do que arrancar uma amoreira e lançá-la ao mar. Um trator pode fazer isso, mas arrancar de um coração humano a força viva, não há trator que consiga, não há grua que arranque. Mas a nossa palavra, nosso desejo, nosso olhar, nosso coração pode conseguir.

O mundo de hoje sofre demais! As pessoas sofrem solidão, tristeza, anonimato. Elas riem com sorriso de plástico, midiáticos, vazios, cosméticos. Não têm sorriso de alma, de coração e precisam desse sorriso, dessa vida. Mas somente pode dá-lo quem o tem, quem vive, quem espera, quem ama, quem acredita. Temos esse imenso patrimônio de experiência de vida e não o passamos. Guardamos para nós, no silêncio, na timidez, no medo, no acanhamento, na inércia que não nos deixa mover. Precisaríamos descobrir um pouco mais da energia que o Senhor diz que cada semente tem.

Sobre a cultura, o Senhor também tem o que nos dizer. O exemplo que Ele quer que sigamos é a gratuidade que deve nascer dentro de nós. Quando fizermos alguma coisa para os outros, não marquemos na lista das cobranças. Há uma palavra que sempre ouvimos neste país diuturnamente: cobrança. Que palavra feia, semântica e sonoramente! Os credores cobram, os chefes, os gerentes dos bancos, os comerciantes, os professores cobram. Todos cobram de todos. Jesus veio trazer uma realidade diferente, de gratuidade. Olhemos para nós: como nos cobramos mutuamente em nossas relações de homem e mulher. Eu lhe dei dez anos, você só me deu nove! Vivemos nesse jogo. Onde fica a gratuidade? Ela não olha, não mede, não calcula. É como uma água que brota de uma mina, límpida, ainda não contaminada, como a que deve brotar de nossos corações.

Quando encontramos pessoas gratuitas, ressuscitamos. Como o olhar da pessoa gratuita é diferente! Há olhares anzóis, cobrantes, sagazes, mais ainda: eu diria sugazes, pois querem sugar tudo que os rodeia. Não querem devolver, nem comunicar, não fazem fluir de dentro. Jesus está nos dizendo isso há mais de dois mil anos, e ainda não aprendemos. Queremos tudo voltado para nós, e isso faz parte de nossa natureza animal, de quem só pensa em si mesmo, do mais forte que sempre devora tudo. Carregamos um traço muito importante que se chama liberdade. Podemos deixar que o outro chegue antes de nós e também se beneficie, pois somos mais que animais.

De tudo isso que o Senhor nos diz, podemos tirar duas ideias: a fé tem força, a gratuidade comove, toca, converte e muda o mundo. Jesus quer acordar em nós o sentido de humanidade, de disponibilidade. Ele nos propõe uma abertura fundamental para os outros. Amém. (07/10/07 - 27º domingo comum)

(*) referência a duas grandes universidades, de São Paulo e de Minas Gerais.


Santo do dia: São Jerônimo


Ó Deus, que destes ao presbítero São Jerônimo profundo amor pela Sagrada Escritura, concedei ao vosso povo alimentar-se cada vez mais da vossa palavra e nela encontrar a fonte da vida. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

É incontestável o grande débito que a cultura e os cristãos de todos os tempos têm com este santo de inteligência brilhante e temperamento intratável. Jerônimo nasceu em uma família muito rica na Dalmácia, hoje Croácia, no ano 347. Com a morte dos pais, herdou uma boa fortuna, que aplicou na realização de sua vocação para os estudos, pois tinha uma inteligência privilegiada. Viajou para Roma, onde procurou os melhores mestres de retórica e desfrutou a juventude com uma certa liberdade. Jerônimo estudou por toda a vida, viajando da Europa ao Oriente com sua biblioteca dos clássicos antigos, nos quais era formado e graduado doutor.

Ele foi batizado pelo papa Libério, já com 25 anos de idade. Passando pela França, conheceu um monastério e decidiu retirar-se para vivenciar a experiência espiritual. Uma de suas características era o gosto pelas entregas radicais. Ficou muitos anos no deserto da Síria, praticando rigorosos jejuns e penitências, que quase o levaram à morte. Em 375, depois de uma doença, Jerônimo passou ao estudo da Bíblia com renovada paixão. Foi ordenado sacerdote pelo bispo Paulino, na Antioquia, em 379. Mas Jerônimo não tinha vocação pastoral e decidiu que seria um monge dedicado à reflexão, ao estudo e divulgação do cristianismo.

Voltou para Roma em 382, chamado pelo papa Dâmaso, para ser seu secretário particular. Jerônimo foi incumbido de traduzir a Bíblia, do grego e do hebraico, para o latim. Nesse trabalho, dedicou quase toda a sua vida. O conjunto final de sua tradução da Bíblia em latim chamou-se "Vulgata" e tornou-se oficial no Concílio de Trento.

Romano de formação, Jerônimo era um enciclopédico. Sua obra literária revelou o filósofo, o retórico, o gramático, o dialético, capaz de escrever e pensar em latim, grego e hebraico, escritor de estilo rico, puro e, ao mesmo tempo, eloquente. Dono de personalidade e temperamento fortíssimos, sua passagem despertava polêmicas ou entusiasmos.

Devido a certas intrigas do meio romano, retirou-se para Belém, onde viveu como um monge, continuando seus estudos e trabalhos bíblicos. Para não ser esquecido, reaparecia, de vez em quando, com um novo livro. Suas violências verbais não perdoavam ninguém. Teve palavras duras para Ambrósio, Basílio e para com o próprio Agostinho. Mas sempre amenizava as intemperanças do seu caráter para que prevalecesse o direito espiritual.

Jerônimo era fantástico, consciente de suas próprias culpas e de seus limites, tinha total clareza de seus merecimentos. Ao escrever o livro "Homens ilustres", concluiu-o com um capítulo dedicado a ele mesmo. Morreu de velhice no ano 420, em 30 de setembro, em Belém. Foi declarado padroeiro dos estudos bíblicos e é celebrado no dia de sua morte.

Fonte: Paulinas

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Santo do dia: Santos Anjos


Arcanjos São Miguel, São Gabriel e São Rafael

O novo calendário reúne em celebração única os três arcanjos que eram comemorados em dia diferentes. Este dia seria a festa do arcanjo São Miguel, o antigo padroeiro da sinagoga e agora padroeiro universal da Igreja. São Gabriel é o anjo da Anunciação, enquanto São Rafael é invocado como guia dos que viajam.

A existência dos seres incorpóreos, que as Sagradas Escrituras chamam habitualmente de anjos, é uma verdade de fé.

Mas quem são os anjos? Eis a resposta de Santo Agostinho: "Angelus officii nomen est, non naturae". Anjo é denominação de encargo, não de natureza.Se perguntares pela denominação de natureza, é um espírito; se perguntares pelo encargo, é um anjo: é espírito por aquilo que é, e é anjo por aquilo que faz. Os anjos são, pois, servidores e mensageiros de Deus. Pelo fato que "veem sempre a face do Pai que está no céu", como se lê no Evangelho de Mateus, "eles são executores poderosos de suas palavra, obedientes ao som da sua palavra"( Salmo 103,20).

São Miguel, como expressão da onipotência de Deus, recebeu, desde o começo da história do cristianismo, um culto particular. Constantino e Justiniano erigiram-lhe dois santuários nas duas extremidades do Bósforo.

Em Roma, o arcanjo domina a cidade do alto da Mole Adriana, a qual tomou o nome de Castelo Santo Anjo.

São Gabriel,"aquele que está diante de Deus", é o anunciador por excelência das divinas revelações: anuncia ao profeta Daniel o retorno do exílio do povo eleito; leva a Zacarias a notícia da iminente concepção do precursor do Messias. Depois, é-lhe confiada a missão mais alta que possa ser dada a uma criatura: o anúncio a Maria da Encarnação do Filho de Deus.

São Rafael é nomeado em um único livro das Escrituras: tem a missão de acompanhar o jovem Tobias para tornar-lhe seguro o caminho por estradas desconhecidas e lhe sugere a receita para curar o pai da cegueira temporária ("Rafael" significa, de fato, "Deus Cura"), sendo, por isso, invocado como protetor de quem se põe em viagem e como patrono de quem se dedica à cura dos doentes.

(Retirado do livro "Os Santos e os Beatos da Igreja do Ocidente e do Oriente", Paulinas Editora)

Das Homilias sobre os Evangelhos, de São Gregório Magno - A palavra anjo indica o ofício, não a natureza

É preciso saber que a palavra anjo indica o ofício, não a natureza. Pois estes santos espíritos da pátria celeste são sempre espíritos, mas nem sempre podem ser chamados anjos, porque somente são anjos quando por eles é feito algum anúncio. Aqueles que anunciam fatos menores são ditos anjos; os que levam as maiores notícias, arcanjos.

Foi por isto que à Virgem Maria não foi enviado um anjo qualquer, mas o arcanjo Gabriel; para esta missão, era justo que viesse o máximo anjo para anunciar a máxima notícia.

Por este motivo também a eles são dados nomes especiais para designar, pelo vocábulo, seu poder na ação. Naquela santa cidade, onde há plenitude da ciência pela visão do Deus onipotente, não precisam de nomes próprios para se distinguirem uns dos outros. Mas quando vêm até nós para cumprir uma missão, trazem também entre nós um nome derivado desta missão. Assim Miguel significa: “Quem como Deus?”; Gabriel, “Força de Deus”; e Rafael, “Deus cura”.

Todas as vezes que se trata de grandes feitos, diz-se que Miguel é enviado, porque pelo próprio nome e ação dá-se a entender que ninguém pode por si mesmo fazer o que Deus quer destacar. Por isto, o antigo inimigo, que por soberba cobiçou ser igual a Deus, dizendo: Subirei ao céu, acima dos astros do céu erguerei meu trono, serei semelhante ao Altíssimo ( cf. Is 14,13-14), no fim do mundo, quando será abandonado às próprias forças para ser destruído no extremo suplício, pelejará com o arcanjo Miguel, como diz João: Houve uma luta com Miguel arcanjo (Ap 12,7). A Maria é enviado Gabriel, que significa “Força de Deus”. Vinha anunciar aquele que se dignou aparecer humilde para combater as potestades do ar.Portanto devia ser anunciado pela força de Deus o Senhor dos exércitos que vinha poderoso no combate.

Rafael, como dissemos, significa “Deus cura”, porque ao tocar nos olhos de Tobias como que num ato de cura, lavou as trevas de sua cegueira. Quem foi enviado a curar, com justiça se chamou “Deus cura”.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Papa na Audiência: “A Igreja é de todos; é tempo de misericórdia!”


Cidade do Vaticano – “O perdão na Cruz” foi o tema da Audiência Geral desta quarta-feira, 28. O Papa Francisco começou o encontro com os fiéis na Praça São Pedro com as palavras proferidas por Jesus “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”, e desenvolveu uma reflexão baseada no relato do evangelista Lucas sobre os dois malfeitores crucificados com Jesus, que se dirigiram a ele, cada um de um modo.

Desesperado, o primeiro o insulta: “Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!”. Seu grito era angustiado, diante do mistério da morte, ele sabia que somente Deus podia dar uma resposta de salvação.

Jubileu, tempo de graça para bons e maus

Morrendo na cruz, inocente entre dois criminosos, cumpre-se a sua doação de amor e nos salvamos para sempre. Fica demonstrado que a salvação de Deus pode chegar a todos, em qualquer condição, mesmo a mais dolorosa. “Por isso, prosseguiu o Papa, o Jubileu é tempo de graça e misericórdia para todos, bons e maus, estejam em saúde ou na doença. Nada nos pode separar do amor de Cristo!”.

“A quem está crucificado numa cama do hospital, a quem vive recluso num cárcere, a quem está encurralado pelas guerras, eu digo: Levantai os olhos para o Crucificado. Deus está convosco, permanece convosco na cruz e a todos se oferece como Salvador”. 

O bom ladrão que respeita Deus

O segundo malfeitor era o chamado ‘bom ladrão’. Suas palavras foram um modelo maravilhoso de arrependimento. Primeiro, ele se dirige a seu companheiro: “Nem sequer temes a Deus, tu que sofres a mesma pena?”, uma expressão que evidencia o temor de Deus – não o medo de Deus – mas o respeito que lhe é devido.

Continuando, o Papa explicou que “o bom ladrão se dirige diretamente a Jesus, confessa abertamente a própria culpa, invoca sua ajuda, o chama por nome, pede a Jesus que se lembre dele: é a necessidade do homem de não ser abandonado. Assim, o condenado à morte se torna modelo do cristão que se entrega a Jesus.

Perdão em gestos concretos

A promessa feita ao bom ladrão – “Hoje estarás comigo no Paraíso” - revela o pleno cumprimento da missão que o trouxe à terra. Desde o início até ao fim, Jesus se revelou como Misericórdia; Ele é verdadeiramente o rosto da misericórdia do Pai: «Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem». E não se trata apenas de palavras, mas de gestos concretos como no perdão oferecido ao bom ladrão.  
Concluindo, o Papa convidou todos a deixarem que a força do Evangelho penetre em nossos coração e nos console, nos dê esperança e a certeza íntima de que ninguém está excluído do seu perdão.  

Ao final da Audiência, o Papa fez mais um apelo em prol da Síria.

“Meu pensamento vai novamente à amada e martirizada Síria. Continuam chegando notícias dramáticas sobre a condição da população de Aleppo, à qual me sinto unido no sofrimento através da oração e da proximidade espiritual. Ao expressar a minha profunda dor e preocupação com o que está acontecendo nesta sofrida cidade – onde morrem crianças, idosos, doentes, jovens.... todos – renovo  a todos um apelo para que se comprometam, com todas as forças, na proteção dos civis, um dever imperativo e urgente. Apelo à consciência dos responsáveis pelos bombardeios, que deverão prestar contas disso diante de Deus.”

Em sua próxima viagem internacional, que tem início na sexta-feira, o Papa Francisco terá a oportunidade de encontrar representantes da comunidade assírio-caldeia em Tbilisi, capital da Geórgia. Com o Patriarca de Babilônia dos Caldeus, o Pontífice fará uma oração de pela paz, de modo especial pela Síria e pelo Iraque.

A Organização das Nações Unidas (ONU) afirmou domingo (25/09) que pelo menos 139 pessoas morreram nos últimos dias devido aos ataques na parte leste de Aleppo.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Santo do dia: São Vicente de Paulo


Vicente de Paulo foi, realmente, uma figura extraordinária para a humanidade. Pertencia a uma família pobre, de cristãos dignos e fervorosos. Nasceu em Pouy, França, no dia 24 de abril de 1581.

Na infância, foi um simples guardador de porcos, o que não o impediu de ter uma brilhante ascensão na alta Corte da sociedade de sua época. Aos dezenove anos, foi ordenado padre e, antes de ser capelão da rainha Margarida de Valois, ficou preso durante dois anos nas mãos dos muçulmanos. O mais curioso é que acabou sendo libertado pelo seu próprio “dono”, que, ao longo desse período, Vicente conseguiu converter ao cristianismo.

Todos o admiravam e respeitavam: do cardeal Richelieu à rainha Ana da Áustria, além do próprio rei Luís XIII, que fez questão absoluta de que Vicente de Paulo estivesse presente no seu leito de morte.

Mas quem mais era merecedor da piedade e atenção de Vicente de Paulo eram mesmo os pobres, os menos favorecidos, que sofriam as agruras da miséria. Quando Mazarino, em represália às barricadas erguidas pela França, quis fazer o país entregar-se pela fome, Vicente de Paulo organizou, em São Lázaro, uma mesa popular para servir, diariamente, refeições a duas mil pessoas famintas.

Apesar de ter sempre pouco tempo para os livros, tinha-o muito quando era para tratar e dar alívio espiritual. Quando convenceu o regente francês de que o povo sofria por falta de solidariedade e de pessoas caridosas para estenderem-lhe as mãos, o rei, imediatamente, nomeou-o para ser o ministro da Caridade. Com isso, organizou um trabalho de assistência aos pobres em escala nacional. Fundou e organizou quatro instituições voltadas para a caridade: a “Confraria das Damas da Caridade”, os “Servos dos Pobres”, a “Congregação dos Padres da Missão”, conhecidos como padres lazaristas, em 1625, e, principalmente, as “Filhas da Caridade”, em 1633.

Este homem prático, firme, dotado de senso de humor, esperto como um camponês, e sobretudo realista, que dizia aos sacerdotes de São Lazaro: “Amemos Deus, irmãos meus, mas o amemos às nossas custas, com a fadiga dos nossos braços, com o suor do nosso rosto”, morreu em Paris no dia 27 de setembro de 1660.

Canonizado em 1737, são Vicente de Paulo é festejado no dia de sua morte, pelos seus filhos e sua filhas espalhados nos quatro cantos do mundo. E por toda a sociedade leiga cristã engajada em cuidar para que seu carisma permaneça, pela ação de suas fundações, que florescem, ainda, nos nossos dias, sempre a serviço dos mais necessitados, doentes e marginalizados.

Dos Escritos de São Vicente de Paulo - Deve-se preferir o serviço dos pobres acima de tudo

Não temos de avaliar os pobres por suas roupas e aspecto, nem pelos dotes de espírito que pareçam ter. Com frequência são ignorantes e curtos de inteligência. Mas muito pelo contrário, se considerardes os pobres à luz da fé, então percebereis que estão no lugar do Filho de Deus que escolheu ser pobre. De fato, em seu sofrimento, embora quase perdesse a aparência humana – loucura para os gentios, escândalo para os judeus – apresentou-se, no entanto, como o evangelizador dos pobres: Enviou-me para evangelizar os pobres (Lc 4,18). Devemos ter os mesmos sentimentos de Cristo e imitar aquilo que ele fez: ter cuidado pelos indigentes, consolá-los, auxiliá-los, dar-lhes valor. 

Com efeito, Cristo quis nascer pobre, escolheu pobres para seus discípulos, fez-se servo dos pobres e de tal forma quis participar da condição deles, que declarou ser feito ou dito a ele mesmo tudo quanto de bom ou de mau se fizesse ou dissesse aos pobres. Deus ama os pobres, também ama aqueles que os amam. Quando alguém tem um amigo, inclui na mesma estima aqueles que demonstram amizade ou prestam obséquio ao amigo. Por isto esperamos que, graças aos pobres, sejamos amados por Deus. Visitando-os, pois, esforcemo-nos por entender os pobres e os indigentes e, compadecendo-nos deles, cheguemos ao ponto de poder dizer com o Apóstolo: Fiz-me tudo para todos (1Cor 9,22). Por este motivo, se é nossa intenção termos o coração sensível às necessidades e misérias do próximo, supliquemos a Deus que derrame em nós o sentimento de misericórdia e de compaixão, cumulando com ele nossos corações e guardando-os repletos. 

Deve-se preferir o serviço dos pobres a tudo o mais e prestá-lo sem demora. Se na hora da oração for necessário dar remédios ou auxílio a algum pobre, ide tranquilos, oferecendo a Deus esta ação como se estivésseis em oração. Não vos perturbeis com angústia ou medo de estar pecando por causa de abandono da oração em favor do serviço dos pobres. Deus não é desprezado, se por causa de Deus dele nos afastarmos, quer dizer, interrompermos a obra de Deus, para realizá-la de outro modo. 

Portanto, ao abandonardes a oração, a fim de socorrer a algum pobre, isto mesmo vos lembrará que o serviço é prestado a Deus. Pois a caridade é maior do que quaisquer regras, que, além do mais, devem todas tender a ela. E como a caridade é uma grande dama, faz-se necessário cumprir o que ordena. Por conseguinte, prestemos com renovado ardor nosso serviço aos pobres; de modo particular aos abandonados, indo mesmo à sua procura, pois nos foram dados como senhores e protetores.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Santo do dia: São Cosme e Damião


Cosme vem de cosmos, "modelo" ou "ornado" ou, segundo Isidoro, cosmos em grego significa "puro". De fato, ele foi um modelo para os outros por seus exemplos, foi ornado de virtudes, foi puro de todo vício.

Damião vem de dama, "gamo", animal tímido e doce. Ou Damião deriva de dogma, "doutrina", e de ana,  "no alto", ou de damum, "sacrifício". Ou então Damianus (Damião) quer dizer domini manus, "mão do Senhor".

Cosme e Damião eram irmãos e cristãos. Na verdade, não se sabe exatamente se eles eram gêmeos. Mas nasceram na Arábia e viveram na Ásia Menor, Oriente. Desde muito jovens, ambos manifestaram um enorme talento para a medicina. Estudaram e diplomaram-se na Síria, exercendo a profissão de médico com muita competência e dignidade. Inspirados pelo Espírito Santo, usavam a fé aliada aos conhecimentos científicos. Com isso, seus tratamentos e curas a doentes, muitas vezes à beira da morte, eram vistos como verdadeiros milagres.

Deixavam pasmos os mais céticos dos pagãos, pois não cobravam absolutamente nada por isso. A riqueza que mais os atraía era fazer de sua arte médica também o seu apostolado para a conversão dos pagãos, o que, a cada dia, conseguiam mais e mais.

Isso despertou a ira do imperador Diocleciano, implacável perseguidor do povo cristão. Na Ásia Menor, o governador deu ordens imediatas para que os dois médicos cristãos fossem presos, acusados de feitiçaria e de usarem meios diabólicos em suas curas.

Mandou que fossem barbaramente torturados por negarem-se a aceitar os deuses pagãos. Em seguida, foram decapitados. O ano não pode ser confirmado, mas com certeza foi no século IV. Os fatos ocorreram em Ciro, cidade vizinha a Antioquia, Síria, onde foram sepultados. Mais tarde, seus corpos foram trasladados para uma igreja dedicada a eles.

Quando o imperador Justiniano, por volta do ano 530, ficou gravemente enfermo, deu ordens para que se construísse, em Constantinopla, uma grandiosa igreja em honra dos seus protetores. Mas a fama dos dois correu rápida no Ocidente também, a partir de Roma, com a basílica dedicada a eles, construída, a pedido do papa Félix IV, entre 526 e 530. Tal solenidade ocorreu num dia 26 de setembro; assim, passaram a ser festejados nesta data.

Os nomes de são Cosme e são Damião, entretanto, são pronunciados infinitas vezes, todos os dias, no mundo inteiro, porque, a partir do século VI, eles foram incluídos no cânone da missa, fechando o elenco dos mártires citados.

Os santos Cosme e Damião são venerados como padroeiros dos médicos, dos farmacêuticos e das faculdades de medicina.

A Igreja também celebra hoje a memória dos santos:  São Elzeário de Sabran.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

26º domingo do Tempo Comum - O abismo que há entre nós


1ª Leitura: Am 6,1ª.4-7
Sl 145
2ª Leitura: 1Tm 6,11-16
Evangelho: Lc 16,19-31

19 «Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino, e dava banquete todos os dias. 20 E um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, que estava caído à porta do rico. 21 Ele queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E ainda vinham os cachorros lamber-lhe as feridas. 22 Aconteceu que o pobre morreu, e os anjos o levaram para junto de Abraão. Morreu também o rico, e foi enterrado. 23 No inferno, em meio aos tormentos, o rico levantou os olhos, e viu de longe Abraão, com Lázaro a seu lado. 24 Então o rico gritou: ‘Pai Abraão, tem piedade de mim! Manda Lázaro molhar a ponta do dedo para me refrescar a língua, porque este fogo me atormenta’. 25 Mas Abraão respondeu: ‘Lembre-se, filho: você recebeu seus bens durante a vida, enquanto Lázaro recebeu males. Agora, porém, ele encontra consolo aqui, e você é atormentado. 26 Além disso, há um grande abismo entre nós: por mais que alguém desejasse, nunca poderia passar daqui para junto de vocês, nem os daí poderiam atravessar até nós’. 27 O rico insistiu: ‘Pai, eu te suplico, manda Lázaro à casa de meu pai, 28 porque eu tenho cinco irmãos. Manda preveni-los, para que não acabem também eles vindo para este lugar de tormento’. 29 Mas Abraão respondeu: ‘Eles têm Moisés e os profetas: que os escutem!’ 30 O rico insistiu: ‘Não, pai Abraão! Se um dos mortos for até eles, eles vão se converter’. 31 Mas Abraão lhe disse: ‘Se eles não escutam a Moisés e aos profetas, mesmo que um dos mortos ressuscite, eles não ficarão convencidos’.»

* 19-31: A parábola é uma crítica à sociedade classista, onde o rico vive na abundância e no luxo, enquanto o pobre morre na miséria. O problema é o isolamento e afastamento em que o rico vive, mantendo um abismo de separação que o pobre não consegue transpor. Para quebrar esse isolamento, o rico precisa se converter. Nada o levará a essa conversão, se ele não for capaz de abrir o coração para a palavra de Deus, o que o leva a voltar-se para o pobre. Assim, mais do que explicação da vida no além, a parábola é exigência de profunda transformação social, para criar uma sociedade onde haja partilha de bens entre todos.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

O abismo que há entre nós – Pe. João Batista Libânio, sj

Será que esse evangelho quer dizer que, depois da morte, os destinos se invertem: os que foram ricos e aproveitaram a vida irão passar fome e chorar, e os que aqui choraram e passaram fome serão saciados? Isso nos deixa perplexos, pois, se for real, vamos todos precisar mendigar para ganhar uma fortuna no céu. 

Imagino que Jesus não quis dizer isso, pois Ele mesmo gostava dos encontros, frequentava festas, como em Caná, tinha amigos de posses. Se entendermos esse evangelho ao pé da letra, encontraremos o que na leitura se chama um topos, isto é, uma espécie de lugar comum, algo que está presente em todas as culturas, que sempre se repete. Podemos ir à cultura indígena, ou à negra da África, à Mesopotâmia ou a Israel e ouviremos histórias semelhantes. Também podemos ter ouvido histórias de nossos avós. Até aí, Jesus não trouxe nada de novo, mas, se contou essa parábola, é sinal de que queria trazer-nos alguma novidade, mesmo que não esteja tão clara.

O que Ele disse lá reflete agora aqui! É sobre esse aqui que Ele está falando. Para Jesus, a novidade não é falar da distância que vai nos separar depois da morte, como parece no texto. Ele está muito mais preocupado com a distância que existe entre nós nesta igreja, nesta cidade, neste país, neste mundo. Os lázaros e os ricos epulões são espécies de protótipos, metáforas para mostrar dois tipos de gente que são distintas, mas que também existem dentro de nós. Lázaro é o nosso lado pequeno e frágil. Tantas vezes tiramos notas baixas num exame, não passamos no vestibular, fracassamos, não damos conta, ficamos doentes, indo de médico em médico. Aí somos lazarentos, todos nós somos Lázaro! Mais cedo ou mais tarde, a lazaridade atinge a cada um de nós. Ninguém escapa dessa condição lazárica, pois todos nós carregamos essa profunda fragilidade.

Criamos entre nós abismos intransponíveis. Comparem a África e a Europa: leiam os jornais noticiando o que fazem com os navios africanos que pretendem viajar para a Europa, levando pessoas que buscam uma vida melhor. São empurrados de volta pela polícia, quando não são lançados ao mar. Quando temos que nos aproximar de pessoas diferentes, sentimos uma certa repulsa.

Ainda outro dia, lia um articulista lá de São Paulo, desses bem conservadores, que falava exatamente sobre a elite do poder, do saber. Pessoas pobres não têm acesso à cultura, ao bem-estar que temos. Ele, ironicamente, questiona se deveríamos esconder os nossos diplomas, os nossos bens apenas porque outros não os têm. Jesus vem mostrar uma diferença radical na história. Não era preciso Ele descer do céu para dizer que os nossos sentidos se agradam com os bens, com a riqueza. Isso é óbvio! Basta ver as filas diante das loterias, com dezenas de pessoas querendo ganhar o prêmio para comprar uma casa bonita, um carro moderno para andar pomposamente pelas ruas. Todos nós sabemos que a beleza e a riqueza nos agradam, e Jesus não precisaria dizer. O que Ele continua precisando dizer é que neste mundo há duas possibilidades de viver: não se deixando levar pelo consumismo, ou como aqueles que se vestem e se exibem, cheios de riqueza e de beleza, com seus olhos ofuscados, a ponto de não conseguirem ver ninguém mais além de si mesmos. É sobre esse risco que o Senhor nos alerta! A nossa cultura está nos separando das pessoas. Mas, se a cultura, a riqueza for colocada a serviços dos outros, Jesus será o primeiro a se alegrar.

Por isso, eu insisto tanto, para mim e para vocês: é muito fácil nos alegrarmos com o que somos e temos, e muito difícil dispormos do que somos e, principalmente, do que temos. Chega a ser fácil dar coisas que nos sobram, mas é muito difícil dispormos do nosso tempo, do nosso olhar, nosso carinho, nosso abraço. Dar apenas o que nos sobra nos suja, nos polui, nos deixa com o coração amargurado. Jesus vem dizer que o fundamental é abrir o nosso coração para acolher o outro.

Também temos festas, imaginem o carnaval! Quantos brasileiros gostariam que tivéssemos 365 dias de carnaval?! Também temos o nosso lado de rico Epulão. Gostamos de festas, nos cuidamos, pensamos apenas em nós e acabamos nos distanciando do Lázaro que somos e que também são os outros. Esse é o problema! O rico Epulão fechava-se em seu casulo, em sua redoma, como alguém que é incapaz de ver um miserável que pede alguma coisa que cai de sua mesa.

Não que seja sovina, mineiro ao quadrado, que não queira dar. Não é nada disso não. Simplesmente não vê. Somos bons, mas não vemos. Somos cegos! Vemos apenas a nós mesmos. Reparem se cada um de vocês soubesse que ao seu lado estava um irmão precisando de uma palavra. Mas não vemos, não percebemos, não sentimos, porque entre nós e o outro há um abismo intransponível. Essa é a lição de Jesus, esse é o abismo que temos que superar, porque nos faz sofrer, nos conduz à solidão. Não adiantam milagres, aparecer-nos alguém que já morreu.

Ouvimos também hoje a ironia do profeta Amós falando que os que viviam no luxo seriam os primeiros na fila para o exílio. O Senhor está nos dizendo que o mal não é a riqueza, mas o coração que vai-nos fechando em nós mesmos. É hora de nos perguntar: o que somos e temos nos fecha em nos mesmos, nos faz voltar apenas para nós, não nos deixar abrir nossos olhos para que participemos e partilhemos com outros? 

Isso acontece em todos os lugares, mas também estão acontecendo coisas bonitas neste mundo. Já lhes falei, mas vou repetir. Outro dia, quando ia fazer uma palestrinha em La Paz, no avião, havia uns vinte ou trinta jovens alemães, holandeses. Eram jovens felizes, vermelhinhos, corados, alegres, cheios de vitaminas, vindos do primeiro mundo para passar um ano entre o povo simples e pobre do interior da Bolívia. Estudariam um pouco de espanhol na capital e depois iriam se dividir em grupos pequenos para conhecer o sofrimento, a dor dos indígenas aimaras, quíchuas, que vivem no interior, primidos por uma longa colonização. Eram jovens como vocês e iriam fazer o que vocês não fazem, tentando quebrar esse abismo que existe entre a Europa e a América Latina, entre o mundo rico e fechado onde vivem e o mundo pobre da Bolívia. Quebrando esse abismo, os seus olhos se abrirão, e eles verão o sofrimento, a dor de tantas pessoas, se forem capazes de sentar-se ao lado das bolivianas com suas saias imensas, gordas, baixinhas, que mal balbuciam o espanhol e, pacientemente, as ouvirem, tentando passar um pouco do carinho, do afeto que trouxeram, depois de quase vinte horas de voo. Ainda há belezas neste mundo! 

É sobre isso que Jesus fala! Não é para depois da morte, mas para agora! Jovens, acordem para um mundo de solidariedade, de proximidade! Não tenham medo! Estamos tendo um medo enorme das pessoas. Vivemos correndo com medo de assaltos, de criminosos. É claro que há muitos e não foram criados por Satanás, mas gerados por mulheres e homens aqui da Terra, que não lhes passaram nem um pouco de amor, de carinho, de cura, de cuidado para que pudessem estruturar sua psique e não se tornassem monstros horríveis. Se não trabalharmos nossa humanidade, nós mesmos sofreremos e olharemos como o rico Epulão, pedindo a Lázaro que nos traga uma gota d’água nesse fogo terrível que lançamos sobre a Terra. Amém. 
(30.09.07/26º. domingo comum)

Confira a reflexão de Frei Gustavo Medella para este 26º domingo do Tempo Comum:

Santo franciscano: São Pio de Pietrelcina


Sacerdote da Primeira Ordem (1887-1968). Beatificado por João Paulo II em 1999.

Nasceu em Pietrelcina (Sul de Itália) no dia 25 de maio de 1887. Chamava-se Francisco Forgione. O nome de Frei Pio de Pietrelcina recebeu-o em 1903, quando entrou na Ordem dos Capuchinhos. Foi ordenado sacerdote a 10 de agosto de 1910.

Viveu uma vida de exigência pessoal. Venceu os maus instintos. Foi rigoroso na luta contra os vícios, simples no vestir e na comida e extremamente cuidadoso em evitar atos que pudessem ofender a Deus, aos irmãos ou a qualquer pessoa. A vida de família iniciou-o nesta radicalidade e no Convento também encontrou ambiente que a favoreceu.

Frei Pio é considerado um grande místico por todas as pessoas a quem chegou a sua ação e influência. Nisto consistiu a radicalidade profunda e original da sua espiritualidade, que o faz ter admiradores em todos os Continentes, apesar de a maior parte das pessoas de hoje não entenderem o que se quer dizer com a palavra místico. Nada mais contrário ao mundo naturalista em que vivemos do que o conjunto de fenômenos sobrenaturais que se tornaram vulgares na vida do Frei Pio. Foram muitos os fenômenos, humanamente inexplicáveis, que marcaram fortemente a existência deste homem de Deus.

Assim como aconteceu com São Francisco de Assis, o Senhor crucificado quis partilhar com ele as dores da sua Paixão concedendo-lhe a graça dos estigmas, a 20 de setembro de 1915. Este foi o acontecimento místico mais marcante na vida do Frei Pio, mas há outros que importa, pelo menos, enumerar: o dom da profecia, o dom do discernimento dos espíritos, o dom da bilocação, o dom das curas, o dom das conversões, o dom dos perfumes.

O que mais atraiu as multidões de todos os continentes ao Convento de São Giovanni Rotondo durante a sua vida, foi a celebração da Eucaristia, o heroico atendimento de confissões e a direção espiritual (a quem recorreu muitas vezes o Papa João Paulo II, então estudante de Teologia em Roma).

O Senhor concedeu ao Frei Pio a graça de deixar duas obras para a posteridade: a Casa do Alívio para o sofrimento e os Grupos de Oração. Acerca destes últimos, dizia: "os grupos de oração são os corações e as mãos que sustentam o mundo." Morreu no dia 23 de setembro de 1968.

“Santos Franciscanos para cada dia”, Ed. Porziuncola.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Perdão e doação: pilares da convivência fraterna



Cidade do Vaticano – “Misericordiosos como o Pai” foi o tema da Audiência Geral desta quarta-feira (21/09), na Praça São Pedro.

Cerca de 25 mil fiéis ouviram o Papa Francisco nesta manhã, apesar da chuva que caiu sobre Roma nas primeiras horas do dia. O Papa ressaltou que ser misericordioso não é um slogan, mas um compromisso de vida.

“Mas é realmente possível amar como Deus ama e ser misericordioso como Ele?”, questionou o Pontífice, que explicou:

“Se olharmos a história da salvação, vemos que toda a revelação de Deus é um incessante e incansável amor pelos homens: Deus é como um pai e como uma mãe que ama de amor insondável. A morte de Jesus na cruz é o ápice da história de amor de Deus com o homem. Um amor tão grande que só Deus pode realizar.”

Se comparado com este amor sem medida, prosseguiu o Papa, é evidente que o nosso parecerá imperfeito. “Ser perfeito significa ser misericordioso”, afirmou. Mas quando Jesus nos pede para sermos misericordiosos como o Pai não pensa na quantidade, mas no compromisso dos discípulos se tornarem sinais, canais, testemunhas da misericórdia infinita de Deus.

Perdoar e doar-se

Por isso, a Igreja só pode ser sacramento da misericórdia de Deus no mundo, em todos os tempos e por toda a humanidade. Na prática, acrescentou Francisco, ser misericordioso significa saber perdoar e doar-se. Jesus não pretende subverter o decurso da justiça humana, todavia recorda aos discípulos que para ter relações fraternas é preciso suspender os juízos e as condenações.

“O cristão deve perdoar. Por quê? Porque foi perdoado. Todos nós que estamos aqui nesta Praça fomos perdoados. Todos nós, em nossas vidas, sentimos necessidade do perdão de Deus. Porque fomos perdoados, devemos perdoar. Todos os dias rezamos no Pai-Nosso: perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. Assim é fácil perdoar. Se Deus me perdoou porque não posso perdoar? Sou maior que Deus? Entenderam bem isso?

Dignidade

“Julgar e condenar o irmão que peca é errado”, destacou o Papa. “Não temos o poder de condenar o nosso irmão que erra, não estamos acima dele: mas temos o dever de recuperá-lo à dignidade de filho do Pai e de acompanhá-lo no seu caminho de conversão.” “Deus não quer renunciar a nenhum de seus filhos”, frisou o Pontífice.

Perdoar é o primeiro pilar que sustenta a comunidade cristã, continuou. O segundo é doar-se. Estar dispostos a doar-se obedece a uma lógica coerente: na medida em que se recebe de Deus, se doa ao irmão, e na medida em que se doa ao irmão, se recebe de Deus!

Portanto, concluiu o Papa, o amor misericordioso é o único caminho a percorrer.

“Quanta necessidade temos todos nós de sermos um pouco mais misericordiosos, de não falar mal dos outros, de não julgar, de não falar mal com críticas, com inveja, com ciúme. Não! Perdoar, ser misericordiosos, viver a nossa vida no amor e doar. Este amor permite aos discípulos de Jesus não perder a identidade recebida por Ele, e reconhecer-se como filhos do mesmo Pai. Não se esqueçam disso: misericórdia e dom. Perdão e doação. E assim o coração se alarga no amor. Ao invés o egoísmo, a raiva faz com o coração se torne pequeno, duro como uma pedra. O que vocês preferem: um coração de pedra ou um coração cheio de amor?, perguntou aos fiéis na Praça. Se preferirem um coração repleto de amor, sejam misericordiosos!

Alzheimer

Ao final da Audiência, Francisco recordou que neste dia 21 de setembro celebra-se o 23º Dia Mundial do Doente de Alzheimer, que este ano tem como tema “Lembre-se de mim”.

“Convido todos os presentes a 'lembrarem-se', com a solicitude de Maria e com a ternura de Jesus Misericordioso, dos que padecem deste mal e de seus familiares para que sintam a nossa proximidade. Rezemos também pelas pessoas que assistem os doentes, que sabem colher suas necessidade, inclusive as mais imperceptíveis, porque vistos com olhos repletos de amor."

Rádio Vaticano | Fotos: L'Osservatore Romano

Santo do dia: São Mateus


No tempo de Jesus Cristo, na época em que a Palestina era apenas uma província romana, os impostos cobrados eram onerosos e pesavam brutalmente sobre os ombros dos judeus. A cobrança desses impostos era feita por rendeiros públicos, considerados homens cruéis, sanguessugas, verdadeiros esfoladores do povo. Um dos piores rendeiros da época era Levi, filho de Alfeu, que, mais tarde, trocaria seu nome para Mateus, o "dom de Deus". Um dia, depois de pregar, Jesus caminhava pelas ruas da cidade de Cafarnaum e encontrou com o cruel Levi. Olhou-o com firmeza nos olhos e disse: "Segue-me". Levi, imediatamente, levantou-se, abandonou seu rentável negócio, mudou de vida, de nome e seguiu Jesus.

Acredita-se, mesmo, que tal mudança não tenha realmente ocorrido dessa forma, mas sim pelo seu próprio e espontâneo entusiasmo no Messias. Na verdade, o que se imagina é que Levi, havia algum tempo, cultivava a vontade de seguir as palavras do profeta e que aquela atitude tenha sido definitiva para colocá-lo para sempre no caminho da fé cristã.

Daquele dia em diante, com o nome já trocado para Mateus, tornou-se um dos maiores seguidores e apóstolos de Cristo, acompanhando-o em todas as suas caminhadas e pregações pela Palestina. São Mateus foi o primeiro apóstolo a escrever um livro contando a vida e a morte de Jesus Cristo, ao qual ele deu o nome de Evangelho e que foi amplamente usado pelos primeiros cristãos da Palestina. Quando o apóstolo são Bartolomeu viajou para as Índias, levou consigo uma cópia.

Depois da morte e ressurreição de Jesus, os apóstolos espalharam-se pelo mundo, e Mateus foi para a Arábia e a Pérsia para evangelizar aqueles povos. Porém, foi vítima de uma grande perseguição por parte dos sacerdotes locais, que mandaram arrancar-lhe os olhos e o encarceraram, para depois ser sacrificado aos deuses. Mas Deus não o abandonou e mandou um anjo que curou seus olhos e o libertou. Mateus seguiu, então, para a Etiópia, onde, mais uma vez, foi perseguido por feiticeiros que se opunham à evangelização. Porém, o príncipe herdeiro morreu, e Mateus foi chamado ao palácio. Por uma graça divina, fez o filho da rainha Candece ressuscitar, causando grande espanto e admiração entre os presentes. Com esse ato, Mateus conseguiu converter grande parte da população. Na época, a Igreja da Etiópia passou a ser uma das mais ativas e florescentes dos tempos apostólicos.

São Mateus morreu por ordem do rei Hitarco, sobrinho do rei Egipo, no altar da igreja em que celebrava o santo ofício da missa. Isso aconteceu porque não intercedeu em favor do pedido de casamento feito pelo monarca, e recusado pela jovem Efigênia, que havia decidido consagrar-se a Jesus. Inconformado com a atitude do santo homem, Hitarco mandou que seus soldados o executassem.

No ano 930, as relíquias mortais do apóstolo são Mateus foram transportadas para Salerno, na Itália, onde, até hoje, é festejado como padroeiro da cidade. A Igreja determinou o dia 21 de setembro para a celebração de são Mateus, apóstolo.

Fonte: Paulinas

Das Homilias de São Beda Venerável, presbítero 

Jesus viu um homem chamado Mateus, assentado à banca de impostos, e disse-lhe: Segue-me (Mt 9,9). Viu-o não tanto com os olhos corporais quanto com a vista da íntima compaixão. Viu o publicano, dele se compadeceu e o escolheu. Disse-lhe então: Segue-me. Segue, quis dizer, imita; segue, quis dizer, não tanto pelo andar dos pés, quanto pela realização dos atos. Pois quem diz que permanece em Cristo, deve andar
como ele andou (1Jo 2,6).

E levantando-se, o seguiu (Mt 9,9). Não é de admirar que o publicano, ao primeiro chamado do Senhor, tenha abandonado os lucros terrenos de que cuidava e, desprezando a opulência, aderisse aos seguidores daquele que via não possuir riqueza alguma. Pois o próprio Senhor que o chamara exteriormente com a palavra, interiormente lhe ensinou por instinto invisível a segui-lo, infundindo em seu espírito a luz da graça espiritual. Com esta compreenderia que quem o afastava dos tesouros temporais podia dar-lhe nos céus os tesouros incorruptíveis.

E aconteceu que, estando ele em casa, muitos publicanos e pecadores vieram e puseram-se à mesa com Jesus e seus discípulos (Mt 9,10). A conversão de um publicano deu a muitos publicanos e pecadores o exemplo da penitência e do perdão. Belo e verdadeiro prenúncio! Aquele que seria apóstolo e doutor dos povos, logo no primeiro encontro arrasta após si para a salvação um grupo de pecadores. Assim inicia o ofício de evangelizar desde os primeiros começos de sua fé aquele que viria a realizar este ofício plenamente com o merecido progresso das virtudes. Contudo se quisermos indagar pelo sentido mais profundo deste acontecimento nós o entenderemos: a Mateus foi muito mais grato o banquete na casa do seu coração, preparado pela fé e pelo amor do que o banquete terreno que ele ofereceu ao Senhor. Atesta-o aquele mesmo que diz:
Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele e ele comigo (Ap 3,20).

Ouvindo a sua voz, abrimos a porta para recebê-lo, ao aceitarmos de bom grado suas advertências secretas ou evidentes e nos pormos a realizar aquilo que compreendemos como o nosso dever. Ele entra para que ceemos, ele conosco e nós com ele, porque, pela graça de seu amor, habita nos corações dos eleitos para alimentá-los sempre com a luz de sua presença. Possam assim os eleitos cada vez mais progredir no desejo do alto, e ele mesmo se alimente com os desejos deles como com pratos deliciosos.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Somente a paz é santa, não a guerra, afirma Papa em Assis


Cidade do Vaticano - “Não podemos ficar indiferentes. Hoje o mundo tem uma sede ardente de paz.” “Não temos armas; mas acreditamos na força mansa e humilde da oração.” Foi o que disse o Papa Francisco na cerimônia conclusiva do Dia Mundial de Oração pela Paz, celebrada esta terça-feira (20/09) em Assis.

Na esteira do 30º aniversário do histórico Encontro de Oração pela Paz convocado por João Paulo II (27 de outubro de 1986), reunindo líderes religiosos do mundo inteiro, o evento desta terça-feira teve como tema “Sede de Paz. Religiões e Culturas em Diálogo”, promovido Diocese de Assis, Famílias Franciscanas e a Comunidade romana de Santo Egídio.

Já no início de seu discurso, após agradecer aos ilustres representantes das Igrejas, Comunidades cristãs e Religiões pela presença e participação, Francisco lembrou que todos se encontravam reunidos em Assis como peregrinos à procura da paz, movidos pelo desejo de testemunhar a paz, sobretudo pela necessidade de rezar pela paz, “porque a paz é dom de Deus e cabe a nós invoca-la, acolhê-la e construí-la cada dia com a sua ajuda”, frisou.


“Sair, pôr-se a caminho, encontrar-se em conjunto, trabalhar pela paz: não são movimentos apenas físicos, mas sobretudo da alma”, acrescentou; “são respostas espirituais concretas para superar os fechamentos, abrindo-se a Deus e aos irmãos. É Deus que no-lo pede, exortando-nos a enfrentar a grande doença do nosso tempo: a indiferença”.

Em seguida, o Pontífice caracterizou essa grande enfermidade: “É um vírus que paralisa, torna inertes e insensíveis, um morbo que afeta o próprio centro da religiosidade produzindo um novo e tristíssimo paganismo: o paganismo da indiferença”.

“Não podemos ficar indiferentes. Hoje o mundo tem uma sede ardente de paz. Em muitos países, sofre-se por guerras, tantas vezes esquecidas, mas sempre causa de sofrimento e pobreza”, disse Francisco, lembrando sua visita à ilha grega de Lesbos (16 de abril passado), na qual viu nos olhos dos refugiados o sofrimento da guerra, a angústia de povos sedentos de paz.

“Penso em famílias, cuja vida foi transtornada; nas crianças, que na vida só conheceram violência; nos idosos, forçados a deixar as suas terras: todos eles têm uma grande sede de paz. Não queremos que estas tragédias caiam no esquecimento. Desejamos dar voz em conjunto a quantos sofrem, a quantos se encontram sem voz e sem escuta. Eles sabem bem – muitas vezes melhor do que os poderosos – que não há qualquer amanhã na guerra e que a violência das armas destrói a alegria da vida.”

“Não temos armas; mas acreditamos na força mansa e humilde da oração. Neste dia, a sede de paz fez-se imploração a Deus, para que cessem guerras, terrorismo e violências”, disse ainda o Santo Padre.

A paz que invocamos, a partir de Assis, não é um simples protesto contra a guerra, nem é sequer «o resultado de negociações, de compromissos políticos ou de acordos econômicos, mas o resultado da oração», acrescentou Francisco citando palavras João Paulo II no Encontro de Oração pela Paz de 30 anos atrás.

“Procuramos em Deus, fonte da comunhão, a água cristalina da paz, de que está sedenta a humanidade: essa água não pode brotar dos desertos do orgulho e dos interesses de parte, das terras áridas do lucro a todo o custo e do comércio das armas.”

Dirigindo-se aos líderes religiosos, o Papa lembrou que nossas tradições religiosas são diversas. “Mas para nós, a diferença não é motivo de conflito, de polêmica ou de frio distanciamento”, observou.


“Hoje não rezamos uns contra os outros, como às vezes infelizmente se deu na História. Ao contrário, sem sincretismos nem relativismos, rezamos uns ao lado dos outros, uns pelos outros.”

“Continuando o caminho iniciado há trinta anos em Assis, onde permanece viva a memória daquele homem de Deus e de paz que foi São Francisco, «uma vez mais nós, aqui reunidos, afirmamos que quem recorre à religião para fomentar a violência contradiz a sua inspiração mais autêntica e profunda».”

“Não nos cansamos de repetir que o nome de Deus nunca pode justificar a violência. Só a paz é santa; não a guerra!”, exclamou o Papa.

Francisco ressaltou que a oração e a vontade de colaborar comprometem uma paz verdadeira, não ilusória: “não a tranquilidade de quem esquiva as dificuldades e vira a cara para o lado, se os seus interesses não forem atingidos”.

“Não o cinismo de quem se lava as mãos dos problemas alheios; não a abordagem virtual de quem julga tudo e todos no teclado dum computador, sem abrir os olhos às necessidades dos irmãos nem sujar as mãos em prol de quem passa necessidade”, enfatizou.

Após afirmar ser a paz um fio de esperança que liga a terra ao céu, o Pontífice disse tratar-se de uma palavra tão simples e ao mesmo tempo tão difícil. Paz quer dizer perdão, acolhimento, colaboração e educação, disse.

Concluindo, o Papa lembrou que nosso futuro é viver juntos. “Por isso, somos chamados a libertar-nos dos fardos pesados da desconfiança, dos fundamentalismos e do ódio”.

“Nós, como Chefes religiosos, temos a obrigação de ser pontes sólidas de diálogo, mediadores criativos de paz. Dirigimo-nos também àqueles que detêm a responsabilidade mais alta no serviço dos povos, aos líderes das nações, pedindo-lhes que não se cansem de procurar e promover caminhos de paz, olhando para além dos interesses de parte e do momento.”

A paz é uma responsabilidade universal, lembrou Francisco, fazendo uma exortação: “Assumamos esta responsabilidade, reafirmemos hoje o nosso sim a ser, juntos, construtores da paz que Deus quer e de que a humanidade está sedenta.”

Confira na íntegra a meditação do Papa no momento de oração com as lideranças cristãs na Basílica São Francisco de Assis:

À vista de Jesus crucificado, ressoam também para nós as suas palavras: «Tenho sede!» (Jo 19, 28). A sede é, ainda mais do que a fome, a necessidade extrema do ser humano, mas representa também a sua extrema miséria. Assim contemplamos o mistério do Deus Altíssimo, que Se tornou, por misericórdia, miserável entre os homens.

De que tem sede o Senhor? Certamente de água, elemento essencial para a vida; mas sobretudo de amor, elemento não menos essencial para se viver. Tem sede de nos dar a água viva do seu amor, mas também de receber o nosso amor. O profeta Jeremias expressou o comprazimento de Deus pelo nosso amor: «Recordo-Me da tua fidelidade no tempo da tua juventude, dos amores do tempo do teu noivado» (Jr 2, 2). Mas deu voz também ao sofrimento divino, quando o homem, ingrato, abandonou o amor, quando – parece dizer também hoje o Senhor – «Me abandonou a Mim, nascente de águas vivas, e construiu cisternas para si, cisternas rotas, que não podem reter as águas» (Jr 2, 13). É o drama do «coração árido», do amor não correspondido; um drama que se renova no Evangelho, quando, à sede de Jesus, o homem responde com vinagre, que é vinho estragado. Como profeticamente lamentou o salmista, «deram-me (…) vinagre, quando tive sede» (Sal 69/68, 22).

«O Amor não é amado»: tal era, segundo algumas crônicas, a realidade que turvava São Francisco de Assis. Por amor do Senhor que sofre, não se envergonhava de chorar e lamentar-se em voz alta (cf. Fontes Franciscanas, n. 1413). Esta mesma realidade nos deve estar a peito ao contemplarmos Deus crucificado, sedento de amor. Madre Teresa de Calcutá quis que, nas capelas de cada comunidade, estivesse escrito perto do Crucifixo: «Tenho sede». Apagar a sede de amor de Jesus na cruz, através do serviço aos mais pobres dos pobres, foi a sua resposta. Na verdade, o Senhor é saciado pelo nosso amor compassivo; é consolado quando, em nome d’Ele, nos inclinamos sobre as misérias alheias. No Juízo, chamará «benditos» aqueles que deram de beber a quem tinha sede, aqueles que ofereceram amor concreto a quem estava necessitado: «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 40).

As palavras de Jesus interpelam-nos, pedem acolhimento no coração e resposta com a vida. Na sua exclamação «tenho sede», podemos ouvir a voz dos que sofrem, o grito escondido dos pequenos inocentes a quem é negada a luz deste mundo, a súplica instante dos pobres e dos mais necessitados de paz. Imploram paz as vítimas das guerras que poluem os povos de ódio e a terra de armas; imploram paz os nossos irmãos e irmãs que vivem sob a ameaça dos bombardeamentos ou são forçados a deixar a casa e emigrar para o desconhecido, despojados de tudo. Todos eles são irmãos e irmãs do Crucificado, pequeninos do seu Reino, membros feridos e sedentos da sua carne. Têm sede. Mas, frequentemente, é-lhes dado, como a Jesus, o vinagre amargo da rejeição. Quem os ouve? Quem se preocupa em responder-lhes? Deparam-se muitas vezes com o silêncio ensurdecedor da indiferença, o egoísmo de quem se sente incomodado, a frieza de quem apaga o seu grito de ajuda com mesma facilidade com que muda de canal na televisão.

À vista de Cristo crucificado, «poder e sabedoria de Deus» (1 Cor 1, 24), nós, cristãos, somos chamados a contemplar o mistério do Amor não amado e a derramar misericórdia sobre o mundo. Na cruz, árvore de vida, o mal foi transformado em bem; também nós, discípulos do Crucificado, somos chamados a ser «árvores de vida», que absorvem a poluição da indiferença e restituem ao mundo o oxigénio do amor. Do lado de Cristo, na cruz, saiu água, símbolo do Espírito que dá a vida (cf. Jo 19, 34); do mesmo modo saia de nós, seus fiéis, compaixão por todos os sedentos de hoje.

Como a Maria ao pé da cruz, conceda-nos o Senhor estar unidos a Ele e próximos de quem sofre. Aproximando-nos de quantos vivem hoje como crucificados e tirando a força de amar do Crucificado Ressuscitado, crescerão ainda mais a harmonia e a comunhão entre nós. «Com efeito, Ele é a nossa paz» (Ef 2, 14), Ele que veio anunciar a paz àqueles que estavam perto e aos que estavam longe (cf. Ef 2, 17). Ele nos guarde a todos no amor e nos congregue na unidade, para a qual estamos a caminho, a fim de nos tornarmos o que Ele deseja: «um só» (Jo 17, 21).


Confira na íntegra o discurso durante a cerimônia interreligiosa:

Vossas Santidades,
Ilustres Representantes das Igrejas, Comunidades cristãs e Religiões,
Amados irmãos e irmãs!

Com grande respeito e afeto vos saúdo e agradeço a vossa presença. Agradeço à Comunidade de Santo Egídio, à diocese de Assis e às Famílias Franciscanas que prepararam esta jornada de oração. Viemos a Assis como peregrinos à procura de paz. Trazemos conosco e colocamos diante de Deus os anseios e as angústias de muitos povos e pessoas. Temos sede de paz, temos o desejo de testemunhar a paz, temos sobretudo necessidade de rezar pela paz, porque a paz é dom de Deus e cabe a nós invocá-la, acolhê-la e construí-la cada dia com a sua ajuda.

«Felizes os pacificadores» (Mt 5, 9). Muitos de vós percorreram um longo caminho para chegar a este lugar abençoado. Sair, pôr-se a caminho, encontrar-se em conjunto, trabalhar pela paz: não são movimentos apenas físicos, mas sobretudo da alma; são respostas espirituais concretas para superar os fechamentos, abrindo-se a Deus e aos irmãos. É Deus que no-lo pede, exortando-nos a enfrentar a grande doença do nosso tempo: a indiferença. É um vírus que paralisa, torna inertes e insensíveis, um morbo que afeta o próprio centro da religiosidade produzindo um novo e tristíssimo paganismo: o paganismo da indiferença.

Não podemos ficar indiferentes. Hoje o mundo tem uma sede ardente de paz. Em muitos países, sofre-se por guerras, tantas vezes esquecidas, mas sempre causa de sofrimento e pobreza. Em Lesbos, com o querido Patriarca Ecumênico Bartolomeu, vimos nos olhos dos refugiados o sofrimento da guerra, a angústia de povos sedentos de paz. Penso em famílias, cuja vida foi transtornada; nas crianças, que na vida só conheceram violência; nos idosos, forçados a deixar as suas terras: todos eles têm uma grande sede de paz. Não queremos que estas tragédias caiam no esquecimento. Desejamos dar voz em conjunto a quantos sofrem, a quantos se encontram sem voz e sem escuta. Eles sabem bem – muitas vezes melhor do que os poderosos – que não há qualquer amanhã na guerra e que a violência das armas destrói a alegria da vida.

Nós não temos armas; mas acreditamos na força mansa e humilde da oração. Neste dia, a sede de paz fez-se imploração a Deus, para que cessem guerras, terrorismo e violências. A paz que invocamos, a partir de Assis, não é um simples protesto contra a guerra, nem é sequer «o resultado de negociações, de compromissos políticos ou de acordos econômicos, mas o resultado da oração» [João Paulo II, Discurso, Basílica de Santa Maria dos Anjos, 27 de outubro de 1986, 1: Insegnamenti IX/2 (1986), 1252]. Procuramos em Deus, fonte da comunhão, a água cristalina da paz, de que está sedenta a humanidade: essa água não pode brotar dos desertos do orgulho e dos interesses de parte, das terras áridas do lucro a todo o custo e do comércio das armas.

Diversas são as nossas tradições religiosas. Mas, para nós, a diferença não é motivo de conflito, de polêmica ou de frio distanciamento. Hoje não rezamos uns contra os outros, como às vezes infelizmente sucedeu na História. Ao contrário, sem sincretismos nem relativismos, rezamos uns ao lado dos outros, uns pelos outros. São João Paulo II disse neste mesmo lugar: «Talvez nunca antes na história da humanidade, como agora, o laço intrínseco que existe entre uma atitude autenticamente religiosa e o grande bem da paz se tenha tornado evidente a todos» (Discurso, Praça inferior da Basílica de São Francisco, 27 de outubro de 1986, 6: o. c., 1268). Continuando o caminho iniciado há trinta anos em Assis, onde permanece viva a memória daquele homem de Deus e de paz que foi São Francisco, «uma vez mais nós, aqui reunidos, afirmamos que quem recorre à religião para fomentar a violência contradiz a sua inspiração mais autêntica e profunda» [João Paulo II, Discurso aos Representantes das Religiões, Assis, 24 de janeiro de 2002, 4: Insegnamenti XXV/1 (2002), 104], que qualquer forma de violência não representa «a verdadeira natureza da religião. Ao contrário, é a sua deturpação e contribui para a sua destruição» [Bento XVI, Intervenção na jornada de reflexão, diálogo e oração pela paz e a justiça no mundo, Assis, 27 de outubro de 2011: Insegnamenti VII/2 (2011), 512]. Não nos cansamos de repetir que o nome de Deus nunca pode justificar a violência. Só a paz é santa. Só a paz é santa; não a guerra!

Hoje imploramos o santo dom da paz. Rezamos para que as consciências se mobilizem para defender a sacralidade da vida humana, promover a paz entre os povos e salvaguardar a criação, nossa casa comum. A oração e a colaboração concreta ajudam a não ficar bloqueados nas lógicas do conflito e a rejeitar as atitudes rebeldes de quem sabe apenas protestar e irar-se. A oração e a vontade de colaborar comprometem a uma paz verdadeira, não ilusória: não a tranquilidade de quem esquiva as dificuldades e vira a cara para o lado, se os seus interesses não forem afetados; não o cinismo de quem se lava as mãos dos problemas alheios; não a abordagem virtual de quem julga tudo e todos no teclado dum computador, sem abrir os olhos às necessidades dos irmãos nem sujar as mãos em prol de quem passa necessidade. A nossa estrada é mergulhar nas situações e dar o primeiro lugar aos que sofrem; assumir os conflitos e saná-los a partir de dentro; percorrer com coerência caminhos de bem, recusando os atalhos do mal; empreender pacientemente, com a ajuda de Deus e a boa vontade, processos de paz.

Paz, um fio de esperança que liga a terra ao céu, uma palavra tão simples e ao mesmo tempo tão difícil. Paz quer dizer Perdão que, fruto da conversão e da oração, nasce de dentro e, em nome de Deus, torna possível curar as feridas do passado. Paz significa Acolhimento, disponibilidade para o diálogo, superação dos fechamentos, que não são estratégias de segurança, mas pontes sobre o vazio. Paz quer dizer Colaboração, intercâmbio vivo e concreto com o outro, que constitui um dom e não um problema, um irmão com quem tentar construir um mundo melhor. Paz significa Educação: uma chamada a aprender todos os dias a arte difícil da comunhão, a adquirir a cultura do encontro, purificando a consciência de qualquer tentação de violência e rigidez, contrárias ao nome de Deus e à dignidade do ser humano.

Nós aqui, juntos e em paz, cremos e esperamos num mundo fraterno. Desejamos que homens e mulheres de religiões diferentes se reúnam e criem concórdia em todo o lado, especialmente onde há conflitos. O nosso futuro é viver juntos. Por isso, somos chamados a libertar-nos dos fardos pesados da desconfiança, dos fundamentalismos e do ódio. Que os crentes sejam artesãos de paz na invocação a Deus e na ação em prol do ser humano! E nós, como Chefes religiosos, temos a obrigação de ser pontes sólidas de diálogo, mediadores criativos de paz. Dirigimo-nos também àqueles que detêm a responsabilidade mais alta no serviço dos povos, aos líderes das nações, pedindo-lhes que não se cansem de procurar e promover caminhos de paz, olhando para além dos interesses de parte e do momento: não caiam no vazio o apelo de Deus às consciências, o grito de paz dos pobres e os anseios bons das gerações jovens. Aqui, há trinta anos, São João Paulo II disse: «A paz é um canteiro de obras aberto a todos e não só aos especialistas, aos sábios e aos estrategistas. A paz é uma responsabilidade universal» (Discurso, Praça inferior da Basílica de São Francisco, 27 de outubro de 1986, 7: o. c., 1269). Irmãs e irmãos, assumamos esta responsabilidade, reafirmemos hoje o nosso sim a ser, juntos, construtores da paz que Deus quer e de que a humanidade está sedenta.

Na cerimônia de conclusão do encontro em Assis e depois do discurso do Papa na Praça de São Francisco, no final da tarde desta terça-feira (20), foi respeitado um minuto de silêncio em memória das vítimas das guerras e do terrorismo em todo o mundo. Em seguida, um representante do budismo japonês leu o Apelo pela Paz para toda a assembleia que acompanhava o encerramento.

Um grupo de crianças, então, recebeu uma cópia do documento que será doada para os representantes de países de todo o planeta no sentido de frutificar a mensagem de Assis no mundo. Para representar o momento, Papa Francisco fez a entrega do Apelo pela Paz envolvido num ramo de oliveira – símbolo da paz – a uma criança.

Na sequência da cerimônia, o Santo Padre foi quem começou a acender o candelabro para iluminar para a esperança e também foi o primeiro a assinar o documento. E, assim, sucessivamente, os representantes religiosos também acenderam as suas velas para compor o candelabro, e assinaram o apelo conjunto, acreditando nesse ato concreto de misericórdia, compartilhado em um grande abraço humanitário pela paz.

No texto do Apelo pela Paz, as primeiras referências remontam o ano de 1986 quando, a convite do Papa João Paulo II, o encontro inter-religioso abraçou homens e mulheres de diferentes religiões e provenientes do mundo todo para “afirmar o vínculo indivisível entre o grande bem da paz e uma autêntica atitude religiosa”.

Com a guerra, todos perdem, incluindo os vencedores

“Daquele evento histórico, teve início uma longa peregrinação que, tocando muitas cidades do mundo, envolveu inúmeros crentes no diálogo e na oração pela paz; uniu sem confundir, gerando amizades inter-religiosas sólidas e contribuindo para extinguir não poucos conflitos. Este é o espírito que nos anima: realizar o encontro no diálogo, opor-se a todas as formas de violência e abuso da religião para justificar a guerra e o terrorismo. E todavia, nos anos intercorridos, ainda muitos povos foram dolorosamente feridos pela guerra. Nem sempre se compreendeu que a guerra piora o mundo, deixando um legado de sofrimentos e ódios. Com a guerra, todos perdem, incluindo os vencedores.”

A oração protege o mundo

O apelo, então, para que a oração pela paz seja uníssona e instrumento de conciliação e amor diante dos conflitos atuais que assolam o mundo:

“Dirigimos a nossa oração a Deus, para que dê a paz ao mundo. Reconhecemos a necessidade de rezar constantemente pela paz, porque a oração protege o mundo e ilumina-o. A paz é o nome de Deus. Quem invoca o nome de Deus para justificar o terrorismo, a violência e a guerra, não caminha pela estrada d’Ele: a guerra em nome da religião torna-se uma guerra contra a própria religião. Por isso, com firme convicção, reiteramos que a violência e o terrorismo se opõem ao verdadeiro espírito religioso.”

Um tempo novo, uma família de povos

O respeito à pluralidade para a construção de uma sociedade de paz também se faz presente no Apelo pela Paz, com pensamento especial a quem sofre por causa da guerra: os pobres, as crianças, os jovens, as mulheres. E é com eles que se clama: “Não à guerra!”, não cair no vazio o grito de dor de tantos inocentes. O Apelo implora “aos Responsáveis das nações que sejam desativados os moventes das guerras: a ambição de poder e dinheiro, a ganância de quem trafica armas, os interesses de parte, as vinganças pelo passado” e que “cresça o esforço concreto para remover as causas subjacentes aos conflitos: as situações de pobreza, injustiça e desigualdade, a exploração e o desprezo da vida humana”.

“Abra-se, finalmente, um tempo novo, em que o mundo globalizado se torne uma família de povos. Implemente-se a responsabilidade de construir uma paz verdadeira, que esteja atenta às necessidades autênticas das pessoas e dos povos, que impeça os conflitos através da colaboração, que vença os ódios e supere as barreiras por meio do encontro e do diálogo. Nada se perde, ao praticar efetivamente o diálogo. Nada é impossível, se nos dirigimos a Deus na oração. Todos podem ser artesãos de paz; a partir de Assis, renovamos com convicção o nosso compromisso de o sermos, com a ajuda de Deus, juntamente com todos os homens e mulheres de boa vontade.”

Confira o texto na íntegra:

Apelo pela Paz (Assis, 20 de setembro de 2016)

Homens e mulheres de diferentes religiões, congregamo-nos, como peregrinos, na cidade de São Francisco. Aqui em 1986, há trinta anos, a convite do Papa João Paulo II, reuniram-se Representantes religiosos de todo o mundo, pela primeira vez de modo tão participado e solene, para afirmar o vínculo indivisível entre o grande bem da paz e uma autêntica atitude religiosa. Daquele evento histórico, teve início uma longa peregrinação que, tocando muitas cidades do mundo, envolveu inúmeros crentes no diálogo e na oração pela paz; uniu sem confundir, gerando amizades inter-religiosas sólidas e contribuindo para extinguir não poucos conflitos. Este é o espírito que nos anima: realizar o encontro no diálogo, opor-se a todas as formas de violência e abuso da religião para justificar a guerra e o terrorismo. E todavia, nos anos intercorridos, ainda muitos povos foram dolorosamente feridos pela guerra. Nem sempre se compreendeu que a guerra piora o mundo, deixando um legado de sofrimentos e ódios. Com a guerra, todos perdem, incluindo os vencedores.

Dirigimos a nossa oração a Deus, para que dê a paz ao mundo. Reconhecemos a necessidade de rezar constantemente pela paz, porque a oração protege o mundo e ilumina-o. A paz é o nome de Deus. Quem invoca o nome de Deus para justificar o terrorismo, a violência e a guerra, não caminha pela estrada d’Ele: a guerra em nome da religião torna-se uma guerra contra a própria religião. Por isso, com firme convicção, reiteramos que a violência e o terrorismo se opõem ao verdadeiro espírito religioso.

Colocamo-nos à escuta da voz dos pobres, das crianças, das gerações jovens, das mulheres e de tantos irmãos e irmãs que sofrem por causa da guerra; com eles, bradamos: Não à guerra! Não caia no vazio o grito de dor de tantos inocentes. Imploramos aos Responsáveis das nações que sejam desativados os moventes das guerras: a ambição de poder e dinheiro, a ganância de quem trafica armas, os interesses de parte, as vinganças pelo passado. Cresça o esforço concreto por remover as causas subjacentes aos conflitos: as situações de pobreza, injustiça e desigualdade, a exploração e o desprezo da vida humana.

Abra-se, finalmente, um tempo novo, em que o mundo globalizado se torne uma família de povos. Implemente-se a responsabilidade de construir uma paz verdadeira, que esteja atenta às necessidades autênticas das pessoas e dos povos, que impeça os conflitos através da colaboração, que vença os ódios e supere as barreiras por meio do encontro e do diálogo. Nada se perde, ao praticar efetivamente o diálogo. Nada é impossível, se nos dirigimos a Deus na oração. Todos podem ser artesãos de paz; a partir de Assis, renovamos com convicção o nosso compromisso de o sermos, com a ajuda de Deus, juntamente com todos os homens e mulheres de boa vontade.

Rádio Vaticano | Fotos: L'Osservatore Romano