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sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Assunção de Nossa Senhora


1ª Leitura - Ap 11,19a; 12,1-6a.10ab
Salmo - Sl 44(45),10bc.11.12ab.16 (R. 10b)
2ª Leitura - 1Cor 15,20-26.28
Evangelho - Lc 1,39-56

Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa,
dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judéia.
Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel.
Quando Isabel ouviu a saudação de Maria,
a criança pulou no seu ventre
e Isabel ficou cheia do Espírito Santo.
Com um grande grito, exclamou:
"Bendita és tu entre as mulheres
e bendito é o fruto do teu ventre!"
Como posso merecer
que a mãe do meu Senhor me venha visitar?
Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos,
a criança pulou de alegria no meu ventre.
Bem-aventurada aquela que acreditou,
porque será cumprido, o que o Senhor lhe prometeu".
Maria disse:
"A minha alma engrandece o Senhor,
e se alegrou o meu espírito em Deus, meu Salvador,
pois, ele viu a pequenez de sua serva,
eis que agora as gerações hão de chamar-me de bendita.
O Poderoso fez por mim maravilhas
e Santo é o seu nome!
Seu amor, de geração em geração,
chega a todos que o respeitam.
Demonstrou o poder de seu braço,
dispersou os orgulhosos.
Derrubou os poderosos de seus tronos
e os humildes exaltou.
De bens saciou os famintos
despediu, sem nada, os ricos.
Acolheu Israel, seu servidor,
fiel ao seu amor,
como havia prometido aos nossos pais,
em favor de Abraão e de seus filhos, para sempre".
Maria ficou três meses com Isabel;
depois voltou para casa.

Palavra da Salvação.

A glória de servir - Pe. João Batista Libânio, sj

Nós temos duas leituras contrastantes com a festa que celebramos. De um lado, dizemos que é a festa da Virgem Assunta, isto é, elevada aos céus. Evidentemente, é uma metáfora, uma imagem, porque o céu nem está em cima, nem embaixo, nem à direita nem à esquerda, pois não há espaço. Por isso, o astronauta russo, Yuri Gagarin, numa ignorância palmar, depois de andar circulando pelo espaço, avisou que não havia nem Deus, nem céu, porque ele não o vira. É claro que o céu que ele viu são apenas estrelinhas pequeninas comparadas com um mistério tão maravilhoso. Nós precisamos de metáforas, de comparações. Dizemos que ela foi elevada, como poderíamos dizer que subiu aos céus. Mas como, para nós, a altura é símbolo de grandeza, usamos a metáfora de ser elevada.

A primeira leitura é toda cheia de imagens, de figuras fortes: dragões, estrelas, a mulher que agarra o filho, e nós logo pensamos que se trata de Nossa Senhora. Mas não se trata dela, e sim da Igreja. Essa mulher é símbolo de todos nós. Ela deu à luz uma criança e vai para um lugar deserto. Tudo isso são símbolos para a nossa caminhada, para nós aqui.

Quero chamar a atenção para um contraste, talvez pouco percebido: a festa da Virgem e o evangelho em que ela, grávida, vai servir a outra grávida. Ela poderia perfeitamente ter usado a desculpa da gravidez para ficar calmamente em sua casa. Que a prima se arrumasse com outra parteira. Como uma mulher que acabou de engravidar se vai fazer uma viagem longa para ajudar outra numa mesma situação? Parece uma coisa um pouco desbaratada. O evangelho nos mostra Maria a serviço, Maria caminhando apressadamente. O que isso quer dizer? No momento em que celebramos a glória, o evangelho nos apresenta um pequeno serviço. Então, uma pessoa, quando é glorificada, não chega ao Planalto, atravessa triunfalmente a Esplanada para atingir a glória? Ou quando alguém vive um momento de triunfo coloca-se a serviço do menor, daquela mulher já mais provecta, que nem mais sabe que coisa é gravidez, totalmente despreparada? Há uma moral escondida nesse evangelho. Preferiríamos uma passagem em que Maria fosse exaltada, glorificada, mas é essa que serve que será assunta ao céu.

Como temos conceitos diferentes para medir a glória de alguém! Achamos que a glória vem das aparências, mas ela vem da interioridade, da profundidade da pessoa. Maria nunca foi tão glorificada como naquele momento em que servia sua prima, em que estava ao lado de Jesus na cruz. Não estava arrasada, agoniada, humilhada. É nesse momento que a sua glória se manifestava. Ela nunca foi tão assunta ao céu como no Calvário, como servindo à sua prima.

A Igreja, simbolizada por essa mulher, cheia de glória, mas já com os inimigos espreitando-a, somos nós todos. Quando é que a Igreja vai para o deserto, ser protegida, ser guardada? Será quando se fecha em si mesma? Não, é no momento em que sai ao encontro do outro. Não somos cristãos para nós. Precisamos mudar a nossa cabeça. Não somos católicos para estarmos no templo.

Como muito bem diz a palavra, católico é kata + holos – universal, de acordo com o todo. Somos católicos para mostrar às pessoas que existe um sentido na vida, uma beleza, que a vida é mais do que o que estamos vendo. Não é só tristeza, morte, assalto, novelas, aborto. A vida tem algo de magnífico e vale a pena ser vivida. Mas é preciso viver com significado, sentido, beleza, entrega de nós mesmos. Essa é a nossa vocação! Essa é a mulher do deserto, que dá à luz a criança que se chama esperança. O mundo de hoje está altamente carente de esperança.

Maria assunta ao céu toca agora a cada um de nós. Olhamos para o nosso corpo e logo imaginamos que foi o corpo de Maria que subiu. Logo imaginamos que é este corpo, com olho, nariz e orelha, que vai um dia estar no céu. Leda ilusão! Este corpo vai se desfazer. Abram os túmulos e verão: potássio, fósforo, cálcio. O corpo glorioso é um desafio para todos nós. Corpo é a totalidade do nosso eu, é o eu por inteiro: todas as nossas relações, tudo aquilo que criamos, tudo o que construímos para a vida, todos os amores, todos os sofrimentos, todas as alegrias que sentimos. Nós carregamos toda uma história. Isso é que é assunção! Não caminhamos sozinhos; temos uma família, uma tradição, uma cultura. Depois de nós, outros virão. Ao nosso lado há uma imensa rede de circulação. O corpo é esse nozinho do qual podemos puxar infinitos fios que levaremos conosco na ressurreição.

Nós, que já temos nossos pais na eternidade, pensamos que eles estão lá, sozinhos? Estão com todos nós, que já participamos da glória de nossos pais, de nossos avós, de nossos amigos. Eles carregaram a história da qual também participamos. Quando invocamos os nossos mortos, não invocamos corpos vazios, mas irmãos ressuscitados, carregados de história – de nossas famílias, de nossos amores. Tudo isso é carregado para dentro da ressurreição. Maria assunta ao céu carrega toda a humanidade. Não é glória pessoal, mas de todos nós, de todas as pessoas que amam, que vivem. Todos nós teremos alguma coisa para ressuscitar conosco. Só não ressuscita o pecado, o crime, o ódio. Uma pitadinha de amor será eternidade.

Pe. João Batista Libânio, sj - Um outro olhar, vol 7

Confira a reflexão de Frei Gustavo Medella, OFM para este domingo: