PESQUISAR TEMAS E ARQUIVOS DO BLOG

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

20º domingo do Tempo Comum


Jr 38, 4-6.8-10
Sl 39 (40), 2, 4.18-20.22
Hb 11, 1-2.8-19
Lc 12, 49-53

Jesus é sinal de contradição

49 «Eu vim para lançar fogo sobre a terra: e como gostaria que já estivesse aceso! 50 Devo ser batizado com um batismo, e como estou ansioso até que isso se cumpra! 51 Vocês pensam que eu vim trazer a paz sobre a terra? Pelo contrário, eu lhes digo, vim trazer divisão. 52 Pois, daqui em diante, numa família de cinco pessoas, três ficarão divididas contra duas, e duas contra três. 53 Ficarão divididos: o pai contra o filho, e o filho contra o pai; a mãe contra a filha, e a filha contra a mãe; a sogra contra a nora, e a nora contra a sogra.»

* 49-53: A missão de Jesus, desde o batismo até a cruz, é anunciar e tornar presente o Reino, entrando em choque com as concepções dominantes na sociedade. Por isso, é preciso tomar uma decisão diante de Jesus, e isso provoca divisões até mesmo no relacionamento familiar.

Bíblia Sagrada - Edição Pastoral

A paz que Jesus espera de nós – Pe. João Batista Libânio, sj

Esse evangelho não é fácil de ser entendido, pois, em outra oportunidade, Jesus disse que veio trazer a paz. Na celebração da missa, nós mesmos rezamos, repartindo a paz que Ele veio trazer. Mas hoje, no evangelho, Ele mesmo diz que não veio trazer a paz, mas a guerra. Em qual devemos acreditar? Como podemos entender isso? Ele nos prepara para entender, dizendo que estava ansioso para que o fogo que trazia incendiasse o mundo. Também estava ansioso para receber um batismo. Aí estão três perguntas que precisamos responder: que fogo seria esse? Que batismo Ele pretendia receber e que divisão teria Ele trazido?

Comecemos refletindo sobre o fogo que Ele trouxe. Certamente, Ele não falava do fogo material, pois, na escritura e também na tradição religiosa, fogo é símbolo da purificação. Como não existiam desinfetantes, iodo ou qualquer outro remédio, era costume usar o fogo para limpar o mundo de todas as coisas que não serviam. Portanto, o fogo é símbolo da limpeza, da pureza, da novidade que Ele trouxe. O Espírito Santo também é comparado ao fogo. Em Pentecostes, os apóstolos recebem o Espírito em forma de línguas de fogo. Fogo, portanto, é sinal de purificação, de força interior, de transformação. Quando falamos que uma pessoa tem fogo no coração, estamos querendo dizer que ela está entusiasmada. Portanto, parece-me que Jesus não gosta de pessoas acomodadas. Ele não gosta quando vê os cristãos acomodadinhos, não querendo assumir nada. Se começar a pegar fogo aqui nesta igreja, nenhum de vocês continuará assentado. O fogo acaba com toda a pasmaceira, nos dá movimento e energia, faz com que corramos. Essa é a ideia de Jesus. Será que a nossa vida comunitária é plena de entusiasmo? Será que existe algum fogo trabalhando em nosso interior? Ou continuamos parados, inertes, acomodados, sem energia, sem vigor?

Jesus continua dizendo que queria ser batizado e estava ansioso por esse batismo. Hoje ninguém duvida de que Ele se referia à sua morte e ressurreição, ao batismo de sangue pelo qual iria passar. Alguém que deseja entregar a sua vida, até mesmo de maneira violenta, precisa ter uma enorme coragem. Isso reforça ainda mais a ideia de que Ele não queria acomodação. Se Ele iria entregar sua própria vida num sofrimento gigantesco, não poderia aceitar que os seus seguidores vivessem acomodados, paradões, quietos. Justamente sobre esse contraste, Ele quer chamar nossa atenção, para que olhemos para frente e decidamos com que batismo seremos batizados. De que maneira pretendemos entregar alguma parte de nossa vida? Qual a causa que nos move? O que nos dará energia para vivermos nossa vida de cristãos?

A partir daí podemos entender esta frase: “eu não vim trazer a paz”. Ele não veio trazer a acomodação, uma paz parada, sem energia, de quem não quer se envolver. Ele não quer a paz de quem não tem energia interior, não é capaz de contestar, de questionar a realidade para tentar transformá-la. Ele prefere a divisão, a espada, no sentido de que não sejamos pessoas não engajadas e comprometidas com a realidade. Mas quando se trata de ódio, vingança ou incompreensão entre nós, aí, então, Ele quer a paz, a paz do perdão, da reconciliação, da misericórdia, da amizade, da volta, do encontro.

Guardemos bem claramente essa lição e nos perguntemos: qual a paz que estamos vivendo? Será que vivemos a paz da acomodação ou a do perdão? Trazemos conosco a espada que fere ou a que nos estimula ao compromisso, ao trabalho, à luta? É por aí que vai a mensagem de Jesus. Ele quer que carreguemos conosco a espada que nos dará força para nos lançar no trabalho, no compromisso com os irmãos, na Igreja, na pastoral, na comunidade. O que Ele não quer é que essa espada gere divisão, ódio, vingança. Ele quer a paz da reconciliação, mas não é dessa paz que Ele fala hoje no evangelho. Amém.

Pe. João Batista Libânio, sj - Um outro olhar, vol. 8

Confira a reflexão de Frei Gustavo Medella para este 20º domingo do Tempo Comum: