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sexta-feira, 5 de agosto de 2016

19º domingo do Tempo Comum


1ª Leitura: Sb 18,6-9
Sl 32
2ª Leitura: Hb 11,1-2.8-19
Evangelho: Lc 12,32-48

32 Não tenha medo, pequeno rebanho, porque o Pai de vocês tem prazer em dar-lhes o Reino. 33 Vendam os seus bens e deem o dinheiro em esmola. Façam bolsas que não envelhecem, um tesouro que não perde o seu valor no céu: lá o ladrão não chega, nem a traça rói. 34 De fato, onde está o seu tesouro, aí estará também o seu coração.»

35 «Estejam com os rins cingidos e com as lâmpadas acesas. 36 Sejam como homens que estão esperando o seu senhor voltar da festa de casamento: tão logo ele chega e bate, eles imediatamente vão abrir a porta. 37 Felizes dos empregados que o senhor encontra acordados quando chega. Eu garanto a vocês: ele mesmo se cingirá, os fará sentar à mesa, e, passando, os servirá. 38 E caso ele chegue à meia-noite ou às três da madrugada, felizes serão se assim os encontra! 39 Mas, fiquem certos: se o dono da casa soubesse a hora em que o ladrão iria chegar, não deixaria que lhe arrombasse a casa. 40 Vocês também estejam preparados! Porque o Filho do Homem vai chegar na hora em que vocês menos esperarem.» 41 Então Pedro disse a Jesus: «Senhor, estás contando essa parábola só para nós, ou para todos?» 42 E o Senhor respondeu: «Quem é o administrador fiel e prudente, que o senhor coloca à frente do pessoal de sua casa, para dar a comida a todos na hora certa? 43 Feliz o empregado que o senhor, ao chegar, encontra fazendo isso! 44 Em verdade, eu digo a vocês: o senhor lhe confiará a administração de todos os seus bens. 45 Mas, se esse empregado pensar: ‘Meu patrão está demorando’, e se puser a surrar os criados e criadas, a comer, beber, e embriagar-se, 46 o senhor desse empregado chegará num dia inesperado e numa hora imprevista. O senhor o expulsará de casa, e o fará tomar parte do destino dos infiéis. 47 Todavia aquele empregado que, mesmo conhecendo a vontade do seu senhor, não ficou preparado, nem agiu conforme a vontade dele será chicoteado muitas vezes. 48 Mas, o empregado que não sabia, e fez coisas que merecem castigo, será chicoteado poucas vezes. A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido.»

O tesouro que guarda o nosso coração – Pe. João Batista Libânio

A leitura da carta aos Hebreus, antigamente, era atribuída a São Paulo, mas vários estudiosos concluíram que, ainda que traga ideias parecidas com as dele, provavelmente, terá sido escrita por algum pregador de sua comunidade.

Ela é a grande apologia da fé, que, de vez em quando, precisa ser um pouco estimulada e, para isso, nada melhor do que a história, que Cícero, um grande historiador romano, chamou de magistra vita – mestra da vida. Nesse trecho, que hoje lemos resumidamente, o pregador volta-se para a história do povo de Israel. Faz um percurso desde Abraão até Jesus Cristo. Só que esse pregador, com o olhar profundamente inspirado, não se preocupou com as façanhas políticas desses homens, mas sim com o coração deles. Mesmo Moisés, que foi um grande general, capaz de arrancar um povo inteiro da escravidão do Egito, contra um exército poderosíssimo, não mereceu nenhuma medalha de honra ao mérito. O que o pregador bíblico quer saber é o que lhe deu forças para agir assim. Muitos de nossos políticos são motivados pela ganância, pelo poder, mas aqueles homens quiseram deixar o exemplo de quem confiava profunda e radicalmente em Javé, o verdadeiro Deus. Quando Abraão deixou sua terra, Javé ainda era uma realidade confusa para ele, que vinha de uma cultura politeísta.

Mesmo assim, ele parte para uma missão desconhecida. O mesmo acontece com Moisés, Sara e tantos outros patriarcas, até chegar a Jesus Cristo, que fará o maior êxodo da história, atravessando o gigantesco deserto da morte, que terminou na luz fulgurante da ressurreição.

Nós sempre imaginamos que Jesus já trazia todo o seu projeto preparadinho, mas quando deixa a sua casa, por volta dos trinta anos, Ele não tinha nenhuma ideia do que faria. Anda de lá pra cá, encontra algumas pessoas, convida, erra em alguns convites, escolhe Judas pensando ser um amigo, e foi justamente quem o traiu, escolhe Pedro como líder, e esse também o nega. Assim vai Ele tateando para encontrar o seu caminho, até chegar ao momento último de sua vida, quando se entregará ao Pai e dará a vida a todos nós. Na cruz, despido, no isolamento mais radical, parecia que estava tudo definitivamente perdido, mas não: depois de dois milênios, nós estamos aqui. Da entrega de um único homem, existem hoje mais de um bilhão de cristãos em todo o mundo. Se somarmos todos esses séculos, seremos bilhões e bilhões de pessoas que resultaram da solidão desse Homem. É algo fantástico! Todos os nossos grandes acabaram na morte. Onde está Tibério e todos os imperadores romanos? Onde está Napoleão e todos os grandes do mundo? Ficaram por aí, na mediocridade de suas existências. E Jesus, que terminou na mais terrível solidão, tem toda uma multidão que o segue, o ama e acredita nele.

O evangelho começa com uma frase que aparece diversas vezes, e é bom que nos lembremos dela sempre que formos atravessar os nossos pequenos desertos: “não tenhais medo!”. Essa frase, tantas vezes repetida, nos dá a ideia de que as pessoas do tempo de Jesus viviam amedrontadas. Mas serão só elas? Hoje, os analistas da cultura dizem que, cada vez mais, estamos caminhando para uma sociedade do medo, da desconfiança, do sobressalto. Mas Jesus no diz que não devemos ter medo, e nos dá uma razão para isso: o nosso medo só desaparecerá, quando o nosso coração repousar num verdadeiro tesouro. Ele não diz, mas cabe-nos responder que tesouro será capaz de nos dar paz e segurança. 

Esta frase, bonita e muito existencial, é que eu deixo como dever de casa para cada um de vocês e também para mim: “onde está o seu tesouro, aí está também o seu coração”. Onde pusemos o nosso tesouro? Qual é esse tesouro? Se o nosso tesouro está no acumular bens, aí também estará o nosso coração. Se está em querer levar vantagem, não importando de que maneira, como tantas vezes temos visto nas manchetes de nossos jornais, nosso coração estará nas maracutaias. Mas se colocamos o nosso tesouro na inocência de uma criancinha que dorme nos braços da mãe, podemos ter a certeza de que nesse pequeno coração caberão muito mais tesouros do que bilhões e bilhões de dólares de todas as fortunas do mundo.

Eu gostaria de perguntar aos pais biológicos e também aos espirituais: será que os seus filhos são o seu tesouro? Será que com eles está o seu coração? Não pensem que isso é uma banalidade poética, porque são milhões de pais para os quais os filhos nunca foram tesouro. Há tantas crianças soltas por aí, cujos pais nunca existiram, a não ser na biologia. Que essa lição de Jesus hoje caia fundo no coração de todos nós. Que as crianças, os jovens, os adolescentes sejam o nosso tesouro, para que também neles esteja o nosso coração. Que cada um de nós seja capaz de sair de si mesmo e se dar aos outros na maior realidade humana que existe, embora muito gasta no mundo de hoje, e que chamamos de amor. É importante que nos perguntemos que amores trazemos, que tesouros construímos. No dia em que os nossos amores forem realmente firmes, sólidos para abrigar os nossos corações, não teremos mais nenhum motivo de temer coisa alguma. Amém.

Pe. João Batista Libânio, sj - Um outro olhar, vol. 8