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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

22º domingo do Tempo Comum


Eclo 3, 17-20.27-28
Hb 12, 18-19.22-24
Lc 14, 1.7-14

Festejar o sábado é dar vida aos homens

1 Num dia de sábado aconteceu que Jesus foi comer em casa de um dos chefes dos fariseus, que o observavam.

7 Jesus notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares. Então contou a eles uma parábola: 8 «Se alguém convida você para uma festa de casamento, não ocupe o primeiro lugar. Pode ser que tenha sido convidado alguém mais importante do que você; 9 e o dono da casa, que convidou os dois, venha dizer a você: ‘Dê o lugar para ele’. Então você ficará envergonhado e irá ocupar o último lugar. 10 Pelo contrário, quando você for convidado, vá sentar-se no último lugar. Assim, quando chegar quem o convidou, ele dirá a você: ‘Amigo, venha mais para cima’. E isso vai ser uma honra para você na presença de todos os convidados. 11 De fato, quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado.»

12 Jesus disse também ao fariseu que o tinha convidado: «Quando você der um almoço ou jantar, não convide amigos, nem irmãos, nem parentes, nem vizinhos ricos. Porque esses irão, em troca, convidar você. E isso será para você recompensa. 13 Pelo contrário, quando você der uma festa, convide pobres, aleijados, mancos e cegos. 14 Então você será feliz! Porque eles não lhe podem retribuir. E você receberá a recompensa na ressurreição dos justos.»

Disponibilidade e gratuidade – Pe. João Batista Libânio

Essas duas historinhas de Jesus parecem simples, mas precisamos ir um pouco mais fundo no seu sentido. Uma primeira regra básica para se entender uma parábola é saber que ela tem uma ideia central, e, em torno dela, vários pormenores menos importantes são tecidos, e esses podem nos tirar a compreensão.

A ideia central da primeira parábola é a de que nós deveríamos estar sempre disponíveis para nos colocar em qualquer lugar, ao contrário de, a priori, tomarmos uma posição rígida e não querermos abrir mão dela. É a primeira grande lição. Muitas vezes, temos uma ideia, um projeto fixo em nossa mente, e ficamos apegados a ele, mesmo que os fatos e até outras opiniões mais sensatas nos levem a mudar. É esse que ocupa o primeiro lugar e de lá não quer sair.

Jesus hoje está nos dizendo que a vida pode nos colocar num segundo, terceiro e até último lugar. Isso não significa que o primeiro dará lugar ao último – é apenas uma maneira simbólica de falar. Jesus quer despertar em nós uma atitude bonita de disponibilidade e liberdade, sobretudo numa sociedade consumista, cheia de ideias equivocadas sobre a realização humana. Jesus quer nos colocar numa situação de disponibilidade. A realidade é que nos ensina, e quando não somos capazes de aprender com ela, quebramos a cabeça. Estamos num ano eleitoral, e isso aparece muito claramente em certos políticos que não têm nada na cabeça. Querem apenas ganhar a eleição a qualquer custo. São os que pretendem os primeiros lugares, mas a realidade pode colocá-los bem atrás, frustrados, sem nenhum voto.

A segunda parábola toma outra perspectiva, a da gratuidade. Não se trata de não convidar amigos para uma festa. O próprio Jesus gostava de ir à casa de Marta, frequentava a casa de amigos, portanto não é isso que Ele está ensinando, mesmo que muitas pessoas quadradas e cúbicas queiram interpretar ao pé-da-letra.

Quando diz que devemos dar um banquete para o cego, Ele quer dizer que o cego não vê e, assim, só pode captar o carinho, o amor que demonstrarmos. Ele nunca verá o nosso rosto, nossas vestes, nossa maquiagem, nossa beleza física, mas somente o nosso coração, pela acolhida, pela maneira de falar. O coxo nunca conseguirá correr atrás de nós, pois mal consegue andar. Mas se nos aproximarmos, andaremos com ele. É um gesto físico, mas também espiritual. Quantos coxos espirituais estão aqui entre nós?! Quantos vivem claudicando, escorregando o dia todo, precisando de alguém que os encaminhe, que os dirija, que os conduza na gratuidade?! Poderíamos falar dos surdos, dos mudos, e seria a mesma coisa, todos precisam ouvir a nossa voz acordando-lhes para a beleza que dorme dentro deles.

Há tantos que falam fisicamente, mas são mudos interiores, porque são incapazes de falar da beleza, do amor. São fechados, são broncos, num fechamento que ninguém consegue penetrar e faz com que eles sofram terrivelmente a solidão do silêncio, da incapacidade de exprimir-se, de comunicar-se. São pessoas que vivem nervosas, mal-humoradas, têm olhares embaçados, porque falta-lhes a leveza da palavra, que liberta e salva. Ela nos diferencia dos animais, pois liberta a nossa mente e a nossa inteligência. Quantas pessoas escutam bem, mas são incapazes de ouvir uma palavra de fora, uma interpelação para a sua existência, que lhes indique um caminho, uma saída? Jesus nos diz para convidarmos essas pessoas, para salvá-las da surdez, da cegueira, do mudismo, para que voltem a caminhar e, mesmo se já estiverem mortas, ressuscitem. Amém.

Pe. João Batista Libânio, sj – Um outro olhar, vol. 8

Confira a reflexão de Frei Gustavo Medella para este 22º domingo do Tempo Comum:

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Palavra da Hora - O que é Teologia Moral?


Santo franciscano: São Luís da França


São Luís IX Rei da França. Protetor da Ordem Terceira (1215-1270). Canonizado por Bonifácio VIII no dia 11 de agosto de 1297.

Luís IX, rei da França nasceu aos 25 de abril de 1215. Foi educado rigidamente por sua mãe Branca de Castela e por ela encaminhado à santidade. Começou a ser rei da França em 1226. Casado com Margarida de Provença, ele impôs-se por toda vida exercício diário de piedade e penitência em meio de uma corte elegante e pomposa. Viveu na corte como o mais rígido monastério e tomou a todo o país como campo de sua inesgotável caridade. Quando o qualificavam de demasiado liberal com os pobres, respondia: “prefiro que meus gastos excessivos estejam constituídos por luminoso amor de Deus, e não por luxos para a vã glória do mundo”.

Sensível e justo, concedia audiência a todos debaixo do célebre bosque de Vincennes. Admirava-lhes sua serena justiça, objetiva supremo de seu reinado. A seu primogênito e herdeiro lhe disse uma vez: “preferiria que um escocês viesse da Escócia e governasse o reino bem e com lealdade, e não que tu meu filho, o governasse mal”. Toda sua vida sonhou em poder liberar a Terra Santa das mãos dos turcos. Por uma primeira cruzada promovida por ele terminou em fracasso. O exército cristão foi derrotado e dizimado pela peste. O rei caiu prisioneiro, precisamente a prisão de Luís IX foi o único resultado da expedição. As virtudes do rei impressionaram profundamente os muçulmanos, que o apontaram “o sultão justo”.

Em uma segunda expedição ao oriente, ele mesmo morreu de tifo em 1270. Antes de expirar mandou dizer ao Sultão de Túnez: “Estou resoluto a passar toda minha vida de prisioneiro dos sarracenos sem voltar a ver a luz, contanto que tu e teu povo possais fazer-se cristãos”.

Os terceiros franciscanos festejam neste dia 25 de agosto a seu patrono, São Luís, rei da França, ilustre coirmão na terceira Ordem da penitência. Foi sua mãe Branca de Castela que o encaminhou à santidade. Foi um terceiro franciscano que teve de Deus o encargo de exercitar a caridade em terras da França. Na história da França se recorda como um soberano sapientíssimo e também enérgico. O vemos praticar todas as obras de misericórdia convencional, traduz sua fé em ação e buscou no solo viver, e também governar segundo os preceitos da religião. São Luís IX, rei da França, morreu em 25 de agosto com a idade de 55 anos.

Os cruzados voltaram para a França trazendo o corpo do rei Luís IX, que já tinha fama e odor de santidade. O seu túmulo tornou-se um local de intensa peregrinação, onde vários milagres foram observados. Assim, em 1297 o papa Bonifácio VIII declarou santo Luís IX, rei da França, mantendo o culto já existente no dia de sua morte.

“Santos Franciscanos para cada dia”, Ed. Porziuncola.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Ao momento presente


Crônica de Caio Fernando Abreu

Deixe que ele respire, como uma coisa viva. E tenha muito cuidado: ele pode quebrar.
Como um bebê ou um cristal: tome-o nas mãos com muito cuidado. Ele pode quebrar, o momento presente. Escolha um fundo musical adequado — quem sabe, Mozart, se quiser uma ilusão de dignidade. Melhor evitar o rock, o samba-enredo, a rumba ou qualquer outro ritmo agitado: ele pode quebrar, o momento presente. Como um bebê, então, a quem se troca as fraldas, depois de tomá-lo nas mãos, desembrulhe-o com muito cuidado também. Olhe devagar para ele, parado no canto do quarto ou esquecido sobre a mesa, entre legumes, ou misturado às folhas abertas de algum jornal. Contemple o momento presente como um parente, um amigo antigo, tão familiar que não há risco algum nessa presença quieta, ali no canto do quarto.

Como a uma laranja, redonda, dourada — mas sem fome, contemple o momento presente. Como a cinza de um cigarro que o gesto demorou demais, caída entre as folhas de um jornal aberto em qualquer página, contemple o momento presente. E deixe o vento soprar sobre ele.

Desligue a música, agora. Seja qual for, desligue. Contemple o momento presente dentro do silêncio mais absoluto. Mesmo fechando todas as janelas, eu sei, é difícil evitar esses ruídos vindos da rua. Os alarmes de automóveis que disparam de repente, as motos com seus escapamentos abertos, algum avião no céu, ou esses rumores desconhecidos que acontecem às vezes dentro das paredes dos apartamentos, principalmente onde habitam as pessoas solitárias. Mas não sinta solidão, não sinta nada: você só tem olhos que olham o momento presente, esteja ele — ou você — onde estiver. E não dói, não há nada que provoque dor nesse olhar.

Não há memória, também. Você nunca o viu antes. Tenha a forma que tiver — um bebê, um cristal, um diamante, uma faca, uma pera, um postal, um ET, uma moça, um patim — ele não se parece a nada que você tenha visto antes. Só está ali, à sua frente, como um punhado de argila à espera de que você o tome nas mãos para dar-lhe uma forma qualquer — um bebê, um cristal, um diamante e assim por diante. E se você não o fizer, ele se fará por si mesmo, o momento presente. Não chore sobre ele. No máximo um suspiro. Mas que seja discreto, baixinho, quase inaudível. Não o agarre com voracidade — cuidado, ele pode quebrar. Não ria dele, por mais ridículo que pareça. Fique todo concentrado nessa falta absoluta de emoção. 

Não espere nada dele, nenhuma alegria, nenhum incêndio no coração. Ele nada lhe dará, o momento presente.

Deixe que ele respire, como uma coisa viva. Respire você também, como essa coisa viva que você é. Contemple-o de frente, igual àquela personagem de Clarice Lispector contemplando o búfalo atrás das grades da jaula do jardim zoológico. Você pode estender a mão para ele, tentar uma carícia desinteressada. Mas será melhor não fazer gesto algum. 

Ele não reagirá, mesmo todo pulsante, ali à sua frente.

Respire, respire. Conte até dez, até vinte talvez. Daqui a pouco ele vai começar a se transformar em outra coisa, o momento presente. Qualquer coisa inteiramente imprevisível? Você não sabe, eu não sei, ele não sabe: os momentos presentes não têm o controle sobre si mesmos. Se o telefone tocar, atenda. Se a campainha chamar, abra a porta. Quando estiver desocupado outra vez, procure-o novamente com os olhos. Ele já não estará lá. Haverá outro em seu lugar. E então, como a um bebê ou a um cristal, tome-o nas mãos com muito cuidado. Ele pode quebrar, o momento presente. Experimente então dizer “eu te amo”. Ou qualquer coisa assim, para ninguém.

Quem é Deus para você?


terça-feira, 23 de agosto de 2016

Santo do dia: Santa Rosa de Lima


A Ásia, a Europa e a África foram regadas pelo sangue de muitos mártires e adornadas durante muitos séculos com o exemplo esplêndido de um sem-número de santos, ao passo que as vastas regiões da América ficaram desertas até que a fé de Cristo começou a iluminá-las a partir do século XVI, e esta jovem surgiu nesta terra qual rosa entre espinhos, como um dos primeiros frutos dos seus santos canonizados. Ela era de descendência espanhola, nasceu em Lima, capital do Peru, em 20 de abril de 1586. Era a décima dos treze filhos de Gaspar Flores e Maria de Oliva. À medida que crescia com o rosto rosado e belo, recebeu dos familiares o apelido de Rosa, como ficou conhecida. Seus pais eram ricos espanhóis que se haviam mudado para a próspera colônia do Peru, mas os negócios declinaram e eles ficaram na miséria.

Ainda criança, Rosa teve grande inclinação à oração e à meditação, sendo dotada de dons especiais de profecia. Já adolescente, enquanto rezava diante da imagem da Virgem Maria, decidiu entregar sua vida somente a Cristo. Apesar dos apelos da família, que contava com sua ajuda para o sustento, ela ingressou na Ordem Terceira Dominicana, tomando como exemplo de vida santa Catarina de Sena. Dedicou-se, então, ao jejum, às severas penitências e à oração contemplativa, aumentando seus dons de profecia e prodígios. E, para perder a vaidade, cortou os cabelos e engrossou as mãos, trabalhando na lavoura com os pais.

Aos vinte anos, pediu e obteve licença para emitir os votos religiosos em casa e não no convento, como terciária dominicana. Quando vestiu o hábito e se consagrou, mudou o nome para Rosa e acrescentou Santa Maria, por causa de sua grande devoção à Virgem Maria, passando a ser chamada Rosa de Santa Maria.

Construiu uma pequena cela no fundo do quintal da casa de seus pais, levando uma vida de austeridade, de mortificação e de abandono à vontade de Deus. A partir do hábito, ela imprimiu ainda mais rigor às penitências. Começou a usar, na cabeça, uma coroa de metal espinhento, disfarçada com botões de rosas. Aumentou os dias de jejum e dormia sobre uma tábua com pregos. Passou a sustentar a família com as rendas e bordados que fazia, pois seu confessor consentiu que ela não saísse mais de sua cela, exceto para receber a eucaristia. Vivendo em contínuo contato com Deus, atingiu um alto grau de vida contemplativa e experiência mística, compreendendo em profundidade o mistério da Paixão e Morte de Jesus.

Rosa cumpriu sua vocação, devotando-se à eucaristia e à Virgem Maria, cuidando para afastar o pecado do seu coração, conforme a espiritualidade da época. Aos trinta e um anos de idade, foi acometida por uma grave doença, que lhe causou sofrimentos e danos físicos. Assim, retirou-se para a casa de sua benfeitora, Maria de Uzátegui, agora Mosteiro de Santa Rosa, para cumprir a profecia de sua morte. Todo ano, ela passava o Dia de São Bartolomeu em oração, pois, dizia: “este é o dia das minhas núpcias eternas”. E assim foi, até morrer no dia 24 de agosto de 1617. O seu sepultamento parou toda a cidade de Lima.

Muitos milagres aconteceram por sua intercessão após sua morte. Rosa foi beatificada em 1667 e tornou-se a primeira santa da América Latina ao ser canonizada, em 1671, pelo papa Clemente X. Dois anos depois, foi proclamada Padroeira da América Latina, das Filipinas e das Índias Orientais, com a festa litúrgica marcada para o dia 23 de agosto. A devoção a Santa Rosa de Lima propagou-se rapidamente nos países latino-americanos, sendo venerada pelos fiéis como Padroeira dos Jardineiros e dos Floristas.

A Igreja também celebra hoje a memória dos santos: Zaqueu e Tiago de Bevagna.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Agosto - mês vocacional


Jesus é o rosto visível da Misericórdia Divina. Ao deparar-se com alguém que sofre, Jesus jamais passou adiante, ao contrário, Ele sentia como próprio o sofrimento alheio. Também nunca deixou de oferecer ajuda, alívio aos sofredores. A missão de Jesus – assim como hoje, a missão da Igreja – funda suas raízes na ternura e compaixão de Deus pela humanidade.

Toda vocação à vida consagrada é fruto da Misericórdia Divina. É fruto do olhar misericordioso de Jesus; é dom de Deus para a Igreja. Aliás, como enfatiza o Papa Francisco, toda vocação nasce, cresce e é sustentada pela Igreja. De modo particular, a experiência de São Paulo destaca, sobremaneira, a importância da Igreja para o nascimento e a perseverança vocacional. É na comunidade que nos tornamos discípulos e discípulas de Jesus Cristo. São Paulo, após a conversão, é acolhido e protegido pela comunidade cristã de Damasco (cf. At 9,1-25). É a Igreja que anima e protege as vocações.

É na paróquia e nas pessoas que lhe dão rosto – pais e mães, agentes de pastoral, catequistas, ministros extraordinários da comunhão, diáconos, padres, entre outros – que se pode fazer a descoberta do mistério de Jesus Cristo e da alegria da vocação cristã. É sempre no âmbito de uma comunidade de fé que as pessoas são introduzidas na celebração litúrgica, na oração, na prática da fraternidade; enfim, são introduzidas no mistério da Igreja. É sempre numa comunidade de fé, comunidade missionária e misericordiosa que as vocações nascem, crescem e se fortalecem.

É sempre no seio de uma comunidade de fé que se aprende a amar como Jesus amou, viver como Jesus viveu. Por isso mesmo, todo vocacionado é estimulado a olhar o mundo com os olhos de Cristo: olhos de misericórdia! E assim, também enxergará uma imensa realidade necessitada de ser iluminada e transformada pelo Evangelho. Uma realidade carente de missão.

Por fim, uma comunidade misericordiosa é também uma comunidade orante. A vocação consagrada é um acontecimento de oração. Os discípulos são, por assim dizer, gerados na oração: “Naqueles dias, Jesus foi à montanha para orar. Passou a noite toda em oração a Deus. Ao amanhecer, chamou os discípulos e escolheu doze entre eles, aos quais deu o nome de após- 4 tolos” (Lc 6, 12-13). E Jesus pediu que rezássemos pelas vocações: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Por isso, pedi ao dono da messe que mande trabalhadores para a colheita”(Lc 10,2). O primeiro serviço de animação vocacional é pedir ao Senhor que envie operários à sua messe. É o que faremos através desse subsídio, elaborado justamente para o mês vocacional. Um feliz mês vocacional para todos!

Dom José Roberto Fortes Palau
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de São Paulo 
Subsídio do mês vocacional 2016 - Misericordiosos como o Pai

São Francisco e o sofrimento


sábado, 20 de agosto de 2016

Santo do dia: São Bernardo de Claraval


Bernardo nasceu na última década do século XI, no ano 1090, em Dijon, França. Era o terceiro dos sete filhos do cavaleiro Tecelim e de sua esposa Alícia. A sua família era cristã, rica, poderosa e nobre. Desde tenra idade, demonstrou uma inteligência aguçada. Tímido, tornou-se um jovem de boa aparência, educado, culto e de caráter reto e piedoso. Mas chamava a atenção pela sabedoria, prudência, poder de persuasão e profunda modéstia.

Quando sua mãe morreu, seus irmãos quiseram seguir a carreira militar, enquanto ele preferiu a vida religiosa, ouvindo o chamado de Deus. Na ocasião, todos os familiares foram contra, principalmente seu pai. Porém, com uma determinação poucas vezes vista, além de convencê-los, trouxe consigo o pai, os irmãos, primos e vários amigos. Ao todo, 30 pessoas seguiram seus passos, sua confiança na fé em Cristo, e ingressaram no Mosteiro da Ordem de Cister, recém-fundada.

A contribuição de Bernardo dentro da ordem foi de tão grande magnitude que ele passou a ser considerado o seu segundo fundador. No seu ingresso, em 1113, eram apenas vinte membros e um mosteiro. Dois anos depois, foi enviado para fundar outro na cidade de Claraval, do qual foi eleito abade, ficando na direção durante 38 anos. Foi um período de abundante florescimento da Ordem, que passou a contar com 165 mosteiros. Bernardo, sozinho, fundou 78 e, em suas mãos, mais de 700 religiosos professaram os votos. Quando Bernardo faleceu, havia 700 monges em Claraval.

Bernardo viveu uma época muito conturbada na Igreja. Muitas vezes, teve de deixar a reclusão contemplativa do mosteiro para envolver-se em questões que agitavam a sociedade. Foi pregador, místico, escritor, fundador de mosteiros, abade, conselheiro de papas, reis, bispos e também polemista político e tenaz pacificador. Nada conseguia abater ou afetar sua fé, imprimindo sua marca na história da espiritualidade católica romana.

Ao lado dessas atividades, nesse mesmo período, teve uma atividade literária muito expressiva, em quantidade de obras e qualidade de conteúdo. Tornou-se o maior escritor do seu tempo, apesar de sua saúde sempre estar comprometida. Isso porque Bernardo era um religioso de vida muito austera, dormia pouco, jejuava com frequência e impunha-se severa penitência.

Em 1153, participando de uma missão em Lorena, adoeceu. Percebendo a gravidade do seu estado, pediu para ser conduzido para o seu Mosteiro de Claraval, onde pouco tempo depois morreu, no dia 20 de agosto do mesmo ano. Foi sepultado na igreja do mosteiro, mas teve suas relíquias dispersadas durante a Revolução Francesa. Depois, sua cabeça foi entregue para ser guardada na catedral de Troyes, França.

Seus livros de teologia e de ascética são lidos ainda hoje. Recorde-se "Tratado do amor de Deus" e "O Cântico dos Cânticos", uma terna declaração de amor à Virgem.

Um de seus pensamentos: "Amar a Deus é ter caridade. Procurar ser amado por Deus é servir à caridade".

São Bernardo de Claraval, canonizado em 1174,por Alexandre II, recebeu, com toda honra e justiça, o título de doutor da Igreja em 1830, por Pio VIII.

Fonte: Paulinas

Dos Sermões sobre o Cântico dos Cânticos, de São Bernardo, abade

O amor basta-se a si mesmo, em si e por sua causa encontra satisfação. É seu mérito, seu próprio prêmio. Além de si mesmo, o amor não exige motivo nem fruto. Seu fruto é o próprio ato de amar. Amo porque amo, amo para amar. Grande coisa é o amor, contanto que vá a seu princípio, volte à sua origem, mergulhe em sua fonte, sempre beba donde corre sem cessar. De todos os movimentos da alma, sentidos e afeições, o amor é o único com que pode a criatura, embora não condignamente, responder ao Criador e, por sua vez, dar-lhe outro tanto. Pois quando Deus ama não quer outra coisa senão ser amado, já que ama para ser amado; porque bem sabe que serão felizes pelo amor aqueles que o amarem.

O amor do Esposo, ou melhor, o Esposo-Amor somente procura a resposta do amor e a fidelidade. Seja permitido à amada corresponder ao amor! Por que a esposa e esposa do Amor não deveria amar? Por que não seria amado o Amor?

É justo que, renunciando a todos os outros sentimentos, única e totalmente se entregue ao amor, aquela que há de corresponder a ele, pagando amor com amor. Pois mesmo que se esgote toda no amor, que é isto diante da perene corrente do amor do outro? Certamente não corre com igual abundância o caudal do amante e do Amor, da alma e do Verbo, da esposa e do Esposo, do Criador e da criatura; há entre eles a mesma diferença que entre o sedento e a fonte.

E então? Desaparecerá por isto e se esvaziará de todo a promessa da desposada, o desejo que suspira, o ardor da que a ama, a confiança da que ousa, já que não pode de igual para igual correr com o gigante, rivalizar a doçura com o mel, a brandura com o cordeiro, a alvura com o lírio, a claridade com o sol, a caridade com aquele que é a caridade?Não. Mesmo amando menos, por ser menor, se a criatura amar com tudo o que é, haverá de dar tudo. Por esta razão, amar assim é unir-se em matrimônio, porque não pode amar deste modo e ser menos amada, de sorte que no consenso dos dois haja íntegro e perfeito casamento. A não ser que alguém duvide ser amado primeiro e muito mais pelo Verbo.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Assunção de Nossa Senhora


1ª Leitura - Ap 11,19a; 12,1-6a.10ab
Salmo - Sl 44(45),10bc.11.12ab.16 (R. 10b)
2ª Leitura - 1Cor 15,20-26.28
Evangelho - Lc 1,39-56

Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa,
dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judéia.
Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel.
Quando Isabel ouviu a saudação de Maria,
a criança pulou no seu ventre
e Isabel ficou cheia do Espírito Santo.
Com um grande grito, exclamou:
"Bendita és tu entre as mulheres
e bendito é o fruto do teu ventre!"
Como posso merecer
que a mãe do meu Senhor me venha visitar?
Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos,
a criança pulou de alegria no meu ventre.
Bem-aventurada aquela que acreditou,
porque será cumprido, o que o Senhor lhe prometeu".
Maria disse:
"A minha alma engrandece o Senhor,
e se alegrou o meu espírito em Deus, meu Salvador,
pois, ele viu a pequenez de sua serva,
eis que agora as gerações hão de chamar-me de bendita.
O Poderoso fez por mim maravilhas
e Santo é o seu nome!
Seu amor, de geração em geração,
chega a todos que o respeitam.
Demonstrou o poder de seu braço,
dispersou os orgulhosos.
Derrubou os poderosos de seus tronos
e os humildes exaltou.
De bens saciou os famintos
despediu, sem nada, os ricos.
Acolheu Israel, seu servidor,
fiel ao seu amor,
como havia prometido aos nossos pais,
em favor de Abraão e de seus filhos, para sempre".
Maria ficou três meses com Isabel;
depois voltou para casa.

Palavra da Salvação.

A glória de servir - Pe. João Batista Libânio, sj

Nós temos duas leituras contrastantes com a festa que celebramos. De um lado, dizemos que é a festa da Virgem Assunta, isto é, elevada aos céus. Evidentemente, é uma metáfora, uma imagem, porque o céu nem está em cima, nem embaixo, nem à direita nem à esquerda, pois não há espaço. Por isso, o astronauta russo, Yuri Gagarin, numa ignorância palmar, depois de andar circulando pelo espaço, avisou que não havia nem Deus, nem céu, porque ele não o vira. É claro que o céu que ele viu são apenas estrelinhas pequeninas comparadas com um mistério tão maravilhoso. Nós precisamos de metáforas, de comparações. Dizemos que ela foi elevada, como poderíamos dizer que subiu aos céus. Mas como, para nós, a altura é símbolo de grandeza, usamos a metáfora de ser elevada.

A primeira leitura é toda cheia de imagens, de figuras fortes: dragões, estrelas, a mulher que agarra o filho, e nós logo pensamos que se trata de Nossa Senhora. Mas não se trata dela, e sim da Igreja. Essa mulher é símbolo de todos nós. Ela deu à luz uma criança e vai para um lugar deserto. Tudo isso são símbolos para a nossa caminhada, para nós aqui.

Quero chamar a atenção para um contraste, talvez pouco percebido: a festa da Virgem e o evangelho em que ela, grávida, vai servir a outra grávida. Ela poderia perfeitamente ter usado a desculpa da gravidez para ficar calmamente em sua casa. Que a prima se arrumasse com outra parteira. Como uma mulher que acabou de engravidar se vai fazer uma viagem longa para ajudar outra numa mesma situação? Parece uma coisa um pouco desbaratada. O evangelho nos mostra Maria a serviço, Maria caminhando apressadamente. O que isso quer dizer? No momento em que celebramos a glória, o evangelho nos apresenta um pequeno serviço. Então, uma pessoa, quando é glorificada, não chega ao Planalto, atravessa triunfalmente a Esplanada para atingir a glória? Ou quando alguém vive um momento de triunfo coloca-se a serviço do menor, daquela mulher já mais provecta, que nem mais sabe que coisa é gravidez, totalmente despreparada? Há uma moral escondida nesse evangelho. Preferiríamos uma passagem em que Maria fosse exaltada, glorificada, mas é essa que serve que será assunta ao céu.

Como temos conceitos diferentes para medir a glória de alguém! Achamos que a glória vem das aparências, mas ela vem da interioridade, da profundidade da pessoa. Maria nunca foi tão glorificada como naquele momento em que servia sua prima, em que estava ao lado de Jesus na cruz. Não estava arrasada, agoniada, humilhada. É nesse momento que a sua glória se manifestava. Ela nunca foi tão assunta ao céu como no Calvário, como servindo à sua prima.

A Igreja, simbolizada por essa mulher, cheia de glória, mas já com os inimigos espreitando-a, somos nós todos. Quando é que a Igreja vai para o deserto, ser protegida, ser guardada? Será quando se fecha em si mesma? Não, é no momento em que sai ao encontro do outro. Não somos cristãos para nós. Precisamos mudar a nossa cabeça. Não somos católicos para estarmos no templo.

Como muito bem diz a palavra, católico é kata + holos – universal, de acordo com o todo. Somos católicos para mostrar às pessoas que existe um sentido na vida, uma beleza, que a vida é mais do que o que estamos vendo. Não é só tristeza, morte, assalto, novelas, aborto. A vida tem algo de magnífico e vale a pena ser vivida. Mas é preciso viver com significado, sentido, beleza, entrega de nós mesmos. Essa é a nossa vocação! Essa é a mulher do deserto, que dá à luz a criança que se chama esperança. O mundo de hoje está altamente carente de esperança.

Maria assunta ao céu toca agora a cada um de nós. Olhamos para o nosso corpo e logo imaginamos que foi o corpo de Maria que subiu. Logo imaginamos que é este corpo, com olho, nariz e orelha, que vai um dia estar no céu. Leda ilusão! Este corpo vai se desfazer. Abram os túmulos e verão: potássio, fósforo, cálcio. O corpo glorioso é um desafio para todos nós. Corpo é a totalidade do nosso eu, é o eu por inteiro: todas as nossas relações, tudo aquilo que criamos, tudo o que construímos para a vida, todos os amores, todos os sofrimentos, todas as alegrias que sentimos. Nós carregamos toda uma história. Isso é que é assunção! Não caminhamos sozinhos; temos uma família, uma tradição, uma cultura. Depois de nós, outros virão. Ao nosso lado há uma imensa rede de circulação. O corpo é esse nozinho do qual podemos puxar infinitos fios que levaremos conosco na ressurreição.

Nós, que já temos nossos pais na eternidade, pensamos que eles estão lá, sozinhos? Estão com todos nós, que já participamos da glória de nossos pais, de nossos avós, de nossos amigos. Eles carregaram a história da qual também participamos. Quando invocamos os nossos mortos, não invocamos corpos vazios, mas irmãos ressuscitados, carregados de história – de nossas famílias, de nossos amores. Tudo isso é carregado para dentro da ressurreição. Maria assunta ao céu carrega toda a humanidade. Não é glória pessoal, mas de todos nós, de todas as pessoas que amam, que vivem. Todos nós teremos alguma coisa para ressuscitar conosco. Só não ressuscita o pecado, o crime, o ódio. Uma pitadinha de amor será eternidade.

Pe. João Batista Libânio, sj - Um outro olhar, vol 7

Confira a reflexão de Frei Gustavo Medella, OFM para este domingo:


Santo do dia: São João Eudes


João Eudes nasceu em 14 de novembro de 1601, na pequena vila de Ré, no norte da França. Era o primogênito de Isaac e Marta, que tiveram sete filhos. Cresceu num clima familiar profundamente religioso.

Inicialmente, estudou no Colégio Real de Dumont, em Caen, dos padres jesuítas. Nos intervalos das aulas, costumava ir à capela rezar, deixando as brincadeiras para o segundo plano. Na adolescência, por sua grande devoção a Maria, secretamente consagrou-se a ela. Depois, sentindo sua vocação religiosa, foi aconselhado a terminar os estudos antes de ordenar-se sacerdote.

Em 1623, com o consentimento dos pais, foi para Paris, onde ingressou no Oratório, sendo recebido pelo próprio fundador, o cardeal Pedro de Bérulle. Dois anos depois, recebeu sua ordenação, dedicando-se integralmente à pregação entre o povo. Pleno do carisma dos oratorianos, centrados no amor a Cristo, e de sua especial devoção a Maria, passou ao ministério de pregação entre o povo. Promoveu o culto litúrgico do Sagrado Coração. Visitou vilas e cidades de Ile de França, Bolonha, Bretanha e da sua própria região de origem, a Normandia.

Nesta última, quando, em 1627, ocorreu a epidemia da peste, João percorreu quase todas, principalmente as vilas mais distantes e esquecidas. Como sensível pregador, levou a Palavra de Cristo, dando assistência aos doentes e suas famílias. Nunca temeu o contágio. Costumava dizer, em tom de brincadeira, que de sua pele até a peste tinha medo: “Desta carcaça até a peste tem medo”, dizia. Mas temia pela integridade daqueles que viviam à sua volta, que, ao seu contato, poderiam ser contagiados.

Por isso não entrava em casa e, à noite, dormia dentro de um velho barril abandonado ao lado do paiol. Inconformado com o contexto social que evoluía perigosamente, no qual as elites dos intelectuais valorizavam a razão e desprezavam a fé, João Eudes, sabendo interpretar esses sinais dos tempos, fundou, em 1641, a Congregação de Jesus e Maria com um grupo de sacerdotes de Caen que se uniram a ele. A missão dos eudianos é a formação espiritual e doutrinal dos padres e seminaristas e a pregação evangélica inserida nas necessidades espirituais e materiais do povo. Além de difundir, por meio dessas missões, a devoção aos Sagrados Corações de Jesus e Maria.

Seguindo esse pensamento, também fundou a Congregação Nossa Senhora da Caridade do Refúgio, para atender às jovens que de desviavam pelos caminhos da vida e às crianças abandonadas. A Ordem deu origem, no século XIX, à Congregação de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor, conhecida como as Irmãs do Bom Pastor.

Com os seus missionários, João dedicou-se à pregação de missões populares, num ritmo de trabalho simplesmente espantoso. As regiões atingidas pelo esforço dos seus missionários foram aquelas que mais resistiram ao vendaval antirreligioso da Revolução Francesa.

Coube a João Eudes a glória de ter sido o precursor do culto da devoção dos sagrados corações de Jesus e de Maria. Para isso, ele próprio compôs missas e ofícios, festejando, pela primeira vez, com um culto litúrgico do Coração de Maria em 1648, e do Coração de Jesus em 1672. Hoje, essas venerações fazem parte do calendário da Igreja.

Morreu em Caen, norte da França, no dia 19 de agosto de 1680, deixando uma obra escrita de grande valor teológico pela clareza e profundidade. Foi canonizado pelo papa Pio XII em 1925. A festa de são João Eudes comemora-se no dia de sua morte.

Fonte: Paulinas

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Palavra da Hora - Vencer o mal


Santo do dia: Santo Alberto Hurtado


 Quais as características mais marcantes nos santos que conhecemos? A vida dedicada à oração? O trabalho social e eclesial? A luta pelos direitos de seu povo? A dedicação aos que mais sofrem? Todos estes traços estão presentes na biografia do jesuíta Alberto Hurtado Cruchaga. Um dos nomes recentes do catolicismo na América Latina ainda é pouco conhecido no Brasil. Beatificado em 1994 e canonizado em 2005, Padre Hurtado é certamente o santo mais querido em seu país de origem, Chile.

Nasceu em 22 de janeiro de 1901, na cidade de Viña del Mar. Filho de Alberto Hurtado Larraín e Ana Cruchaga Tocornal, tinha um irmão mais novo, Miguel. Aos 4 anos de idade, Hurtado perde seu pai e sua família se muda para a capital, Santiago. Ali ele tem seu primeiro contato com a Companhia de Jesus, através do Colégio Santo Inácio.

Desde criança se dedica aos que mais necessitam. Mesmo sem ter condições, ele e sua mãe ajudavam no Patronato Santo Antônio. É este chamado ao serviço que o leva a cursar a faculdade de Direito, em 1918. Organiza um consultório jurídico, para atender sobretudo operários que não podem pagar pelos serviços.

Segundo as palavras do Monsenhor Manuel Larraín, bispo de Talca, e companheiro de Alberto na Universidade de Direito, "Padre Hurtado tinha certamente todas as características destes homens que Deus suscita, para ser em cada época, os enviados que testemunham a transcendência do Eterno e captam, para orientá-las, as angústias e inquietudes de sua geração".

Esta sede de buscar mais leva o jovem a discernir sua vocação à vida religiosa. No dia 15 de agosto de 1923, dia em que se celebra a Assunção de Nossa Senhora, uma devoção muito marcante na vida de Hurtado, o jovem entra no noviciado da Companhia de Jesus. Seus companheiros de vida religiosa testemunham sua dedicação aos estudos e seu compromisso com a vida religiosa.

O Papa Bento XVI profere na canonização de Alberto Hurtado, em 23 de outubro de 2005: "A formação que recebeu na Companhia de Jesus, consolidada pela oração e pela adoração da Eucaristia, levou-o a deixar-se conquistar por Cristo, sendo um verdadeiro contemplativo na ação. No amor e na entrega total à vontade de Deus encontrou a força para o apostolado."

Completa sua formação teológica e faz doutorado em Ciências Pedagógicas na Europa. Sua formação o levará a estar sempre em sintonia com a infância e juventude, uma marca registrada dos anos de missão de Hurtado.

É ordenado sacerdote em 1933 e escreve a um amigo sobre esta etapa: "Agora não desejo mais que exercer meu ministério com a maior plenitude possível de vida interior e de atividade exterior." Talvez este seja o resumo de sua vida, plenitude na vida interior e no serviço. Muitos pensam que para estar em harmonia com Deus é necessário se desligar do mundo. Alberto é a prova de que é possível estar em profunda intimidade com Deus e estar em sintonia com o mundo, principalmente com os que mais sofrem.

Hurtado tinha um carisma único, e seu modo de vida, seu exemplo, convencia e trazia para si muitos jovens. Em 1936 ele volta à Santiago, e começa seu apostolado juvenil, através do Colégio Santo Inácio e da Universidade Católica. Graças ao seu trabalho incansável é nomeado assessor da Ação Católica de jovens, e meses depois é nomeado Assessor Nacional da Ação Católica Juvenil. Ele percorre o país animando os grupos e orientando retiros. Uma das grandes preocupações da igreja no Chile era a falta de vocações. Ele escreve um livro "É o Chile um país católico?", onde fala sobre a crise vivida e a falta de interesse dos jovens pela vida religiosa. Através dos Exercícios Espirituais, encontra um caminho de diálogo com a juventude. Seus retiros eram conhecidos em todo o país. Seus textos foram multiplicados e transformados em livros.


Um jornal local, por ocasião de sua morte escreveu: "Entretanto acreditamos que Cristo volta, a cada certo tempo à Terra. Agora acaba de estar... e acaba de partir". Para os chilenos, a presença de Alberto era tão forte que a sua figura era associada a um mensageiro direto de Deus, era aclamado como santo em vida. Sua grande marca, o apostolado social, tem início em 1944. Enquanto orientava um retiro para senhoras, fala da pobreza de sua cidade, do compromisso que os cristãos tem em ajudar aqueles que precisam de apoio. Ao final do retiro as senhoras começaram a lhe fazer doações, em terras, dinheiro e jóias, e neste momento nasce o "Hogar de Cristo", com a missão de "criar um lar para os que não tem teto".

Padre Hurtado dedica parte de seu tempo para acolher pessoas em situação de rua, sobretudo jovens e crianças. O seu meio de transporte, uma caminhonete verde, passa a ser símbolo de seu trabalho e vira a marca do Hogar de Cristo. É com ela que Alberto sai às ruas, para ajudar os que mais necessitam.

A caminhonete verde exposta no Santuário Santo Alberto Hurtado em Santiago, Chile.

Incansável, ele funda em 1947 a Ação Sindical e Econômica Chilena, como meio de oferecer aos trabalhadores uma formação cristã, baseada na Doutrina Social da Igreja. Recebe duras críticas, mas não desanima, pois acreditava no seu ideal e lutava por uma sociedade mais justa. Em um de seus textos escreve: "Este regime de maior justiça social o desejamos ardentemente. É um imperativo de toda consciência e um clamor da verdadeira e autêntica fraternidade que nos ensinou Jesus. É indispensável abordar com seriedade e valentia alguns problemas econômico-sociais do país, para dar ao nosso povo tais condições para que sua vida chegue a ser verdadeiramente humana".

Sua existência e missão foi um testemunho de vida, e não poderia ser diferente no final dos seus dias. Em 1951 foi diagnosticado com um câncer no pâncreas, e Alberto rendeu graças a Deus por sua doença, que o permitiu viver mais algum tempo, na companhia dos amigos. "Como não vou ficar contente! Como não estar agradecido a Deus! Em vez de uma morte violenta, manda-me uma longa enfermidade para que possa preparar-me; não me dá dores; dá-me o gosto de ver tantos amigos, de vê-los todos. Verdadeiramente, Deus tem sido para mim um pai carinhoso, o melhor dos pais."

Como o próprio Padre Hurtado disse, sua vida foi um disparo para a eternidade. Falece aos 51 anos, no dia 18 de agosto de 1952, às cinco horas da tarde, cercado por seus irmãos de comunidade. Sua morte comoveu toda a sociedade chilena. Monsenhor Manuel Larraín, seu companheiro de toda a vida, exclama no funeral de Alberto: "E quando passe o tempo e a lei fatal do esquecimento vá deixando cair sobre os homens e sucessos sua poeira sutil, junto a este sepulcro viverá a lembrança de um sacerdote que amou muito a Deus e a seus irmãos, que amou os pobres e os humildes, e por eles, em suprema oblação, ofereceu sua vida. Tomai Senhor, e recebei!"

Érika Augusto



quarta-feira, 17 de agosto de 2016

O tom de nossa vida - Lya Luft


Se houver um tempo de retorno, eu volto. Subirei, empurrando a alma com meu sangue por labirintos e paradoxos - até inundar novamente o coração.

(Terei, quem sabe, o mesmo ardor de antigamente.) (Mulher no palco, quis escrever um livro pequeno e prático sobre a permanente reinvenção de nós mesmos. E Nele eu disse - antes de tudo para mim mesma: não sejamos demasiadamente fúteis nem medrosos, porque a vida tem de ser sorvida não como uma taça que se esvazia, mas que se renova a cada gole bebido. Enquanto houver lucidez é possível olhar em torno e dentro de nós: um intervalo que seja entre a correria do cotidiano, os compromissos, o shopping, a tevê, o computador, a lanchonete, a droga, o sexo sem afeto, o desafeto, o rancor, a lamúria, a hesitação e a resignação. Refletir é transgredir a ordem do superficial. Mas se eu estiver agachado num canto tapando a cara não escutarei o rumor do vento nas árvores do mundo - que eu sempre quis tanto entender mesmo por um só dia, quem sabe o último dia. Nem saberei se o prato das inevitáveis perdas pesou mais do que o dos possíveis ganhos.

Somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo. Estamos nele como as árvores da floresta: uma é atingida em plena maturidade e potência, e tomba. Outra nem chega a crescer, e fenece; outra, velhíssima, retorcida e torturada, quase pede para enfim descansar… Mas ainda pode ter dignidade e beleza na sua condição. 

Algumas pessoas não conseguem seguir seu ritmo pois nem escutam nem compreendem, ocupadas em tapar o sol com a peneira. Outras o descobrem e acompanham os seus movimentos: alegre, sereno, apaixonado, solene, trágico, tedioso e de novo alegre. Não dançam com o espantalho dos preconceitos e ilusões, mas com sua amante - a vida. Escutar o tom positivo é mais fácil aos 40 anos do que aos 20, aos 60, mais ainda. Imagino que aos 80 tenhamos suficiente silêncio e espaço interior para que ele baixe, se instale e cante. 

O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem. Viver, como talvez morrer, é recriar-se a cada momento. Arte e artifício, exercício e invenção no espelho posto à nossa frente ao nascermos. Algumas visões serão miragens: ilhas de algas flutuantes que nos farão afundar. Outras pendem em galhos altos demais para a nossa tímida esperança. Outras ainda rebrilham, mas a gente não percebe - ou não acredita. A vida não está aí apenas para ser suportada ou vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Não é preciso realizar nada de espetacular. Mas que o mínimo seja o máximo que a gente conseguiu fazer consigo mesmo.

"Perdas e ganhos" – Lya Luft

"Jesus nos ama muito e quer estar próximo a nós”, afirma Papa


Cidade do Vaticano – O Papa refletiu sobre o milagre da multiplicação dos pães na Audiência geral desta quarta-feira (17/08). Diante de milhares de pessoas que lotaram a Sala Paulo VI.

"Jesus comoveu-se ao ver a multidão que estava extenuada e com fome e saiu ao seu encontro para socorrê-la. Não se preocupou somente com seus seguidores, mas desejava que seus discípulos se comprometessem em ajudar o povo, ordenando: "dai-lhes vós mesmos de comer"

A bênção de Jesus sobre os cinco pães e dois peixes anuncia de antemão a Eucaristia, da qual o cristão se alimenta e de onde tira forças para sua vida. A Eucaristia nos transforma em Corpo de Cristo e em alimento para nossos irmãos. Jesus deseja que seu alimento chegue a todos e que seus discípulos, que somos nós, sejam os que se dão aos  demais.

Jesus nos ensinou o caminho a seguir e nos manda que sejamos nós a levar aos demais a Ele, que é alimento que sacia e dá vida, cria unidade e comunhão. "

“Assim era Jesus, sempre com a compaixão. Sempre pensando nos outros”.

O Papa destacou uma reação de Jesus diante da multidão:

“Jesus não é frio, não tem um coração frio. Jesus é capaz de se comover”, disse o Pontífice.

Silêncio

Todavia – recordou o Papa – mesmo sentindo-Se ligado à multidão e sem querer que essa vá embora, Cristo tem necessidade de momentos de solidão, “de oração com o Pai: e muitas vezes passa a noite rezando com seu Pai”, disse Francisco.

E, assim, mais uma vez, Jesus se dedica ao povo. “A sua compaixão não é um sentimento vago; mostra toda a força da Sua vontade de estar próximo a nós e de nos salvar”.

“Nos ama muito, Jesus, e quer estar próximo a nós”, refletiu o Pontífice.

Nascer e renascer

Ao reiterar que o “Senhor vai ao encontro das necessidades do homem”, mas que, todavia, quer que cada um de nós participe concretamente da sua compaixão, o Papa traçou um paralelo entre o milagre dos pães e a Eucaristia.

“A comunidade cristã nasce e renasce continuamente desta comunhão eucarística” – prosseguiu o Papa – “Jesus quer chegar a todos, para levar a todos o amor de Deus. Por isso, faz de cada fiel um servidor da misericórdia”.

Tudo!

O Papa então conclui sua reflexão recordando que todos ficaram saciados.

“Quando Jesus com a sua compaixão, com o seu amor nos dá uma graça, perdoa os nossos pecados, nos abraça, nos ama, nunca faz pela metade. Tudo! Como aconteceu aqui. Todos se saciaram. Jesus preenche o nosso coração, a nossa vida, do seu perdão, da sua compaixão”.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

20º domingo do Tempo Comum


Jr 38, 4-6.8-10
Sl 39 (40), 2, 4.18-20.22
Hb 11, 1-2.8-19
Lc 12, 49-53

Jesus é sinal de contradição

49 «Eu vim para lançar fogo sobre a terra: e como gostaria que já estivesse aceso! 50 Devo ser batizado com um batismo, e como estou ansioso até que isso se cumpra! 51 Vocês pensam que eu vim trazer a paz sobre a terra? Pelo contrário, eu lhes digo, vim trazer divisão. 52 Pois, daqui em diante, numa família de cinco pessoas, três ficarão divididas contra duas, e duas contra três. 53 Ficarão divididos: o pai contra o filho, e o filho contra o pai; a mãe contra a filha, e a filha contra a mãe; a sogra contra a nora, e a nora contra a sogra.»

* 49-53: A missão de Jesus, desde o batismo até a cruz, é anunciar e tornar presente o Reino, entrando em choque com as concepções dominantes na sociedade. Por isso, é preciso tomar uma decisão diante de Jesus, e isso provoca divisões até mesmo no relacionamento familiar.

Bíblia Sagrada - Edição Pastoral

A paz que Jesus espera de nós – Pe. João Batista Libânio, sj

Esse evangelho não é fácil de ser entendido, pois, em outra oportunidade, Jesus disse que veio trazer a paz. Na celebração da missa, nós mesmos rezamos, repartindo a paz que Ele veio trazer. Mas hoje, no evangelho, Ele mesmo diz que não veio trazer a paz, mas a guerra. Em qual devemos acreditar? Como podemos entender isso? Ele nos prepara para entender, dizendo que estava ansioso para que o fogo que trazia incendiasse o mundo. Também estava ansioso para receber um batismo. Aí estão três perguntas que precisamos responder: que fogo seria esse? Que batismo Ele pretendia receber e que divisão teria Ele trazido?

Comecemos refletindo sobre o fogo que Ele trouxe. Certamente, Ele não falava do fogo material, pois, na escritura e também na tradição religiosa, fogo é símbolo da purificação. Como não existiam desinfetantes, iodo ou qualquer outro remédio, era costume usar o fogo para limpar o mundo de todas as coisas que não serviam. Portanto, o fogo é símbolo da limpeza, da pureza, da novidade que Ele trouxe. O Espírito Santo também é comparado ao fogo. Em Pentecostes, os apóstolos recebem o Espírito em forma de línguas de fogo. Fogo, portanto, é sinal de purificação, de força interior, de transformação. Quando falamos que uma pessoa tem fogo no coração, estamos querendo dizer que ela está entusiasmada. Portanto, parece-me que Jesus não gosta de pessoas acomodadas. Ele não gosta quando vê os cristãos acomodadinhos, não querendo assumir nada. Se começar a pegar fogo aqui nesta igreja, nenhum de vocês continuará assentado. O fogo acaba com toda a pasmaceira, nos dá movimento e energia, faz com que corramos. Essa é a ideia de Jesus. Será que a nossa vida comunitária é plena de entusiasmo? Será que existe algum fogo trabalhando em nosso interior? Ou continuamos parados, inertes, acomodados, sem energia, sem vigor?

Jesus continua dizendo que queria ser batizado e estava ansioso por esse batismo. Hoje ninguém duvida de que Ele se referia à sua morte e ressurreição, ao batismo de sangue pelo qual iria passar. Alguém que deseja entregar a sua vida, até mesmo de maneira violenta, precisa ter uma enorme coragem. Isso reforça ainda mais a ideia de que Ele não queria acomodação. Se Ele iria entregar sua própria vida num sofrimento gigantesco, não poderia aceitar que os seus seguidores vivessem acomodados, paradões, quietos. Justamente sobre esse contraste, Ele quer chamar nossa atenção, para que olhemos para frente e decidamos com que batismo seremos batizados. De que maneira pretendemos entregar alguma parte de nossa vida? Qual a causa que nos move? O que nos dará energia para vivermos nossa vida de cristãos?

A partir daí podemos entender esta frase: “eu não vim trazer a paz”. Ele não veio trazer a acomodação, uma paz parada, sem energia, de quem não quer se envolver. Ele não quer a paz de quem não tem energia interior, não é capaz de contestar, de questionar a realidade para tentar transformá-la. Ele prefere a divisão, a espada, no sentido de que não sejamos pessoas não engajadas e comprometidas com a realidade. Mas quando se trata de ódio, vingança ou incompreensão entre nós, aí, então, Ele quer a paz, a paz do perdão, da reconciliação, da misericórdia, da amizade, da volta, do encontro.

Guardemos bem claramente essa lição e nos perguntemos: qual a paz que estamos vivendo? Será que vivemos a paz da acomodação ou a do perdão? Trazemos conosco a espada que fere ou a que nos estimula ao compromisso, ao trabalho, à luta? É por aí que vai a mensagem de Jesus. Ele quer que carreguemos conosco a espada que nos dará força para nos lançar no trabalho, no compromisso com os irmãos, na Igreja, na pastoral, na comunidade. O que Ele não quer é que essa espada gere divisão, ódio, vingança. Ele quer a paz da reconciliação, mas não é dessa paz que Ele fala hoje no evangelho. Amém.

Pe. João Batista Libânio, sj - Um outro olhar, vol. 8

Confira a reflexão de Frei Gustavo Medella para este 20º domingo do Tempo Comum:

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Santo do dia: Santa Clara de Assis


Clara nasceu em Assis, no ano 1193, no seio de uma família da nobreza italiana, muito rica, onde possuía de tudo. Porém o que a menina mais queria era seguir os ensinamentos de Francisco de Assis. Aliás, foi Clara a primeira mulher da Igreja a entusiasmar¬-se com o ideal franciscano. Sua família, entretanto, era contrária à sua resolução de seguir a vida religiosa, mas nada a demoveu do seu propósito.

No dia 18 de março de 1212, aos 19 anos de idade, fugiu de casa e, humilde, apresentou-¬se na igreja de Santa Maria dos Anjos, onde era aguardada por Francisco e seus frades. Ele, então, cortou-¬lhe o cabelo, pediu que vestisse um modesto hábito de lã e pronunciasse os votos perpétuos de pobreza, castidade e obediência.

Depois disso, Clara, a conselho de Francisco, ingressou no Mosteiro Beneditino de São Paulo das Abadessas, para ir se familiarizando com a vida em comum. Pouco depois, foi para a Ermida de Santo Ângelo de Panço, onde Inês, sua irmã de sangue, juntou-¬se a ela.

Pouco tempo depois, Francisco levou-¬as para o humilde Convento de São Damião, destinado à Ordem Segunda Franciscana, das monjas. Em agosto, quando ingressou Pacífica de Guelfúcio, Francisco deu às irmãs sua primeira forma de vida religiosa. Elas, primeiramente, foram chamadas de 'Damianitas', depois, como Clara escolheu, de 'Damas Pobres', e finalmente, como sempre serão chamadas, de 'Clarissas'.
Em 1216, sempre orientada por Francisco, Clara aceitou para a sua Ordem as regras beneditinas e o título de abadessa. Mas conseguiu o 'privilégio da pobreza' do papa Inocêncio III, mantendo, assim, o carisma franciscano. O testemunho de fé de Clara foi tão grande que sua mãe, Ortolana, e mais uma de suas irmãs, Beatriz, abandonaram seus ricos palácios e foram viver ao seu lado, ingressando também na nova Ordem fundada por ela.

A partir de 1224, Clara adoeceu e, aos poucos, foi definhando. Em 1226, Francisco de Assis morreu, e Clara teve visões projetadas na parede da sua pequena cela. Lá, via Francisco e os ritos das solenidades do seu funeral que estavam acontecendo na igreja. Anteriormente, tivera esse mesmo tipo de visão numa noite de Natal, quando viu, projetado, o presépio, e pôde assistir ao santo ofício que se desenvolvia na igreja de Santa Maria dos Anjos. Por essas visões, que pareciam filmes projetados numa tela, santa Clara é considerada Padroeira da Televisão e de todos os seus profissionais.

Depois da morte de são Francisco, Clara viveu mais 27 anos, dando continuidade à obra que aprendera e iniciara com ele. Outro feito de Clara ocorreu em 1240, quando, portando nas mãos o Santíssimo Sacramento, defendeu a cidade de Assis do ataque do exército dos turcos muçulmanos.

No dia 11 de agosto de 1253, algumas horas antes de morrer, Clara recebeu das mãos de um enviado do papa Inocêncio IV a aguardada bula de aprovação canônica, deixando, assim, as sua 'irmãs clarissas' asseguradas. Dois anos após sua morte, o papa Alexandre IV a proclamou santa Clara de Assis.

Texto: Paulinas Internet

Santa Clara: modelo de santidade

Santa Clara é o verdadeiro modelo de santidade e de entrega ao Senhor, de tal forma que continua interpelando hoje a todos os que, de coração sincero e aberto, aproximam-se de sua vida exemplar na vivência das virtudes cristãs. Não é tão necessário deter-nos, agora, na descrição geral da vida de Santa Clara porque a conhecemos suficientemente. Vale mais fixar-nos no estilo de vida que ela viveu, refletindo sobre aquelas atitudes em que ela é exemplo e modelo para que também nós nos empenhemos em vivê-las em nossa vida.

Sendo ainda muito jovem, descobriu, através das pregações e dos conselhos de Francisco de Assis, que Deus a chamava à santidade, especialmente quando o ouve dizer: “Este é o tempo favorável, esta é a hora; chegou o tempo de dirigir-me a Ele que me fala ao coração já faz algum tempo; chegou a hora de optar, de escolher”. Clara se vê envolvida nestas palavras e inicia seu caminho de discernimento vocacional, intuindo que Deus a chama para uma entrega total a Ele, vivendo um estilo de vida parecido ao de São Francisco. Confiando profundamente em Deus, opta por este caminho. Hoje, nós, ao escutarmos novamente estas palavras, pensamos, por assim dizer, no impulso, no empurrão de que todos temos necessidade para seguir nossa vocação e que pode ser um acontecimento, um encontro, uma determinada pessoa. São momentos de graça que nos ajudam a ver com os olhos do coração o que Deus quer e nos ajudam a decidir-nos para seguir a voz de seu chamado.

Clara, aos dezenove anos de idade, no frescor e no vigor de sua juventude, começa a doar a sua existência ao “Rei” de sua alma. Começa a buscar não tanto as obras do Reino, mas busca o próprio “Rei”. Em outras palavras, ela se deu conta de que, uma vez encontrando o “Rei”, é possível construir o Reino. A vida de Clara foi um amor apaixonado por Jesus Cristo e, a partir d’Ele, ela se tornou transparência, sinal, sacramento existencial de sua presença e de seu mistério. Jesus Cristo, pobre e crucificado, é o tesouro incomparável, o seu rosto é formoso, o seu amor é suave. Contemplando-o, Clara descobre a razão de ser e a meta última da sua vocação. Junto a Jesus está sempre sua bendita Mãe, a Virgem Maria, por quem cultiva fervorosa devoção.

Clara centra sua vida toda em Jesus, não como um refúgio para fugir das dificuldades do mundo, mas para empenhar-se na construção da história humana conforme o projeto de Deus. Jesus Cristo é alimento e vida na Eucaristia. Em muitos templos católicos, encontramos imagens de Santa Clara, e chama particular atenção aquela em que ela está abraçando, junto ao seu coração, Jesus Eucarístico. Como Francisco, Clara se mostra enamorada por Deus e não pode fazer outra coisa que abraçá-lo, ou melhor dito, deixar-se abraçar por Ele, pelo seu Filho Jesus. Ao contemplar Santa Clara, também nós desejamos que Deus nos faça sentir o seu abraço, porque só Nele sabemos quem somos e só nele podemos reconhecer que ao nosso lado há irmãos e irmãs que esperam tanto de nós e a quem podemos dar algo que às vezes não queremos dar.

Clara, mostra-nos a vontade do Senhor, quando a vida se torna árdua e difícil. Clara, nos ensina a amar, mesmo quando o amor não é amado nem compreendido. Clara, envia-nos, para os lugares que precisam de nossa presença e do nosso amor. Clara, pobre como o Cristo pobre e Crucificado, ajuda-nos a viver sem nada de próprio como prometemos ao Senhor. Clara, alma escondida em Deus, ensina-nos a sermos fiéis, e a levar a sério o nosso voto de clausura, por amor a Cristo e à mãe Igreja. Clara, alma ardente de amor e de ternura, ensina-nos a contemplar os mistérios da cruz e da ressurreição. Clara luz, ilumina o nosso coração na chama do amor, para vivermos com paixão e audácia a nossa vocação. Clara, irmã Clara, fonte de ternura e amor, ensina-nos a amar e acolher nossas irmãs, como são amadas e acolhidas pelo Senhor. Clara, nossa Forma de Vida é o Santo Evangelho, ensina-nos a vivê-lo concretamente e a sermos verdadeiras testemunhas do amor e da Misericórdia de Deus para com toda humanidade.

Somos chamadas a ser outras Claras no mundo de hoje, testemunhando o Evangelho, sendo anunciadoras da boa nova para cada irmã e irmão que convive conosco, na dor e na alegria, como Clara que assumiu por amor cada uma de suas irmãs, presentes e futuras, como dom de Deus. Que nossa mãe Santa Clara e nosso pai São Francisco nos iluminem, para fazermos a vontade do Senhor!

Ir. Maria José da Mística, OSC

Confira a mensagem de Frei Fidêncio Vanboemmel, nosso Ministro Provincial, para o dia de Santa Clara: