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quarta-feira, 27 de julho de 2016

A felicidade do avô


Crônica de Rubem Alves

Já contei essa estória como um narrador abstrato para leitores abstratos. Mas nesse dia do meu aniversário eu a conto nietzscheanamente, com meu sangue, para meus filhos e netos.
Viveu outrora um imperador, pai de muitos filhos, avô de muitos netos, a quem amava de todo coração. Infelizmente, entretanto, ele sofria sem cessar com o medo de que a Morte pudesse levar um deles.

Essa ideia lhe tirava toda a alegria de viver. Durante o dia era atormentado pela ansiedade. De noite era afligido pela insônia. Seus pensamentos não paravam de procurar meios de burlar a Morte.
Seu palácio estava cheio de médicos, laboratórios e remédios, que combatiam a Morte no front das enfermidades. Havia também guardas por todos os lados do palácio, encarregados de combater a Morte no front dos acidentes.

Mas ele sabia que tais cuidados apenas não bastavam. A morte é muito astuta. Ela ataca no momento em que não se espera. Por isso, o imperador mandou vir, dos lugares mais distantes do seu reino, todos os sacerdotes, profetas, videntes, mágicos, feiticeiros, sábios, gurus, com o pedido de que não apenas realizassem os rituais mágicos apropriados, como também escrevessem, nas páginas de um livro sagrado, feito especialmente para esse fim, com papiros recolhidos em noites de lua cheia nos lugares onde moravam os deuses, as bênçãos que garantiriam aos seus filhos e netos vida longa e felicidade.

Ouvindo a convocação do imperador veio de uma longínqua província um velho sábio, que todos ignoravam. Ele morava num lugar distante, nas montanhas. O caminho a ser trilhado era longo e as suas pernas eram velhas e cansadas. Chegou atrasado, depois que todos já haviam partido.
O imperador se alegrou ao ser informado da chegada do homem santo e ordenou que um de seus conselheiros lhe mostrasse o livro sagrado. O velho sábio leu cuidadosamente os desejos que ali haviam sido escritos.

Após ler tudo o que fora escrito, o velho sábio tomou de uma pena e gravou nas páginas do livro sagrado estas palavras:

"Os avós morrem.
Os pais morrem.
Os filhos morrem."

E assinou o seu nome.

O imperador, ao ler tais palavras no livro enfureceu-se, julgando-as fórmulas de maldição e exigiu que o sábio se explicasse, sob pena de ser mandado para a prisão pelo resto dos seus dias.

"Majestade", disse o sábio. "Não sei receitas para impedir a chegada da Morte. Ela virá de qualquer forma. Sou apenas um velho poeta. Minhas palavras não têm o poder de exorcizá-la. O que eu posso desejar é que ela venha na ordem certa."

"A ordem certa?"

"O que é que mais deseja um avô? Ele deseja morrer vendo seus filhos e netos cheios de vida e de alegria.

O que é que mais deseja um pai? Ele deseja morrer vendo seus filhos saudáveis e felizes.

Não tenho palavras mágicas para impedir que a Morte venha. Mas lhe ofereço meus desejos de que ela venha na ordem certa. Por isso invoquei a Morte, na ordem da felicidade:
"Os avós morrem. Os pais morrem. Os filhos morrem."

O imperador sorriu, tomou nas suas as mãos do velho sábio e as beijou.