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sexta-feira, 29 de julho de 2016

18º domingo do Tempo Comum


Eclo 1, 2; 2, 21-23
Sl 89 (90)
Cl 3, 1-5.9-11
Lc 12, 13-21

A vida é dom de Deus

13 Do meio da multidão, alguém disse a Jesus: «Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo.» 14 Jesus respondeu: «Homem, quem foi que me encarregou de julgar ou dividir os bens entre vocês?» 15 Depois Jesus falou a todos: «Atenção! Tenham cuidado com qualquer tipo de ganância. Porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a sua vida não depende de seus bens.» 16 E contou-lhes uma parábola: «A terra de um homem rico deu uma grande colheita. 17 E o homem pensou: ‘O que vou fazer? Não tenho onde guardar minha colheita’. 18 Então resolveu: ‘Já sei o que fazer! Vou derrubar meus celeiros e construir outros maiores; e neles vou guardar todo o meu trigo, junto com os meus bens. 19 Então poderei dizer a mim mesmo: meu caro, você possui um bom estoque, uma reserva para muitos anos; descanse, coma e beba, alegre-se!’ 20 Mas Deus lhe disse: ‘Louco! Nesta mesma noite você vai ter que devolver a sua vida. E as coisas que você preparou, para quem vão ficar?’ 21 Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico para Deus.»

Bíblia Sagrada - Edição Pastoral

A felicidade nas coisas simples - Reflexão do Pe. João Batista Libânio, sj

A primeira leitura, do livro do Eclesiastes, começa com esta frase famosa: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”, que deu azo a que um dos maiores oradores do mundo – Crisóstomo – fizesse também uma das peças oratórias mais lindas da cultura mundial. Ele era bispo numa cidade antiga, do quinto século, e lá havia um homem poderoso, que mandava em todos. Tinha todo o poder, tinha tudo garantido. De repente, esse homem cai na maior desgraça. Foi banido, mandado embora, sequestraram seus bens. Humilhado, entrou na igreja, ficou escondido entre os bancos. Aí então, Crisóstomo, o grande orador, diz, olhando para ele: “Vaidade das vaidades, onde está tua glória, onde está teu poder?”, e continua todo o seu sermão. Essa é a leitura do Antigo Testamento.

Para entendermos isso, temos que situar quando o livro do Eclesiastes foi escrito. Comece imaginando uma cidade pequena, onde moravam pessoas velhas, já vividas, sem muitas ilusões. Elas sentavam-se nas portas e diziam alguns aforismos, algumas frases sérias. A turma tomava nota e, como eram homens cheios de Deus, suas palavras tão inspiradas só poderiam ser palavras de Deus. Nesse dia, estavam um pouco mais pessimistas, um pouco mais desiludidos da vida, e, olhando para os jovens, diziam: “vaidade das vaidades! Você, bonito, correndo por aí, daqui a pouco estará fazendo plástica para tentar melhorar a aparência. Você, que era uma beleza, uma beldade, agora está aí desse jeito!” Eles perceberam a força dessa frase, que é muito difícil para a geração jovem entender, porque não foi dita por um jovem, mas por um velho.

A única vantagem de ser velho é ter a história atrás de si. E tem a grande desvantagem de, ao falar, ouvir os jovens logo dizerem: “Coitadinho, já está velho e só pode mesmo falar assim!” É difícil entender que realmente esta vida é vaidade. Que todas as coisas pelas quais lutamos com tanto esforço, as cidades que construímos, as casas bonitas, as nossas cadernetas de poupança, os nossos carros, cada vez mais sofisticados, podem desaparecer numa fração de segundos.

Que um velho diga isso, eu entendo. Mas, o mais surpreendente vem no Evangelho, porque Jesus era moço, deveria ter uns trinta e poucos anos, e contou essa história. Ele, jovem, percebeu que a vida perde o sentido quando simplesmente queremos agarrar as coisas: ter, ter, ter... O nosso ser, a nossa existência, as nossas relações diminuem.

Outro dia eu li um livro da autoria de um velho, Norberto Bobbio, considerado um dos maiores politólogos, isso é, especialista em ciências políticas. É italiano, de esquerda, foi assunto de vários congressos em muitos países. E ele diz: “quando olho para a minha vida e vejo tanto sucesso, do que tenho mais saudade, do que mais gostei foram os momentos que passei com as pessoas, na amizade, no prazer, na alegria. Todo o resto não tem nenhuma importância diante dos momentos de encontro com as pessoas!” Nós vamos levar da vida o fruto do afeto comunicado e recebido.

Na última quinta-feira, estive num congresso, em que estavam mais de mil e oitocentos educadores. Lá expuseram uma pesquisa sobre jovens. Perguntados sobre o que mais temiam, não responderam que era o desemprego, mas solidão, isolamento, ficar sozinho, não dar e nem receber afeto.

Quando Jesus diz isso, não quer dizer que é contra a riqueza, contra termos as coisas. Ele quer nos alertar para que não cheguemos à velhice vazios. A única solução para um velho vazio é passar o dia todo vendo televisão. Se não sai nada de dentro, tem que procurar o que vem de fora. A coisa mais triste é ver pessoas que, quando envelhecem, não têm nada para dizer. Pessoas caladas, mudas, broncas, porque não construíram nada. Não criaram nenhum afeto, nenhum amor. É isso que importa. O resto passa. As glórias passam, as belezas passam, o dinheiro passa. De que adianta um Bill Gates, com milhões de dólares? Se comer esses dólares, adoece. Se quiser gastar o dinheiro, não pode, não tem onde gastar. Tem de viver cercado de seguranças para evitar um sequestro. Não pode sair, porque tem medo. É prisioneiro, escravo de seu dinheiro. Coisa terrível!

E tantas pessoas sonham em serem ricas. Não pode gozar da vontade de viver, da alegria de existir, de conversar com um colega, passear tranquila e livremente numa praça, sem ser incomodado. Coisa triste é pensar que a glória e o dinheiro trazem felicidade.

Um grande capitalista estava num parque bonito, em Curitiba, vendo crianças brincando de pedalinho. Havia uma fila imensa esperando sua vez, e ele se deleitava com a alegria das pessoas simples. A alegria que ele não conseguia encontrar nos grandes hotéis, nas grandes viagens que fazia por todo o mundo.

Nada nos dá prazer nesse mundo, a não ser que venha de dentro de nós.

Pe. João Batista Libânio, sj - Um outro olhar vol. 2

Confira a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz para este 18º domingo do Tempo Comum