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sexta-feira, 15 de julho de 2016

16º domingo do Tempo Comum


1ª Leitura - Gn 18,1-10a
Salmo - Sl 14,2-3a.3cd-4ab.5 (R. 1a)
2ª Leitura - Cl 1,24-28
Evangelho - Lc 10,38-42

Naquele tempo:
Jesus entrou num povoado,
e certa mulher, de nome Marta, recebeu-o em sua casa.
Sua irmã, chamada Maria, sentou-se aos pés do Senhor,
e escutava a sua palavra.
Marta, porém, estava ocupada com muitos afazeres.
Ela aproximou-se e disse:
'Senhor, não te importas que minha irmã
me deixe sozinha, com todo o serviço?
Manda que ela me venha ajudar!'
O Senhor, porém, lhe respondeu:
'Marta, Marta! Tu te preocupas
e andas agitada por muitas coisas.
Porém, uma só coisa é necessária.
Maria escolheu a melhor parte
e esta não lhe será tirada.'
Palavra da Salvação.

O amor não deixa o outro partir – Pe. João Batista Libânio

A liturgia de hoje casou duas leituras muito bonitas que tratam de temas comuns: a convivialidade, a visita, a capacidade judaica da acolhida, a importância que eles dão à refeição, de se estar junto, convivendo.

A primeira leitura é de um simbolismo muito grande. O texto anuncia que algo misterioso aconteceria, e Deus logo aparece. Moisés respeita a grande tradição da Igreja cristã, dos santos padres e dos pintores que aparecem num ícone muito famoso, que circula pelo mundo inteiro. Há três anjos fazendo menção a esses três homens que Abraão encontra e que simbolizam a Trindade. Já naquele tempo, ele anunciava que haveria um só Deus. Naquela época, acreditava-se numa grande quantidade de deuses, mas o Deus de Abraão era melhor, mais forte, verdadeiro. Claro que nunca passaria pela sua cabeça que aqueles três homens eram a Trindade, isso já é uma leitura nossa, mas o texto mostra vários sinais que renunciavam esse encontro. Abraão prostra-se diante daqueles três homens em sinal de veneração, de respeito. É um sinal de que o homem, criatura, se prostra diante da imensa transcendência, simbolizada por três homens desconhecidos. É claro que ele percebeu alguma coisa misteriosa nessa cena.

Um segundo detalhe que nos chama a atenção é o exagero na preparação daquela refeição. Imaginem que três pessoas desconhecidas batam à sua porta. Vocês não saem apressados para irem ao sacolão. Ninguém faz isso nos dias de hoje para receber três desconhecidos. O texto é cheio de pormenores bonitos: a mulher que vai preparar o melhor da farinha, o melhor cabrito, a coalhada do leite mais gostoso. Ela escolhe o melhor, porque para Deus sempre devemos escolher o melhor. Mesmo que, muitas vezes, nos esqueçamos disso, para Deus devemos sempre dar o melhor que temos e do que somos. Ele quer colher em nós o que temos de mais profundo. Não está interessado em nossos pecados, mas no nosso amor, no nosso arrependimento, na nossa bondade. Abraão já intuía isso. Acolhendo aqueles três desconhecidos, está acolhendo a Trindade, para nos dizer que qualquer pessoa que for acolhida nas nossas casas estará representando a Trindade.

A leitura segue ainda mais bonita. Sabemos que Sara era velha e não poderia ter filhos. Um dos anjos, que podemos imaginar que seja Deus Pai, antes de ir embora, disse duas frases seriíssimas: “Voltarei!”. Deus sempre volta. Ele vai, e, quando parecer que está longe, lembremos desta palavra: voltarei. É como num jogo de esconde-esconde que fazemos com as crianças: nos pega no colo, nos debatemos, saímos dele, mas Ele não nos deixa. Não por querer nos prender ou nos querer mal, mas porque nos ama. O amor não deixa o outro partir, quer sempre a sua presença. Deus nos busca com os olhos, pergunta por que estamos longe dele, por que nos perdemos, pois Ele perde também. Se temos saudade de Deus, Ele tem saudade de nós, sofre com a nossa falta. Ele queria ter a todos nós, queria que tivéssemos olhos faiscantes de beleza para Ele, que sempre deixa um sinal de beleza por onde passa. O último sinal que deixa é a segunda frase: “no ano que vem, quando eu voltar, Sara já terá uma criança no ventre”. Isso quer dizer que Sara terá vida. Onde há vida, Deus está lá. Para o judeu, não ter filho era uma tristeza enorme, e toda essa cena quer dizer que aonde Deus chega, chega a vida.

Uma pequena palavrinha sobre o evangelho. A interpretação mais tradicional, que aparece à primeira vista, é que Marta e Maria são duas pessoas que agem de modo diferente, e eu diria que não é isso. Para mim, Jesus é Marta e também Maria. São duas facetas de Jesus. Querem alguém com uma vida mais agitada que Jesus? Em muitas passagens, o evangelho diz claramente que Ele não tinha tempo para comer, tal era a sua atividade. Vivia rodeado de gente, a ponto de, em certas ocasiões, terem de descer um doente pelo telhado, por não conseguirem chegar à porta de onde estava. Levava uma vida azafamada, e aí era Marta, na dedicação, na entrega, no trabalho. Mas também era Maria, quando na azáfama da vida, era capaz de perceber a profundidade do amor e da presença. Era Maria na oração silenciosa da noite, na dimensão profunda que tinha na própria ação. Era Marta, quando trabalhava e também era Maria, porque era profundo em suas reflexões. Maria é o símbolo da profundidade, é o oposto desses programas de domingo. Ela mergulhava no mistério do coração humano, na essência do amor, da luta, do trabalho. Não se contenta, bebe a palavra, o pensar, a reflexão. Somos Maria, quando somos capazes de ir além do que os sentidos percebem. Vemos as crianças brincando como Marta, mas quando olhamos e percebemos o mistério da vida que pulula, que salta delas, temos o olhar de Maria. Se tivermos o olhar de Maria, nenhuma realidade humana irá nos escandalizar ou nos chocar. Nossos olhares estarão sempre repletos de beleza, porque, em qualquer situação, saberemos ir mais fundo do que a superfície do que acontece.

Somos educados numa cultura cada vez mais superficial, por causa da midiática, da internet, desses programas de auditório que só nos mostram superficialidade. Somos Maria, quando conseguimos descer um grau que seja além do que nos foi mostrado. As televisões, os jornais, o rádio, contam todos os detalhes das tragédias. Se consigo perceber a dor das pessoas, aí eu sou Maria. Não conseguimos encontrar as grandes alegrias na superfície da terra. Precisamos cavar muito, pois, do contrário, continuaremos a viver banalmente, sorvendo as palavrinhas cotidianas, sem nunca perceber os mistérios maiores que povoam cada coração. Ser Maria é ter o olhar muito mais profundo. Ser Marta é atualizar esse olhar na prática. Amém.

Pe. João Batista Libânio, sj – Um outro olhar, vol. 8

Confira a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM para este 16º domingo do Tempo Comum: