PESQUISAR TEMAS E ARQUIVOS DO BLOG

sexta-feira, 8 de julho de 2016

15º domingo do Tempo Comum


1ª Leitura - Dt 30,10-14
Salmo - Sl 68,14.17.30-31.33-34.36ab.37 (R.cf.33)
1ª Leitura - Cl 1,15-20
Evangelho - Lc 10,25-37

O amor é prática concreta

25 Um especialista em leis se levantou, e, para tentar Jesus perguntou: «Mestre, o que devo fazer para receber em herança a vida eterna?» 26 Jesus lhe disse: «O que é que está escrito na Lei? Como você lê?» 27 Ele então respondeu: «Ame o Senhor, seu Deus, com todo o seu coração, com toda a sua alma, com toda a sua força e com toda a sua mente; e ao seu próximo como a si mesmo.» 28 Jesus lhe disse: «Você respondeu certo. Faça isso, e viverá!» 29 Mas o especialista em leis, querendo se justificar, disse a Jesus: «E quem é o meu próximo?» 30 Jesus respondeu: «Um homem ia descendo de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos de assaltantes, que lhe arrancaram tudo, e o espancaram. Depois foram embora, e o deixaram quase morto. 31 Por acaso um sacerdote estava descendo por aquele caminho; quando viu o homem, passou adiante, pelo outro lado. 32 O mesmo aconteceu com um levita: chegou ao lugar, viu, e passou adiante, pelo outro lado. 33 Mas um samaritano, que estava viajando, chegou perto dele, viu, e teve compaixão. 34 Aproximou-se dele e fez curativos, derramando óleo e vinho nas feridas. Depois colocou o homem em seu próprio animal, e o levou a uma pensão, onde cuidou dele. 35 No dia seguinte, pegou duas moedas de prata, e as entregou ao dono da pensão, recomendando: ‘Tome conta dele. Quando eu voltar, vou pagar o que ele tiver gasto a mais’.» E Jesus perguntou: 36 «Na sua opinião, qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?» 37 O especialista em leis respondeu: «Aquele que praticou misericórdia para com ele.» Então Jesus lhe disse: «Vá, e faça a mesma coisa.»

A vítima é quem nos converte – Pe. João Batista Libânio, sj

Este evangelho, como é do estilo de Lucas, é cheio de pormenores que mostram um quadro bem original. Começa apresentando um mestre da lei que aprenderá justamente com um samaritano. Reparem na ironia de Jesus: é como se tomássemos um professor de Harvard, a grande universidade americana, e o colocássemos para aprender com um camponês brasileiro e analfabeto. O mestre da lei, aquele que conhecia as escrituras, que sabia de cor vários textos do Antigo Testamento, é colocado diante de um herege samaritano, que nem conhecia a Bíblia, e ele será o seu mestre. Tudo isso para quebrar todas as nossas vaidades e arrogâncias, todo e qualquer poderio e glória que os homens modernos gostam de ostentar. Hoje, qualquer pé-rapado já se diz doutor, e até já inventaram um pós-doutorado. Parece que o homem moderno precisa chamar de fora o valor que não existe dentro. Aquele homem é cheio de lei, mas vazio, se comparado àquele homem vazio de lei, mas cheio de compaixão. É a primeira grande lição desse evangelho.

Nós imaginamos que o grande personagem dessa parábola é o samaritano e até a chamamos de “Parábola do Bom Samaritano”, mas não é. É o nosso grande engano! Imaginamos que os personagens – o sacerdote, o levita e o samaritano – constituem o centro da parábola, mas o centro é a vítima, porque é ele quem vai modificar os três. Não é o samaritano que socorre a vítima, mas é a vítima quem o salva. O levita e o sacerdote não foram salvos, porque não se deixaram salvar. Enquanto não nos deixarmos salvar, não nos salvaremos. A salvação está fora de nós. Toda essa doutrina de autoajuda, tão popular nos dias de hoje, tão espalhada pelos aeroportos e rodoviárias, coloca em nós o poder de resolver todos os problemas. Jesus inverte essa realidade. Começa pelo sacerdote, que descia do templo de Jerusalém, todo cheio de si. Acabara de cumprir seu dever e encontra a vítima. Passa ao largo, porque não tem tempo. Acabara de oferecer o sacrifício, rezara solenemente a Javé, Todo-Poderoso, encontra a pobre vítima e passa pelo outro lado. Não se deixa salvar por ela. Aquele que clama por salvação salvaria aquele que pensa que se salva. A pobre vítima clama ao sacerdote para que saia da consciência do dever cumprido, de ter feito tudo o que podia, da acomodação. Mas ele não saiu, passou pelo outro lado, pelo lado da não-salvação. São como os sacerdotes que vivem a Instituição e se esquecem das pessoas. Podemos aplicar essa lição a todas as profissões: políticos que se ligam ao partido, professores voltados apenas para a academia, médicos presos apenas à ciência. Envolvem-se de tal maneira com as regras, com as leis, que as pessoas não contam, principalmente as pessoas que não seguem o ritual esperado. A vítima simboliza o diferente, o imprevisível, o aleatório, diante do qual nos curvamos ou passamos ao largo. Há muito mais aleatório em nossa vida do que o programado, e é bom nos perguntar se somos capazes de nos curvar diante do inesperado, do imprevisível que nos questiona.

Logo depois, passa o levita, que vivia enfiado nos livros, estudando o dia todo, lendo o Talmude  e seus livros complementares. Sabia tudo das escrituras, estava cheio de sabedoria, de cultura. Passa solenemente ao lado da vítima, que quer convertê-lo, mas ele não se converte e passa pelo outro lado. Olhem para a vida de vocês e se perguntem: quantas vítimas gritaram aos seus ouvidos e vocês não se deixaram converter por elas? Vítimas são todas as pessoas que precisam de nossa ajuda. Não só os que foram assaltados ou agarrados por alguém, mas qualquer um em estado de fraqueza, de doença física ou psíquica, de qualquer outra privação ou ameaça. Chamam por nós, mas não nos deixamos converter, passamos pelo outro lado. Lembrem-se dessa parábola! Lembrem-se de Jesus!

O último a passar é o samaritano, um pobre que não valia nada. Era um herege, como muitas vezes pensamos sobre os fiéis de outras Igrejas. Achamos que eles agem erradamente, que não sabem nada, nunca fizeram curso de teologia aos sábados, não estão preparados, nunca farão nada que preste. São uns coitadinhos. Mas é ele que, quando encontra a vítima, acorda dentro de si o tesouro que todos nós temos. O sacerdote tinha, o levita também, mas a vítima não consegue arrancar, porque eles agarraram o tesouro para si, e não para os outros. A vítima consegue tocar o coração do samaritano e não consegue tocar o sacerdote e o levita. Esse é o grande enigma da alma humana, e nós nunca sabemos por que. Por que um fato, um acontecimento, consegue arrancar as nossas energias mais profundas, e o mesmo fato, para uma outra pessoa, tem o efeito contrário? Até a física está trabalhando isso com um conceito muito moderno, que já está sendo aplicado à psicologia e à pedagogia. Vou tomar um exemplo bem simples: um pai ou uma mãe tem dois filhos – logo, o mesmo pai e a mesma mãe –, mas um vai por um caminho de bondade, honestidade, e o outro, do mesmo pai, da mesma mãe, do mesmo lar, segue caminho contrário. De um colégio excelente, de pais religiosos, de uma família unida, sai um assassino, ao mesmo tempo em que sai um homem de bem.

O samaritano seguia num jumentozinho e trazia em seu alforje um pouco de vinho, azeite, duas moedas de prata. Mas o bem mais precioso que trazia era a compaixão. Ele vê a vítima e se aproxima, torna-se próximo. Em português, a palavra é linda, pois tem dois sentidos: de tempo e de espaço. Devemos nos aproximar das pessoas no tempo e no espaço. No espaço, até que é fácil, é só chegar perto. No tempo é muito mais difícil. Ainda outro dia, o Comblin  fez uma palestra e dizia que um dos problemas mais graves da cultura brasileira é a distância cultural da geração adulta em relação a esses jovens que vivem por aí, perdidos, encostados às paredes, sussurrando entre si. Houve uma grande ruptura nas tradições, que já não passam de geração para geração. Precisamos nos aproximar dos jovens, descer da cultura onde estamos e chegar perto. Precisamos ter coragem de nos aproximar dos mais humildes, ao invés de passar todo empertigado, com terno e gravata impecáveis. São homens e mulheres estressados, preparando o próximo infarto do miocárdio. Precisamos nos aproximar de todas as pessoas no tempo cultural, no tempo etário, espiritual, religioso. Precisamos aprender também dos hereges, de pessoas que saem do nosso universo de valores. Se tivéssemos essa abertura, teríamos um pouco do bom samaritano.

Um outro aspecto muito bonito é que sobra Jesus no samaritano, quando ele diz que voltará de novo. Jesus sempre volta de novo, porque os nossos débitos sempre exigem. Ele terá sempre que pagar alguma coisa por nós. Já dera duas moedas de prata, mas voltará de novo. É o Senhor que sempre volta! Ele nunca se cansa de nós. Nós é que nos cansamos dele, ficamos aborrecidos, enjoados, mas Ele sempre olha para cada um de nós, sem nunca se cansar. Amém.

Pe. João Batista Libânio, sj - Um outro olhar, vol. 8

Confira a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz para este 15º domingo do Tempo Comum