PESQUISAR TEMAS E ARQUIVOS DO BLOG

domingo, 31 de julho de 2016

Santo do dia: Santo Inácio de Loyola


Conversão: Inácio de Loyola nasce em 1491, na Espanha, numa família da nobreza basca, onde é, desde cedo, iniciado na alegria e valentia desse povo. Aos 26 anos, os seus sonhos de grandes conquistas militares e amorosas caem por terra, feridos de morte por uma bala de canhão que o deixa gravemente ferido e coxo para o resto da vida. Durante a sua longa convalescença, entretém-se com os livros que lhe conseguiram arranjar: vida de Jesus e dos santos. Tocado por esses relatos, experimenta uma alegria profunda e duradoura ao imaginar-se a seguir os seus passos, na radicalidade de uma vida entregue a Deus. Da frustração nascem assim novos sonhos e ideais maiores…

Uma experiência espiritual profunda: Sem outro projeto que o de imitar os santos, Inácio parte para os arredores de Barcelona, fixando-se na pequena localidade de Manresa. Permanece aí retirado durante longos meses, num clima de austeridade, penitência e profunda oração. Durante esse tempo, sente-se conduzido por Deus numa segunda conversão. Descobre a proximidade de Deus, não apenas nas duras provas que impunha a si mesmo, mas sobretudo na oração, falando-Lhe como a um amigo. Nos movimentos do seu coração - alegria, tristeza, ânimo - encontra respostas às suas inquietações e ajuda para discernir a vontade de Deus. Em Manresa, descobriu, ainda, que Deus o chamava a ajudar os outros a encontrá-Lo, partilhando a sua experiência, que transpôs no seu pequeno livro de Exercícios Espirituais.

Da universidade para o mundo: Depois de uma viagem à Terra Santa, motivada pelo desejo de proximidade com Jesus, Inácio dá-se conta de que necessita estudar para ajudar melhor aqueles que o procuram, sem deixar de manter o seu estilo de vida simples. Na Espanha e depois em Paris, o peregrino, como ele chama a si mesmo, prepara-se para o sacerdócio, ao mesmo tempo em que reúne à sua volta amigos e companheiros com o desejo de imitar a sua vida. Em 1539, esse grupo de amigos no Senhor decide constituir-se como corpo, sob a autoridade de Inácio, e oferecer-se ao Papa para as missões que ele julgue prioritárias. Uns, como Francisco Xavier, são enviados para o Oriente; outros, como Pedro Fabro, para dialogar com a Reforma protestante na Alemanha, enquanto Inácio permanece em Roma, conduzindo a Companhia de Jesus nascente no seu serviço à Igreja universal.

500 anos mais tarde: A inspiração de Santo Inácio de Loyola permaneceu viva, muito além da sua morte, em 1565, até os nossos dias, através da Companhia de Jesus e de todos os que, sem serem jesuítas, partilham do desejo de Inácio de amar a Deus em todas as coisas, e todas as coisas em Deus. A espiritualidade inaciana, alicerçada sobre a experiência interior de Inácio, contida nos Exercícios Espirituais, procura encontrar a Deus em todas as realidades, criadas para ajudar o homem na sua busca de felicidade. A atenção à voz do Espírito, que fala através dos acontecimentos do mundo e da vida interior de cada um, permite encontrar o caminho de realização que Deus sonha para cada homem e mulher. A oração constitui, assim, uma aprendizagem de liberdade interior, alimentada pelo desejo de um crescimento contínuo e de uma adesão cada vez maior a Jesus Cristo. É a este “mais” que Santo Inácio nos convida por meio do seu lema: para a maior glória de Deus (Ad Maiorem Dei Gloriam).

Fonte: Anchietanum

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Papa: "Sem misericórdia não podemos fazer nada"



Cracóvia (Polônia) - Nesta sexta-feira, (29/07), às 18 horas no Parque Jordan, na esplanada de Błonia, em Cracóvia, o Papa Francisco rezou com os jovens a Via-Sacra. Momento profundo de oração através da música e da arte. Diversos movimentos e congregações carregaram a cruz nas estações. Ao final da oração, o Papa Francisco dirigiu um discurso aos jovens, falando sobre sofrimento, misericórdia e compromisso.

O Pontífice foi enfático ao afirmar que "a nossa credibilidade de cristãos é posta em jogo quando não acolhemos a pessoa marginalizada que está ferida no corpo, e no acolhimento do pecador que está ferido na alma".

Confira na íntegra:

“Tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, estava nu e destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo” (Mt 25, 35-36).

Estas palavras de Jesus vêm ao encontro da questão que muitas vezes ressoa na nossa mente e no nosso coração: “Onde está Deus?” Onde está Deus, se no mundo existe o mal, se há pessoas famintas, sedentas, sem abrigo, deslocadas, refugiadas? Onde está Deus, quando morrem pessoas inocentes por causa da violência, do terrorismo, das guerras? Onde está Deus, quando doenças cruéis rompem laços de vida e de afeto? Ou quando as crianças são exploradas, humilhadas, e sofrem – elas também – por causa de graves patologias? Onde está Deus, quando vemos a inquietação dos duvidosos e dos aflitos na alma? Há perguntas para as quais não existem respostas humanas. Podemos apenas olhar para Jesus, e perguntar a Ele. E a sua resposta é esta: “Deus está neles”, Jesus está neles, sofre neles, profundamente identificado com cada um. Está tão unido a eles, que quase formam “um só corpo”.

Foi o próprio Jesus que escolheu identificar-Se com estes nossos irmãos e irmãs provados pelo sofrimento e a angústia, aceitando percorrer o caminho doloroso para o calvário. Ao morrer na cruz, entrega-Se nas mãos do Pai e leva consigo e em Si mesmo, com amor de doação, as chagas físicas, morais e espirituais da humanidade inteira. Abraçando o madeiro da cruz, Jesus abraça a nudez e a fome, a sede e a solidão, a dor e a morte dos homens e mulheres de todos os tempos. Nesta noite, Jesus e nós, juntamente com Ele, abraçamos com amor especial os nossos irmãos sírios, que fugiram da guerra. Saudamo-los e acolhemo-los com fraterno afeto e simpatia.

Repassando a Via-Sacra de Jesus, descobrimos de novo a importância de nos configurarmos a Ele, através das 14 obras de misericórdia. Estas ajudam-nos a abrir-nos à misericórdia de Deus, a pedir a graça de compreender que a pessoa, sem misericórdia, não pode fazer nada; sem a misericórdia, eu, tu, nós todos não podemos fazer nada. Comecemos por ver as sete obras de misericórdia corporais: dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, vestir os nus, dar pousada aos peregrinos, visitar os enfermos; visitar os presos; enterrar os mortos. Gratuitamente recebemos, demos gratuitamente também. Somos chamados a servir Jesus crucificado em cada pessoa marginalizada, a tocar a sua carne bendita em quem é excluído, tem fome, tem sede, está nu, preso, doente, desempregado, é perseguido, refugiado, migrante. Naquela carne bendita, encontramos o nosso Deus; naquela carne bendita, tocamos o Senhor. O próprio Jesus no-lo disse, ao explicar o «Protocolo» com base no qual seremos julgados: sempre que fizermos isto a um dos nossos irmãos mais pequeninos, fazemo-lo a Ele (cf. Mt 25, 31-46).

As obras de misericórdia corporais seguem-se as obras de misericórdia espirituais: dar bons conselhos, ensinar os ignorantes, corrigir os que erram, consolar os tristes, perdoar as injúrias, suportar com paciência as fraquezas do nosso próximo, rezar a Deus por vivos e defuntos. A nossa credibilidade de cristãos é posta em jogo quando não acolhemos a pessoa marginalizada que está ferida no corpo, e no acolhimento do pecador que está ferido na alma.

Hoje a humanidade precisa de homens e mulheres, particularmente jovens como vós, que não queiram viver a sua existência “a metade”, jovens prontos a gastar a vida no serviço gratuito aos irmãos mais pobres e mais vulneráveis, à imitação de Cristo que Se doou totalmente a Si mesmo pela nossa salvação. Perante o mal, o sofrimento, o pecado, a única resposta possível para o discípulo de Jesus é o dom de si mesmo, até da própria vida, à imitação de Cristo; é a atitude do serviço. Se alguém, que se diz cristão, não vive para servir, não serve para viver. Com a sua vida, renega Jesus Cristo.

Nesta noite, queridos jovens, o Senhor renova-vos o convite para vos tornardes protagonistas no serviço; Ele quer fazer de vós uma resposta concreta às necessidades e sofrimentos da humanidade; quer que sejais um sinal do seu amor misericordioso para o nosso tempo! Para cumprir esta missão, Ele aponta-vos o caminho do compromisso pessoal e do sacrifício de vós próprios: é o Caminho da cruz. O Caminho da cruz é o caminho da felicidade de seguir a Cristo até ao fim, nas circunstâncias frequentemente dramáticas da vida diária; é o caminho que não teme insucessos, marginalizações ou solidões, porque enche o coração do homem com a plenitude de Jesus. O Caminho da cruz é o caminho da vida e do estilo de Deus, que Jesus nos leva a percorrer mesmo através das sendas duma sociedade por vezes dividida, injusta e corrupta.

O Caminho da cruz é o único que vence o pecado, o mal e a morte, porque desemboca na luz radiosa da ressurreição de Cristo, abrindo os horizontes da vida nova e plena. É o Caminho da esperança e do futuro. Quem o percorre com generosidade e fé, dá esperança e futuro à humanidade. Naquela Sexta-feira Santa, queridos jovens, muitos discípulos voltaram tristes para suas casas, outros preferiram ir para a casa da aldeia a fim de esquecer a cruz. Pergunto-vos: Nesta noite, como quereis tornar às vossas casas, aos vossos locais de alojamento? Nesta noite, como quereis voltar a encontrar-vos com vós mesmos? Cabe a cada um de vós dar resposta ao desafio desta pergunta.

Nossa Senhora dos Anjos e o Perdão de Assis


18º domingo do Tempo Comum


Eclo 1, 2; 2, 21-23
Sl 89 (90)
Cl 3, 1-5.9-11
Lc 12, 13-21

A vida é dom de Deus

13 Do meio da multidão, alguém disse a Jesus: «Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo.» 14 Jesus respondeu: «Homem, quem foi que me encarregou de julgar ou dividir os bens entre vocês?» 15 Depois Jesus falou a todos: «Atenção! Tenham cuidado com qualquer tipo de ganância. Porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a sua vida não depende de seus bens.» 16 E contou-lhes uma parábola: «A terra de um homem rico deu uma grande colheita. 17 E o homem pensou: ‘O que vou fazer? Não tenho onde guardar minha colheita’. 18 Então resolveu: ‘Já sei o que fazer! Vou derrubar meus celeiros e construir outros maiores; e neles vou guardar todo o meu trigo, junto com os meus bens. 19 Então poderei dizer a mim mesmo: meu caro, você possui um bom estoque, uma reserva para muitos anos; descanse, coma e beba, alegre-se!’ 20 Mas Deus lhe disse: ‘Louco! Nesta mesma noite você vai ter que devolver a sua vida. E as coisas que você preparou, para quem vão ficar?’ 21 Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico para Deus.»

Bíblia Sagrada - Edição Pastoral

A felicidade nas coisas simples - Reflexão do Pe. João Batista Libânio, sj

A primeira leitura, do livro do Eclesiastes, começa com esta frase famosa: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”, que deu azo a que um dos maiores oradores do mundo – Crisóstomo – fizesse também uma das peças oratórias mais lindas da cultura mundial. Ele era bispo numa cidade antiga, do quinto século, e lá havia um homem poderoso, que mandava em todos. Tinha todo o poder, tinha tudo garantido. De repente, esse homem cai na maior desgraça. Foi banido, mandado embora, sequestraram seus bens. Humilhado, entrou na igreja, ficou escondido entre os bancos. Aí então, Crisóstomo, o grande orador, diz, olhando para ele: “Vaidade das vaidades, onde está tua glória, onde está teu poder?”, e continua todo o seu sermão. Essa é a leitura do Antigo Testamento.

Para entendermos isso, temos que situar quando o livro do Eclesiastes foi escrito. Comece imaginando uma cidade pequena, onde moravam pessoas velhas, já vividas, sem muitas ilusões. Elas sentavam-se nas portas e diziam alguns aforismos, algumas frases sérias. A turma tomava nota e, como eram homens cheios de Deus, suas palavras tão inspiradas só poderiam ser palavras de Deus. Nesse dia, estavam um pouco mais pessimistas, um pouco mais desiludidos da vida, e, olhando para os jovens, diziam: “vaidade das vaidades! Você, bonito, correndo por aí, daqui a pouco estará fazendo plástica para tentar melhorar a aparência. Você, que era uma beleza, uma beldade, agora está aí desse jeito!” Eles perceberam a força dessa frase, que é muito difícil para a geração jovem entender, porque não foi dita por um jovem, mas por um velho.

A única vantagem de ser velho é ter a história atrás de si. E tem a grande desvantagem de, ao falar, ouvir os jovens logo dizerem: “Coitadinho, já está velho e só pode mesmo falar assim!” É difícil entender que realmente esta vida é vaidade. Que todas as coisas pelas quais lutamos com tanto esforço, as cidades que construímos, as casas bonitas, as nossas cadernetas de poupança, os nossos carros, cada vez mais sofisticados, podem desaparecer numa fração de segundos.

Que um velho diga isso, eu entendo. Mas, o mais surpreendente vem no Evangelho, porque Jesus era moço, deveria ter uns trinta e poucos anos, e contou essa história. Ele, jovem, percebeu que a vida perde o sentido quando simplesmente queremos agarrar as coisas: ter, ter, ter... O nosso ser, a nossa existência, as nossas relações diminuem.

Outro dia eu li um livro da autoria de um velho, Norberto Bobbio, considerado um dos maiores politólogos, isso é, especialista em ciências políticas. É italiano, de esquerda, foi assunto de vários congressos em muitos países. E ele diz: “quando olho para a minha vida e vejo tanto sucesso, do que tenho mais saudade, do que mais gostei foram os momentos que passei com as pessoas, na amizade, no prazer, na alegria. Todo o resto não tem nenhuma importância diante dos momentos de encontro com as pessoas!” Nós vamos levar da vida o fruto do afeto comunicado e recebido.

Na última quinta-feira, estive num congresso, em que estavam mais de mil e oitocentos educadores. Lá expuseram uma pesquisa sobre jovens. Perguntados sobre o que mais temiam, não responderam que era o desemprego, mas solidão, isolamento, ficar sozinho, não dar e nem receber afeto.

Quando Jesus diz isso, não quer dizer que é contra a riqueza, contra termos as coisas. Ele quer nos alertar para que não cheguemos à velhice vazios. A única solução para um velho vazio é passar o dia todo vendo televisão. Se não sai nada de dentro, tem que procurar o que vem de fora. A coisa mais triste é ver pessoas que, quando envelhecem, não têm nada para dizer. Pessoas caladas, mudas, broncas, porque não construíram nada. Não criaram nenhum afeto, nenhum amor. É isso que importa. O resto passa. As glórias passam, as belezas passam, o dinheiro passa. De que adianta um Bill Gates, com milhões de dólares? Se comer esses dólares, adoece. Se quiser gastar o dinheiro, não pode, não tem onde gastar. Tem de viver cercado de seguranças para evitar um sequestro. Não pode sair, porque tem medo. É prisioneiro, escravo de seu dinheiro. Coisa terrível!

E tantas pessoas sonham em serem ricas. Não pode gozar da vontade de viver, da alegria de existir, de conversar com um colega, passear tranquila e livremente numa praça, sem ser incomodado. Coisa triste é pensar que a glória e o dinheiro trazem felicidade.

Um grande capitalista estava num parque bonito, em Curitiba, vendo crianças brincando de pedalinho. Havia uma fila imensa esperando sua vez, e ele se deleitava com a alegria das pessoas simples. A alegria que ele não conseguia encontrar nos grandes hotéis, nas grandes viagens que fazia por todo o mundo.

Nada nos dá prazer nesse mundo, a não ser que venha de dentro de nós.

Pe. João Batista Libânio, sj - Um outro olhar vol. 2

Confira a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz para este 18º domingo do Tempo Comum



quarta-feira, 27 de julho de 2016

Trabalhar em prol da justiça e a paz, pede Papa


Cracóvia - Logo após a cerimônia de acolhida do Papa Francisco, ele foi conduzido ao Castelo de Wawel, para um encontro com autoridades e o corpo diplomático. Em sua fala, o Pontífice destacou a importância de sua primeira visita à Europa Centro-Oriental e salientou a memória do povo polonês. O Santo Padre ressaltou a importância do perdão e da acolhida aos necessitados. Confira na íntegra:

Senhor Presidente,
Distintas Autoridades
Ilustres Membros do Corpo Diplomático,
Magníficos Reitores,
Senhoras e Senhores!

Com deferência, saúdo o Senhor Presidente e agradeço o seu acolhimento generoso e as palavras amáveis. Sinto-me feliz por poder saudar os ilustres membros do Governo e do Parlamento, os Reitores das universidades, as Autoridades regionais e municipais, bem como os membros do Corpo Diplomático e as outras Autoridades presentes. É a primeira vez que visito a Europa Centro-Oriental e estou contente por começar da Polônia, que, entre os seus filhos, conta o inesquecível São João Paulo II, idealizador e promotor das Jornadas Mundiais da Juventude. Ele gostava de falar da Europa que respira com os seus dois pulmões: o sonho dum novo humanismo europeu é animado pela respiração criativa e harmônica destes dois pulmões e pela civilização comum que tem no cristianismo as suas raízes mais sólidas.

A memória caracteriza o povo polaco. Sempre me impressionou o sentido vivo da história do Papa João Paulo II. Quando falava dos povos, partia da sua história procurando fazer ressaltar os seus tesouros de humanidade e espiritualidade. A consciência da identidade, livre de complexos de superioridade, é indispensável para organizar uma comunidade nacional com base no seu patrimônio humano, social, político, econômico e religioso, para inspirar a sociedade e a cultura, mantendo-as simultaneamente fiéis à tradição e abertas à renovação e ao futuro. Foi nesta perspectiva que celebrastes, recentemente, os mil e cinquenta anos do Batismo da Polônia. Foi certamente um momento forte de unidade nacional, que confirmou como a concórdia, mesmo na diversidade das opiniões, é a estrada segura para se alcançar o bem comum de todo o povo polaco.

E uma profícua cooperação internacional e a mútua consideração maturam através da consciência e do respeito pela identidade própria e alheia. Não pode haver diálogo, se cada qual não parte da sua própria identidade. Mas, na vida diária de cada indivíduo e também de cada sociedade, há dois tipos de memória: a boa e a má, a positiva e a negativa. A memória boa é aquela que a Bíblia nos mostra no Magnificat, o cântico de Maria, que louva o Senhor e a sua obra de salvação. Ao contrário, a memória negativa é aquela que mantém o olhar da mente e do coração obsessivamente fixo no mal, a começar pelo mal cometido pelos outros. Vendo a vossa história recente, agradeço a Deus porque soubestes fazer prevalecer a memória boa, celebrando, por exemplo, os cinquenta anos do perdão, mutuamente oferecido e recebido, entre os episcopados polaco e alemão, depois da II Guerra Mundial. Apesar de a iniciativa envolver inicialmente apenas as comunidades eclesiais, todavia desencadeou um processo social, político, cultural e religioso irreversível, mudando a história das relações entre os dois povos. E, na mesma linha, recordamos também a Declaração Conjunta entre a Igreja Católica da Polônia e a Igreja Ortodoxa de Moscovo: um ato que deu início a um processo de aproximação e fraternidade não apenas entre as duas Igrejas, mas também entre os dois povos.

Assim a nobre nação polaca mostra como se pode fazer crescer a memória boa e deixar para trás a má. Para isso, requer-se uma esperança e confiança firmes n'Aquele que guia os destinos dos povos, abre portas fechadas, transforma as dificuldades em oportunidades e cria novos cenários onde parecia impossível. Disto mesmo dão testemunho as vicissitudes históricas da Polônia: depois das tempestades e das trevas, o vosso povo, restabelecido na sua dignidade, pôde cantar, como os judeus no regresso de Babilônia: «Parecia-nos viver um sonho. A nossa boca encheu-se de sorrisos e a nossa língua de canções» (Sal 126/125, 1-2). A consciência do caminho feito e a alegria pelas metas alcançadas dão força e serenidade para se enfrentar os desafios atuais, que requerem a coragem da verdade e um compromisso ético constante, a fim de que os processos decisórios e operativos, bem como as relações humanas sejam sempre respeitosos da dignidade da pessoa. E, com isto, está relacionada toda a atividade, incluindo a economia, a relação com o meio ambiente e a própria forma de gerir o complexo fenômeno migratório.

Este último exige um suplemento de sabedoria e misericórdia, para superar os medos e produzir um bem maior. É preciso identificar as causas da emigração da Polônia, facilitando o regresso de quantos o queiram fazer. Simultaneamente é precisa a disponibilidade para acolher as pessoas que fogem das guerras e da fome; a solidariedade para com aqueles que estão privados dos seus direitos fundamentais, designadamente o de professar com liberdade e segurança a sua fé. Ao mesmo tempo, devem ser estimuladas colaborações e sinergias a nível internacional a fim de se encontrar soluções para os conflitos e as guerras, que forçam tantas pessoas a deixar as suas casas e a sua pátria. Trata-se, pois, de fazer o possível para aliviar os seus sofrimentos, sem se cansar de trabalhar com inteligência e ininterruptamente pela justiça e a paz, testemunhando com os fatos os valores humanos e cristãos.

À luz da sua história milenar, convido a nação polaca a olhar com esperança o futuro e as questões que tem de enfrentar. Esta atitude favorece um clima de respeito entre todas as componentes da sociedade e um diálogo construtivo entre as diferentes posições; além disso cria as melhores condições para um crescimento civil, econômico e até demográfico, alentando a confiança de oferecer uma vida boa aos próprios filhos. Com efeito, estes não deverão apenas enfrentar problemas, mas poderão usufruir da beleza da criação, do bem que soubermos fazer e difundir, da esperança que lhes soubermos dar. Assim as próprias políticas sociais a favor da família – núcleo primário e fundamental da sociedade –, que visam socorrer as mais frágeis e pobres e apoiá-las no acolhimento responsável da vida, serão ainda mais eficazes. A vida deve ser sempre acolhida e protegida – as duas coisas juntas: acolhida e protegida – desde a concepção até à morte natural, e todos somos chamados a respeitá-la e cuidar dela. Por outro lado, compete ao Estado, à Igreja e à sociedade acompanhar e ajudar concretamente quem está em situação de grave dificuldade, para que o filho não seja jamais sentido como um fardo mas como um dom, e as pessoas mais frágeis e pobres não se vejam abandonadas.

Senhor Presidente, a nação polaca pode – como sucedeu em todo o seu longo percurso histórico – contar com a colaboração da Igreja Católica, para que, à luz dos princípios cristãos que a inspiram e que forjaram a história e a identidade da Polônia, saiba nas novas condições históricas avançar no seu caminho, fiel às suas melhores tradições e repleta de confiança e esperança, mesmo nos momentos difíceis.

Ao mesmo tempo que lhe renovo a expressão da minha gratidão, desejo ao Senhor Presidente e a cada um dos presentes um sereno e frutuoso serviço ao bem comum.

Nossa Senhora de Częstochowa abençoe e proteja a Polônia!

"Todas as religiões querem a paz", afirma Pontífice


Cidade do Vaticano – Durante a viagem para a Polônia, o Papa Francisco encontrou os  jornalistas de 15 países presentes no voo da Alitalia.

Antes de saudar pessoalmente cada um, o Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Padre Lombardi, pediu ao Santo Padre algumas palavras sobre como vive estes últimos acontecimentos no mundo e como vê o encontro com os jovens neste contexto atual. Eis o que respondeu:

“Uma palavra que – sobre isto dizia Padre Lombardi -  se repete tanto é “insegurança”. Mas a verdadeira palavra é “guerra”. Há tempos dizemos que “o mundo está em guerra em partes”. Esta é a guerra. Houve aquela de 1914 com os seus métodos; depois a de 39 a 45; uma outra grande guerra no mundo, e agora existe esta. Não é tão orgânica, talvez; organizada, sim, mas orgânica, digo; mas é guerra. Este santo sacerdote que morreu precisamente no momento em que fazia a oração por toda a Igreja, é “um”; mas quantos cristãos, quantos inocentes, quantas crianças… Pensemos na Nigéria, por exemplo: “Mas, lá é a África!”. Esta é a guerra! Não tenhamos medo de dizer esta verdade: o mundo está em guerra, porque perdeu a paz”.

O Papa também agradeceu o trabalho nesta Jornada da Juventude:

“A juventude sempre nos fala de “esperança”. Esperemos que os jovens nos digam algo que nos dê um pouco mais de esperança, neste momento. Pelo fato de ontem, também eu gostaria de agradecer a todos aqueles que expressaram seu pesar, de modo especial o Presidente da França que quis telefonar para mim, como um irmão. Agradeço a ele”.

Ao final, o Santo Padre fez questão de esclarecer que esta não é guerra de religiões:

“Uma só palavra gostaria de dizer para esclarecer. Quando eu falo de “guerra”, falo de guerra seriamente, não de “guerra de religiões”: não. Existe guerra de interesses, existe guerra pelo dinheiro, existe guerra pelos recursos da natureza, existe guerra pelo domínio dos povos: esta é a guerra. Alguém pode pensar: "Está falando de guerra de religiões”: não! Todas as religiões, queremos a paz. A guerra, a querem os outros. Entendido?”.

A felicidade do avô


Crônica de Rubem Alves

Já contei essa estória como um narrador abstrato para leitores abstratos. Mas nesse dia do meu aniversário eu a conto nietzscheanamente, com meu sangue, para meus filhos e netos.
Viveu outrora um imperador, pai de muitos filhos, avô de muitos netos, a quem amava de todo coração. Infelizmente, entretanto, ele sofria sem cessar com o medo de que a Morte pudesse levar um deles.

Essa ideia lhe tirava toda a alegria de viver. Durante o dia era atormentado pela ansiedade. De noite era afligido pela insônia. Seus pensamentos não paravam de procurar meios de burlar a Morte.
Seu palácio estava cheio de médicos, laboratórios e remédios, que combatiam a Morte no front das enfermidades. Havia também guardas por todos os lados do palácio, encarregados de combater a Morte no front dos acidentes.

Mas ele sabia que tais cuidados apenas não bastavam. A morte é muito astuta. Ela ataca no momento em que não se espera. Por isso, o imperador mandou vir, dos lugares mais distantes do seu reino, todos os sacerdotes, profetas, videntes, mágicos, feiticeiros, sábios, gurus, com o pedido de que não apenas realizassem os rituais mágicos apropriados, como também escrevessem, nas páginas de um livro sagrado, feito especialmente para esse fim, com papiros recolhidos em noites de lua cheia nos lugares onde moravam os deuses, as bênçãos que garantiriam aos seus filhos e netos vida longa e felicidade.

Ouvindo a convocação do imperador veio de uma longínqua província um velho sábio, que todos ignoravam. Ele morava num lugar distante, nas montanhas. O caminho a ser trilhado era longo e as suas pernas eram velhas e cansadas. Chegou atrasado, depois que todos já haviam partido.
O imperador se alegrou ao ser informado da chegada do homem santo e ordenou que um de seus conselheiros lhe mostrasse o livro sagrado. O velho sábio leu cuidadosamente os desejos que ali haviam sido escritos.

Após ler tudo o que fora escrito, o velho sábio tomou de uma pena e gravou nas páginas do livro sagrado estas palavras:

"Os avós morrem.
Os pais morrem.
Os filhos morrem."

E assinou o seu nome.

O imperador, ao ler tais palavras no livro enfureceu-se, julgando-as fórmulas de maldição e exigiu que o sábio se explicasse, sob pena de ser mandado para a prisão pelo resto dos seus dias.

"Majestade", disse o sábio. "Não sei receitas para impedir a chegada da Morte. Ela virá de qualquer forma. Sou apenas um velho poeta. Minhas palavras não têm o poder de exorcizá-la. O que eu posso desejar é que ela venha na ordem certa."

"A ordem certa?"

"O que é que mais deseja um avô? Ele deseja morrer vendo seus filhos e netos cheios de vida e de alegria.

O que é que mais deseja um pai? Ele deseja morrer vendo seus filhos saudáveis e felizes.

Não tenho palavras mágicas para impedir que a Morte venha. Mas lhe ofereço meus desejos de que ela venha na ordem certa. Por isso invoquei a Morte, na ordem da felicidade:
"Os avós morrem. Os pais morrem. Os filhos morrem."

O imperador sorriu, tomou nas suas as mãos do velho sábio e as beijou.

Palavra da Hora - A pessoa espiritual


terça-feira, 26 de julho de 2016

Começa hoje a Jornada Mundial da Juventude


Cracóvia - Tudo pronto em Cracóvia para a chegada, amanhã, quarta-feira, do Papa Francisco. Uma visita muito aguardada por ocasião da 31ª Jornada Mundial da Juventude no Jubileu da Misericórdia. Pela primeira vez, o Pontífice argentino estará na terra natal de São João Paulo II. E precisamente a Karol Wojtyla "artífice das JMJ" será dedicada a cerimônia de abertura do evento com a Missa presidida, no final da tarde de hoje, pelo Cardeal Arcebispo de Cracóvia, Stanislaw Dziwisz.

“É preciso levar ao mundo o fogo da misericórdia”. A exortação de São João Paulo II retorna hoje a ressoar na sua Cracóvia. Precisamente ao iniciador, o artífice da JMJ, dedica-se - na véspera da chegada do Papa Francisco à Polônia - a cerimônia de abertura da 31ª Jornada Mundial da Juventude centralizada no tema “Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia”. Antes da grande missa celebrada pelo histórico Secretário de Karol Wojtyla, o Arcebispo de Cracóvia Stanislaw Dziwisz, será realizada uma sugestiva peregrinação da “Chama da Misericórdia”, que de Lagiewniki, lugar que lembra imediatamente St. Faustina Kowalska, chegará ao grande parque de Błonia, no centro de Cracóvia, onde será celebrada a Missa de abertura da JMJ.

Em seu caminho, a Chama da Misericórdia vai tocar todos os lugares significativos da vida de São João Paulo II, da igreja de São Floriano, onde foi jovem sacerdote à catedral na colina de Wawel Hill, que, de 1963 a 1978, foi a "sua" igreja quando era pastor da arquidiocese de Cracóvia. Presentes na Missa - em que se prevê a participação de mais de 500 mil jovens -, como é tradição, os símbolos da Jornada Mundial da Juventude: a Cruz e o Ícone de Nossa Senhora “Salus Populi Romani”, enquanto alguns jovens vestirão camisetas com logotipos das edições anteriores da JMJ.

A cidade, com suas longas avenidas e grandes parques, já foi invadida pacificamente por uma multidão de jovens festivos, enquanto para garantir a segurança dos eventos, as autoridades previram o deslocamento de 40 mil membros das forças de ordem. Com a cerimônia de abertura no final da tarde de hoje, poderá ser visto o "mosaico de misericórdia e harmonia", do qual Francisco falou há poucos dias na sua vídeo-mensagem à Polônia. Um mosaico que amanhã, com a chegada do Papa, será ainda mais enriquecido neste Ano Santo que precisamente em Cracóvia, "a capital da divina misericórdia", irá viver o seu Jubileu dos Jovens.

Grande, é evidente, a ênfase que todos os meios de comunicação poloneses reservam à visita iminente de Francisco, dez anos depois da visita apostólica do Papa Bento XVI e 14 anos após a última visita de Karol Wojtyla à sua Polônia natal: João Paulo II visitou 9 vezes o seu país durante o seu pontificado. De alguma forma, a 15ª viagem apostólica internacional do Papa Bergoglio está estruturada em três dimensões: além dos eventos da JMJ, de fato, emerge o encontro do Papa com a Igreja e a nação polonesa, nos 1050 anos do Batismo do Polônia, e, naturalmente, a visita a Auschwitz-Birkenau, que será marcada pelo silêncio e pela oração. Um momento tocante, para o qual o Papa pediu o "dom das lágrimas", e que deverá ser uma das etapas mais significativas não só desta viagem, mas de todo o pontificado do Papa Francisco.

Confira a programação:


A diferença de fuso horário do Brasil para a Polônia é de 5 horas.

San'Ana e São Joaquim - Dia dos avós


Hoje a Igreja celebra Santa Ana e São Joaquim, os avós de Jesus. Por este motivo é celebrado o dia dos avós.

Queremos parabenizar os avós que curtem nossa página pelo seu dia. Conheça mais sobre a vida de Santa Ana e São Joaquim:

Ana e seu marido Joaquim já estavam com idade avançada e ainda não tinham filhos. O que, para os judeus de sua época, era quase um desgosto e uma vergonha também. Os motivos são óbvios, pois os judeus esperavam a chegada do messias, como previam as sagradas profecias.

Assim, toda esposa judia esperava que dela nascesse o Salvador e, para tanto, ela tinha de dispor das condições para servir de veículo aos desígnios de Deus, se assim ele o desejasse. Por isso a esterilidade causava sofrimento e vergonha, e é nessa situação constrangedora que vamos encontrar o casal.

Mas Ana e Joaquim não desistiram. Rezaram por muito e muito tempo até que, quando já estavam quase perdendo a esperança, Ana engravidou. Não se sabe muito sobre a vida deles, pois passaram a ser citados a partir do século II, mas pelos escritos apócrifos, que não são citados na Bíblia, porque se entende que não foram inspirados por Deus. E eles apenas revelam o nome dos pais da Virgem Maria, que seria a Mãe do Messias.

No Evangelho, Jesus disse: "Dos frutos conhecereis a planta". Assim, não foram precisos outros elementos para descrever-lhes a santidade, senão pelo exemplo de santidade da filha Maria. Afinal, Deus não escolheria filhos sem princípios ou dignidade para fazer deles o instrumento de sua ação.

Maria, ao nascer no dia 8 de setembro de um ano desconhecido, não só tirou dos ombros dos pais o peso de uma vida estéril, mas ainda recompensou-os pela fé, ao ser escolhida para, no futuro, ser a Mãe do Filho de Deus.

A princípio, apenas santa Ana era comemorada e, mesmo assim, em dias diferentes no Ocidente e no Oriente. Em 25 de julho pelos gregos e no dia seguinte pelos latinos. A partir de 1584, também são Joaquim passou a ser cultuado, no dia 20 de março. Só em 1913 a Igreja determinou que os avós de Jesus Cristo deviam ser celebrados juntos, no dia 26 de julho.

(Retirado do livro "Os Santos e os Beatos da Igreja do Ocidente e do Oriente", Paulinas Editora)

Fonte: Paulinas

Avó...

Ednar Andrade

Avó, nome mais doce que brigadeiro,
A segurança do abraço quente,
Do colo que aconchega,
Da certeza nos momentos de incerteza.
A conversa longa... Sem pressa;
Do olho no olho, sem julgar;
A compreensão do olhar aflito;
A estrada curta que leva ao infinito;
O beijo terno; A bronca...
O olhar severo;
A mão segura de quem já viveu;
O prato certo na hora da fome;
A cama feita, quando o cansaço consome;
A benção certa no amanhecer;
A saudade na ida
E a pergunta da demora;
O amor, quase perfeito,
Que carrega no peito
O menor gesto
De quem agora cresce...
A criança doce,
Viva nas lembranças;
A sobremesa da vida,
Alguém disse.
Avó, o cheiro vindo da cozinha;
O pratinho quente;
A compreensão;
O silêncio.
Ninguém nasce avó;
Aprende-se a ser.
Aquela que ensina os primeiros passos;
Ajuda a ler o que é quase traço;
Brinca, corre junto
E vai no compasso
Deste amor uno
Que dele precisa
Quem na vida crê.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Santo do dia: São Cristóvão



A devoção a São Cristóvão é uma das mais antigas e populares da Igreja, tanto do Oriente como do Ocidente. São centenas de igrejas dedicadas a ele em todos os países do mundo. Também não faltam irmandades, patronatos, conventos e instituições que tomaram o seu nome, para homenageá-lo. Ele consta da relação dos "14 santos auxiliadores" invocados para interceder pelo povo nos momentos de aflições e dificuldades. Assim, o vigor desta veneração percorreu os tempos com igual intensidade e alcançou os nossos dias da mesma maneira.

Entretanto são poucos os dados precisos sobre sua vida. Só se tem conhecimento comprovado de que Cristóvão era um homem alto e musculoso, extremamente forte. Alguns escritos antigos o descrevem como portador de "uma força hercúlea". Pregou na Lícia e foi martirizado, a mando do imperador Décio, no ano 250. Depois disso, as informações fazem parte da tradição oral cristã, propagada pela fé dos devotos ao longo dos tempos, e que a Igreja respeita.

Ela nos conta que seu nome era Réprobo e que nasceu na Palestina. Como um verdadeiro gigante Golias, não havia quem lhe fizesse frente em termos de força física. Assim, só podia ter a profissão que tinha: guerreiro. Aliás, era um guerreiro indomável e invencível. A sua simples presença era garantia de vitória para o exército do qual participasse.

Conta-se que, estando cansado de servir aos caprichos de um e outro rei, apenas porque fora contratado para lutar em seu favor, foi procurar o maior e mais poderoso de todos, para servir somente a este. Então, ele se decidiu colocar a serviço de satanás, pois não havia quem não se curvasse de medo ao ouvir seu nome.

Mas também se decepcionou. Notou que toda vez que seu chefe tinha de passar diante da cruz, mudava de caminho, evitando o encontro com o símbolo de Jesus. Abandonou o anjo do mal e passou, então, a procurar o Senhor. Um eremita o orientou a praticar a caridade para servir ao Todo Poderoso como desejava, então ele abandonou as armas imediatamente. Integrou-se a uma instituição de caridade e passou a ajudar os viajantes. De dia ou de noite, ficava às margens de um rio onde não havia pontes e onde várias pessoas se afogaram por causa da profundidade, transportando os viajantes de uma margem à outra.

Certo dia, fez o mesmo com um menino. Mas conforme atravessava o rio, a criança ia ficando mais pesada e só com muito custo e sofrimento ele conseguiu depositar com segurança o menino na outra margem. Então perguntou: "Como pode ser isso? Parece que carreguei o mundo nas costas". O menino respondeu: "Não carregou o mundo, mas sim seu Criador". Assim Jesus se revelou a ele e o convidou a ser seu apóstolo.

O gigante mudou seu nome para Cristóvão, que significa algo próximo de "carregador de Cristo", e passou a peregrinar levando a palavra de Cristo. Foi à Síria, onde sua figura espetacular e nada normal chamava a atenção e atraía quem o ouvisse. Ele, então, falava do cristianismo e convertia mais e mais pessoas. Por esse seu apostolado foi denunciado ao imperador Décio, que o mandou prender. Mas não foi nada fácil, não por causa de sua força física, mas pelo poder de sua pregação.

Os primeiros quarenta soldados que tentaram prendê-lo converteram-se e por isso foram todos martirizados. Depois, quando já estava no cárcere, mandaram duas mulheres, Nicete e Aquilina, à sua cela para testar suas virtudes. Elas também abandonaram o pecado e batizaram-se, sendo igualmente mortas. Foi quando o tirano, muito irado, mandou que ele fosse submetido a suplícios e, em seguida, o matassem. Cristóvão foi, então, flagelado, golpeado com flechas, jogado no fogo e por fim decapitado.

São Cristóvão é popularmente conhecido como o protetor dos viajantes, assim como dos motoristas e dos condutores.

Fonte: Paulinas

Santo do dia: São Tiago, maior

 

Hoje, 25 de julho, a Igreja celebra dois grandes santos, São Tiago e São Cristóvão. São Tiago Maior era filho de Zebedeu e irmão de São João, apóstolo. Foi testemunha de Jesus Cristo e segundo relatam os Evangelhos, esteve presente na maior parte dos milagres realizados por Jesus. Foi morto por Herodes, no ano 42o, foi o primeiro mártir cristão, e é também o padroeiro da Espanha. O famoso Caminho de Santiago de Compostela atrai milhares de turistas e devotos todos os anos.


Saiba mais sobre a história de São Tiago Maior:
Tiago nasceu doze anos antes de Cristo, viveu mais anos do que ele e passou para a eternidade junto a seu Mestre. Tiago, o Maior, nasceu na Galileia, filho de Zebedeu e Salomé, segundo as Sagradas Escrituras. Era, portanto, irmão de João Evangelista, os "Filhos do Trovão", como os chamara Jesus. É sempre citado como um dos três primeiros apóstolos, além de figurar entre os prediletos de Jesus, juntamente com Pedro e André. É chamado de "maior" por causa do apóstolo homônimo, Tiago, filho de Alfeu, conhecido como "menor".

Nas várias passagens bíblicas, podemos perceber que Jesus possuía apóstolos escolhidos para testemunharem acontecimentos especiais na vida do Redentor. Um era Tiago, o Maior, que constatamos ao seu lado na cura da sogra de Pedro, na ressurreição da filha de Jairo, na transfiguração do Senhor e na sua agonia no horto das Oliveiras.

Consta que, depois da ressurreição de Cristo, Tiago rumou para a Espanha, percorrendo-a de norte a sul, fazendo sua evangelização, sendo por isso declarado seu padroeiro. Mais tarde, voltou a Jerusalém, onde converteu centenas de pessoas, até mesmo dois mágicos que causavam confusão entre o povo com suas artes diabólicas. Até que um dia lhe prepararam uma cilada, fazendo explodir um motim como se fosse ele o culpado. Assim, foi preso e acusado de causar sublevação entre o povo. A pena para esse crime era a morte.

O juiz foi o cruel rei Herodes Antipas, um terrível e incansável perseguidor dos cristãos. Ele lhe impôs logo a pena máxima, ordenando que fosse flagelado e depois decapitado. A sentença foi executada durante as festas pascais no ano 42. Assim, Tiago, o Maior, tornou-se o primeiro dos apóstolos a derramar seu sangue pela fé em Jesus Cristo.
No século VIII, quando a Palestina caiu em poder dos muçulmanos, um grupo de espanhóis trouxe o esquife onde repousavam os restos de são Tiago, o Maior, à cidade espanhola de Iria. Segundo uma antiga tradição da cidade, no século IX, o bispo de lá teria visto uma grande estrela iluminando um campo, onde foi encontrado o túmulo contendo o esquife do apóstolo padroeiro. E a Espanha, que nesta ocasião lutava contra a invasão dos bárbaros muçulmanos, conseguiu vencê-los e expulsá-los com a sua ajuda invisível.

Mais tarde, naquele local, o rei Afonso II mandou construir uma igreja e um mosteiro, dedicados a são Tiago, o Maior, com isso a cidade de Iria passou a chamar-se Santiago de Compostela, ou seja, do campo da estrela. Desde aquele tempo até hoje, o santuário de Santiago de Compostela é um dos mais procurados pelos peregrinos do mundo inteiro, que fazem o trajeto a pé.

A rota, conhecida como "caminho de Santiago de Compostela", foi feita também pelo papa João Paulo II em 1989. Acompanhado por milhares de jovens do mundo inteiro, foi venerar as relíquias do apóstolo são Tiago, o Maior, depositadas na magnífica catedral das seis naves, concluída em 1122.

(Retirado do livro "Os Santos e os Beatos da Igreja do Ocidente e do Oriente", Paulinas Editora)

Fonte: Paulinas

Das Homilias sobre Mateus, de São João Crisóstomo, bispo

Participantes da paixão de Cristo

Os filhos de Zebedeu pedem a Cristo: Deixa-nos sentar um à tua direita e outro, à tua esquerda (Mc 10,37). Que resposta lhes dá o Senhor? Para mostrar que no seu pedido nada havia de espiritual, e se soubessem o que pediam não teriam ousado fazê-lo, diz: Não sabeis o que estais pedindo (Mt 20,22), isto é, não sabeis como é grande, admirável e superior aos próprios poderes celestes aquilo que pedis. Depois acrescenta: Por acaso podeis beber o cálice que eu vou beber? (Mt 20,22). É como se lhes dissesse: “Vós me falais de honras e de coroas; eu, porém, de combates e de suores. Não é este o tempo das recompensas, nem é agora que minha glória há de se manifestar. Mas a vida presente é de morte violenta, de guerra e de perigos”.

Reparai como o Senhor os atrai e exorta, pelo modo de interrogar. Não perguntou: “Podeis suportar os suplícios? podeis derramar vosso sangue? Mas indagou: Por acaso podeis beber o cálice? E para os estimular, ainda acrescentou: que eu vou beber? Assim falava para que, em união com ele, se tornassem mais decididos. Chama sua paixão de batismo, para dar a entender que os sofrimentos haviam de trazer uma grande purificação para o mundo inteiro. Então os dois discípulos lhe disseram: Podemos (Mt 20,22). Prometem imediatamente, cheios de fervor, sem perceber o alcance do que dizem, mas com a esperança de obter o que pediam.

Que afirma o Senhor? De fato, vós bebereis do meu cálice (Mt 20,23), e sereis batizados com o batismo com que eu devo ser batizado (Mc 10,39). Grandes são os bens que lhes anuncia, a saber: “Sereis dignos de receber o martírio e sofrereis comigo; terminareis a vida com morte violenta e assim participareis da minha paixão”. Mas não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou à minha esquerda. Meu Pai é quem dará esses lugares àqueles para os quais ele os preparou (Mt 20,23). Somente depois de lhes ter levantado os ânimos e de tê-los tornado capazes de superar a tristeza é que corrigiu o pedido que fizeram.

Então os outros dez discípulos ficaram irritados contra os dois irmãos (Mt 20,24). Vedes como todos eles eram imperfeitos, tanto os que tentavam ficar acima dos outros, como os dez que tinham inveja dos dois? Mas, como já tive ocasião de dizer, observai- os mais tarde e vereis como estão livres de todos esses sentimentos. Prestai atenção como o mesmo apóstolo João, que se adianta agora por este motivo, cederá sempre o primeiro lugar a Pedro, quer para usar da palavra,quer para fazer milagres, conforme se lê nos Atos dos Apóstolos. Tiago, porém, não viveu muito mais tempo. Desde o princípio, pondo de parte toda aspiração humana, elevou-se a tão grande santidade que bem depressa recebeu a coroa do martírio.

(Liturgia das Horas)

sexta-feira, 22 de julho de 2016

17º domingo do Tempo Comum


1ª Leitura: Gn 18,20-32
Sl 137
2ª Leitura: Cl 2,12-14
Evangelho: Lc 11, 1-13

1 Um dia, Jesus estava rezando em certo lugar. Quando terminou, um dos discípulos pediu: «Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou os discípulos dele.» 2 Jesus respondeu: «Quando vocês rezarem, digam: Pai, santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino. 3 Dá-nos a cada dia o pão de amanhã, 4 e perdoa-nos os nossos pecados, pois nós também perdoamos a todos aqueles que nos devem; e não nos deixes cair em tentação.» 5 Jesus acrescentou: «Se alguém de vocês tivesse um amigo, e fosse procurá-lo à meia-noite, dizendo: ‘Amigo, me empreste três pães, 6 porque um amigo meu chegou de viagem, e não tenho nada para oferecer a ele’. 7 Será que lá de dentro o outro responderia: ‘Não me amole! Já tranquei a porta, meus filhos e eu já nos deitamos; não posso me levantar para lhe dar os pães?’ 8 Eu declaro a vocês: mesmo que o outro não se levante para dar os pães porque é um amigo seu, vai levantar-se ao menos por causa da amolação, e dar tudo aquilo que o amigo necessita. 9 Portanto, eu lhes digo: peçam, e lhes será dado! Procurem, e encontrarão! Batam, e abrirão a porta para vocês! 10 Pois, todo aquele de que pede, recebe; quem procura, acha; e a quem bate, a porta será aberta. 11 Será que alguém de vocês que é pai, se o filho lhe pede um peixe, em lugar do peixe lhe dá uma cobra? 12 Ou ainda: se pede um ovo, será que vai lhe dar um escorpião? 13 Se vocês, que são maus, sabem dar coisas boas aos filhos, quanto mais o Pai do céu! Ele dará o Espírito Santo àqueles que o pedirem.»

Deus colocou a história em nossas mãos – Pe. João Batista Libânio, sj

As leituras de hoje são mais difíceis do que parecem. Na primeira, quando chega ao número dez, Deus desaparece e, como sabemos na história bíblica, Sodoma e Gomorra foram destruídas. Mas precisamos aprofundar o verdadeiro sentido dessa história. Sabemos que os livros antigos, inclusive a Bíblia, nasceram de tradições populares, como as que ouvíamos quando crianças. Não era diferente em Israel. Assim, o hagiógrafo, inspirado por Deus, toma essas histórias e, com elas, tenta nos passar algum ensinamento. Mas a história não se transforma em verdade, continua história. É claro que Abraão não ficou discutindo com Deus. É uma passagem difícil para entendermos, mas eu acho que ela significa muito para nós, que estamos aqui nesta igreja.

Muitas vezes, nós somos intermediários entre as pessoas. Nas famílias, sempre há pessoas mais velhas, sensatas, que procuram se reconciliar umas com as outras. O que a escritura quer dizer é que, no fundo, todos nós temos um pouquinho dessa vocação de Abraão, de interceder por pessoas que andam desviadas. Haverá alguém que se voltar para Deus e tenta achar alguma qualidade que atenue as culpas alheias, alguma circunstância que justifique ou até diminua a gravidade de seus atos? Será que esses criminosos não merecem um pouco de nossa misericórdia, ao invés de continuarem a ser vilipendiados pela imprensa e pela opinião pública? Era isso que Abraão queria. Sodoma é isso que está aparecendo nos noticiários. O que está faltando são os abraões para procurar alguma forma de chegar a esses fatos e averiguar a verdade. Por aí é que vai a intercessão de Abraão. Ele sabia que aconteciam coisas horríveis naquelas cidades e não negava isso. Não se trata de justificar um crime – isso nenhuma ética permite –, mas um olhar diferente pode salvar alguém. Precisamos acreditar nesse Abraão que existe dentro de cada um de nós e irmos ao encontro dessas pessoas carentes, mesmo que criminosas. Nenhuma delas é menos que nós, pois todos somos frutos do dom do amor de Deus e do amor que recebemos – a menos ou a mais – de nossos pais.

O evangelho é mais difícil ainda, e tantas vezes foi mal entendido, porque mal pregado. Muitos pregadores aproveitam para interpretar essa passagem ao pé da letra, incutindo na cabeça das pessoas a ideia de que dobramos a Deus com a insistência de nossa oração. É quase como se pudéssemos fazer uma barganha com Ele. Que tristeza! Deus não se deixa manipular por ninguém. Que ideia triste pensar que insistir com Ele nos levará a ganhar alguma coisa. Esse é um engodo do tamanho do próprio Deus. Imaginamos Deus como um reles comerciante, e isso é muito pouco para Ele. A Bíblia diz que Ele descansou no sétimo dia após a criação do mundo. Isso quer dizer que nos entregou o mundo. Somos nós que iremos ajudar os enfermos. São nossas mãos que cuidarão de quem necessitar. Se elas não trabalharem ou trabalharem mal, o doente não se recupera. Deus nunca suprirá nossas mãos, como também não suprirá nossos estudos, nossas responsabilidades. Ele não é tapa-buraco de ninguém nem de nada. Ele nos entregou a história e o mundo. Somos nós os responsáveis! Acreditar que Ele nos ouve significa que, em qualquer situação em que estejamos, no sucesso ou no fracasso, nos momentos de alegria ou de tristeza, podemos ter certeza de que Ele estará lá, para se alegrar conosco em nossas alegrias, chorar conosco em nossas tristezas, nos fortalecer em nossas fraquezas, nos guiar no caminho certo. Ele sempre estará ao nosso lado. É importante que tenhamos essa certeza, pois haverá momentos escuros em que tudo desaparecerá aos nossos olhos, até mesmo o próprio Deus. Mas, justamente para essas horas, Ele diz que nos dá o Espírito Santo. Todos nós já o temos, e nem precisamos pedir nada. Se o fazemos, é para acordar o que já existe. Nós lhe pedimos coisas, mas o que Ele nos dá é o infinito. A comparação que eu faço é da criança que, mesmo tendo a mãe ao seu lado, quando o medo aparece no escuro do seu quarto, ela precisa gritar por ela.

Ela já estava lá, mas só o grito fez com que a criança percebesse isso. Deus é o único capaz de estar sempre ao nosso lado, pois até uma mãe precisa sair, não pode estar todo o tempo ao lado do filho. Podemos gritar por Deus, e é bom que o façamos, para receber a resposta de que Ele já estava presente. Quando pensamos que Ele está longe, e precisamos que cure alguém, devemos nos lembrar de que Ele está na doença, na morte, na dor, na festa, na demissão. 

É esta certeza que Ele quer nos passar: no desemprego ou na admissão, na presença ou na ausência de qualquer ser que amamos, Ele estará ao nosso lado. É o único que pode fazer isso, porque é infinito e nenhum de nós consegue retê-lo ou ocupá-lo totalmente. Ele é como a água que nos escapa, não para ir embora, mas para permanecer. Gosto de repetir uma poesia de um místico islâmico, que diz que Deus veio visitá-lo. Ele chegou, mas logo foi embora. O poeta pede, Ele volta e se esquece de ir embora. Deus veio a cada um de nós, e se esqueceu de ir embora. Amém. 


Confira a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM para este 17º domingo do Tempo Comum:


Palavra da Hora - Critérios da Espiritualidade


Santo do dia: Santa Maria Madalena


Hoje a Igreja celebra a memória de Santa Maria Madalena. Na cultura popular costumamos nos referir à santa como símbolo de arrependimento. Quem nunca ouviu a expressão "cara de Maria Madalena arrependida"?

É justamente assim que os artistas retrataram Maria Madalena ao longo dos séculos. A feição é, em geral, de uma penitente. É comum encontrarmos em sua representação jóias, que significam a vida de luxúria que ela deixou para trás, também a caveira, que representa a morte, e a cruz, símbolo máximo da união a Jesus Cristo. Segundo a tradição, Maria Madalena foi a primeira testemunha da ressurreição de Jesus e uma das grandes seguidoras de Jesus.

Saiba mais sobre a história de Maria Madalena que celebramos nesta sexta-feira:

Magdala — aldeia situada na margem ocidental do lago de Genesaré, na Galileia — é a terra natal de Maria, denominada propriamente de Madalena, que se distingue totalmente da outra Maria, a de Betânia, irmã de Lázaro e Marta.

Maria Madalena é a fiel discípula que segue o mestre da Galileia à Judeia junto com muitas outras mulheres, que entregavam seus haveres a Jesus e aos apóstolos. É ainda ela quem está ao lado de Maria, a Mãe de Jesus, junto à cruz, compartilhando as dores da crucificação e a morte do Filho. É também quem permanece em vigília amorosa na madrugada do primeiro dia e é a primeira a correr ao sepulcro.

Aquela que, em seu ardente amor, foi premiada pelo Ressuscitado, que se fez conhecer pronunciando-lhe apenas o nome, com se faz com quem é familiar: "Maria!". É a ela que o Salvador confia o grande anúncio da ressurreição: "Vai a meus irmãos e dize-lhes que Subo a meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus".

Esta é a Madalena que a Igreja hoje comemora, com presença obrigatória no calendário geral. Anteriormente, a liturgia ocidental — influenciada pelos escritos de são Gregório Magno e pela identidade de nome — confundira numa só pessoa Maria de Betânia e Maria de Magdala. Tal identificação fora sempre recusada pela tradição da igreja oriental e pelos escritos dos padres gregos. Com ambos está concorde agora o novo Calendário romano.

Constitui pura lenda a viagem e a estada de Madalena na Gália. Segundo uma antiga tradição grega, Maria Madalena teria ido viver em Éfeso junto à mãe de Jesus e ao apóstolo João.

(Retirado do livro "Os Santos e os Beatos da Igreja do Ocidente e do Oriente", Paulinas Editora)

Fonte: Paulinas

Das homilias de São Gregório Magno, Séc.VI

Maria Madalena, tendo ido ao sepulcro, não encontrou o corpo do Senhor. Julgando que fora roubado, foi avisar aos discípulos. Estes vieram também ao sepulcro, viram e acreditaram no que a mulher lhes dissera. Sobre eles está escrito logo em seguida: Os discípulos voltaram então para casa (Jo 20,10). E depois acrescenta-se: Entretanto, Maria estava do lado de fora do túmulo, chorando (Jo 20,11).

Este fato leva-nos a considerar quão forte era o amor que inflamava o espírito dessa mulher, que não se afastava do túmulo do Senhor, mesmo depois de os discípulos terem ido embora. Procurava a quem não encontrara, chorava enquanto buscava e, abrasada no fogo do seu amor, sentia a ardente saudade daquele que julgava ter sido roubado. Por isso, só ela o viu então, porque só ela o ficou procurando. Na verdade, a eficácia das boas obras está na perseverança, como afirma também a voz da Verdade: Quem perseverar até o fim, esse será salvo (Mt 10,22).

Ela começou a procurar e não encontrou nada; continuou a procurar, e conseguiu encontrar. Os desejos foram aumentando com a espera, e fizeram com que chegasse a encontrar. Pois os desejos santos crescem com a demora; mas se diminuem com o adiamento, não são desejos autênticos. Quem experimentou este amor ardente, pôde alcançar a verdade. Por isso afirmou Davi: Minha alma tem sede de Deus, e deseja o Deus vivo. Quando terei a alegria de ver a face de Deus? (Sl 41,3). Também a Igreja diz no Cântico dos Cânticos: Estou ferida de amor (Ct 5,8). E ainda: Minha alma desfalece (cf.Ct 5,6).

Mulher, por que choras? A quem procuras? (Jo 20,15). É interrogada sobre o motivo de sua dor, para que aumente o seu desejo e, mencionando o nome de quem procurava, se inflame ainda mais o seu amor por ele.

Então Jesus disse: Maria (Jo 20,16). Depois de tê-la tratado pelo nome comum de mulher sem que ela o tenha reconhecido, chama-a pelo próprio nome. Foi como se lhe dissesse abertamente: Reconhece aquele por quem és reconhecida. Não é entre outros, de maneira geral, que te conheço, mas especialmente a ti. Maria, chamada pelo próprio nome, reconhece quem lhe falou; e imediatamente exclama: Rabuni, que quer dizer Mestre (Jo 20,16). Era ele a quem Maria Madalena procurava exteriormente; entretanto, era ele que a impelia interiormente a procurá-lo.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

20 de julho - Dia do #amigo


Da Amizade -  Texto de Ricardo Fenati

A amizade entre os gregos sempre esteve em alta. Ora considerada como o maior dos bens, ora vista como condição indispensável a uma vida feliz, a amizade, mais do que uma experiência privada entre duas ou mais pessoas, pertencia a uma dimensão pública da vida. Nossa modernidade, que costuma tornar pública a esfera da intimidade, vem restringindo à dimensão privada atividades que sempre deram espessura à vida pública. Com a amizade se passa algo assim. Aristóteles - é com os gregos que a gente volta e meia esbarra – falava de três formas de amizade, uma calcada no interesse, outra no prazer e uma terceira, que, de fato, indicava a experiência mais efetiva da amizade. Assentada no compartilhamento de valores que ultrapassam a dimensão particular, a amizade assim entendida banha-se  no caldo de ideias capazes de dar rosto e feição à uma cultura e mesmo a uma civilização. A utilidade e o prazer, outros reguladores da amizade, mesmo quando legítimos, são prisioneiros da particularidade e/ou circunscritos ao momento. Não somos mais gregos, a história anda, mas não precisamos nos conformar ao empobrecimento contemporâneo da vida pública.

É hora de retomar bandeiras mais coletivas, capazes de induzir a pactos mais amplos, mesmo que não nos satisfaçam igualmente a todos. Precisamos povoar a cena pública de ideias e de debates, despreocupados de certezas e desinteressados de soluções apressadas. Assim, quem sabe, nossas conversas possam ir além da informação acerca do que acabamos de comprar e nossos sentimentos com relação a quem pensa diversamente não se precipitem no ódio. Assim, talvez, a amizade possa se tornar, com as marcas próprias do nosso tempo, uma experiência pública.

Para pensar:
“Na amizade nos ocupamos ao mesmo tempo da felicidade própria e alheia” (Kant)

Ricardo Fenati - Equipe do Centro Loyola

Tipos de espiritualidade


sábado, 16 de julho de 2016

Nossa Senhora do Carmo


A festa de Nossa Senhora do Carmo é relacionada à Ordem Carmelitana, cuja origem é bem antiga. Na Ordem Carmelitana tem-se a tradição, segundo a qual o profeta Elias, vendo aquela nuvenzinha, que se levantava no mar, bem como a pegada de homem, teria nela reconhecido no símbolo, a figura da futura Mãe do Salvador. Os discípulos de Elias, recordando aquela visão do mestre, teriam fundado uma Congregação, com sede no Monte Carmelita, com o fim declarado de prestar homenagens à Mãe do Mestre. Essa Congregação ter-se-ia conservado até os dias de Jesus Cristo e existido com o Título Servas de Maria.

Manifestação de Maria a São Simão Stock

Historicamente documentadas são as seguintes datas da Ordem de Nossa Senhora do Carmelo. Foi no século XII que o calabrez Bertoldo, com alguns companheiros, se estabeleceu no Monte Carmelo. Não se sabe se encontraram lá a Congregação dos Servos de Maria ou se fundaram uma deste nome; certo é que receberam em 1209 uma regra rigorosíssima, aprovada pelo Patriarca de Jerusalém - Alberto. Pelas cruzadas esta Congregação tornou-se conhecida também na Europa. Dois nobres fidalgos da Inglaterra convidaram alguns religiosos do Carmelo, para acompanhá-los e fundar conventos na Inglaterra, o que fizeram.

Pela mesma época vivia no condado de Kent um eremita que, há vinte anos, vivia em solidão, tendo por residência o tronco oco de uma árvore. O nome desse eremita era Simão Stock. Atraído pela vida mortificada dos carmelitas recém-chegados, como também pela devoção Mariana que aquela Ordem cultivava, pediu admissão como noviço na Ordem de Nossa Senhora do Carmo. Em 1225, Simão Stock foi eleito coadjutor Geral da Ordem, já então bastante conhecida e espalhada.

O papa Honório III aprovou a regra da Ordem. Simão Stock visitou os Irmãos da ordem no Monte Carmelo, e demorou-se com eles seis anos.
Um capítulo geral da Ordem, realizado em 1237, determinou a transferência para a Europa de quase todos os religiosos, os quais, para se verem livres das vexações dos Sarracenos, procuraram a Inglaterra, onde a Ordem possuía já 40 conventos.

No ano de 1245, foi Simão Stock eleito Superior Geral da Ordem e a regra teve aprovação do Papa Inocêncio IV.

A Ordem de Nossa Senhora do Carmo, colocada sob a proteção da Santa Sé, começou a ter, então, uma aceitação extraordinária no mundo católico. Para isto concorreu poderosamente a Irmandade do Escapulário, que deve a fundação a Simão Stock.

Em 16 de julho de 1251, estando em oração fervorosa, Nossa Senhora lhe apareceu. Veio trazer-lhe um escapulário. "Meu dileto filho - disse-lhe a Rainha do céu - eis o escapulário, que será o distintivo de minha Ordem. Aceita-o como um penhor de privilégio, que alcancei para ti e para todos os membros da Ordem do Carmo. Aquele que morrer vestido deste escapulário, estará livre do fogo do inferno".

Simão Stock tratou então de divulgar a irmandade do escapulário e convidar o mundo católico a participar dos grandes privilégios anexos. Entre os devotos do escapulário de Nossa Senhora do Carmo, vêem-se Papas, Cardeais e Bispos. O Escapulário teve uma aceitação favorável e universal entre o povo católico. Neste sentido, só é comparável ao Rosário.

Oração a Nossa Senhora do Carmo

Ó bendita e imaculada Virgem Maria, honra e esplendor do Carmelo! Vós que olhais com especial bondade para quem traz o vosso bendito escapulário, olhai para mim benignamente e cobri-me com o manto da vossa maternal proteção. Fortificai minha fraqueza com o vosso poder, iluminai as trevas do meu espírito com a vossa sabedoria, aumentai em mim a fé, a esperança e a caridade. Ornai minha alma com a graça e as virtudes que a tornem agradável ao vosso divino Filho. Assisti-me durante a vida, consolai-me na hora da morte com a vossa amável presença e apresentai-me à Santíssima Trindade como vosso filho e servo dedicado; e lá do céu, eu quero louvar-vos e bendizer-vos por toda a eternidade.
Amém!

Fonte: Paulinas

sexta-feira, 15 de julho de 2016

16º domingo do Tempo Comum


1ª Leitura - Gn 18,1-10a
Salmo - Sl 14,2-3a.3cd-4ab.5 (R. 1a)
2ª Leitura - Cl 1,24-28
Evangelho - Lc 10,38-42

Naquele tempo:
Jesus entrou num povoado,
e certa mulher, de nome Marta, recebeu-o em sua casa.
Sua irmã, chamada Maria, sentou-se aos pés do Senhor,
e escutava a sua palavra.
Marta, porém, estava ocupada com muitos afazeres.
Ela aproximou-se e disse:
'Senhor, não te importas que minha irmã
me deixe sozinha, com todo o serviço?
Manda que ela me venha ajudar!'
O Senhor, porém, lhe respondeu:
'Marta, Marta! Tu te preocupas
e andas agitada por muitas coisas.
Porém, uma só coisa é necessária.
Maria escolheu a melhor parte
e esta não lhe será tirada.'
Palavra da Salvação.

O amor não deixa o outro partir – Pe. João Batista Libânio

A liturgia de hoje casou duas leituras muito bonitas que tratam de temas comuns: a convivialidade, a visita, a capacidade judaica da acolhida, a importância que eles dão à refeição, de se estar junto, convivendo.

A primeira leitura é de um simbolismo muito grande. O texto anuncia que algo misterioso aconteceria, e Deus logo aparece. Moisés respeita a grande tradição da Igreja cristã, dos santos padres e dos pintores que aparecem num ícone muito famoso, que circula pelo mundo inteiro. Há três anjos fazendo menção a esses três homens que Abraão encontra e que simbolizam a Trindade. Já naquele tempo, ele anunciava que haveria um só Deus. Naquela época, acreditava-se numa grande quantidade de deuses, mas o Deus de Abraão era melhor, mais forte, verdadeiro. Claro que nunca passaria pela sua cabeça que aqueles três homens eram a Trindade, isso já é uma leitura nossa, mas o texto mostra vários sinais que renunciavam esse encontro. Abraão prostra-se diante daqueles três homens em sinal de veneração, de respeito. É um sinal de que o homem, criatura, se prostra diante da imensa transcendência, simbolizada por três homens desconhecidos. É claro que ele percebeu alguma coisa misteriosa nessa cena.

Um segundo detalhe que nos chama a atenção é o exagero na preparação daquela refeição. Imaginem que três pessoas desconhecidas batam à sua porta. Vocês não saem apressados para irem ao sacolão. Ninguém faz isso nos dias de hoje para receber três desconhecidos. O texto é cheio de pormenores bonitos: a mulher que vai preparar o melhor da farinha, o melhor cabrito, a coalhada do leite mais gostoso. Ela escolhe o melhor, porque para Deus sempre devemos escolher o melhor. Mesmo que, muitas vezes, nos esqueçamos disso, para Deus devemos sempre dar o melhor que temos e do que somos. Ele quer colher em nós o que temos de mais profundo. Não está interessado em nossos pecados, mas no nosso amor, no nosso arrependimento, na nossa bondade. Abraão já intuía isso. Acolhendo aqueles três desconhecidos, está acolhendo a Trindade, para nos dizer que qualquer pessoa que for acolhida nas nossas casas estará representando a Trindade.

A leitura segue ainda mais bonita. Sabemos que Sara era velha e não poderia ter filhos. Um dos anjos, que podemos imaginar que seja Deus Pai, antes de ir embora, disse duas frases seriíssimas: “Voltarei!”. Deus sempre volta. Ele vai, e, quando parecer que está longe, lembremos desta palavra: voltarei. É como num jogo de esconde-esconde que fazemos com as crianças: nos pega no colo, nos debatemos, saímos dele, mas Ele não nos deixa. Não por querer nos prender ou nos querer mal, mas porque nos ama. O amor não deixa o outro partir, quer sempre a sua presença. Deus nos busca com os olhos, pergunta por que estamos longe dele, por que nos perdemos, pois Ele perde também. Se temos saudade de Deus, Ele tem saudade de nós, sofre com a nossa falta. Ele queria ter a todos nós, queria que tivéssemos olhos faiscantes de beleza para Ele, que sempre deixa um sinal de beleza por onde passa. O último sinal que deixa é a segunda frase: “no ano que vem, quando eu voltar, Sara já terá uma criança no ventre”. Isso quer dizer que Sara terá vida. Onde há vida, Deus está lá. Para o judeu, não ter filho era uma tristeza enorme, e toda essa cena quer dizer que aonde Deus chega, chega a vida.

Uma pequena palavrinha sobre o evangelho. A interpretação mais tradicional, que aparece à primeira vista, é que Marta e Maria são duas pessoas que agem de modo diferente, e eu diria que não é isso. Para mim, Jesus é Marta e também Maria. São duas facetas de Jesus. Querem alguém com uma vida mais agitada que Jesus? Em muitas passagens, o evangelho diz claramente que Ele não tinha tempo para comer, tal era a sua atividade. Vivia rodeado de gente, a ponto de, em certas ocasiões, terem de descer um doente pelo telhado, por não conseguirem chegar à porta de onde estava. Levava uma vida azafamada, e aí era Marta, na dedicação, na entrega, no trabalho. Mas também era Maria, quando na azáfama da vida, era capaz de perceber a profundidade do amor e da presença. Era Maria na oração silenciosa da noite, na dimensão profunda que tinha na própria ação. Era Marta, quando trabalhava e também era Maria, porque era profundo em suas reflexões. Maria é o símbolo da profundidade, é o oposto desses programas de domingo. Ela mergulhava no mistério do coração humano, na essência do amor, da luta, do trabalho. Não se contenta, bebe a palavra, o pensar, a reflexão. Somos Maria, quando somos capazes de ir além do que os sentidos percebem. Vemos as crianças brincando como Marta, mas quando olhamos e percebemos o mistério da vida que pulula, que salta delas, temos o olhar de Maria. Se tivermos o olhar de Maria, nenhuma realidade humana irá nos escandalizar ou nos chocar. Nossos olhares estarão sempre repletos de beleza, porque, em qualquer situação, saberemos ir mais fundo do que a superfície do que acontece.

Somos educados numa cultura cada vez mais superficial, por causa da midiática, da internet, desses programas de auditório que só nos mostram superficialidade. Somos Maria, quando conseguimos descer um grau que seja além do que nos foi mostrado. As televisões, os jornais, o rádio, contam todos os detalhes das tragédias. Se consigo perceber a dor das pessoas, aí eu sou Maria. Não conseguimos encontrar as grandes alegrias na superfície da terra. Precisamos cavar muito, pois, do contrário, continuaremos a viver banalmente, sorvendo as palavrinhas cotidianas, sem nunca perceber os mistérios maiores que povoam cada coração. Ser Maria é ter o olhar muito mais profundo. Ser Marta é atualizar esse olhar na prática. Amém.

Pe. João Batista Libânio, sj – Um outro olhar, vol. 8

Confira a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM para este 16º domingo do Tempo Comum: