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quarta-feira, 29 de junho de 2016

Sem débitos e sem créditos - Rubem Alves


Na noite seguinte a mocinha não estava presente. Seu filhinho nascera e toda a aldeia estava exultante de alegria. Mas mesmo assim a tenda do Mestre Benjamin se encheu.

“Mestre Benjamin”, disse um menino. “Queremos ouvir estórias que o Senhor das Estórias contou!”

Mestre Benjamin parou e pensou por onde começar.

“Deus nunca foi visto por ninguém. Por acaso a gente vê os próprios olhos? Quem vê os próprios olhos é cego. Para ver com os olhos é preciso não ver os olhos... Deus é como os olhos. Não podemos vê-lo para ver através dele. Deus é um jeito de ver.

Mas uns homens tolos, querendo ver Deus, fizeram um deus com pedaços deles mesmos. E assim inventaram um deus à sua imagem e semelhança. E como muitos homens têm corações maus eles inventaram um deus parecido com eles mesmos, um deus mau que provoca medo. Disseram até que esse Deus tem uma câmara de torturas chamada inferno onde tranca seus desafetos por toda eternidade...

Essa parábola o Senhor das Estórias contou para que os homens parassem de pensar tolices sobre Deus. A estória é assim:

Era uma vez um pai tinha dois filhos. Um deles, o mais velho, era o filho que todo pai gostaria de ter: trabalhador, responsável, cumpridor dos deveres. O mais jovem era o filho que nenhum pai gostaria de ter: malando, gastador, irresponsável. Cansado da monotonia da vida na casa de seu pai pediu a parte da herança que lhe pertencia e se mandou para o mundo, caindo na farra, gastando tudo. O dinheiro acabou, a fome chegou. Teve de trabalhar para comer.

O único emprego que arranjou foi o de guardador de porcos. Aí se lembrou da casa paterna e ficou com saudades. E pensou que lá os empregados passavam melhor do que ele. Imaginou que o seu pai bem que podia contratá-lo como um dos seus empregados, já que não merecia voltar como filho. Voltou. O pai o viu de longe. Saiu correndo ao seu encontro e o abraçou. Antes que o pai falasse qualquer coisa ele disse:

— Pai, peguei dinheiro adiantado e gastei tudo. Eu sou devedor. Tu és credor. Mas o pai lhe respondeu:

— Meu filho, eu não somo débitos... Ato contínuo ordenou uma grande festa com música e churrasco. O irmão mais velho estava no campo, trabalhando. Ao voltar para a casa ouviu a música, viu o rebuliço. Como estava todo sujo não quis entrar. Chamou um dos empregados e perguntou:

— O que é que está acontecendo? O empregado respondeu:

— O teu irmão voltou. A festa é por causa dele!

Ele ficou muito bravo e se recusou a entrar. O pai foi ao seu encontro e foi isso que seu filho lhe disse:

— Pai, trabalhei duro, nunca recebi meus salários, não recebi minhas férias e jamais me deste um cabrito para alegrar-me com os meus amigos. O pai sorriu e lhe disse:

— Meu filho, eu não somo créditos...”

Mestre Benjamin se calou. “Explique-me essa estória. Acho que não entendi”, disse um homem.
Mestre Benjamin respondeu: “Há pessoas que pensam que Deus se parece com um banqueiro que tem um livro de contabilidade onde registra os débitos e os créditos dos homens para acertos futuros. Os débitos, chamados pecados, serão punidos. E os créditos, chamados virtudes, serão recompensados. Mas Deus não se parece com os banqueiros. Ele não tem um livro de contabilidade. Deus não tem memória: nem pune pecados e nem recompensa virtudes. É como um regato de águas cristalinas. Não importa que joguemos nele os nossos detritos. Ele continua a jorrar águas cristalinas...”

(Paráfrase. Lucas 15.11).

Rubem Alves, Correio Popular, 2014.