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sexta-feira, 3 de junho de 2016

10º domingo do Tempo Comum

5_jun_evangelho-01


































1Rs 17, 17-24
Sl 29 (30)
Gl 1, 11-19
Lc 7, 11-17


Deus visitou o seu povo

11 Em seguida, Jesus foi para uma cidade chamada Naim. Com ele iam os discípulos e uma grande multidão. 12 Quando chegou à porta da cidade, eis que levavam um defunto para enterrar; era filho único, e sua mãe era viúva. Grande multidão da cidade ia com ela. 13 Ao vê-la, o Senhor teve compaixão dela, e lhe disse: «Não chore!» 14 Depois se aproximou, tocou no caixão, e os que o carregavam pararam. Então Jesus disse: «Jovem, eu lhe ordeno, levante-se!» 15 O morto sentou-se, e começou a falar. E Jesus o entregou à sua mãe. 16 Todos ficaram com muito medo, e glorificavam a Deus, dizendo: «Um grande profeta apareceu entre nós, e Deus veio visitar o seu povo.» 17 E a notícia do fato se espalhou pela Judéia inteira, e por toda a redondeza.

Compaixão é colocar-se ao lado – Pe. João Batista Libânio, sj

Quando lia o evangelho, chamei a atenção para vários pormenores, para que os nossos ouvidos sejam mais profundos ao ouvirem a palavra de Deus. Lucas não quer simplesmente relatar um fato passado que já não tem importância. Esse menino já morreu, assim como a sua mãe. Eles já não existem, ao contrário de nós aqui. É para nós que o Senhor quer falar hoje. 

Lucas coloca Jesus em movimento: dirigiu-se, vieram as pessoas, a multidão caminhava, vai ao encontro. É que Deus está sempre em movimento. Até Aristóteles, um filósofo grego que não entendia nada do Deus bíblico, usou uma expressão que foi traduzida em latim: motor immobilis – o primeiro motor imóvel, por ninguém movido e que Santo Tomás chama de primeiro movente. 

A vida humana é um encontro entre dois fluxos: um da vida e outro da morte. São experiências que vivemos no cotidiano. Há três dias, uma psicóloga estava preparando uma festa e foi ao florista. Encontra-se com uma amiga que foi ao mesmo lugar. Só que o rosto dela era diferente: era um rosto carregado. Ela também iria comprar flores, só que para colocar no caixão de seu pai. As duas se encontram: é a história humana. É isso que Deus quer nos mostrar. Quantas vezes caminhamos saltitantes pela rua e, se olhamos à direita, encontramos não um agonizante físico, mas um agonizante espiritual?!

Lucas faz com que uma multidão carregue a vida eterna: os discípulos e Jesus, e outra carregue a morte: é o enterro. Vida e morte são a nossa experiência de cada dia. É claro que não é preciso ser morto de cemitério. Há tanto morto-vivo caminhando pelas ruas, pessoas que já morreram e nem se deram conta. São pessoas vazias que perambulam como máquinas, como robôs ou manequins.

Jesus nos chama para seguir com o grupo que caminha com a vida. Em primeiro lugar, a vida física. As pessoas precisam comer, alimentar-se. Não podemos aceitar que haja fome neste país. Cabe a nós fazer o milagre da partilha. Somos também doentes na alma e no coração. Perguntem aos farmacêuticos sobre a quantidade imensa de antidepressivos que eles vendem. É a mercadoria mais vendida nos Estados Unidos. Estamos muito longe de aprender a trabalhar essa doença. Dizia ontem que um professor da Universidade Federal, em Belo Horizonte, um grande filósofo, está organizando um curso de pós-graduação para médicos, para que eles aprendam a perceber que os doentes não Têm apenas doenças no corpo, mas no coração e no espírito. O ser humano é aberto ao transcendente e, quando estamos doentes, adoecemos na totalidade. Somos frágeis espiritual e fisicamente. Para comprovar isso de maneira tão simples e cotidiana, fui visitar uma irmã, internada no CTI. Converso com ela e saio, quando algumas enfermeiras comentam que eu era padre. Um dos doentes se volta e me chama, pedindo ajuda. Disse-lhe que não era médico e não poderia lhe dar nenhum remédio para curar-lhe o corpo. Mas ele queria outro tipo de remédio – estava doente do espírito. Precisava que alguém lhe falasse da transcendência. Estava todo cheio de tubos, com todos aqueles aparelhos apitando – para a doença do corpo tinha recursos, médicos e enfermeiros competentes. Mas queria alguém que lhe falasse para além daquele corpo enfermo, pois estava doente também do espírito, uma doença que poucos conseguem curar. E todos nós podemos fazer isso, não apenas nós, padres, mas qualquer ser humano. É a nossa vocação cristã sermos médicos do espírito, da alma. Que os médicos do corpo sejam três vezes médicos. Não adianta cuidar apenas do corpo, colocar um soro, um aparelho para controlar batimentos cardíacos, se por dentro a pessoa geme e sofre o vazio. O silêncio, o vazio, a solidão, são muito maiores que o mal orgânico. 

Quando Jesus encontra essa mulher, Ele a cura nos três níveis. No primeiro – devolver a vida –, não podemos fazer nada, mas Ele faz. E continua dizendo para a mulher: “não chore!”. Ele fala ao seu coração. Toca a parte espiritual, sensível, afetiva, a sua parte materna. Mostra a ela que a vida é mais bonita que suas lágrimas. Jesus se aproxima, e aí aparece a palavra que eu gostaria de trabalhar hoje com vocês: Ele teve compaixão!

Compaixão não é dó, que a gente sente por uma pessoa triste. Dó dá ideia de que eu estou bem e a pessoa está mal. É muito pouco! Compaixão é cum passio. É preciso que eu desça, pois do contrário não posso ter compaixão, que me coloca no mesmo nível de quem sofre. Cum é junto a, junto de, é estar ao lado, pois só assim posso ter compaixão. É preciso se abaixar, encostar-se na pessoa para captar-lhe a dor e fazê-la minha dor. Paixão em português – não é preciso dicionário não – tem dois sentidos muito diferentes que cruzam a existência. 

Falamos em paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo significando sofrimento, dor, cruz. Mas também os jovens adolescentes sabem que coisa é paixão: é aquele surto de amor que explode por dentro. A ligação semântica, o motivo que faz essas palavras se cruzarem é que, quando me encosto no sofrimento do outro, brota em mim uma energia espiritual de amor e de presença a esse outro, que me torna capaz de arrancá-lo de baixo, elevá-lo e devolver-lhe a vida. Abaixamo-nos para, junto com quem sofre, levantarmos. Não podemos devolver a vida física a ninguém, mas temos a fé para devolver a vida espiritual.

Podemos devolver a vida a infinitas pessoas, se tivermos compaixão por elas, nos aproximando, nos encostando, ouvindo as suas dores. O ouvido é o grande sentido do amor. Olhar e ouvir são as grandes manifestações do amor. Amém.

Pe. João Batista Libânio, sj - Um outro olhar, vol. 8

Confira a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM: