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quinta-feira, 30 de junho de 2016

Falar de misericórdia é diferente de vivê-la, afirma Papa


Cidade do Vaticano – Esta quinta-feira (30/06) foi dia de Audiência Jubilar no Vaticano. Na Praça São Pedro, cerca de 15 mil fiéis ouviram o Papa Francisco falar das obras de misericórdia.

“É importante jamais esquecer que a misericórdia não é uma palavra abstrata, mas um estilo de vida. Eu posso ou não ser misericordioso. Uma coisa é falar de misericórdia, outra coisa é vivê-la”, disse.
O Pontífice citou o Apóstolo Tiago, que diz que a misericórdia sem as obras está morta em seu isolamento. “É exatamente assim”, frisou Francisco: “O que torna viva a misericórdia é o seu dinamismo constante de ir ao encontro de quem precisa e das necessidades de quem se encontra em dificuldade espiritual e material. A misericórdia tem olhos para ver, ouvidos para escutar e mãos para ajudar”.

Servir para viver

De modo especial, o Pontífice falou da importância do perceber o estado de sofrimento dos outros. Às vezes, afirmou, passamos diante de situações dramáticas de pobreza e parece que estas não nos tocam; tudo continua como se nada fosse, numa indiferença que, ao final, nos torna hipócritas e, sem perceber, acaba numa forma de letargia espiritual em que o ânimo se torna insensível e a vida, estéril.

“Tem gente que passa toda a vida sem nunca perceber as necessidades dos outros”, lamentou. Pessoas que passam sem viver, que não servem os outros. Lembrem-se bem: quem não vive para servir, não serve para viver".

“Quem experimentou na própria vida a misericórdia do Pai não pode permanecer insensível diante das necessidades dos irmãos”, completou Francisco, que citou as obras que estão contidas no Evangelho de Mateus: assistir que tem fome, sede, quem está nu, refugiado, doente e na prisão. “As obras não são temas teóricos, mas testemunhos concretos. Obrigam a arregaçar as mangas para aliviar o sofrimento".

Essencial

Com o multiplicar-se da pobreza material e espiritual, o Papa Francisco pede uma caridade criativa para identificar novas formas de ajudar quem precisa. “Portanto, pede-se a nós que permaneçamos vigilantes como sentinelas para que, diante das pobrezas produzidas pela cultura do bem-estar, o olhar do cristão não se enfraqueça e se torne incapaz de ver o essencial.”

Ver o essencial, explicou, significa “olhar Jesus no faminto, na prisioneiro, no doente, no nu, em quem não tem trabalho e deve levar avante uma família. Olhar Jesus em quem está triste, só, em quem erra, em quem precisa de conselho, caminhar em silêncio com quem precisa de companhia – estas são as obras que Jesus pede a nós. Olhar Jesus nestas pessoas. Por quê? Porque Jesus nos olha assim”.

Tratou-se da última Audiência Jubilar deste período de verão europeu. Ao saudar os peregrinos alemães, o Pontífice recordou que neste período de férias e repouso seria importante também cuidar das relações humanas e viver a misericórdia. Já aos poloneses, pede orações para si e para os jovens que em todo o mundo estão se preparando para o iminente encontro em Cracóvia para a Jornada Mundial da Juventude, no final de julho.

As Audiências Jubilares serão retomadas em 10 de setembro.

Viagem Apostólica

O Papa Francisco recordou também sua recente viagem apostólica, realizada entre os dias 24 e 26 de junho, na Armênia. Ele lembrou que daqui a três meses irá à Geórgia e ao Azerbaijão, outros dois países situados no Cáucaso, região de fronteira entre a Europa e a Ásia.

“Acolhi o convite de visitar estes países por dois motivos: de um lado, valorizar as antigas raízes cristãs presentes naquelas terras, sempre com o espírito de diálogo com as outras religiões e culturas, e de outro, incentivar esperanças e caminhos de paz. A história nos ensina que o caminho da paz requer grande tenacidade e passos contínuos, começando pelos pequenos e devagar fazendo-os crescer, indo um ao encontro do outro. Por isso, o meu desejo é de que todos e cada um deem a sua contribuição para a paz e a reconciliação.”

O Papa destacou ainda que “como cristãos somos chamados a reforçar entre nós a comunhão fraterna a fim de testemunhar o Evangelho de Cristo e ser fermento de uma sociedade mais justa e solidária”.

“Por isso”, disse ainda Francisco, “toda a visita foi partilhada com o Supremo Patriarca da Igreja Apostólica Armênia que me hospedou fraternalmente por três dias em sua casa”.

O Papa renovou o seu abraço aos bispos, sacerdotes, religiosas e religiosos e a todos os fiéis da Armênia. “Que a Virgem Maria, nossa Mãe, os ajude a permanecer firmes na fé, abertos ao encontro e generosos nas obras de misericórdia”, concluiu o Pontífice.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Sem débitos e sem créditos - Rubem Alves


Na noite seguinte a mocinha não estava presente. Seu filhinho nascera e toda a aldeia estava exultante de alegria. Mas mesmo assim a tenda do Mestre Benjamin se encheu.

“Mestre Benjamin”, disse um menino. “Queremos ouvir estórias que o Senhor das Estórias contou!”

Mestre Benjamin parou e pensou por onde começar.

“Deus nunca foi visto por ninguém. Por acaso a gente vê os próprios olhos? Quem vê os próprios olhos é cego. Para ver com os olhos é preciso não ver os olhos... Deus é como os olhos. Não podemos vê-lo para ver através dele. Deus é um jeito de ver.

Mas uns homens tolos, querendo ver Deus, fizeram um deus com pedaços deles mesmos. E assim inventaram um deus à sua imagem e semelhança. E como muitos homens têm corações maus eles inventaram um deus parecido com eles mesmos, um deus mau que provoca medo. Disseram até que esse Deus tem uma câmara de torturas chamada inferno onde tranca seus desafetos por toda eternidade...

Essa parábola o Senhor das Estórias contou para que os homens parassem de pensar tolices sobre Deus. A estória é assim:

Era uma vez um pai tinha dois filhos. Um deles, o mais velho, era o filho que todo pai gostaria de ter: trabalhador, responsável, cumpridor dos deveres. O mais jovem era o filho que nenhum pai gostaria de ter: malando, gastador, irresponsável. Cansado da monotonia da vida na casa de seu pai pediu a parte da herança que lhe pertencia e se mandou para o mundo, caindo na farra, gastando tudo. O dinheiro acabou, a fome chegou. Teve de trabalhar para comer.

O único emprego que arranjou foi o de guardador de porcos. Aí se lembrou da casa paterna e ficou com saudades. E pensou que lá os empregados passavam melhor do que ele. Imaginou que o seu pai bem que podia contratá-lo como um dos seus empregados, já que não merecia voltar como filho. Voltou. O pai o viu de longe. Saiu correndo ao seu encontro e o abraçou. Antes que o pai falasse qualquer coisa ele disse:

— Pai, peguei dinheiro adiantado e gastei tudo. Eu sou devedor. Tu és credor. Mas o pai lhe respondeu:

— Meu filho, eu não somo débitos... Ato contínuo ordenou uma grande festa com música e churrasco. O irmão mais velho estava no campo, trabalhando. Ao voltar para a casa ouviu a música, viu o rebuliço. Como estava todo sujo não quis entrar. Chamou um dos empregados e perguntou:

— O que é que está acontecendo? O empregado respondeu:

— O teu irmão voltou. A festa é por causa dele!

Ele ficou muito bravo e se recusou a entrar. O pai foi ao seu encontro e foi isso que seu filho lhe disse:

— Pai, trabalhei duro, nunca recebi meus salários, não recebi minhas férias e jamais me deste um cabrito para alegrar-me com os meus amigos. O pai sorriu e lhe disse:

— Meu filho, eu não somo créditos...”

Mestre Benjamin se calou. “Explique-me essa estória. Acho que não entendi”, disse um homem.
Mestre Benjamin respondeu: “Há pessoas que pensam que Deus se parece com um banqueiro que tem um livro de contabilidade onde registra os débitos e os créditos dos homens para acertos futuros. Os débitos, chamados pecados, serão punidos. E os créditos, chamados virtudes, serão recompensados. Mas Deus não se parece com os banqueiros. Ele não tem um livro de contabilidade. Deus não tem memória: nem pune pecados e nem recompensa virtudes. É como um regato de águas cristalinas. Não importa que joguemos nele os nossos detritos. Ele continua a jorrar águas cristalinas...”

(Paráfrase. Lucas 15.11).

Rubem Alves, Correio Popular, 2014.

Papa Francisco: oração é o caminho dos cristãos


Cidade do Vaticano – O Papa presidiu na manhã desta quarta-feira (29/06), à Missa da Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo – padroeiros de Roma.

Como é tradição nesta celebração, o Pontífice abençoou os pálios dos novos arcebispos metropolitanos – dentre eles, quatro brasileiros – que serão impostos pelos Núncios Apostólicos nas respectivas arquidioceses.

Na homilia o Papa Francisco destacou a importância da oração na vida do discípulo, o modo como a oração encorajou o testemunho de São Pedro e São Paulo. O Papa ressaltou que a oração desinstala o cristão e rompe as barreiras do medo e promove a unidade.

Confira na íntegra a homilia do Papa Francisco:

Nesta liturgia, a Palavra de Deus contém um binômio central: fechamento/abertura. E, relacionado com esta imagem, está também o símbolo das chaves, que Jesus promete a Simão Pedro para que ele possa, sem dúvida, abrir às pessoas a entrada no Reino dos Céus, e não fechá-la como faziam alguns escribas e fariseus hipócritas que Jesus censura (cf. Mt 23, 13).

A leitura dos Atos dos Apóstolos (12, 1-11) apresenta-nos três fechamentos: o de Pedro na prisão; o da comunidade reunida em oração; e – no contexto próximo da nossa perícope – o da casa de Maria, mãe de João chamado Marcos, a cuja porta foi bater Pedro depois de ter sido libertado.

E vemos que a principal via de saída dos fechamentos é a oração: via de saída para a comunidade, que corre o risco de se fechar em si mesma por causa da perseguição e do medo; via de saída para Pedro que, já no início da missão que o Senhor lhe confiara, é lançado na prisão por Herodes e corre o risco de ser condenado à morte. E enquanto Pedro estava na prisão, «a Igreja orava a Deus, instantemente, por ele» (At 12, 5). E o Senhor responde à oração com o envio do seu anjo para o libertar, «arrancando-o das mãos de Herodes» (cf. v. 11). A oração, como humilde entrega a Deus e à sua santa vontade, é sempre a via de saída dos nossos fechamentos pessoais e comunitários. É a grande via de saída dos fechamentos.

O próprio Paulo, ao escrever a Timóteo, fala da sua experiência de libertação, de saída do perigo de ser ele também condenado à morte; mas o Senhor esteve ao seu lado e deu-lhe força para poder levar a bom termo a sua obra de evangelização dos gentios (cf. 2 Tm 4, 17). Entretanto Paulo fala duma «abertura» muito maior, para um horizonte infinitamente mais amplo: o da vida eterna, que o espera depois de ter concluído a «corrida» terrena. Assim é belo ver a vida do Apóstolo toda «em saída» por causa do Evangelho: toda projetada para a frente, primeiro, para levar Cristo àqueles que não O conhecem e, depois, para se lançar, por assim dizer, nos seus braços e ser levado por Ele «a salvo para o seu Reino celeste» (v. 18).


Mas voltemos a Pedro... A narração evangélica (Mt 16, 13-19) da sua confissão de fé e consequente missão a ele confiada por Jesus mostra-nos que a vida do pescador galileu Simão – como a vida de cada um de nós – se abre, desabrocha plenamente quando acolhe, de Deus Pai, a graça da fé. E Simão põe-se a caminhar – um caminho longo e duro – que o levará a sair de si mesmo, das suas seguranças humanas, sobretudo do seu orgulho misturado com uma certa coragem e altruísmo generoso. Decisiva neste seu percurso de libertação é a oração de Jesus: «Eu roguei por ti [Simão], para que a tua fé não desapareça» (Lc 22, 32). E igualmente decisivo é o olhar cheio de compaixão do Senhor depois que Pedro O negou três vezes: um olhar que toca o coração e liberta as lágrimas do arrependimento (cf. Lc 22, 61-62). Então Simão Pedro foi liberto da prisão do seu eu orgulhoso, do seu eu medroso, e superou a tentação de se fechar à chamada de Jesus para O seguir no caminho da cruz.

Como já aludi, no contexto próximo da passagem lida dos Atos dos Apóstolos, há um detalhe que pode fazer-nos bem considerar (cf. 12, 12-17). Quando Pedro, miraculosamente liberto, se vê fora da prisão de Herodes, vai ter à casa da mãe de João chamado Marcos. Bate à porta e, de dentro, vem atender uma empregada chamada Rode, que, tendo reconhecido a voz de Pedro, em vez de abrir a porta, incrédula e conjuntamente cheia de alegria corre a informar a patroa. A narração, que pode parecer cômica – e pode ter dado início ao chamado «complexo de Rode» –, deixa intuir o clima de medo em que estava a comunidade cristã, fechada em casa e fechada também às surpresas de Deus. Pedro bate à porta. – «Vai ver quem é!» Há alegria, há medo… «Abrimos ou não?» Entretanto ele corre perigo, porque a polícia pode prendê-lo. Mas o medo paralisa-nos, sempre nos paralisa; fecha-nos, fecha-nos às surpresas de Deus. Este detalhe fala-nos duma tentação que sempre existe na Igreja: a tentação de fechar-se em si mesma, à vista dos perigos. Mas mesmo aqui há uma brecha por onde pode passar a ação de Deus: Lucas diz que, naquela casa, «numerosos fiéis estavam reunidos a orar» (v. 12). A oração permite que a graça abra uma via de saída: do fechamento à abertura, do medo à coragem, da tristeza à alegria. E podemos acrescentar: da divisão à unidade. Sim, digamo-lo hoje com confiança, juntamente com os nossos irmãos da Delegação enviada pelo amado Patriarca Ecumênico Bartolomeu para participar na festa dos Santos Padroeiros de Roma. Uma festa de comunhão para toda a Igreja, como põe em evidência também a presença dos Arcebispos Metropolitas que vieram para a bênção dos Pálios, que lhes serão impostos pelos meus Representantes nas respetivas Sedes.

Os Santos Pedro e Paulo intercedam por nós para podermos realizar com alegria este caminho, experimentar a ação libertadora de Deus e a todos dar testemunho dela.

Fotos: L'Osservatore Romano

Santo do dia: São Pedro e São Paulo


A liturgia comemora São Pedro e São Paulo, os dois grandes Apóstolos da primeira comunidade cristã, como mestres e confessores da fé. Esta solenidade é uma das mais antigas da Igreja, sendo anterior até mesmo à comemoração do Natal. Já no século IV havia a tradição de, neste dia, celebrar três missas: a primeira na basílica de São Pedro, no Vaticano; a segunda na basílica de São Paulo Fora dos Muros e a terceira nas catacumbas de São Sebastião, onde as relíquias dos apóstolos ficaram escondidas para fugir da profanação nos tempos difíceis.

E mais: depois da Virgem Santíssima e de são João Batista, Pedro e Paulo são os santos que têm mais datas comemorativas no ano litúrgico. Além do tradicional 29 de junho, há: 25 de janeiro, quando celebramos a conversão de São Paulo; 22 de fevereiro, quando temos a festa da cátedra de São Pedro; e 18 de novembro, reservado à dedicação das basílicas de São Pedro e São Paulo.

O Papa Bento XVI apresenta Pedro e Paulo como “fundamentos da Igreja”: “Os dois Santos padroeiros de Roma, mesmo tendo recebido de Deus carismas e missões diferentes, são ambos fundamentos da Igreja una, santa, católica e apostólica, permanentemente aperta à dinâmica missionária e ecumênica”.

Antigamente, julgava-se que o martírio dos dois apóstolos tinha ocorrido no mesmo dia e ano e que seria a data que hoje comemoramos. Porém o martírio de ambos deve ter ocorrido em ocasiões diferentes, com são Pedro, crucificado de cabeça para baixo, na colina Vaticana e são Paulo, decapitado, nas chamadas Três Fontes. Mas não há certeza quanto ao dia, nem quanto ao ano desses martírios.

A morte de Pedro poderia ter ocorrido em 64, ano em que milhares de cristãos foram sacrificados após o incêndio de Roma, enquanto a de Paulo, no ano 67. Mas com certeza o martírio deles aconteceu em Roma, durante a perseguição de Nero.

Há outras raízes ainda envolvendo a data. A festa seria a cristianização de um culto pagão a Remo e Rômulo, os mitológicos fundadores pagãos de Roma. São Pedro e são Paulo não fundaram a cidade, mas são considerados os “Pais de Roma”. Embora não tenham sido os primeiros a pregar na capital do império, com seu sangue “fundaram” a Roma cristã. Os dois são considerados os pilares que sustentam a Igreja tanto por sua fé e pregação como pelo ardor e zelo missionários, sendo glorificados com a coroa do martírio, no final, como testemunhas do Mestre.
São Pedro é o apóstolo que Jesus Cristo escolheu e investiu da dignidade de ser o primeiro papa da Igreja. A ele Jesus disse: “Tu és Pedro e sobre esta pedra fundarei a minha Igreja”. São Pedro é o pastor do rebanho santo, é na sua pessoa e nos seus sucessores que temos o sinal visível da unidade e da comunhão na fé e na caridade.

São Paulo, que foi arrebatado para o colégio apostólico de Jesus Cristo na estrada de Damasco, como o instrumento eleito para levar o seu nome diante dos povos, é o maior missionário de todos os tempos, o advogado dos pagãos, o “Apóstolo dos Gentios”.
São Pedro e São Paulo, juntos, fizeram ressoar a mensagem do Evangelho no mundo inteiro e o farão para todo o sempre, porque assim quer o Mestre.

Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo - Estes mártires viram o que pregaram

O martírio dos santos apóstolos Pedro e Paulo consagrou para nós este dia. Não falamos de mártires desconhecidos. Sua voz ressoa e se espalha em toda a terra, chega aos confins do mundo a sua palavra (Sl 18,5). Estes mártires viram o que pregaram, seguiram a justiça, proclamaram a verdade, morreram pela verdade.

São Pedro, o primeiro dos apóstolos, que amava Cristo ardentemente, mereceu escutar: Por isso eu te digo que tu és Pedro (Mt 16,19). Antes, ele havia dito: Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo (Mt 16,16). E Cristo retorquiu: Por isso eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra construirei minha Igreja (Mt 16,18). Sobre esta pedra construirei a fé que haverás de proclamar. Sobre a afirmação que fizeste: Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo, construirei a minha Igreja. Porque tu és Pedro. Pedro vem de pedra; não é pedra que vem de Pedro. Pedro vem de pedra, como cristão vem de Cristo.

Como sabeis, o Senhor Jesus, antes de sua paixão, escolheu alguns discípulos, aos quais deu o nome de apóstolos. Dentre estes, somente Pedro mereceu representar em toda parte a personalidade da Igreja inteira. Porque sozinho representava a Igreja inteira, mereceu ouvir estas palavras: Eu te darei as chaves do Reino dos Céus (Mt 16,19). Na verdade, quem recebeu estas chaves não foi um único homem, mas a Igreja una. Assim manifesta-se a superioridade de Pedro, que representava a universalidade e a unidade da Igreja, quando lhe foi dito: Eu te darei. A ele era atribuído pessoalmente o que a todos foi dado. Com efeito, para que saibais que a Igreja recebeu as chaves do Reino dos Céus, ouvi o que, em outra passagem, o Senhor diz a todos os seus apóstolos: Recebei o Espírito Santo. E em seguida: A quem perdoardes os pecados, eles serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos (Jo 20,22-23).

No mesmo sentido, também depois da ressurreição, o Senhor entregou a Pedro a responsabilidade de apascentar suas ovelhas. Não que dentre os outros discípulos só ele merecesse pastorear as ovelhas do Senhor; mas quando Cristo fala a um só, quer, deste modo, insistir na unidade da Igreja. E dirigiu-se a Pedro, de preferência aos outros, porque, entre os apóstolos, Pedro é o primeiro.

Não fiques triste, ó apóstolo! Responde uma vez, responde uma segunda, responde uma terceira vez. Vença por três vezes a tua profissão de amor, já que por três vezes o temor venceu a tua presunção. Desliga por três vezes o que por três vezes ligaste. Desliga por amor o que ligaste por temor. E assim, o Senhor confiou suas ovelhas a Pedro, uma, duas e três vezes.

Num só dia celebramos o martírio dos dois apóstolos. Na realidade, os dois eram como um só. Embora tenham sido martirizados em dias diferentes, deram o mesmo testemunho. Pedro foi à frente; Paulo o seguiu. Celebramos o dia festivo consagrado para nós pelo sangue dos apóstolos. Amemos a fé, a vida, os trabalhos, os sofrimentos, os testemunhos e as pregações destes dois apóstolos.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Neste domingo em SP: Exposição sobre Madre Teresa de Calcutá


São Paulo (SP) -  No próximo domingo, dia 3 de julho, acontece a abertura da Exposição Madre Teresa: vida e obras. A missa de abertura será às 10h30, seguida da bênção às 11h30.

A exposição é organizada pela Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, e quer levar o visitante a refletir e conhecer melhor a vida e as obras da mais nova santa da Igreja Católica. A canonização de Madre Teresa acontecerá no dia 4 de setembro deste ano, no Vaticano.

O visitante poderá ver objetos pessoais de Madre Teresa, documentos, fotografias, o sari (roupa típica indiana adotada por ela), uma réplica do seu quarto em Calcutá e uma imagem em tamanho natural.

A exposição ficará aberta diariamente até o dia 31 de julho e tem entrada gratuita. Os curadores da exposição são: Sueli e Rafael Herrera.

Exposição Madre Teresa: vida e obras
De terça a sábado das 9h às 17h;
Domingo das 8h às 12h;
Entrada Gratuita

Santuário e Convento São Francisco
Largo São Francisco, 133, Sé, São Paulo, SP
CEP: 01009-972
(11) 3291-2400
www.conventosaofrancisco.com.br

Papa emérito Bento VXI celebra 65 anos de ordenação sacerdotal


Cidade do Vaticano  - O Papa Francisco conduziu nesta terça-feira (28/06), na Sala Clementina do Vaticano, a celebração solene de comemoração dos 65 anos de Ordenação sacerdotal do Papa emérito Bento XVI.

“Hoje, festejamos a história de um chamado iniciado há 65 anos com a sua ordenação sacerdotal ocorrida na Catedral de Frisinga em 29 de junho de 1951”, disse Francisco a Bento XVI.

“Em uma das mais belas páginas que o senhor dedica ao sacerdócio, sublinha como, na hora do chamado definitivo de Simão, Jesus, olhando para ele, no fundo pergunta-lhe somente uma coisa: ‘Me amas?’. Como é bonito e verdadeiro isto! Porque é aqui, o senhor nos diz, é neste "me amas" que o Senhor funda o apascentar, porque somente se existe amor pelo Senhor Ele pode apascentar por meio de nós”, frisou ainda o Pontífice.

“É esta a nota que domina uma vida inteira dedicada ao serviço sacerdotal e à teologia que o senhor não por acaso definiu como a ‘busca do amado’; é isto que o senhor sempre testemunhou e testemunha ainda hoje: que a coisa decisiva nos nossos dias - de sol ou de chuva - a única com a qual vem também todo o resto, é que o Senhor esteja realmente presente, que o desejemos, que interiormente sejamos próximos a ele, que o amemos, que realmente acreditemos profundamente nele e acreditando o amemos verdadeiramente. É este amar que realmente nos preenche o coração, este acreditar é aquilo que nos faz caminhar seguros e tranquilos sobre as águas, mesmo em meio à tempestade, precisamente como acontece a Pedro; este amar e este acreditar é o que nos permite de olhar ao futuro não com medo ou nostalgia, mas com alegria, também nos anos já avançados de nossa vida.”

Testemunho

“E assim, precisamente vivendo e testemunhando hoje em modo tão intenso e luminoso esta única coisa realmente decisiva - tendo o olhar e o coração voltado a Deus - o senhor, Santidade, continua servindo a Igreja, não deixa de contribuir realmente com o vigor e a sabedoria para o crescimento dela”, disse Francisco que acrescentou:
“E o faz daquele pequeno Mosteiro Mater Ecclesiae no Vaticano, que se revela desta forma ser bem outra coisa do que um daqueles cantinhos esquecidos nos quais a cultura do descarte de hoje tende a relegar as pessoas quando, com a idade, as suas forças começam a faltar. É bem ao contrário; e isto permite que o diga com força o seu Sucessor que escolheu chamar-se Francisco!".

"Porque o caminho espiritual de São Francisco iniciou em São Damião, mas o verdadeiro lugar amado, o coração pulsante da ordem, lá onde o fundou e onde no final rendeu sua vida a Deus foi a Porciúncula, a 'pequena porção', o cantinho junto à Mãe da Igreja; junto a Maria que, pela sua fé tão firme e pelo seu viver tão inteiramente do amor e no amor com o Senhor, todas as gerações chamarão bem-aventurada. Assim, a Providência quis que o senhor, caro irmão, chegasse a um lugar por assim dizer propriamente 'franciscano' do qual emana uma tranquilidade, uma paz, uma força, uma confiança, uma maturidade, uma fé, uma dedicação e uma fidelidade que me fazem tão bem e dão força para mim e para toda a Igreja".

Palavras de Bento XVI

E o Papa Francisco concluiu: “Que o senhor, Santidade, possa continuar sentido a mão do Deus misericordioso que o sustenta, que possa experimentar e nos testemunhar o amor de Deus; que, com Pedro e Paulo, possa continuar exultando de alegria enquanto caminha rumo à meta da fé.”

A seguir, o Papa emérito Bento XVI, em um breve discurso improvisado de agradecimento, recordou que sua vida sacerdotal foi marcada desde o início pela palavra grega "Eucharistomen" e suas tantas dimensões.

“Ao final, queremos nos incluir neste obrigado do Senhor e, assim, receber realmente a novidade da vida e ajudar a transubstanciação do mundo, que seja um mundo não de morte, mas de vida – um mundo no qual o amor venceu a morte.”


segunda-feira, 27 de junho de 2016

Declaração Conjunta: papel das religiões na construção da paz



Na parte da tarde deste domingo (26/06), o Papa se despediu da Residência do Catholicos, local de sua permanência nestes dias em Etchmiadzin. Estavam presentes também cerca de 100 pessoas, entre Delegados e Benfeitores da Igreja Armênia Apostólica.

Antes de se despedir dos presentes, o Papa Francisco e o Catholicos Karekin II assinaram uma mensagem conjunta, sobre a qual destacamos:

“Hoje, nós, o Papa Francisco e o Catholicos de Todos os Armênios Karekin II, elevamos as nossas mentes e corações em ação de graças ao Todo-Poderoso pela progressiva e crescente proximidade na fé e no amor entre a Igreja Apostólica Armênia e a Igreja Católica, no seu testemunho comum da mensagem do Evangelho em um mundo dilacerado por conflitos e desejoso de conforto e esperança”.

“É grande o prazer espiritual de relembrar que, em 2001, por ocasião dos 1700 anos da proclamação do cristianismo como religião da Armênia, São João Paulo II visitou o país como testemunha de uma nova página nas relações calorosas e fraternas entre a Igreja Armênia Apostólica e a Igreja Católica”.

Roma

“Estamos gratos por termos estado juntos em uma solene liturgia na Basílica de São Pedro em Roma, no dia 12 de abril de 2015, quando nos empenhamos a combater toda forma de discriminação e violência. Na ocasião, recordamos as vítimas do “extermínio de um milhão e meio de cristãos armênios naquele primeiro genocídio do século XX”.

“Imploramos aos líderes das nações que ouçam o apelo de milhões de seres humanos, que anseiam pela paz e a justiça no mundo, que pedem respeito pelos seus direitos, que têm necessidade urgente de pão, não de armas. Infelizmente, somos testemunhas de uma visão fundamentalista da religião e dos valores religiosos, usada para justificar a difusão do ódio, discriminação e violência”.

Paz

“Por sermos cristãos, somos chamados a buscar caminhos para a reconciliação e a paz. A propósito, expressamos a nossa esperança de uma resolução pacífica das questões sobre o Nagorno-Karabakh.

“Estamos convencidos da importância crucial de avançar nas mútuas relações, para compartilhar a comunhão plena e as expressões concretas de unidade. Exortamos, pois, os nossos fiéis a trabalhar pela promoção dos valores cristãos, afim de que contribuam para a construção de uma civilização de justiça, paz e solidariedade humana”.


sexta-feira, 24 de junho de 2016

13º domingo do Tempo Comum


1ª Leitura: 1Rs 19,16b.19-21
Sl 15
2ª Leitura: Gl 5,1.13-18
Evangelho: Lc 9,51-62

51 Estava chegando o tempo de Jesus ser levado para o céu. Então ele tomou a firme decisão de partir para Jerusalém, 52 e enviou mensageiros à sua frente. Estes puseram-se a caminho, e entraram num povoado de samaritanos, para conseguir alojamento para Jesus. 53 Mas, os samaritanos não o receberam, porque Jesus dava a impressão de quem se dirigia para Jerusalém. 54 Vendo isso, os discípulos Tiago e João disseram: «Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para acabar com eles?» 55 Jesus porém, voltou-se e os repreendeu. 56 E partiram para outro povoado.

57 Enquanto iam andando, alguém no caminho disse a Jesus: «Eu te seguirei para onde quer que fores.» 58 Mas Jesus lhe respondeu: «As raposas têm tocas e os pássaros têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça.» 59 Jesus disse a outro: «Siga-me.» Esse respondeu: «Deixa primeiro que eu vá sepultar meu pai.» 60 Jesus respondeu: «Deixe que os mortos sepultem seus próprios mortos; mas você, vá anunciar o Reino de Deus.» 61 Outro ainda lhe disse: «Eu te seguirei, Senhor, mas deixa primeiro que eu vá me despedir do pessoal de minha casa.» 62 Mas Jesus lhe respondeu: «Quem põe a mão no arado e olha para trás, não serve para o Reino de Deus.»

Bíblia Sagrada - Edição Pastoral

A paciência infinita do amor – Pe. João Batista Libânio, sj

A liturgia hoje fez uma composição de três textos: um do Antigo Testamento, uma carta de Paulo e o evangelho, para que compreendêssemos melhor quem é Jesus. Precisamos entender melhor a inteligência que permeia esta liturgia, que retrocedeu até Elias, passando por Jesus, até chegar a Paulo. Que poderá ter em comum três situações e pessoas tão distantes? Paulo sequer conheceu Jesus, mas a liturgia une os três, para que aprendamos quem é Jesus. Como Ele está no meio, será a luz para entendermos a relação. 

Inicialmente, Elias passa e chama o discípulo. O mesmo acontece com Jesus, só que Elias ao chamar, jogava o manto. Ambos chamam, mas enquanto Eliseu pede licença para despedir-se dos pais, e Elias permite, Jesus nega a quem pediu a mesma coisa. Será que Ele é tão violento, que sequer permite que nos despeçamos de nossa família? Claro que não é isso, pois Jesus era muito mais profundo. A questão não é despedir ou não. O que Ele espera de nós é uma profunda liberdade interior. Paulo captou bem a mensagem e, posteriormente, irá falar que livres eram os que viviam segundo o Espírito, isto é, os quem tinham a capacidade de sair de si mesmo e se dispor para os outros. Para Paulo, carne significa o egoísta, aquele que só pensa em si, nos pequenos projetinhos. O Espírito é infinito, se expande, enquanto a carne se fecha. É esse jogo que Paulo percebe nessa chamada diferente de Jesus.

Recordo agora um outro texto que lemos recentemente, para buscar outro pormenor. Elias disputa com os sacerdotes de Baal, pede o fogo do céu para consumir o sacrifício e degola todos eles. Jesus não é recebido pelos samaritanos, os apóstolos querem o fogo do céu, mas Jesus nega. Eles não o entendiam. Se os samaritanos não o aceitavam naquele momento, Ele iria à outra cidade. Ele se dispõe para nós. Quantas vezes Ele passa ao nosso lado, nós lhe dizemos não, e nenhum raio cai sobre nossas cabeças?! Ele continuará esperando até o último suspiro. Jesus tem uma paciência infinita! João e Tiago querem o fogo, mas Ele não. Em outra passagem, Ele dirá que não trazia o espírito da vingança. Seu reino era diferente, era de liberdade, de acolhida, de compreensão. É assim que devemos ser: pessoas abertas e compreensivas, que têm o coração desprovido de rancor, de mágoa, de dor. Se não formos aceitos, voltaremos amanhã ou depois. É a paciência infinita do amor! A única realidade realmente capaz de esperar é o amor, a única pessoa que espera é aquela que ama. Saibam disso, namorados, noivos! Se realmente amam, serão capazes de esperar. Se não conseguem esperar, é porque não amam, apenas iludiram-se. Se existe em nós a verdadeira grandeza, somos capazes de esperar. É assim que uma mãe espera infinitamente um filho desgarrado por aí. Ela não mede sequer o crime cometido pelo filho, mas só mede o amor que espera
sempre. 

Jesus também é assim. Estejam certos de que Ele espera cada um de nós. Mesmo quando sairmos para nos perder, Ele continuará esperando por nós nas esquinas da existência. Só que Jesus é inteligente e não espera parado, manda mensagens através de pessoas, de  acontecimentos que nos tocam e mostram quem é Deus para nós. Precisamos descobrir o que Deus está nos falando através de tudo o que nos acontece. Não podemos continuar cegos, sem conseguir ver as belezas que Ele tece ao nosso lado. A cada dia, um novo fio corre por aí, formando um maravilhoso bordado que, muitas vezes, só vemos pelo avesso. Mas se virássemos o bordado, conseguiríamos ver as figuras belíssimas que Deus está tecendo para nos atrair e encantar. Deus canta em nosso coração, porque Ele sempre nos encanta. Amém. 

quinta-feira, 23 de junho de 2016

"Não ter medo de tocar o pobre e o excluído", pede Pontífice



Na Audiência Geral  desta quarta-feira, dia 22, na Praça de S. Pedro o Papa Francisco afirmou na sua catequese que tocar o pobre é tocar o corpo de Cristo. O Santo Padre sublinhou que tocar o pobre pode purificar da hipocrisia e tornar-nos inquietos pela sua condição.

Evangelho de S. Lucas, capítulo 5 – é deste endereço bíblico que Francisco parte para uma catequese plena de intensidade humana: um leproso dirige-se a Jesus e pede para ser purificado. Este homem vivia excluído – disse o Papa – mas não se resignava com a sua doença, nem com as normas sociais que faziam dele um excluído. Ele devia manter-se separado e longe de todos.

No entanto, este homem viola aquelas normas – observou o Santo Padre – entra na cidade e aproxima-se de Jesus. Na sua súplica, o leproso mostra-se certo de que Jesus tem poder para curá-lo; tudo depende da vontade d’Ele. “Senhor, se quiseres, podes purificar-me!” – esta é a súplica do leproso. Jesus toca-o e diz-lhe: “Quero, fica purificado!”

“A súplica do leproso mostra que quando nos apresentamos a Jesus não é necessário fazer longos discursos. Bastam poucas palavras, acompanhadas da plena confiança na sua onipotência e na sua bondade. Confiarmo-nos à vontade de Deus significa, com efeito, submetermo-nos à sua infinita misericórdia.”

Neste momento da catequese o Papa Francisco cometeu uma pequena inconfidência e disse que, ele próprio, todas as noites, faz esta pequena oração: “Senhor se quiseres, podes purificar-me”, acompanhada por cinco Pai-Nossos por cada uma das chagas de Jesus.

Nesta passagem do Evangelho Jesus fica bastante impressionado com este leproso – assinalou o Santo Padre que referiu ainda que o texto de S. Marcos sublinha que Jesus “teve compaixão, estendeu-lhe a mão e tocou-o”. O gesto de Jesus vai contra as disposições da Lei de Moisés que proibia a aproximação aos leprosos. Mas o Senhor toca aquele leproso – disse Francisco que se interrogou se os cristãos, quando encontram um pobre e dão esmola, lhe tocam a mão:

“Quantas vezes encontramos um pobre que se aproxima de nós. Podemos até ser generosos, podemos até ter compaixão, mas habitualmente não o tocamos. Oferecemos-lhe a moeda, mas evitamos tocar-lhe a mão. E esquecemo-nos de que aquele é o corpo de Cristo! Jesus ensina-nos a não ter medo de tocar o pobre e o excluído, porque naquela pessoa está Ele próprio. Tocar o pobre pode purificar-nos da hipocrisia e tornar-nos inquietos pela sua condição.”

O Santo Padre referiu ainda na sua catequese o fato de junto de si nesta Audiência estarem refugiados africanos. “Muitos pensam que seria melhor que eles tivessem permanecido em suas terras... Mas ali eles estavam sofrendo. São os nossos refugiados, mas muitos os consideram excluídos. Por favor, eles são nossos irmãos!” – disse o Papa, ressaltando os valores do acolhimento e da inclusão.

Nas saudações aos fiéis presentes na Praça de S. Pedro, o Santo Padre dirigiu-se também aos peregrinos de língua portuguesa:

“Queridos amigos de língua portuguesa, que hoje tomais parte neste Encontro, obrigado pela vossa presença e sobretudo pelas vossas orações! A todos saúdo, especialmente aos membros da Comunidade brasileira Doce Mãe de Deus e ao grupo de Escuteiros de Leiria, encorajo-vos a apostar em ideais grandes de serviço, que engrandecem o coração e tornam fecundos os vossos talentos. Sobre vós e vossas famílias desça a Bênção do Senhor!”

O Papa Francisco a todos deu a sua bênção!

quarta-feira, 22 de junho de 2016

A árvore que floresce no Inverno - Rubem Alves

Crônica de Rubem Alves

Os sinais eram inequívocos. Aquelas nuvens baixas, escuras... O vento que soprava desde a véspera, arrancando das árvores folhas amarelas e vermelhas. Não queriam partir... É, estava chegando o Inverno. Deveria nevar. Viria então a tristeza, as árvores peladas, a vida recolhida para funduras mais quentes, os pássaros já ausentes, fugidos para outro clima, e aquele longo sono da natureza, bonito quando cai a primeira nevada, triste com o passar do tempo... Resolvi passear, para dizer adeus às plantas que se preparavam para dormir e fui, assim, andando, encontrando-as silenciosas e conformadas frente ao inevitável, o Inverno que se aproximava. 

Qualquer queixa seria inútil, e foi então que eu me espantei ao ver um arbusto estranho. Se fosse um ser humano certamente o internariam num hospício, pois lhe faltava o senso da realidade, não sabia reconhecer os sinais do tempo. Lá estava ele, ignorando tudo, cheio de botões, alguns deles já abrindo, como se a primavera estivesse chegando. Não resisti, e me aproveitando de que não houvesse ninguém por perto, comecei a conversar com ele, e lhe perguntei se não percebia que o inverno estava chegando, que os seus botões seriam queimados pela neve naquela mesma tarde. Argumentei sobre a inutilidade daquilo tudo, um gesto tão fraco que não faria diferença alguma. Dentro em breve tudo estaria morto... E ele me falou, naquela linguagem que só as plantas entendem, que o inverno de fora não lhe importava, o seu era um ritmo diferente, o ritmo das estações que havia dentro. Se era inverno do lado de fora, era Primavera lá dentro dele, e seus botões eram um testemunho da teimosia da vida que se compraz mesmo em fazer o gesto inútil. As razões para isto? Puro prazer.

Ah! Há tantas canções inúteis, fracas para entortar o cano das armas, para ressuscitar os mortos, para engravidar as virgens, mas não tem importância, elas continuam a ser cantadas pela alegria que contém... E há os gestos de amor, os nomes que se escrevem em troncos de árvores, preces silenciosas que ninguém escuta, corpos que se abraçam, árvores que se plantam para gerações futuras, lugares que ficam vazios, à espera do retorno, poemas inúteis que se escrevem para ouvidos que não podem mais ouvir — porque alguma coisa vai crescendo por dentro, um ritmo, uma esperança, um botão —, pela pura alegria, um gozo de amor. E me lembrei de um pôster que tenho no meu escritório, palavras de Alberto Camus: “No meio do Inverno eu finalmente aprendi que havia dentro de mim um verão invencível.” 

Agradeci àquele arbusto silencioso o seu gesto poético. Ah! Sim, quando os pássaros fugiam amedrontados eles levavam no seu vôo as marcas do Inverno que se aproximava. Quando as árvores pintavam suas folhas de amarelo e vermelho, como se fossem ipês ou flamboaiãs, era o seu último grito, um protesto contra o adeus, aquilo que de mais bonito tinham escondido lá dentro, para que todos chorassem quando elas lhes fossem arrancadas. Sim, eles sabiam o que os aguardava. E os seus gestos tinham aquele ar de tristeza inútil ante o inevitável. Mas aquele arbusto teimoso vivia em um outro mundo, num outro tempo. E, a despeito do inverno, ele saudava uma primavera que haveria de chegar e que naquele momento só existia como um desejo louco. As outras plantas, eu as encontrei como nós, realistas e precavidas, inteligentes e cuidadosas. Já o arbusto tinha aquele ar de criança sonhadora, uma pitada de loucura em cada botão, um poema em cada flor. As outras, se fossem gente, construiriam casas que as protegessem do frio. Já o meu arbusto faria liturgias que anunciam o retorno da vida. Porque liturgia é isso: florescer pela manhã mesmo se for nevar pela tarde.

E aí a alucinação teológica tomou conta da minha cabeça e me lembrei da canção do profeta Habac:

“Muito embora não haja flores na figueira, / e nem frutos se vejam nos ramos da videira; / nada se encontre nos galhos da oliveira / e nos campos não exista o que comer; / no aprisco não se vejam ovelhas / e nos currais não haja gado: / todavia eu me alegro..”.

Nos brotos do arbusto, as palavras do profeta: um gesto a despeito de tudo. Me lembrei então de uma velha tradição de Natal, ligada à árvore. As famílias levavam arbusto para dentro de suas casas. E ali, neve por todas as partes, eles as faziam florescer, regando-as com água aquecida. Para que não se esquecessem de que, em meio ao Inverno, a Primavera continuava escondida em alguma parte.

Quando as plantas florescem na Primavera, ali os homens escrevem os seus nomes.

Mas quando as plantas florescem no Inverno, ali se escreve o nome do Grande Mistério...”

Rubem Alves

Pena de morte fomenta a vingança, afirma Pontífice


Cidade do Vaticano (RV) - O Santo Padre enviou uma vídeo-mensagem ao VI Congresso mundial contra a pena de morte, em andamento em Oslo, na Noruega, cuja realização se dá desta terça até a próxima quinta-feira (23/06).

Após saudar os organizadores do Congresso, o grupo de países que apoiam a iniciativa, especialmente, a Noruega – país anfitrião –, representantes dos governos e organizações internacionais e a sociedade civil, o Papa expressa seu agradecimento pessoal, e também dos homens de boa vontade, pelo compromisso com um mundo livre da pena de morte.

Para Francisco, o desenvolvimento na opinião pública de uma crescente oposição à pena de morte, “é um sinal de esperança”.

Pena de morte é ofensa à dignidade da pessoa humana

Efetivamente, “hoje em dia a pena de morte é inadmissível, por quanto grave tenha sido o delito do condenado. É uma ofensa à inviolabilidade da vida e à dignidade da pessoa humana que contradiz o desígnio de Deus sobre o homem e a sociedade e sobre a justiça misericordiosa, e impede cumprir qualquer finalidade justa das penas”, afirma o Pontífice na vídeo-mensagem.

O Papa assevera que com a pena de morte “não se faz justiça às vítimas, mas se fomenta a vingança”. O mandamento “não matarás” tem valor absoluto tanto para os inocentes como para os culpados, acrescenta.

Direito inviolável à vida pertence também ao criminoso

O Santo Padre diz ainda que “o Jubileu da Misericórdia é uma ocasião propícia para promover no mundo formas cada vez mais maduras de respeito à vida e à dignidade de cada pessoa”. “Não se pode esquecer que o direito inviolável à vida, dom de Deus, pertence também ao criminoso”, observa.

Francisco aproveita a oportunidade para reiterar auspícios expressos em outras ocasiões. “Desejo hoje incentivar todos a trabalhar não somente pela abolição da pena de morte, bem como pelo melhoramento das condições de detenção, para que respeitem plenamente a dignidade humana das pessoas privadas de liberdade.”

Após enfatizar que “fazer justiça” não significa que se deve buscar a punição por si mesma, o Santo Padre recorda que as penas devem ter como finalidade fundamental a reeducação de quem praticou o delito.

Pena aberta à reinserção do culpado na sociedade

Ao expressar tal conceito, o Papa explicita que a questão deve ser enquadrada na ótica de uma justiça penal que seja aberta à esperança de reinserção do culpado na sociedade. “Não existe pena válida sem esperança! Uma pena fechada em si mesma, que não dá lugar à esperança, é uma tortura, não é uma pena”, pondera.

O Papa Francisco faz votos de que o Congresso possa dar um novo impulso ao compromisso em prol da abolição da pena capital. “Por isso mesmo, encorajo todos os participantes a continuar com esta grande iniciativa e lhes asseguro minhas orações”, conclui.

Promovido pela ONG “Juntos contra a pena de morte” e pela “Coalisão Mundial contra a pena de morte”, com o apoio do Ministério dos Assuntos Exteriores da Noruega, o Congresso tem a participação de cerca de 140 organizações do mundo inteiro, e traz por finalidade “eliminar a obrigatoriedade da pena de morte” e transformar os países abolicionistas de fato em abolicionistas de direito.

Palavra da Hora - Dificuldades da vida conjugal


terça-feira, 21 de junho de 2016

Santo do dia: São Luís Gonzaga - patrono da juventude


Luís nasceu no dia 9 de março de 1568, na Itália. Foi o primeiro dos sete filhos de Ferrante Gonzaga, marquês de Castiglione delle Stiviere e sobrinho do duque de Mântua. Seu pai, que servia ao rei da Espanha, sonhava ver seu herdeiro e sucessor ingressar nas fileiras daquele exército. Por isso, desde pequenino, Luís era visto vestido como soldado, marchando atrás do batalhão ao qual seu pai orgulhosamente servia.

Entretanto, Luís não desejava essa carreira, pois, ainda criança fizera voto de castidade. Quando tinha dez anos, foi enviado a Florença na qualidade de pajem de honra do grão-duque de Toscana. Posteriormente, foi à Espanha, para ser pajem do infante dom Diego, período em que aproveitou para estudar filosofia na universidade de Alcalá de Henares. Com doze anos, recebeu a primeira comunhão diretamente das mãos de Carlos Borromeu, hoje santo da Igreja.

Desejava ingressar na vida religiosa, mas seu pai demorou cerca de dois anos para convencer-se de sua vocação. Até que consentiu; mas antes de concordar definitivamente, ele enviou Luís às cortes de Ferrara, Parma e Turim, tentando fazer com que o filho se deixasse seduzir pelas honras da nobreza dessas cortes.

Luís tinha quatorze anos quando venceu as resistências do pai, renunciou ao título a que tinha direito por descendência e à herança da família e entrou para o noviciado romano dos jesuítas, sob a direção de Roberto Belarmino, o qual, depois, também foi canonizado.

Lá escolheu para si as incumbências mais humildes e o atendimento aos doentes, principalmente durante as epidemias que atingiram Roma, em 1590, esquecendo totalmente suas origens aristocráticas. Consta que, certa vez, Luís carregou nos ombros um moribundo que encontrou no caminho, levando-o ao hospital. Isso fez com que contraísse a peste que assolava a cidade.

Luís Gonzaga morreu com apenas vinte e três anos, em 21 de junho de 1591. Segundo a tradição, ainda na infância preconizara a data de sua morte, previsão que ninguém considerou por causa de sua pouca idade. Mas ele estava certo.

O papa Bento XIII, em 1726, canonizou Luís Gonzaga e proclamou-o Padroeiro da Juventude. A igreja de Santo Inácio, em Roma, guarda as suas relíquias, que são veneradas no dia de sua morte. Enquanto a capa que são Luís Gonzaga usava encontra-se na belíssima basílica dedicada a ele, em Castiglione delle Stiviere, sua cidade natal.

Fonte: Paulinas

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Antes de julgar os outros devemos olhar no espelho, afirma Papa


Cidade do Vaticano - Antes de julgar os outros, devemos olhar no espelho para ver como somos. Foi a exortação do Papa na missa matutina na Casa Santa Marta. O Pontífice sublinhou que aquilo que distingue o juízo de Deus do nosso não é a onipotência, mas a misericórdia.

O juízo pertence somente a Deus; por isso, se não quisermos ser julgados, nós também não devemos julgar os outros. Concentrando-se na leitura do Evangelho do dia, o Papa observou que ‘todos nós queremos que no Dia do Juízo, o Senhor nos olhe com benevolência, que se esqueça das coisas feias que fizemos na vida’.

Por isso, ‘se você julga continuamente os outros – advertiu – será julgado com a mesma medida’. “O Senhor – prosseguiu – nos pede para nos olharmos no espelho”: “Olha no espelho... mas não para se maquiar, para que não se vejam suas rugas. Não, não, não é este o conselho... Olha no espelho para ver você mesmo, como é. ‘Por que olha o cisco que está no olho do seu irmão e não percebe a trave que está no seu? Como você pode dizer a seu irmão ‘Deixa eu tirar o cisco do seu olho, enquanto não presta atenção na trave que está no seu olho?’. E como nos define o Senhor, quando fazemos isso? Com uma só palavra: ‘Hipócrita’. Tira primeira a trave do seu olho, e só então, poderá ver direito e tirar o cisco do olho do seu irmão”.

Rezar pelos outros em vez de julgá-los

O Senhor, disse o Papa, podemos notar que “fica um pouco com raiva aqui”, nos chama de hipócritas quando nos colocamos no lugar de Deus”. Isto, acrescentou, é o que a serpente persuadiu a fazer Adão e Eva: “Se vocês comerem isso, vocês serão como Ele”. Eles, disse o Papa, “queriam tomar o lugar de Deus”: “Por isso é feio julgar. O juízo é só de Deus, somente d’Ele! A nós o amor, a compreensão, rezar pelos outros quando vemos coisas que não são boas, mas também falar com eles: ‘Mas, olha, eu vejo isso, talvez ...' Mas jamais julgar. Nunca. E isso é hipocrisia, se nós julgamos”.

Quando julgamos, continuou, “nós nos colocamos no lugar de Deus”, mas “o nosso julgamento é um julgamento pobre”, nunca “pode ser um verdadeiro julgamento”. “E por que – pergunta-se o Papa - o nosso não pode ser como o Deus? Por que Deus é Todo-Poderoso e nós não?” Não, é a resposta de Francisco, “porque em nosso julgamento falta a misericórdia. E quando Deus julga, julga com misericórdia”: “Pensemos hoje no que o Senhor nos diz: não julgar, para não ser julgado; a medida, o modo, a medida com a qual julgamos será a mesma que usarão para conosco; e, em terceiro lugar, vamos nos olhar no espelho antes de julgar. ‘Mas aquele faz isso... isto faz o outro...’ ‘Mas, espere um pouco... ', eu me olho no espelho e depois penso. Pelo contrário, eu vou ser um hipócrita, porque eu me coloco no lugar de Deus e, também, o meu julgamento é um julgamento pobre; carece-lhe algo tão importante que tem o julgamento de Deus, falta a misericórdia. Que o Senhor nos faça entender bem essas coisas”.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

12º domingo do Tempo Comum



1ª Leitura - Zc 12,10-11;13,1
Salmo - Sl 62,2.abcd.2e-4.5-6.8-9 (R. 2ce)
2ª Leitura - Gl 3,26-29
Evangelho - Lc 9,18-24

Certo dia:
Jesus estava rezando num lugar retirado,
e os discípulos estavam com ele.
Então Jesus perguntou-lhes:
'Quem diz o povo que eu sou?'
Eles responderam: 'Uns dizem que és João Batista;
outros, que és Elias; mas outros acham
que és algum dos antigos profetas que ressuscitou.'
Mas Jesus perguntou: 'E vós, quem dizeis que eu sou?'
Pedro respondeu: 'O Cristo de Deus.'
Mas Jesus proibiu-lhes severamente
que contassem isso a alguém.
E acrescentou: 'O Filho do Homem deve sofrer muito,
ser rejeitado pelos anciãos,
pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei,
deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia.'
Depois Jesus disse a todos:
'Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo,
tome sua cruz cada dia, e siga-me.
Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la;
e quem perder a sua vida por causa de mim,
esse a salvará.
Palavra da Salvação.

Jesus, o Salvador da humanidade – Pe. João Batista Libânio, sj

Esse evangelho tem uma beleza toda especial, não tanto pelo texto, mas pela moldura. Muitas vezes, um quadro de arte fica ainda mais bonito quando uma moldura faz realçar a obra. O núcleo do texto é esta frase: “Quem vós dizeis que eu sou?”. É uma pergunta que muitos fazem, pois ninguém escapa dessa curiosidade. Agora mesmo, quando vamos terminar um semestre, alguns professores fazem uma revisão, procurando saber a opinião dos alunos sobre o curso, o professor. Também os jogadores, na Copa, devem estar o dia todo procurando nos jornais os comentários que são feitos sobre eles. Sem falar nos políticos, que vivem vasculhando os jornais e revistas para saberem o que dizem deles. Mas será que esse evangelho trata apenas de uma curiosidade de Jesus?

Lucas é muito inteligente e coloca esse evangelho entre dois acontecimentos importantes da vida de Jesus. Começa por retirá-lo para um lugar solitário, aonde foi rezar com os apóstolos. Um pouquinho antes tinha havido a multiplicação dos pães e logo depois aconteceria a transfiguração. Esta é a moldura: a oração num lugar deserto com os apóstolos. Antes estava a multiplicação dos pães, porque nós só saberemos responder quem é Jesus, se participarmos deste pão. Só quem comunga sabe responder quem é Jesus. A multiplicação dos pães é o símbolo, a prefiguração, a antecipação da eucaristia. Portanto, para responder ou perguntar quem é Jesus, precisamos participar da eucaristia. A quem vem aqui e participa, eu posso perguntar, porque comungou, viu, sentiu a sua presença entre nós. 

Lucas coloca ainda a cena do Tabor, que também é muito simbólica. O que mais me encanta nos evangelho são os símbolos, pois são muito mais profundos. No Tabor, Jesus, com o seu corpo físico, normal, de repente, fica fulgurante e conversa com Moisés, um homem que arrancou o povo da escravidão do Egito e o conduziu durante quarenta anos pelo deserto. Conversa ainda com Elias, o profeta que, simbolicamente, subiu aos céus numa carruagem de fogo. No Tabor, os três vão conversar sobre a saída de Jesus, isto é, a sua morte na cruz. Aí está completo o quadro: eucaristia, glória, cruz – a grande trilogia de Jesus! Diante desse quadro completo, cabe a nós responder: quem é Ele em nossa vida? 

É Ele que nos alimenta, que está glorificado, mas, para chegar a isso, terá que passar pela morte, e uma morte tremenda. Só entendendo esse quadro, poderemos entender a pergunta. E devemos reparar que há três negativas: Ele não era João Batista, não era Elias e nem um dos grandes profetas. Essas três negativas também não são fortuitas, e nenhuma delas satisfaz a Jesus.

Jesus não poderia ser João Batista, porque esse trazia a ideia de um deus tremendo, que peneirava o grão para queimar a palha. Jesus trazia uma experiência diferente de Deus Pai. Conhecia o Deus do perdão, da misericórdia, da acolhida. Também não poderia ser Elias, pois esse, de acordo com a simbologia bíblica, nem teria morrido, pois fora para o céu num carro de fogo, deixando um manto maravilhoso para o seu discípulo Eliseu. Jesus morreu nu, sem ter nenhum manto para deixar. Ele era alguém muito próximo de nós. É impressionante quando começamos a meditar sobre a fragilidade de Jesus! O evangelho continua dizendo que Jesus também não é nenhum dos outros profetas, que olhavam para a realidade, percebiam o que era contrário ao projeto de Deus e gritavam contra ela. 

Jesus não fez nada disso. Diante da mulher surpreendida em adultério, mandou que ela fosse em paz. À samaritana, que tinha cinco maridos, revelou-se como Messias. A Zaqueu, que se reconhecia como ladrão, entrou em sua casa e ofereceu-lhe a salvação. Como Ele era diferente dos profetas! Era Jesus, o salvador da humanidade! Amém!

Pe. João Batista Libânio, sj - Um outro olhar, vol 8


quarta-feira, 15 de junho de 2016

Palavra da Hora - Sair de si mesmo


Sobre a amizade


Crônica de  Lya Luft

“Que qualidade primeira a gente deve esperar de alguém com quem pretende um relacionamento?”, perguntou o jovem jornalista, e respondi: “Aquela que se esperaria no melhor amigo.”

O resto, é claro, seriam os ingredientes da paixão, que vão além da amizade. Mas a base estaria ali: na confiança, na alegria de estar junto, no respeito, na admiração. Em não poder imaginar a vida sem aquela pessoa.

Pode ser um bom critério. Não digo de escolha — pois amor é instinto e intuição —, mas uma dessas opções mais profundas, arcaicas, que a gente faz até sem saber, para crescer ou para se destruir.

Eu não quereria como parceiro de vida quem não pudesse querer como amigo. E amigos fazem parte de meus alicerces emocionais: são um dos ganhos que a passagem do tempo me concedeu. Falo daquela pessoa para quem posso telefonar não importa onde ela esteja, nem a hora do dia ou da madrugada, e dizer: “Estou mal, preciso de você.” E ele ou ela estará comigo, pegando um carro, um avião, correndo alguns quarteirões a pé, ou simplesmente ficando ao telefone o tempo necessário para que eu me recupere, me reencontre, me reaprume, não me mate, seja lá o que for.

Mais reservada do que expansiva num primeiro momento, mais para tímida, tive sempre muitos conhecidos e poucas — mas reais — amizades de verdade, dessas que formam, com a família, o chão sobre o qual a gente sabe que pode caminhar.

Sem elas, eu provavelmente nem estaria aqui.

Falo daquelas amizades para as quais eu sou apenas eu, uma pessoa com manias e brincadeiras, eventuais tristezas, erros e acertos, os anos de chumbo e uma generosa parte de ganhos nesta vida.
Para eles não sou escritora, muito menos conhecida de público algum: sou gente. Com uma dessas amizades posso fazer graça ou fazer fiasco, chorar, eventualmente dizer palavrão quando me irrito ou quando esmago o dedo na porta. (Ou sempre que me der vontade, aliás.)

A amizade é um meio-amor, sem algumas das vantagens dele mas sem o ônus do ciúme — o que é, cá entre nós, uma bela vantagem.

Ser amigo é rir junto, é dar o ombro pra chorar, é poder criticar (com carinho, por favor), é poder apresentar namorado ou namorada, é poder aparecer de chinelo de dedo ou roupão, é poder até brigar e voltar um minuto depois, sem ter de dar explicação alguma.

Amiga é aquela a quem se pode ligar quando a gente está com febre e não quer sair pra pegar as crianças na chuva: a amiga vai e pega junto com as dela, ou até se nem tem criança naquele colégio.

Amigo é aquele a quem a gente recorre quando se angustia demais, e ele chega confortando, chamando de “minha gatona” mesmo que a gente esteja um trapo.

Amigo, amiga, é um dom incrível, isso eu soube desde cedo, e não viveria sem eles.

Conheci uma senhora que se vangloriava de não precisar de amigos: “Tenho meu marido e meus filhos, e isso me basta.”

O marido morreu, os filhos seguiram suas vidas, e ela ficou solitária e injuriada com isso, como se o destino tivesse lhe pregado uma peça. Mais de uma vez queixou-se, e nunca tive coragem de lhe dizer, àquela altura, que a vida é uma construção, também a vida afetiva. E que amigos não nascem do nada como frutos do acaso: são cultivados com... amizade. Sem esforço, sem adubos especiais, sem método nem aflição: crescendo como crescem as árvores e as crianças quando não lhes falta nem luz nem espaço nem afeto.

Quando em certo período o destino havia aparentemente tirado debaixo de mim todos os tapetes e perdi o prumo, o rumo, o sentido de tudo, foram amigos, amigas — e meus filhos, jovens adultos já revelados amigos — que seguraram as pontas.

E eram pontas ásperas aquelas.

Aguentei, persisti, e continuei amando a vida, as pessoas e a mim mesma (como meu amado amigo Erico Veríssimo, “eu me amo mas não me admiro”) o suficiente para não ficar amarga. Pois além de acreditar no mistério de tudo o que nos acontece, eu tinha aqueles amigos.
Com eles, sem grandes conversas nem palavras explícitas, aprendi solidariedade, simplicidade, honestidade e carinho.

Sem razão especial nem data marcada, estou homenageando aqueles, aquelas, que têm estado comigo seja como for, para o que der e vier, mesmo quando estou cansada, estou burra, estou irritada ou desatinada — pois às vezes eu sou tudo isso, ah sim.

E o bom mesmo é que na amizade, se verdadeira, a gente não precisa se sacrificar, nem compreender, nem perdoar, nem fazer malabarismos sexuais, nem inventar desculpas, nem esconder rugas ou tristezas. A gente pode simplesmente ser: que alívio, neste mundo complicado e desanimador, deslumbrante e terrível, fantástico e cansativo.

Pois o verdadeiro amigo é confiável e estimulante, engraçado e grave, às vezes irritante; pode se afastar, mas sabemos que retorna; ele nos aguenta e nos chama, nos dá impulso e abrigo, e nos faz ser melhores: como o verdadeiro amor.

Lya Luft, "Em outras palavras"