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sexta-feira, 20 de maio de 2016

Solenidade da Santíssima Trindade

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1ª Leitura - Pr 8,22-31
Salmo - Sl 8,4-5.6-7.8-9 (R. 2a)
2ª Leitura - Rm 5,1-5
Evangelho - Jo 16,12-15

O Espírito vai guiar o testemunho dos discípulos

12 «Ainda tenho muitas coisas para dizer, mas agora vocês não seriam capazes de suportar. 13 Quando vier o Espírito da Verdade, ele encaminhará vocês para toda a verdade, porque o Espírito não falará em seu próprio nome, mas dirá o que escutou e anunciará para vocês as coisas que vão acontecer. 14 O Espírito da Verdade manifestará a minha glória, porque ele vai receber daquilo que é meu, e o interpretará para vocês. 15 Tudo o que pertence ao Pai, é meu também. Por isso é que eu disse: o Espírito vai receber daquilo que é meu, e o interpretará para vocês.

Bíblia Sagrada - Edição Pastoral

A Trindade nos leva à abertura – Pe. João Batista Libânio, sj

Essa leitura parece uma geometria trinitária, que nos deixa um pouco perdidos. Os cristãos sempre sofrem quando refletem sobre a Trindade. O monoteísmo puro, quando não há pessoas em Deus a não ser Ele mesmo, parece mais claro, mais evidente. Mas, se Deus fosse uma só pessoa, seria terrível, porque o um é muito perigoso. Ele tende ao autoritarismo, ao monopólio – um único polo, à monarquia – um único poder. Todos esses monos são muito perigosos, pois dão a ideia de uma única pessoa com todo o poder nas mãos, e isso é terrível.

Também quando se é dois, fica-se muito ligado um ao outro e parecem esquecer qualquer outro terceiro. Que o digam os jovens quando namoram: ficam tão voltados um para o outro, que esquecem todo o resto. Já não trabalham nem estudam, não conhecem nem mãe, nem pai, de tão envolvidos que estão um com o outro. Daí, o dois também é perigoso, pois prende um ao outro e ambos se esquecem de um terceiro, de um outro, de um diferente. Quando esse chega, tudo melhora. Abre-se o um para o dois, o dois para o um, e todos para um terceiro.
A Trindade é abertura. Por isso, tudo que realmente nos leva à abertura é trinitário. Podem perceber. Somos corpo, alma e espírito – somos três. Certo dia, Santo Agostinho começou a olhar todas as coisas e foi percebendo: raiz, tronco, galho, e assim por diante. O três parece ser a abertura perfeita e, de fato, a Trindade, sendo três, é a comunhão perfeita. Por isso, os pais, quando têm seus filhos, se alegram tanto, pois é como se chegassem à plenitude. Se não podem ter filhos, parece que lhes dói alguma coisa: falta-lhes um terceiro, que é realmente fundamental para romper todo o fechamento.

Deus é Trindade, é abertura, mas uma abertura que volta para uma comunhão profunda. Há um quadro de arte em Itaici, sobre o qual gostaria de falar com vocês. É a Trindade refletida em três olhares. O Pai olhando para o Filho, com todo o seu olhar concentrado nele. É bom lembrar que, para a teologia, o Pai é também mãe, não apenas a figura masculina, mas uma única realidade. Ainda, no mesmo quadro, aparece o Espírito Santo distraído, olhando para o mundo, para as realidades. Enquanto isso, o Filho olha para quem o olha. Os artistas são fantásticos! Se estamos diante do quadro, o Filho está nos olhando. Quando mudamos de lado, Ele continua nos olhando, em qualquer direção a que nos dirijamos. O Filho olha para quem o olha!

O olhar do pai e da mãe volta-se totalmente para o filho, fazendo-o surgir. É esse olhar de Deus que faz com que existamos. Estamos aqui, porque Deus Pai olhou para nós. Se não tivesse olhado, seríamos nada, simplesmente não existiríamos. É o olhar de Deus que faz nascer todas as coisas, todas as pessoas, todos os amores, todas as realidades. Tirem definitivamente da cabeça que Deus é carrasco, é juiz para condenar. Ele só olha para nós para que sejamos, existamos, tenhamos consistência, sejamos liberdade, vontade, amor, ternura, sentido, tudo aquilo que somos. Todos os milhões de galáxias que existem nasceram do olhar maravilhoso do Pai! Do alto da Serra da Piedade podemos ver uma imensidão enorme de montanhas e vales. Lá em cima ainda há algumas florezinhas pequeninas. É como se Deus tivesse tomado uma agulha minúscula para tecer essas florezinhas, ao mesmo tempo em que fez as gigantescas montanhas. Da mesma forma que faz um gigante, plasma uma criança no seio de sua mãe. Esse é o olhar do Pai! Saber que vivemos sob esse olhar não pode nos provocar medo. Não é mais aquele olho terrível do triângulo que os padres antigos colocavam nos internatos para aterrorizar crianças e adolescentes: “Deus me vê!”. Nada disso. Ele não só me vê, mas me faz amar, existir, ser gente, ser liberdade.

O Espírito olha para o mundo, como também olhamos, e temos medo do mundo. Perguntem ao médico que faz a sua primeira cirurgia, ao engenheiro que faz os primeiros cálculos, ao professor que dá a primeira aula. Temos medo dos alunos. Só que eles não sabem que temos medo exatamente deles. Trememos, gaguejamos, esquecemos as palavras, trocamos os verbos porque o mundo nos assusta, a realidade nos confronta. Hoje, muito mais, com tanta violência, guerras, crimes e tantas outras coisas, parece que o mundo nos horroriza. Não tenhamos medo! O Espírito Santo olha para o mundo, e é dele que sai uma luz transparente, que nos leva a encontrar a beleza. O Espírito embeleza todas as realidades físicas e espirituais, nos levando a encontrar a beleza das pessoas, dos corações. Quantos sinais de amores, sinais de beleza vemos no mundo?! É o olhar do Espírito!

O Filho está sempre a olhar-nos, e nós a olharmos para Ele, porque tem corpo, tem olhos. Quando falo no olho do Pai, no olho do Espírito, é metáfora, pois nem o Pai nem o Espírito têm olhos. Olhos que precisam ser tratados por oftalmologistas são os olhos da Terra, e esses o Filho teve, e com eles pôde nos olhar. Ele conheceu a beleza física das coisas. Deus conhece a essência das coisas, enquanto Jesus conhece a sensibilidade. Por isso, pode olhar para os nossos corpos, para a nossa realidade. Pode saber quem é o ser humano na sua fragilidade, no seu sentido, no seu cansaço, na sua dor. Ele sim, sabe o que é ter medo. O Pai nunca teve medo, nunca teve fome, nunca se cansou, ao contrário do Filho, que experimentou cada elemento da nossa existência. Quando olharmos para o Filho, poderemos dizer que aí está alguém semelhante a nós em tudo, menos no pecado. Amém.

Pe. João Batista Libânio, sj - Um outro olhar, vol. 8

Confira a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz para a Solenidade da Santíssima Trindade: