PESQUISAR TEMAS E ARQUIVOS DO BLOG

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Domingo de Pentecostes

15_maio-01-01

































1ª Leitura - At 2,1-11
Salmo - Sl 103, 1ab.24ac.29bc-30 31.34 (R.30)
2ª Leitura - 1Cor 12,3b-7.12-13
Evangelho - Jo 20,19-23

Jesus ressuscitado está vivo na comunidade

19 Era o primeiro dia da semana. Ao anoitecer desse dia, estando fechadas as portas do lugar onde se achavam os discípulos por medo das autoridades dos judeus, Jesus entrou. Ficou no meio deles e disse: «A paz esteja com vocês.» 20 Dizendo isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos ficaram contentes por ver o Senhor.

21 Jesus disse de novo para eles: «A paz esteja com vocês. Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês.» 22 Tendo falado isso, Jesus soprou sobre eles, dizendo: «Recebam o Espírito Santo. 23 Os pecados daqueles que vocês perdoarem, serão perdoados. Os pecados daqueles que vocês não perdoarem, não serão perdoados.»

Bíblia Sagrada - Edição Pastoral

A vida sem o Espírito Santo – Pe. João Batista Libânio, sj

Muitas vezes, para entendermos uma realidade, temos que fazer uma espécie de ficção: o que seria a vida, se essa realidade não existisse? Vocês conhecem aquela historinha tão bonita, daquele monge chinês? Era um mestre, um grande guru. Todos os dias chegavam discípulos diante dele e diziam: “Mestre, ensina-nos a ver Deus!” O mestre calado, silencioso, não respondia. A cena se repetia sempre, até que um dia o velho mestre chega diante de um belo lago e começa a entrar, e o discípulo o acompanha. De repente, volta-se rapidamente, segura a cabeça do discípulo, afunda-a na água. O discípulo estrebucha e levanta a cabeça aflito, enquanto o mestre pergunta o que ele havia sentido. Ele responde: “Falta de ar”, ao que ele retruca: “Pois bem, Deus é ar!” Somente quando não temos Deus é que sabemos quem Ele é. Ele é tão presente, é tão dentro de nós, que nem percebemos que está lá.

Assim é o Espírito Santo. Ele também é esse ar que respiramos. E, para nós, é natural, normal. Mas, se um dia perdermos o oxigênio, se estivermos nos estertores da morte, aí saberemos a importância do ar. Só quando o Espírito está ausente é que percebemos. Vamos, então, imaginar o que aconteceria se não houvesse Espírito Santo. 

Aconteceria que Jesus teria morrido, e os apóstolos estariam até hoje trancados no Cenáculo. Teriam morrido naquela sala e seriam encontrados pelo mau cheiro, e os cadáveres seriam recolhidos. Teriam morrido de medo, e nós não estaríamos aqui. Imaginem o que fizeram aqueles homens rudes, ignorantes, que talvez nem soubessem ler e escrever. Não podemos fazer ideia. Imaginem São Pedro, um pescador de uma aldeia junto ao lago de Genesaré, ir a capital do Império Romano, onde estava a corte, o imperador! Aquele Império que era muito mais do que os Estados Unidos hoje, porque dominava o mundo inteiro. E esse homem ignorante, sem saber nada, de repente começa a pregar o Evangelho. Que coragem! E não viajava de boeing, mas de barco, que poderia naufragar! Paulo conta que chegou a ficar agarrado a uma tábua, esperando que alguém o salvasse. E quem deu coragem a Paulo, a Pedro, a Tiago, a todos aqueles apóstolos, para saírem pelo mundo inteiro? Nós não estaríamos aqui, se não houvesse Espírito Santo!

Se cada um de nós pensarmos, veremos como somos covardes. Já somos covardes, tendo o Espírito Santo, imaginem sem Ele! Não temos nem coragem de falar o nome de Jesus! Sem o Espírito, o esposo não teria descoberto a beleza de sua mulher. A esposa não teria descoberto o carinho de seu marido. Não teriam percebido a beleza de uma relação conjugal. O Espírito nos leva a descobrir tudo isso. Os pais podem olhar para os seus filhos com a certeza de que ali mora o Espírito Santo. E isso muda o seu olhar. Verá não apenas um filho, mas o Espírito Santo que mora dentro dele. Mudam os nossos olhares, os nossos sentimentos, a nossa sensibilidade. Passamos a aceitar qualquer pessoa. Passamos pela rua, vemos um bêbado sujo e temos que reconhecer que também ali mora o Espírito Santo. E descobrimos dignidade, mesmo naquela carcaça. Em tantos criminosos, pensamos que está tudo apagado, que ali está um puro animal. Não, também ali bruxuleia uma lampadazinha que, de vez em quando, faísca no olhar um pouco de ternura.

Vocês devem ter lido no jornal sobre aquele jovem que entrou na escola atirando nos colegas, depois se deitou no chão e começou a chorar. O que se passa com essas crianças, com esses adolescentes, com esses jovens? Em meio a toda a maldade, a toda a confusão, o Espírito ainda está presente. Se o tirássemos, viveríamos o que disse Hobbes (*): seríamos um lobo para o outro. Estaríamos nos devorando uns aos outros. Não conheceríamos o amor, não praticaríamos a beleza. O Espírito Santo colore, purifica, aquece-nos. Não aquece fisicamente, mas nos faz perceber a beleza, o calor, o amor. Nós sempre temos a impressão de que o amor é quente, e parece que ele nos anima, nos encoraja. Por isso o Espírito Santo é assemelhado ao fogo, à luz. Claro que é comparação, para dizer o que o fogo faz numa noite fria, e assim termos a ideia do que é a ação do Espírito Santo no nosso coração. Num dia de calor, procuramos uma fonte de águas cristalinas – se ainda houver – e, numa aragem, poderemos perceber que Ele é essa aragem, esse frescor. Quando estamos desanimados, tristes, abatidos e, de repente, encontramos uma força inexplicável, é o Espírito de Deus. Se estivermos desempregados, andando quilômetros e quilômetros por um emprego e, mesmo assim, não desanimamos, é o Espírito de Deus que nos empurra.

Há “Médicos sem Fronteiras”, que deixam seus países ricos, e vão enfrentar metralhadoras e mísseis levando ajuda às vítimas; também os pedagogos que trabalham com crianças em acampamentos, sem pais nem mães. Quem deu forças a esses foi o Espírito Santo. Víamos aquela mulher maravilhosa, que nos deixou saudade – Teresa de Calcutá -, que, quando havia qualquer catástrofe, corria para ajudar. Quem deu forças àquela velhinha de oitenta e tantos anos, para enfrentar tantos países diferentes, foi o Espírito Santo. Vemos jovens que ainda são capazes de crer, jovens que ainda vêm a esta igreja. Com tantos colegas metidos nas drogas, no sexo desvairado, eles ainda têm o olhar bonito, ainda sabem olhar a beleza, respeitar sua namorada. É o Espírito Santo que está agindo. Vemos tantas crianças irradiarem uma alegria transparente e direta. Elas são próximas do Espírito Santo. 

Por isso são tão bonitas, porque nelas ainda não entrou cultura para atrapalhar, ainda não entrou muita coisa para confundir, o seu superego ainda não foi marcado. Mantêm os olhinhos abertos para receber o mundo. Por isso, eu adoro essas crianças! Deixem-nas brincar, gritar à vontade aqui na igreja, porque é nisso que elas mostram a sua beleza.
Quando começarmos a olhar o mundo de maneira diferente, entenderemos que Pentecostes é uma grande festa. Amém.

(*) Thomas Hobbes, filósofo inglês do século XVII.

Pe. João Batista Libânio, sj - Um outro olhar, vol. 8

Confira a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz para este domingo de Pentecostes: