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sexta-feira, 6 de maio de 2016

Ascensão do Senhor

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At 1, 1-11
Sl 46 (47)
Ef 1, 17-23
Lc 24, 46-53

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Assim está escrito:
O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia e no seu nome, serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém.
Vós sereis testemunhas de tudo isso. Eu enviarei sobre vós aquele que meu Pai prometeu. Por isso, permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto'.

Então Jesus levou-os para fora, até perto de Betânia. Ali ergueu as mãos e abençoou-os. Enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi levado para o céu. Eles o adoraram. Em seguida voltaram para Jerusalém, com grande alegria. E estavam sempre no Templo, bendizendo a Deus.

Palavra da Salvação.

Não vos afasteis de Jerusalém – Pe. João Batista Libânio, sj

Somente na liturgia de hoje, podemos ouvir duas narrativas diferentes da ascensão do Senhor, ambas escritas pelo mesmo autor, porque se atribui também a Lucas a autoria do livro dos Atos. Se recorrêssemos ao evangelho de Mateus, na mesma cena, depararíamos com uma frase muito misteriosa: “e alguns ainda duvidavam”. O que significa isso? Eram onze apóstolos que tinham experimentado Jesus, viram-no no Cenáculo, comendo diante deles e, ainda assim, duvidavam.

A experiência do Cristo ressuscitado não é para os sentidos. Os evangelistas transformam uma experiência pessoal de fé numa realidade visível, porque trabalhamos com os sentidos. Temos a impressão de que o evangelista descreve um fato, que Jesus foi subindo luminoso para o céu. Se tivesse sido assim, todos teriam visto, e parece que ninguém viu. Apenas com os sentidos não alcançamos o Cristo ressuscitado, assim como também não o alcançamos apenas com os olhos, na eucaristia, na palavra, no pequeno, no pobre. Ascensão é um esforço muito grande de nos arrancar deste mundo imediato, palpável, em que só acreditamos no que vemos, no que apalpamos. Custa-nos perceber que existem realidades que ultrapassam os nossos sentidos, e que são as mais importantes. Ascensão vem nos dizer que o Senhor não está mais acessível a nós, que nunca mais o veremos como os apóstolos o viram antes da morte. Eles viram fisicamente Jesus antes da morte, não depois. Depois, tiveram que fazer um ato de fé, buscar dentro de sua interioridade para perceberem que o Senhor estava vivo, e não morto, como nós também temos que fazer hoje, pois não o encontramos na esquina.

Mesmo as aparições de que ouvimos falar na história da Igreja são formas de exprimir profundas experiências espirituais. São tão fortes, que as pessoas, de certa maneira, as visibilizam. Nos evangelhos de Mateus e de Marcos, quando Jesus ressuscita, pede às mulheres que digam aos apóstolos para irem à Galileia, pois lá Ele apareceria. Nesse trecho, Lucas diz exatamente o contrário: que eles permanecessem em Jerusalém. Onde está a razão? É interessante! Quando começamos a observar os evangelhos, descobrimos pormenores lindos, pois Jerusalém tem um sentido, e Galileia outro bem diferente. Lucas insiste para que fiquem em Jerusalém, pois é nessa cidade que Jesus apareceria, e realmente ele coloca todas as aparições do Cristo glorioso em Jerusalém. Para os outros, Jesus aparece na Galileia. Como naquela época não havia aviões, eles não poderiam se deslocar tão rapidamente. Portanto, alguma coisa interessante existe por trás desse pormenor geográfico.

Jerusalém é o lugar da comunidade, e Lucas tem uma preferência enorme pela vida comunitária. Para ele, a experiência que Jesus faz é como a que nós fazemos em nossas comunidades. Por isso ele insiste em Jerusalém, em dizer que eles ficassem no Cenáculo, sempre rezando junto com Maria. É também juntos que receberão o Espírito Santo, a presença do Senhor. Quando Tomé sai da comunidade não consegue ver Jesus e também não crê. Quando os dois discípulos de Emaús vão embora, encontram com Jesus e não o reconhecem. Como Lucas é interessante! Só quando Jesus parte o pão – naquele mínimo momento comunitário – é que os dois discípulos o reconhecem. Apenas andando e conversando, não o reconheceram. Mesmo Jesus explicando-lhes a escritura, falando de si, eles caminhavam sem perceber nada. Jesus finge ir embora, então eles pedem que Ele fique, pois já se fazia tarde. Ao partir o pão, eles o reconhecem e voltam a Jerusalém, onde novamente encontram a comunidade. Jesus aparece, quando estamos unidos. O simples fato de estarmos reunidos já é uma maneira de Jesus aparecer.

Essa é a grande lição de Lucas hoje. A nossa sociedade nos separa, não apenas por causa do trabalho, dos deslocamentos. A vida moderna nos dilacera e faz com que a vida comunitária vá se esfiapando. É como um tecido do qual puxamos os fios, até que se desfaça. Cada um precisa pensar muito nisso. Estamos continuamente cansados e procuramos nos isolar para refazer-nos, ficamos longo tempo em frente à santa televisão, zapeando por todos os canais, procurando preencher o vazio imenso que a vida moderna nos deixa. Parece que Lucas sabe disso, que ele está aqui entre nós, dizendo-nos que precisamos de paz, de felicidade, de alegria, de realização humana, de um pouco mais de afeto.

Precisamos nos unir, nos congregar, agradecer os momentos privilegiados em que Deus se manifesta. Precisamos agradecer, mas sempre em comunidade. Lucas insiste muito: não devemos nos afastar de Jerusalém! Jerusalém é esta igreja, é a família, é a celebração, são os amigos e irmãos que encontramos na Eucaristia. É claro que muitas vezes é difícil, quando uma filha se mostra um tanto rebelde, quando a celebração se faz cansativa, monótona. Certa vez, o padre José Comblin contou-me que ele estava na porta da igreja ao lado de um adolescente, já quase descendo as escadas. Perguntou-lhe porque não entrava, e ele respondeu que já sabia o que aconteceria lá dentro. [...] Aqui tudo é sempre igual, e a gente se cansa, principalmente se não entendemos. Vivemos no mundo da notícia, cada vez mais rápida. A cada dia aparece um escândalo diferente. Quem se interessaria em ler o jornal de ontem?!

A comunidade é lenta e nos segura. A vida comunitária, familiar também é lenta. Sentamos à mesa, conversamos, podemos ficar horas batendo papo, mesmo que falte assunto. Um lembra de uma coisa, outro lembra de outra, fazemos associações e vamos construindo esse tecido que nos realiza. Nascemos de uma Trindade que quer que nos amemos mutuamente. Quando buscamos autonomia sem vínculo, a solidão por ela mesma, acabamos num sofrimento gigantesco. O que mais atormenta as pessoas no mundo de hoje não é a busca de trabalho, o desemprego – mesmo que isso doa muito – , mas a solidão, a maior doença de nosso tempo.

Lucas sabe disso, e continua dizendo que só em Jerusalém encontraremos o Senhor. Que devemos procurar conviver e encontrá-lo. Jesus diz que vai, mas sempre volta, diz também que nos deixará um auxiliar. Nem mesmo o Senhor quer ir embora. Ascensão não é o seu desaparecimento, a sua partida. Ele não parte, pois sempre fica. Quantas vezes eu já lhes disse: “O Senhor esteja convosco!”, e vocês respondem que Ele está no nosso meio? Ascensão é o desaparecimento do visível e a entrada do mistério; é a mudança da presença, nunca a ausência.
O Senhor nunca está ausente. Muda a presença física, sensível, de que gostamos tanto, porque sentimos a mão, o calor, o tato. Tudo isso percebemos no outro, mas não teremos mais essa presença do Senhor. Teremos sim, uma presença bem mais profunda. Jesus vem nos dizer que, de agora em diante, Ele estará no sacramento - na água do batismo, no óleo do crisma - e assim esbarraremos no próprio Deus. Doravante, precisaremos da comunidade para vivenciar a fé.

Na medida em que formos avançando em anos, iremos percebendo que experiências mais profundas não são as sensíveis. Elas apenas mostram a estrada da existência. Para quem tem uma caminhada mais longa, basta a memória, o pensar, o rezar. Basta carregar o outro dentro de si, nunca a solidão. De vez em quando, precisamos também dos encontros, dos momentos juntos, tudo isso que Lucas nos ensina hoje. Amém.


Confira a reflexão do Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM para este domingo da Ascensão do Senhor: