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sexta-feira, 29 de abril de 2016

6º domingo da Páscoa

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Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos:
'Se alguém me ama,
guardará a minha palavra,
e o meu Pai o amará,
e nós viremos e faremos nele a nossa morada.
Quem não me ama,
não guarda a minha palavra.
E a palavra que escutais não é minha,
mas do Pai que me enviou.
Isso é o que vos disse enquanto estava convosco.
Mas o Defensor, o Espírito Santo,
que o Pai enviará em meu nome,
ele vos ensinará tudo
e vos recordará tudo o que eu vos tenho dito.
Deixo-vos a paz,
a minha paz vos dou;
mas não a dou como o mundo.
Não se perturbe nem se intimide o vosso coração.
Ouvistes que eu vos disse:
'Vou, mas voltarei a vós`.
Se me amásseis,
ficaríeis alegres porque vou para o Pai,
pois o Pai é maior do que eu.
Disse-vos isto, agora,
antes que aconteça,
para que, quando acontecer,
vós acrediteis.
Palavra da Salvação.

A força heurística da palavra – Pe. João Batista Libânio, sj

Esse evangelho vem a calhar para a festa que comemoraremos na semana que vem, que é o dia das mães. São duas realidades que se cruzam, como se o evangelho tivesse sido escolhido de propósito. É quase como uma mãe dizendo a seu filho: “Filho, se você me ama, guarde a minha palavra!”. Quando o filho ouve isso de sua mãe, entende que é uma palavra falada que vem sendo sussurrada nos seus ouvidos desde pequenino. A criança vai crescendo, embebendo-se, vestindo-se de palavras, que é a maneira como nós, seres humanos, nos comunicamos. Vivemos no mundo dos símbolos, e o mais perfeito que o ser humano criou foi este que estou usando agora: a palavra.

Se trago uma rosa, posso ser interpretado de muitas maneiras: um vai achar que ela é bonita, outro dirá que é perfumada, ainda outro verá os espinhos que picam o nosso dedo e que ainda poderão simbolizar as alegrias e dificuldades que cercam os nossos amores. Enfim, quando coloco um símbolo não falado, ele permite uma quantidade enorme de sentidos, que poderão até nos desnortear, enquanto a palavra vai carreando esse sentido numa certa direção. A palavra limpa os sinais. Se pouparmos as palavras, nossa vida será ambígua. Ela ilumina as realidades, para que comecemos a ver. Falo muito para os jovens que, se eles não se falarem durante o namoro, poderão se enganar muito. A palavra vai fechando e concretizando o sentido dos gestos, pois eles são ambíguos e enganadores. Judas beijou Jesus, Maria também – dois beijos, duas infinitas distâncias!

A palavra é uma das coisas mais lindas que a inteligência humana criou. Nenhum animal tem palavra, nem mesmo o papagaio, que apenas repete sons que ouve. As mães começam a conversar com os filhos pequenos através de símbolos: abraços, beijos, dar de mamar. Não usam palavras, porque a criança não fala e não entende, mas entende os gestos, que devem ser revestidos pela palavra, para que mostrem seu verdadeiro sentido.

Freud, o pai da psicanálise, disse que, muitas vezes, estamos amarrados com os nossos problemas, mas, no momento em que conseguimos falar deles, começamos a desvendá-los. A palavra tem uma força heurística, que arranca a verdade de dentro. Heurística é a descoberta. A palavra faz com que descubramos o afeto, a verdade, o bem, os valores – “quem ama, segue as minhas palavras!”. Mas precisamos de dois outros verbos: entender e recordar. Peço licença a São João para inverter, colocando primeiro o recordar e só depois o entender. Vamos voltar um pouquinho à nossa etimologia: re + cor + ação – re: de novo; cor: coração, ação – a recordação coloca o coração em movimento para recuperar o passado.

Que coisa bonita! Olhem para a mãe de vocês: tem vinte, trinta, oitenta anos de história. Quanta coisa para recordar?! Imaginem a capacidade de uma criança recordar o afeto, o amor. Portanto, esse recordar é colocar o coração em ação, para só depois entender.

Parece que Jesus tomou essa metáfora, pois Ele também foi criança. Primeiro, aprendeu os sinais e, só depois, as palavras. Foi tecendo dentro de si aquilo que mais tarde pregaria. Hoje Ele nos diz que aquele que o ama, segue a sua palavra. Em grego, essa palavra é logos e, no princípio do evangelho, João nos diz que a Palavra estava em Deus. Jesus diz que aquele que ouve a Palavra, no fundo, ouve a pessoa dele, pois Ele é a Palavra do Pai – “a Palavra estava em Deus, a Palavra era Deus!”.

Quando se refere à Palavra, Jesus está falando de sua história, de sua vida, não de palavras faladas, discursos, sermões, homilias, mas a palavra vivida. Logos diz tanto da palavra falada quanto da entendida. Portanto, ouvir, seguir a palavra do Senhor é seguir o seu exemplo, é ver-lhe as ações – como age, como atua, como trabalha, como gesticula, como acolhe, como perdoa – tudo isso são palavras, porque Ele é a Palavra. Os filhos aprendem muito mais de suas mães através de seus silêncios, dos gestos, do seu estar, de sua dedicação, de seu amor, de sua preocupação.

Aprofundando um pouco mais, veremos que a palavra mais usada hoje é cuidado. Estamos trabalhando muito a ética do cuidado, e gostaria de chamar muito a atenção para isso. Só melhoraremos a sociedade, só construiremos uma comunidade diferente, só conviveremos melhor, se realmente começarmos a colocar dentro de nós a preocupação de bem cuidar das pessoas, desde as mais próximas de nós – esposos, filhos, aqueles que trabalham para nós e conosco, qualquer pessoa que encontrarmos, sem distinção de classe, raça, cor, religião, ou qualquer outra marca extrínseca. Qualquer um merece, por ser pessoa humana, por ter uma dignidade infinita.

Tenho insistido muito nisto: o primeiro cuidado vem do olhar, porque não estamos acostumados a olhar. Reparem bem se vocês olham para quem encontram na rua. Ninguém olha para ninguém. Talvez por medo. Enchemos nossa cabeça de porcarias, e nossos olhos ficam emporcados. Por isso, não conseguimos olhar as pessoas com serenidade, beleza e tranquilidade. Esse é o primeiro cuidado, principalmente, para com as crianças. O olhar humano é a maneira que Deus tem para nos olhar. Ele não tem olhos, já pensaram nisso?

E hoje Jesus também não tem olhos. O corpo glorioso não tem olhos, pois eles são só da Terra. Aproveitem para olhar agora, porque nunca mais olharão. Na eternidade, a maneira de conhecer será outra, nunca pelos olhos. Os olhos são só para a Terra, e é na Terra que precisamos olhar, cobrindo as pessoas com os nossos olhares. A mãe é a primeira escola do olhar de carinho, de amor, pois é ela que vai criando, estruturando a criança por dentro através do olhar.

Certa vez citei uma psicanalista, ela me disse algo que me marcou muito: da mãe, olhando para a criança pequenina de meses, que também olha para a mãe. Aquele cruzar de olhares, parados um no outro, faz com que a criança comece a se encontrar e criar sua identidade por dentro. O olhar da mãe acorda o espírito da criança. Ela não é animal! Se um cachorrinho fica feliz com um olhar carinhoso do seu dono, muito mais a criança, porque dentro daquele pequenino ser corpóreo há um espírito infinito aberto para a transcendência. A criança é o infinito, e o olhar da mãe consegue rasgar-lhe os véus, para que comece a perceber que existe uma realidade maior. O carinho, o amor da mãe lhe abre, para que um dia encontre o amor do grande pai e da grande mãe, que é Deus.
João ainda nos diz uma última coisinha: “eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz! Não a dou como o mundo a dá”. É uma frase que nos deixa preocupados. É claro que, para João, mundo não é essa realidade que vivemos. Ele quer falar da falácia, do engodo, da mentira, daqueles que querem nos transmitir uma paz mentirosa, que nos dizem que seremos felizes usando roupas de grife, bebendo determinado refrigerante, vestindo uma calça jeans, indo ao McDonalds. Vem Jesus e diz que não é essa a paz que Ele nos dá. Essa paz é aparente, é fútil, é vazia. A sua paz é duradoura e definitiva, e só se encontra e se completa no amor. Dizem que há um jogo entre a paz e o amor, em que um quer fecundar o outro. Só conseguiremos construir a paz, se ela nascer de dentro de nós, tornando-nos conciliados com os outros. Se vivermos isso, criaremos a paz, a paz que o Senhor nos trouxe. Amém.