PESQUISAR TEMAS E ARQUIVOS DO BLOG

sexta-feira, 22 de abril de 2016

5º domingo da Páscoa

24_abr-01

































Jo 13,31-33a.34-35

31 Quando Judas Iscariotes saiu, Jesus disse: «Agora o Filho do Homem foi glorificado, e também Deus foi glorificado nele. 32 Deus o glorificará em si mesmo, e o glorificará logo.
33 Filhinhos: vou ficar com vocês só mais um pouco.
34 Eu dou a vocês um mandamento novo: amem-se uns aos outros. Assim como eu amei vocês, vocês devem se amar uns aos outros. 35 Se vocês tiverem amor uns para com os outros, todos reconhecerão que vocês são meus discípulos.»

Vida é o infinito de que dispomos – Pe. João Batista Libânio, sj

Tão pequenino é esse evangelho, e a humanidade precisou esperar mais de um milhão de anos para ouvir uma frase como essa. Antes, sabíamos pouco sobre a origem do ser humano. Tínhamos a narração do Gênesis, que é um hino simbólico, não é científica e nem tem essa pretensão. Depois que a palenteologia, isto é, a ciência das coisas antigas, começou a pesquisar sobre o aparecimento da humanidade, pudemos realmente descobrir a maravilha do evangelho. A história do ser humano começa de uma maneira muito violenta, muito próximo do animal. O animal se hominiza, isto é, torna-se ser humano, surge a razão, a inteligência, mas como animal, ainda é muito bruto. Ele se destrói, se mata. Havia muitos assassinatos entre pessoas do mesmo clã, de forma que os antropólogos e paleontólogos falam em homo sapiens – o homem que pensa, e homo destruens – o homem que destrói. Destruiu a natureza, as plantas, vivia em guerras.

Assim passaram centenas e milhares de anos, e lentamente nos humanizamos, até que hoje somos mais ou menos humanos. Nessa grande trajetória, a pessoa de Jesus é o gonzo que faz a porta da história girar cento e oitenta graus, de um lado a outro – até Jesus e depois dele.

Ele corta a história ao meio, não apenas quanto às datas. Se dissermos maio de 2007, essa data se refere ao nascimento de Jesus. Assim falamos antes e depois de Cristo, medimos a história e os anos. Mesmo os que não creem, não querem e não desejam, ao assinarem um cheque, assinam em nome de Jesus, pois datam sua vida a parir de seu nascimento. É impressionante! Mesmo o mais materialista dos materialistas vai firmar o cheque numa data a partir do nascimento de Jesus, mesmo que não saiba. É o gonzo histórico e geográfico, porque a Palestina se transformou até hoje num lugar de luta, de busca, de disputa. Estão aí os judeus, os palestinos, também cristãos e ortodoxos numa luta muito difícil. Interessante, o Príncipe da Paz nasce num lugar que é fonte de guerra! Assim somos nós!

Mas o gonzo que divide a história é muito mais importante. O máximo que tínhamos atingido era amar aos outros como amávamos a nós mesmos. E até a isso, apenas alguns chegam. A maioria de nós nem isso consegue. Jesus dá um passo à frente, tão gigantesco que parece um horizonte longínquo, para o qual caminhamos. Ele nos diz assim: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Não disse apenas “amai-vos uns aos outros”, mas acrescentou: “como eu vos amei”. A infinita paciência de Deus esperou dois milhões de anos para nos dizer essa frase. Alguém pode pensar que o Antigo Testamento também não conheceu esse amor. Sim e não. O Antigo Testamento dizia que devemos amar aos outros como nos amamos. É um pouco esta jogada: fazer e receber a recompensa. Jesus muda o jogo. Amar como Ele nos amou é a maior entrega, e podemos resumir isso em quatro verbos: desejar, querer, fazer, alegrar-se com o bem do outro, sem mais. Desejar o bem do outro pelo outro e pelo bem, nada mais. As mães desejam o bem de seus filhos, mas de seus filhos. O amor de Cristo nos pede que amemos qualquer pessoa. Desaparece o seu, e quem escreve para mim sabe que tenho horror aos pronomes possessivos e elimino a maioria deles. Somos tão narcisistas que enchemos tudo com nosso e meu. Os que passam por mim desaparecem, mas tantos ainda continuam. Jesus quer que desejemos o bem pelo bem e ao outro pelo outro e só. Pensem como isso é difícil! Sempre esperamos um agradecimento, um elogio, a volta. Temos uma dificuldade imensa de amar, muito mais do que podemos imaginar. Pensamos que amamos, mas nos amamos muito mais. Jesus nos fala hoje de um novo mandamento, e continua sendo novo: desejar, querer, fazer o bem, simplesmente por ser bem.

Agora vem a pergunta: como é que Jesus nos amou? Vou lhes mostrar dois grandes sinais. Foi capaz de amar o inimigo, o que muito pouca gente consegue. Pouca gente é capaz de perdoar, de dizer um sim, de dizer que perdoa, que acolhe, que reconcilia com alguém que ofendeu ou por quem foi ofendido. Temos uma dificuldade imensa de reconciliação, de perdão, de acolhida. Ficamos ofendidos, viramos o rosto, ficamos meses e anos sem falar com uma pessoa, às vezes até com um irmão, com um filho, com o pai. Tantos são os casos de quem não chegou a amar nem como se ama a si mesmo! A gente sempre fala com a gente mesmo.

Falamos com nossos botões, nos aconselhamos com os travesseiros, ficamos um tempo enorme diante do espelho, e isso é bom. É sinal de que nos gostamos e se gostássemos dos outros como gostamos de nós mesmos, já seria ótimo. Jesus vai adiante e nos diz que devemos amar também aqueles que não gostam de nós. E como é difícil! Amar é um movimento de fora para dentro. Mas ainda vem o mais importante, e Ele vai insistir nesse ponto. Qual é a melhor coisa que temos, o nosso dom maior? Não pensem que é um carro, pois isso seríamos até capazes de dar para pagar o tratamento de um pai, de um filho. Um carro é coisa, e nós damos coisas de nós mesmos. Mas Jesus não nos deu coisas, mas a sua vida – o maior dom que temos. O infinito de que dispomos chama-se vida, e nós a gastamos a cada dia, a cada instante. Nós amamos aquelas pessoas com as quais gastamos o nosso tempo, o nosso corpo, o nosso olhar, a nossa saúde. Se quiserem saber se amam alguém, perguntem se essa pessoa ocupa algum espaço no grande mundo do afeto, do tempo, do olhar, do encontro. Se a resposta for negativa, é porque ainda não amamos como Jesus. Ele é inclusivo – inclui todas as pessoas. O evangelho dá exemplos fortes. Quando, na ceia, Judas sai para entregá-lo, poderíamos pensar que Ele estaria feliz, por ter saído o traidor. Mas um pouco mais tarde, Jesus vai se encontrar com Judas e o saúda: “Amigo, a que viestes?”. Não fazia política, pois não estava em campanha eleitoral. Diz amigo, porque na verdade assim sentia. Judas não era um peso para Ele. O outro podia rejeitá-lo, mas Ele não rejeitaria ninguém.

Essa ideia de não rejeitar ninguém, de acolher as pessoas, é muito difícil, mas é por aí que poderemos construir uma sociedade. Mas parece que não caminhamos nessa direção. As pessoas mais idosas como eu, conheceram Belo Horizonte, quando tinha duzentos, trezentos mil habitantes. Podíamos passear por todo o centro sem nenhum esquema de segurança e nunca víamos nenhum assalto, a não ser alguns ladrões de galinha. Tão diferente de hoje! Contra tudo isso, só temos uma alternativa: o perdão e a reconciliação. Não serão a polícia, o exército, o judiciário corrupto que poderão acabar com a violência. Ela terminará com o nosso trabalho ao cultivar desde as criancinhas. Que elas saibam brincar com seus coleguinhas diferentes, de raça diferente, de classe social diferente, de time diferente. Que saibam brincar e não brigar. Realmente, podemos criar esse convívio.
Ama quem deseja o bem pelo bem e pela pessoa, sem nenhum outro interesse. E ainda há o mais difícil: alegrar-se com o bem dos outros. Nós queremos que as pessoas sejam reflexos nossos e não que tenham luz própria. Os próprios pais temem que os filhos cresçam por eles mesmos, e o mesmo acontece com os professores em relação aos alunos. Ainda não aprendemos a amar a pessoa por ela mesma, a querer o bem por ele mesmo. Será que quando vejo um colega de trabalho sendo promovido, quando encontro alguém feliz não fico com dor-de-cotovelo? Será que me alegro com as alegrias dos outros? Sou capaz de chorar verdadeiramente com as lágrimas dos outros? É um pouco o que acontece com Maria. Ela não aparece nos momentos de glória de seu Filho, mas sim na cruz, vendo-o humilhado, desprezado. Se aprendermos a sorrir com os que sorriem, a chorar com os que choram, a se alegrar com os que se alegram, a se entristecer com os que se entristecem, partilhar e receber o que os outros nos propiciam, teremos entendido um pouquinho do evangelho de hoje. Jesus pede a cada um de nós esse esforço, mesmo que nunca cheguemos lá. É o horizonte para o qual caminharemos por toda a vida. “Nisso conhecereis que sois meus discípulos!”

Amém.

Confira a reflexão de Frei Gustavo Medella, OFM para este 5º domingo da Páscoa