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sexta-feira, 8 de abril de 2016

3º domingo da Páscoa

10_abril_ev-01
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 












1ª Leitura - At 5,27b-32.40b-41
Salmo - Sl 29,2.4.5-6.11.12a.13b(R.2a)
2ª Leitura -  - AP 5,11-14
Evangelho - Jo 21,1-19

A missão da comunidade

1 Jesus apareceu aos discípulos na margem do mar de Tiberíades. E apareceu deste modo: 2 Estavam juntos Simão Pedro, Tomé chamado Gêmeo, Natanael de Caná da Galiléia, os filhos de Zebedeu e outros dois discípulos de Jesus. 3 Simão Pedro disse: «Eu vou pescar.» Eles disseram: «Nós também vamos.» Saíram e entraram na barca. Mas naquela noite não pescaram nada.

4 Quando amanheceu, Jesus estava na margem. Mas os discípulos não sabiam que era Jesus. 5 Então Jesus disse: «Rapazes, vocês têm alguma coisa para comer?» Eles responderam: «Não.» 6 Então Jesus falou: «Joguem a rede do lado direito da barca, e vocês acharão peixe.» Eles jogaram a rede e não conseguiam puxá-la para fora, de tanto peixe que pegaram. 7 Então o discípulo que Jesus amava disse a Pedro: «É o Senhor.» Simão Pedro, ouvindo dizer que era o Senhor, vestiu a roupa, pois estava nu, e pulou dentro d’água.

8 Os outros discípulos foram na barca, que estava a uns cem metros da margem. Eles arrastavam a rede com os peixes. 9 Logo que pisaram em terra firme, viram um peixe na brasa e pão. 10 Jesus disse: «Tragam alguns peixes que vocês acabaram de pescar.» 11 Então Simão Pedro subiu na barca e arrastou a rede para a praia. Estava cheia de cento e cinqüenta e três peixes grandes. Apesar de tantos peixes, a rede não arrebentou.

12 Jesus disse para eles: «Vamos, comam.» Nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar quem era ele, pois sabiam que era o Senhor. 13 Jesus se aproximou, tomou o pão e distribuiu para eles. Fez a mesma coisa com o peixe.

14 Essa foi a terceira vez que Jesus, ressuscitado dos mortos, apareceu aos discípulos. * 15 Depois de comerem, Jesus perguntou a Simão Pedro: «Simão, filho de João, você me ama mais do que estes outros?» Pedro respondeu: «Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo.» Jesus disse: «Cuide dos meus cordeiros.» 16 Jesus perguntou de novo a Pedro: «Simão, filho de João, você me ama?» Pedro respondeu: «Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo.» Jesus disse: «Tome conta das minhas ovelhas.» 17 Pela terceira vez Jesus perguntou a Pedro: «Simão, filho de João, você me ama?» Então Pedro ficou triste, porque Jesus perguntou três vezes se ele o amava. Disse a Jesus: «Senhor, tu conheces tudo, e sabes que eu te amo.» Jesus disse: «Cuide das minhas ovelhas. 18 Eu garanto a você: quando você era mais moço, você colocava o cinto e ia para onde queria. Quando você ficar mais velho, estenderá as suas mãos, e outro colocará o cinto em você e o levará para onde você não quer ir.» 19 Jesus falou isso aludindo ao tipo de morte com que Pedro iria glorificar a Deus. E Jesus acrescentou: «Siga-me.»

O toque de Deus – Pe. João Batista Libânio, sj

Não pensem que esse evangelho é a história de alguém que estava lá, na Galiléia, é de todos nós que estamos aqui nesta igreja. Pensam que João escreveria alguma coisa passada, como se fosse uma aula de arqueologia, uma história como as que estudávamos quando crianças? Essas não nos interessam se não falam à nossa experiência. Vejamos a beleza do que João nos fala.

A morte de Jesus aconteceu em Jerusalém. Lá Ele foi crucificado e humilhado. Lucas faz Jesus aparecer ressuscitado somente em Jerusalém, enquanto João leva os apóstolos para a Galiléia, muito mais longe. Como não pode ter sido nos dois lugares, evidentemente, é simbólico. E por que João escolheu a Galiléia?

Tentei descobrir alguma coisa, mas como não consegui conversar com ele, pensei em duas razões, que espero sejam plausíveis. Suponhamos que dois jovens, dois esposos, de repente, têm uma ruptura violenta, como se acabasse o amor. Quantas vezes já vi isso entre vocês! A maioria afoga as mágoas entrando num quarto ou se enchendo de cerveja para tentar esquecer. Na dor, na morte, na fuga, sempre queremos esquecer. Será que os apóstolos também não quiseram esquecer? De noite, na fossa, sem Jesus, e como naquela época não existiam barzinhos, nem televisão, nem novelas, nem internet, nem celular, só puderam ir pescar. Afogam suas mágoas na pesca. Aí João continua, muito irônico: quando fazem isso, não pescam nada. Podem fugir, podem ligar televisão, internet, que nada preencherá seus corações. A mágoa, que é profunda, cresce, e o vazio aumenta. Quanto mais se foge, maior é o vazio. Cervejas só enchem o estômago e a cabeça, jamais o coração. Também os apóstolos não pescam nada. Quando fracassamos em alguma coisa, voltamos ao cotidiano. Já não vale mais a pena trabalhar, anunciar. Também os apóstolos desanimaram e resolveram pescar, apenas para distrair. Faltava o Mestre, aquele que era o centro da vida e do amor deles e só restou a noite. Impressionante, quando falta o amor, tudo é noite, e na noite, sem amor, só resta buscar distração. Voltamos ao cotidiano, onde nem tudo é cor-de-rosa. A dor e o sofrimento fazem parte da condição humana. No cotidiano está o fracasso: não pescaram nada, não passaram no vestibular, estão desempregados. São os momentos duros da vida.

Mas João não quer que eles cheguem ao desespero e coloca alguém de pé na margem. Mas eles viram e não reconheceram. Como podemos reconhecer Deus numa hora de fossa, de desespero? Nunca! Ele está de pé, olhando para você, que o olha e não o reconhece. Quando fracassamos, não reconhecemos o amor, tudo fica azedo. Também eles estavam azedos a ponto de, quando o Senhor pergunta se tinham algo para comer, rudemente responderem que não, um não frio e seco de quem não sente nada. Aí Ele fala: lancem novamente a rede do outro lado! Façam diferente, mas façam crendo, esperando. Coragem, jovem! Volte ao amor primeiro, reencontre as pessoas! Acontece a abundância, a rede volta cheia de peixes. É o toque de Deus que transforma a realidade! Do nada, aparecem 153 peixes grandes, e a rede, o amor, a experiência, a história não se rompem. O amor acorda! O amor de João, o amor do mais amado, que estava coberto de cinzas, é soprado pelo vento, a brasa se acende, e ele reconhece: Dominus est – “É o Senhor!”. Pedro não percebeu, mas João, o discípulo amado, sim.
Tudo se transforma. É o Senhor que nos anima, que nos joga pra frente sem nenhuma cobrança. Diz apenas: “Vinde comer!”. É bom saber que, para o judeu, comer junto é das coisas mais lindas que existe. Pena que nós estamos perdendo isso. Nossos encontros estão acabando. Mas Jesus continua convidando: vamos comer juntos, vamos lutar juntos! E aí ressuscita todo o amor.

Pensando uma outra versão, podemos ver que os apóstolos estão tristes, amargurados, mas voltam à Galiléia, porque foi lá que o Senhor os chamou, os escolheu. Eles querem voltar à origem do amor. É um grande conselho que dou a todos vocês: quando acabarem uma relação profunda, tentem voltar ao lugar de origem. Há coisas lindas na literatura, e eu quero citar um fato bem rápido de Exupéry, um grande escritor francês, que morreu ainda jovem, em um acidente no mar. Ele escreveu um livro que, na década de cinquenta, era lido por todos os jovens com um pouquinho de inteligência: “O pequeno príncipe”. Até hoje vale a pena lê-lo. Alguns anos mais tarde, encontrei um livro de um autor português, que continuou a história de Exupéry. Ele imaginou a coisa mais bonita que poderia imaginar. O personagem Antônio sai do fundo do mar, volta a Terra, mas invisível. Via, mas não era visto. O primeiro lugar que vai visitar é a escola de sua infância, onde reencontra os amiguinhos, os professores. Ninguém o via e ele via a todos. Que beleza de simbolismo! Ele recorda toda a sua vida e revive tudo interiormente.

Foi exatamente isso que os apóstolos fizeram: voltaram à sua escola primária, que era o lago de Genesaré, porque lá aquele Homem que estava de pé na margem tinha passado muitas vezes, chamado um por um. Também nós, quando perdemos um amor, voltamos às suas origens: uma praça, uma festa, uma música. Fechamos os olhos e revivemos. Isso é muito humano. Também os discípulos começam a recordar e reencontram o Senhor no coração, no afeto, na profundidade. É lindo demais! No momento em que o amor acorda, nasce a fé. Não existe fé sem amor. Quando o amor estiola, a fé desaparece. Ninguém perde a fé, perdemos o amor. Não temos fé quando não amamos. As pessoas que perdem o amor ficam sem graça. São mecânicas, calculistas, só pensam em si, nos próprios interesses. Calculam até que o seu namoro lhes custa três hambúrgueres por semana. Pensam que as pessoas são coisas e brincam com elas, porque não amam, não creem, não esperam. Quando os apóstolos acordaram para o amor, puderam dizer: “É o Senhor!”. Aí João continua brincando conosco e coloca Pedro como se estivesse no paraíso terrestre: nu, como Adão. Mas, como pecara, estava com vergonha e precisava se vestir para encontrar o Senhor, que despertou nele as negações. Ele estava nu, inocente no barco e, de repente, sente vergonha diante do Senhor.

Mas como todos os verdadeiros amores, Jesus faz a mesma coisa: não pensa na falha, não cobra, não relembra faltas passadas. O amor verdadeiro nunca faz isto: não cobra, não exige, não faz mercado, mas também não deixa passar. Traiu três vezes? Aí vêm as três perguntas: “Tu me amas mais que os outros?” – três vezes negando, três vezes amando. Se tratássemos as pessoas assim, como o mundo seria diferente! Se a cada vez que alguém nos fizesse algum mal, ao invés de criticar, de ficar azedo por um mês inteiro, lhe perguntássemos: mas você não me ama?, veríamos que o amor refaz tudo. Pedro apela para a coisa mais linda que existe: “Senhor, tu sabes tudo. Tu sabes que eu te amo!” Amém.