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sexta-feira, 1 de abril de 2016

2º domingo de Páscoa

3_abril_liturgia-01


































1ª Leitura - At 5,12-16
Salmo - Sl 117,2-4.22-24.25-27a(R.1)
2ª Leitura - Jo 1,9-11a.12-13.17-19
Evangelho - Jo 20,19-31

Jesus ressuscitado está vivo na comunidade

Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana,
estando fechadas, por medo dos judeus,
as portas do lugar onde os discípulos se encontravam,
Jesus entrou e pondo-se no meio deles,
disse: 'A paz esteja convosco'.
Depois destas palavras,
mostrou-lhes as mãos e o lado.
Então os discípulos se alegraram
por verem o Senhor.
Novamente, Jesus disse: 'A paz esteja convosco.
Como o Pai me enviou, também eu vos envio'.
E depois de ter dito isto,
soprou sobre eles e disse: 'Recebei o Espírito Santo.
A quem perdoardes os pecados
eles lhes serão perdoados;
a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos'.
Tomé, chamado Dídimo, que era um dos doze,
não estava com eles quando Jesus veio.
Os outros discípulos contaram-lhe depois:
'Vimos o Senhor!'. Mas Tomé disse-lhes:
'Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos,
se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos
e não puser a mão no seu lado, não acreditarei'.
Oito dias depois, encontravam-se os discípulos
novamente reunidos em casa, e Tomé estava com eles.
Estando fechadas as portas, Jesus entrou,
pôs-se no meio deles e disse: 'A paz esteja convosco'.
Depois disse a Tomé:
'Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos.
Estende a tua mão e coloca-a no meu lado.
E não sejas incrédulo, mas fiel'.
Tomé respondeu: 'Meu Senhor e meu Deus!'
Jesus lhe disse: 'Acreditaste, porque me viste?
Bem-aventurados os que creram sem terem visto!'
Jesus realizou muitos outros sinais
diante dos discípulos,
que não estão escritos neste livro.
Mas estes foram escritos para que acrediteis que
Jesus é o Cristo, o Filho de Deus,
e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome.
Palavra da Salvação.

A fé passa pela memória - Pe. João Batista Libânio, sj

É bonito o Evangelho de João! Esse homem é fascinante! Pensamos que literatura é uma coisa moderna, mas os antigos tinham muito mais profundidade literária do que as crônicas dos nossos jornais de hoje. Percebam o jogo de paradoxos! Paradoxos são duas coisas que parecem opostas, mas não são. João diz que os apóstolos estavam com as portas fechadas e, supostamente, também as janelas. É como se tudo estivesse fechado, e Jesus entrasse. Nas duas vezes, Ele entra quando tudo está fechado. Será que João falou isso para brincar conosco ou para nos mostrar alguma coisa mais profunda? Creio que ele quis nos dizer duas coisas. Em primeiro lugar, não é com os olhos que vamos acreditar em Jesus. Se Ele entrou com a porta fechada, é sinal de que não tinha o corpo como o nosso. Quando receberem uma visita, fechem a porta para ver se ela consegue entrar. Se entrar, certamente, levarão um susto.

Portanto, se Jesus entrou é porque o seu corpo era de um outro tipo. Não era um corpo para os olhos, pois Ele está aqui, e não o vemos. Ninguém tenha ilusões de espiritismo, de que os apóstolos viram Jesus com o seu corpo físico, que o agarraram ou o tocaram. Eles não viram Jesus com os olhos físicos. A presença de Jesus é de outro tipo, não precisa nem de portas nem de janelas, e João reafirma que elas estavam fechadas. Este é o grande desafio para nós, padres, monitores de crisma, e pais: como Jesus poderá entrar em corações que têm portas e janelas fechadas? João quer, de uma vez para sempre, tirar de nós essa ansiedade sensível. Precisamos dar um passo profundo para o mistério da fé, entrar num universo que ultrapassa os nossos sentidos, pois quem vive apenas com os cinco sentidos é animal. Nós vamos para além dos sentidos, pois não somos apenas animais. Quando digo isso, não estou me referindo a algo antigo, lá de Aristóteles ou de Platão, mas algo que hoje é altamente contestado por grandes biólogos da biotecnologia americana ou europeia, que querem reduzir o ser humano ao puro corpo, à pura máquina. Estou lendo um livro em que, no primeiro capítulo, o autor francês mostra que a cultura atual quer reduzir o homem a uma coisa só, e João vem dizer que nós somos seres que transcendem os sentidos, o corpo, as coisas, as máquinas. Já existem computadores, programas, que reagem e produzem o que não esperamos. Podemos até começar a imaginar que somos máquinas ou até inferiores a elas, mas um filósofo inteligente diz que o computador, a máquina, nunca tomará uma iniciativa sem que a tenhamos programado. Ela não dá um passo novo, enquanto uma criancinha pequena pode caminhar e escapar dos braços da mãe. O computador não escapa das nossas mãos, não sorri para nós, porque é máquina. João quer nos dizer que Jesus se mostrará através do mistério da fé.

A segunda ideia que me ocorre, ele coloca em duas passagens diferentes. Na primeira, Tomé estava presente, e na segunda, não. Vou usar uma ficção, que talvez seja mais profunda, para que possamos entender. Imaginemos que, na primeira aparição, Tomé estava presente. Jesus aparece, e ele não o vê, ao contrário de todos os outros. É como se Tomé estivesse fora. Aqui, nesta igreja, pode haver pessoas que estão totalmente alheias a Jesus. É o Tomé que não viu, pois a eucaristia é a mesma, o altar é o mesmo, a palavra que ouviram é a mesma. De repente, uns ouvem e outros não. Tomé não é quem está fora física e geograficamente, mas quem não tem o mínimo de fé para captar a presença do Senhor. É aquele que fechou as janelas e as portas. Como o Senhor pode entrar, se fechamos as portas e janelas? É Jesus quem explica como Ele entra. Reparem que Ele mostrou a mão e o lado. Com as mãos, nós trabalhamos, construímos as coisas, escrevemos, costuramos, cozinhamos. Pelas mãos do Senhor, Tomé, que não acreditava, começou acreditar, pois somente percorrendo o histórico, o passado de Jesus, rememorando o que Ele fez, nós poderemos crer. Quantas vezes Jesus some de nossas vidas?! Quantas vezes entramos em dúvidas de fé, não acreditamos mais em Deus e em nada? As nossas portas se fecham. É hora de olhar as mãos de Jesus, recordar tudo o que Ele fez por nós. Num primeiro momento, Tomé não acreditou, porque não pensou, não recordou do Senhor, não se lembrou das maravilhas que Jesus tinha feito na sua vida e na vida de tantos. Ele não acreditou e disse que era preciso colocar as mãos. Também nós só acreditaremos de verdade, quando percorrermos o evangelho e a nossa própria vida, percebendo as maravilhas que o Senhor nos fez e que também outros fizeram em nós. Só assim acreditaremos! Não será olhando ou farejando caninamente, mas recordando com a memória, que é a grande faculdade que toma conta do passado, trazendo-o para o presente e despertando a fé. Não crê quem é surdo, quem é cego, quem é desmemoriado. O animal não tem memória, anão ser sensitiva. Nós podemos recordar todas as bondades que recebemos, o amor de nossos pais, dos parentes, dos amigos, de todos que nos acompanharam e foram importantes em nossa vida, todas as experiências espirituais que tivemos, todas as celebrações que nos tocaram, todas as vezes que nos aproximamos do mistério do Senhor. Tudo isso desperta a nossa fé. Sem memória das experiências, nós abandonamos tudo.

Na minha análise, que pode estar errada, uma das razões de ser tão difícil para a juventude crer, é que o jovem de hoje não tem memória. Precisamos recuperar a história, pois só assim poderemos crer. Como poderemos confiar no Brasil, se apenas tivermos o presente, se não soubermos mais quem foi Tiradentes, como foi a libertação dos escravos? Como vamos acreditar, se olharmos só o presente cheio de corrupção, de deputados venais? Precisamos voltar à nossa história, assim como Tomé recuperou a história de Jesus para crer.

Jesus também mostrou o lado. Qualquer criança, quando desenha o amor, faz o coração. Já é um arquétipo profundo do ser humano. Esse orgãozinho, que é um simples músculo pequeno - mas que se para é terrível – é símbolo de todo o nosso mundo afetivo, de toda bondade e dedicação. Tomé não foi capaz, num primeiro momento, de recuperar o afeto, o amor e, por isso, não acreditou. Quem não tem memória para os amores, torna-se um monstro. Há tantos assassinos, tantos assaltantes, porque eles não têm nenhuma memória do amor, não sabem o que é ser amado. Se olharmos para suas vidas, veremos que têm a profundidade de uma quadra de basquete: só cimento em que nenhuma água penetra, apenas bate, escorre e seca. Não são capazes de descobrir alguma raiz, alguma mina de água bonita que brote transparente, fresca e nova. Em seu Evangelho, João se derrama para falar do amor do Senhor: “amou-nos até o extremo”, “ninguém tem maior amor do que quem dá a vida pelos seus”. Ele usa mais de quatro capítulos de seu evangelho para falar do amor de Jesus, para nos dizer que, se não acreditamos, é porque não sentimos o seu amor. Quando não percebemos o amor, começamos a duvidar. Não vamos perceber com os olhos, mas com a fé. Recordaremos do Senhor e de tantas pessoas maravilhosas que, às vezes, temos a graça de encontrar, ainda que seja de raspão. Ninguém sai imune de uma experiência de amor! É a única experiência que nos transforma profundamente. São as grandes dores e os grandes amores que transformam o nosso coração e também o mundo. Os apóstolos tiveram o grande amor de Jesus e viram também a sua grande dor. Também Tomé fez a recordação dos amores de Jesus, acreditou e pôde dizer: “meu Senhor e meu Deus!”.

Se quisermos ser humanos, ser cristãos, ser cidadãos, necessitamos recuperar todas as ações do passado que nos ajudem a crer nesta humanidade, porque o presente muitas vezes nos leva ao descrédito e à desesperança. Só a história nos mostra que é possível recarregar-se de esperança a cada momento, lançando-nos, do passado e do presente, para o futuro, e assim construiremos um Brasil, uma Igreja melhores.

Pe. João Batista Libânio, sj - Um outro olhar, vol. 8

Confira a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM para este 2º domingo da Páscoa: