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sexta-feira, 29 de abril de 2016

Caminhos do Evangelho - 6º Domingo da Páscoa

6º domingo da Páscoa

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Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos:
'Se alguém me ama,
guardará a minha palavra,
e o meu Pai o amará,
e nós viremos e faremos nele a nossa morada.
Quem não me ama,
não guarda a minha palavra.
E a palavra que escutais não é minha,
mas do Pai que me enviou.
Isso é o que vos disse enquanto estava convosco.
Mas o Defensor, o Espírito Santo,
que o Pai enviará em meu nome,
ele vos ensinará tudo
e vos recordará tudo o que eu vos tenho dito.
Deixo-vos a paz,
a minha paz vos dou;
mas não a dou como o mundo.
Não se perturbe nem se intimide o vosso coração.
Ouvistes que eu vos disse:
'Vou, mas voltarei a vós`.
Se me amásseis,
ficaríeis alegres porque vou para o Pai,
pois o Pai é maior do que eu.
Disse-vos isto, agora,
antes que aconteça,
para que, quando acontecer,
vós acrediteis.
Palavra da Salvação.

A força heurística da palavra – Pe. João Batista Libânio, sj

Esse evangelho vem a calhar para a festa que comemoraremos na semana que vem, que é o dia das mães. São duas realidades que se cruzam, como se o evangelho tivesse sido escolhido de propósito. É quase como uma mãe dizendo a seu filho: “Filho, se você me ama, guarde a minha palavra!”. Quando o filho ouve isso de sua mãe, entende que é uma palavra falada que vem sendo sussurrada nos seus ouvidos desde pequenino. A criança vai crescendo, embebendo-se, vestindo-se de palavras, que é a maneira como nós, seres humanos, nos comunicamos. Vivemos no mundo dos símbolos, e o mais perfeito que o ser humano criou foi este que estou usando agora: a palavra.

Se trago uma rosa, posso ser interpretado de muitas maneiras: um vai achar que ela é bonita, outro dirá que é perfumada, ainda outro verá os espinhos que picam o nosso dedo e que ainda poderão simbolizar as alegrias e dificuldades que cercam os nossos amores. Enfim, quando coloco um símbolo não falado, ele permite uma quantidade enorme de sentidos, que poderão até nos desnortear, enquanto a palavra vai carreando esse sentido numa certa direção. A palavra limpa os sinais. Se pouparmos as palavras, nossa vida será ambígua. Ela ilumina as realidades, para que comecemos a ver. Falo muito para os jovens que, se eles não se falarem durante o namoro, poderão se enganar muito. A palavra vai fechando e concretizando o sentido dos gestos, pois eles são ambíguos e enganadores. Judas beijou Jesus, Maria também – dois beijos, duas infinitas distâncias!

A palavra é uma das coisas mais lindas que a inteligência humana criou. Nenhum animal tem palavra, nem mesmo o papagaio, que apenas repete sons que ouve. As mães começam a conversar com os filhos pequenos através de símbolos: abraços, beijos, dar de mamar. Não usam palavras, porque a criança não fala e não entende, mas entende os gestos, que devem ser revestidos pela palavra, para que mostrem seu verdadeiro sentido.

Freud, o pai da psicanálise, disse que, muitas vezes, estamos amarrados com os nossos problemas, mas, no momento em que conseguimos falar deles, começamos a desvendá-los. A palavra tem uma força heurística, que arranca a verdade de dentro. Heurística é a descoberta. A palavra faz com que descubramos o afeto, a verdade, o bem, os valores – “quem ama, segue as minhas palavras!”. Mas precisamos de dois outros verbos: entender e recordar. Peço licença a São João para inverter, colocando primeiro o recordar e só depois o entender. Vamos voltar um pouquinho à nossa etimologia: re + cor + ação – re: de novo; cor: coração, ação – a recordação coloca o coração em movimento para recuperar o passado.

Que coisa bonita! Olhem para a mãe de vocês: tem vinte, trinta, oitenta anos de história. Quanta coisa para recordar?! Imaginem a capacidade de uma criança recordar o afeto, o amor. Portanto, esse recordar é colocar o coração em ação, para só depois entender.

Parece que Jesus tomou essa metáfora, pois Ele também foi criança. Primeiro, aprendeu os sinais e, só depois, as palavras. Foi tecendo dentro de si aquilo que mais tarde pregaria. Hoje Ele nos diz que aquele que o ama, segue a sua palavra. Em grego, essa palavra é logos e, no princípio do evangelho, João nos diz que a Palavra estava em Deus. Jesus diz que aquele que ouve a Palavra, no fundo, ouve a pessoa dele, pois Ele é a Palavra do Pai – “a Palavra estava em Deus, a Palavra era Deus!”.

Quando se refere à Palavra, Jesus está falando de sua história, de sua vida, não de palavras faladas, discursos, sermões, homilias, mas a palavra vivida. Logos diz tanto da palavra falada quanto da entendida. Portanto, ouvir, seguir a palavra do Senhor é seguir o seu exemplo, é ver-lhe as ações – como age, como atua, como trabalha, como gesticula, como acolhe, como perdoa – tudo isso são palavras, porque Ele é a Palavra. Os filhos aprendem muito mais de suas mães através de seus silêncios, dos gestos, do seu estar, de sua dedicação, de seu amor, de sua preocupação.

Aprofundando um pouco mais, veremos que a palavra mais usada hoje é cuidado. Estamos trabalhando muito a ética do cuidado, e gostaria de chamar muito a atenção para isso. Só melhoraremos a sociedade, só construiremos uma comunidade diferente, só conviveremos melhor, se realmente começarmos a colocar dentro de nós a preocupação de bem cuidar das pessoas, desde as mais próximas de nós – esposos, filhos, aqueles que trabalham para nós e conosco, qualquer pessoa que encontrarmos, sem distinção de classe, raça, cor, religião, ou qualquer outra marca extrínseca. Qualquer um merece, por ser pessoa humana, por ter uma dignidade infinita.

Tenho insistido muito nisto: o primeiro cuidado vem do olhar, porque não estamos acostumados a olhar. Reparem bem se vocês olham para quem encontram na rua. Ninguém olha para ninguém. Talvez por medo. Enchemos nossa cabeça de porcarias, e nossos olhos ficam emporcados. Por isso, não conseguimos olhar as pessoas com serenidade, beleza e tranquilidade. Esse é o primeiro cuidado, principalmente, para com as crianças. O olhar humano é a maneira que Deus tem para nos olhar. Ele não tem olhos, já pensaram nisso?

E hoje Jesus também não tem olhos. O corpo glorioso não tem olhos, pois eles são só da Terra. Aproveitem para olhar agora, porque nunca mais olharão. Na eternidade, a maneira de conhecer será outra, nunca pelos olhos. Os olhos são só para a Terra, e é na Terra que precisamos olhar, cobrindo as pessoas com os nossos olhares. A mãe é a primeira escola do olhar de carinho, de amor, pois é ela que vai criando, estruturando a criança por dentro através do olhar.

Certa vez citei uma psicanalista, ela me disse algo que me marcou muito: da mãe, olhando para a criança pequenina de meses, que também olha para a mãe. Aquele cruzar de olhares, parados um no outro, faz com que a criança comece a se encontrar e criar sua identidade por dentro. O olhar da mãe acorda o espírito da criança. Ela não é animal! Se um cachorrinho fica feliz com um olhar carinhoso do seu dono, muito mais a criança, porque dentro daquele pequenino ser corpóreo há um espírito infinito aberto para a transcendência. A criança é o infinito, e o olhar da mãe consegue rasgar-lhe os véus, para que comece a perceber que existe uma realidade maior. O carinho, o amor da mãe lhe abre, para que um dia encontre o amor do grande pai e da grande mãe, que é Deus.
João ainda nos diz uma última coisinha: “eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz! Não a dou como o mundo a dá”. É uma frase que nos deixa preocupados. É claro que, para João, mundo não é essa realidade que vivemos. Ele quer falar da falácia, do engodo, da mentira, daqueles que querem nos transmitir uma paz mentirosa, que nos dizem que seremos felizes usando roupas de grife, bebendo determinado refrigerante, vestindo uma calça jeans, indo ao McDonalds. Vem Jesus e diz que não é essa a paz que Ele nos dá. Essa paz é aparente, é fútil, é vazia. A sua paz é duradoura e definitiva, e só se encontra e se completa no amor. Dizem que há um jogo entre a paz e o amor, em que um quer fecundar o outro. Só conseguiremos construir a paz, se ela nascer de dentro de nós, tornando-nos conciliados com os outros. Se vivermos isso, criaremos a paz, a paz que o Senhor nos trouxe. Amém.

Santo do dia: Santa Catarina de Sena

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Catarina era apenas uma irmã leiga da Ordem Terceira Dominicana. Mesmo analfabeta, talvez tenha sido a figura feminina mais impressionante do cristianismo do segundo milênio. Nasceu em 25 de março de 1347, em Sena, na Itália. Seus pais eram muito pobres e ela era uma dos vinte e cinco filhos do casal. Fica fácil imaginar a infância conturbada que Catarina teve. Além de não poder estudar, cresceu franzina, fraca e viveu sempre doente. Mas, mesmo que não fosse assim tão debilitada, certamente a sua missão apostólica a teria fragilizado. Carregava no corpo os estigmas da Paixão de Cristo.

Desejando seguir o caminho da perfeição, aos sete anos de idade consagrou sua virgindade a Deus. Tinha visões durante as orações contemplativas e fazia rigorosas penitências, mesmo contra a oposição familiar. Aos quinze anos, Catarina ingressou na Ordem Terceira de São Domingos. Durante as orações contemplativas, envolvia-se em êxtase, de tal forma que só esse fato possibilitou que convertesse centenas de almas durante a juventude. Já adulta e atuante, começou por ditar cartas ao povo, orientando suas atitudes, convocando para a caridade, o entendimento e a paz. Foi então que enfrentou a primeira dificuldade que muitos achariam impossível de ser vencida: o cisma católico.

Dois papas disputavam o trono de Pedro, dividindo a Igreja e fazendo sofrer a população católica em todo o mundo. Ela viajou por toda a Itália e outros países, ditou cartas a reis, príncipes e governantes católicos, cardeais e bispos, e conseguiu que o papa legítimo, Urbano VI, retomasse sua posição e voltasse para Roma. Fazia setenta anos que o papado estava em Avignon e não em Roma, e a Cúria sofria influências francesas.

Outra dificuldade, intransponível para muitos, que enfrentou serenamente e com firmeza, foi a peste, que matou pelo menos um terço da população européia. Ela tanto lutou pelos doentes, tantos curou com as próprias mãos e orações, que converteu mais algumas centenas de pagãos. Suas atitudes não deixaram de causar perplexidade em seus contemporâneos. Estava à frente, muitos séculos, dos padrões de sua época, quando a participação da mulher na Igreja era quase nula ou inexistente.

Em meio a tudo isso, deixou obras literárias ditadas e editadas de alto valor histórico, místico e religioso, como o livro "Diálogo sobre a Divina Providência", lido, estudado e respeitado até hoje. Catarina de Sena morreu no dia 29 de abril de 1380, após sofrer um derrame aos trinta e três anos de idade. Sua cabeça está em Sena, onde se mantém sua casa, e seu corpo está em Roma, na Igreja de Santa Maria Sopra Minerva. Foi declarada "doutora da Igreja" pelo papa Paulo VI em 1970.

Fonte: Paulinas

Abraça Jesus crucificado, amante e amado (das Cartas de Santa Catarina de Sena)

"Querida irmã em Jesus. Eu, Catarina, serva dos servos de Jesus, escrevo-te no seu precioso sangue, desejosa que te alimentes do amor de Deus e que dele te nutras, como do seio de uma doce mãe. Ninguém, de fato, pode viver sem este leite!

Quem possui o amor de Deus, nele encontra tanta alegria que cada amargura se transforma em doçura e cada grande peso se torna leve. E isto não nos deve surpreender porque, vivendo na caridade, vive-se em Deus:

“Deus é amor; quem permanece no amor habita em Deus e Deus habita nele”.

Vivendo em Deus, por conseguinte, não se pode ter amargura alguma porque Deus é delícia, doçura e alegria infinita!

É esta a razão pela qual os amigos de Deus são sempre felizes! Mesmo se doentes, necessitados, aflitos, atribulados, perseguidos, nós estamos alegres.

Mesmo quando todas as línguas caluniosas nos metessem em má luz, não nos preocuparemos, mas nos alegraremos com tudo porque vivemos em Deus, nosso repouso, e saboreamos o leite do seu amor. Como a criança suga o leite do seio da mãe assim nós, inamorados de Deus, atingimos o amor de Jesus Crucificado, seguindo sempre as suas pegadas e caminhando com ele pelo caminho das humilhações, das penas e das injúrias.

Não procuramos a alegria se não em Jesus e fugimos de toda a glória que não seja aquela da cruz.

Abraça, portanto, Jesus Crucificado elevando a ele o olhar do teu desejo! Toma em consideração o seu amor ardente por ti, que levou Jesus a derramar sangue de todas as partes do seu corpo!

Abraça Jesus Crucificado, amante e amado e nele encontrarás a verdadeira vida, porque ele é Deus que se fez homem. Que o teu coração e a tua alma ardam pelo fogo do amor do qual foi coberto Jesus cravado na cruz!

Tu deves, portanto, tornar-te amor, olhando para o amor de Deus, que tanto te amou, não porque te devesse obrigação alguma, mas por um puro dom, impelido somente pelo seu inefável amor.

Não terás outro desejo para além daquele de seguir Jesus! E, como que inebriada do Amor, não farás caso se te encontras só ou acompanhada: não te preocuparás com tantas coisas mas somente de encontrar Jesus e segui-lo!

Corre, Bartolomea, e não estejas a dormir, porque o tempo corre e não espera nem um momento!
Permanece no doce amor de Deus.

Doce Jesus, amor Jesus."

(Carta n.165 a Bartolomea, esposa de Salviato da Lucca)

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Ser cristão é ajudar o próximo

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Cada homem pode «tornar-se o próximo de quem se encontra em necessidade», contanto que no coração haja «compaixão, isto é, a capacidade de sofrer com o outro». É uma certeza consoladora a que o Papa Francisco tirou da releitura da parábola do bom samaritano, durante a Audiência Geral de quarta-feira, 27 de abril. Prosseguindo com os fiéis presentes na praça de São Pedro as catequeses sobre o tema da misericórdia ligado ao jubileu extraordinário, o Pontífice ofereceu uma reflexão sobre a atualidade do famoso trecho evangélico de Lucas (10, 25-37).

Francisco recordou que «ele põe em cena um sacerdote, um levita e um samaritano». E se «os dois primeiros são personagens ligados ao culto do templo, o terceiro é um judeu cismático, considerado um estrangeiro impuro». Mas quando «o sacerdote e o levita encontram o moribundo», mesmo se «a lei do Senhor em situações semelhantes» previa «a obrigação de o socorrer», ambos «passam além. Estavam – comentou o Papa com uma das suas características observações improvisadas – com pressa.... O sacerdote, talvez, tenha olhado para o relógio e dito: “Mas, chego tarde à missa”. E o outro disse: “Mas, não sei se a lei me permite”».

E aqui a parábola, esclareceu Francisco, «oferece um primeiro ensinamento»: isto é, que «não é automático que quem frequenta a casa de Deus e conhece a sua misericórdia saiba amar o próximo. Podes conhecer a Bíblia inteira, todas as rubricas litúrgicas, toda a teologia, mas do conhecer o amar não é automático». Com efeito, acrescentou o Pontífice, «não existe culto verdadeiro se não se traduzir em serviço ao próximo. Nunca esqueçamos: diante do sofrimento de tantas pessoas esgotadas pela fome, pela violência e injustiças – recomendou – não podemos permanecer espectadores». De resto, «ignorar o sofrimento do homem, significa ignorar Deus. Se não me aproximo de um homem, de uma mulher, de uma criança, de um idoso ou idosa que sofre, não me aproximo de Deus».

Mas o verdadeiro «centro da parábola», prosseguiu o Pontífice, é «o samaritano, sobre o qual ninguém teria apostado algo e que contudo também tinha os seus compromissos, quando viu o homem ferido». E no entanto, ele «não passou além como fizeram os outros dois» mas «teve compaixão» do desventurado. Eis então «a diferença. Os outros dois “viram” mas os seus corações permaneceram fechados, frios. Pelo contrário, o coração do samaritano estava sintonizado com o coração de Deus. De fato, a “compaixão” é uma característica essencial da misericórdia de Deus», que «sofre conosco», sente «os nossos sofrimentos». Por isso, «nos gestos e ações do bom samaritano reconhecemos a ação misericordiosa de Deus. É a mesma compaixão com a qual o Senhor vem ter com cada um de nós: Ele não nos ignora, conhece as nossas dores, sabe quanto precisamos de ajuda e de consolação». 

Portanto, com Jesus dá-se uma viragem das perspetivas humanas. «No início da parábola – observou Francisco – para o sacerdote e o levita o próximo era o moribundo; no final o próximo é o samaritano que se aproximou». Consequentemente, concluiu, a «parábola é um dom maravilhoso para todos» mas «também um compromisso. 
Estamos chamados a percorrer o mesmo caminho do bom samaritano, que é figura de Cristo: Jesus inclinou-se sobre nós, fez-se nosso servo, e assim salvou-nos, para que também nós possamos amar-nos como ele nos amou».

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Afogando-se num pires

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Crônica de Martha Medeiros

A vida não é bolinho, quem não sabe? Mas é impressionante a quantidade de pessoas que consegue complicá-la ainda mais. Acreditam que só as grandes tragédias geram consequências, sem perceber que as pequenas bobeadas é que nos desgastam. Nem se dão conta da quantidade de facilitações que poderiam aplicar no dia a dia, tornando a vida bem mais producente.

Exemplos, exemplos.

Ligar-se minimamente num troço chamado relógio, pra começar. Se você tem hora marcada para uma consulta, hora marcada para fazer uma prova, hora marcada para estar no aeroporto, qual é a dificuldade de planejar o tempo que vai levar até lá? Basta de colocar a culpa no trânsito. É claro que você pode prever se vai levar meia hora ou 50 minutos para deslocar-se – o pior que pode acontecer é chegar antes, e aí nada como ter um livrinho à mão enquanto aguarda (já dizia Gabriel García Márquez: se cada um levasse um livro dentro da mochila, o mundo seria bem melhor).

As pessoas se afogam num pires. Por uma coisinha à toa se exaltam, começam discussões, perdem a paciência, ficam mal-humoradas. A maior parte delas poderia simplificar suas vidas, mas são especialistas em se atrapalhar, e transformam essas pequenas atrapalhações em crises existenciais. Ó, nada dá certo pra mim. Coitada.
Se alguém tem que ir até um endereço que não conhece, é tão fácil consultar o Google Maps antes de sair. No caso de gamar por uma blusa na vitrine, seria prudente saber se o saldo no banco comporta essa compra extra. Se a última garrafa de água mineral já está quase no fim, não custa passar num mercadinho e renovar o estoque pra não ser surpreendida por uma sede absurda no meio da noite. Se foi convidada para um festão na sexta-feira, não convém chegar ao cabeleireiro sem hora marcada. Se ofendeu um amigo, melhor pedir desculpas antes que se transforme numa mágoa séria. Se o filho tem dificuldades na escola, não esperar o último mês do ano letivo para tomar providências. Planejou uma viagem ao exterior? Confira o prazo de validade do passaporte (não no dia do embarque, gênio). Se o seu santo não cruza com o de um fulano, para que aceitar o convite para sentar à mesma mesa que ele? Se agendou uma entrevista de emprego, confira antes se sua camisa está limpa e passada. Marcou um  compromisso para às 16h, não marque outro para às 17h no outro lado da cidade. Se está em guerra com a balança, ok, é difícil perder peso, mas continuar comendo uma caixa de bombons todas as noites não vai produzir milagres. É claro que sua cunhada vai se chatear se você expuser na sala as fotos do seu irmão com a ex-mulher dele. Pô.

Você deve ter lembrado de mais uns 200 exemplos da série “se posso complicar, por que facilitar?”. São essas pequenas besteirinhas do cotidiano que, mal administradas, fazem com que nosso dia seja mais encrencado que o dos demais, mas quem vai se dignar a planejar um dia satisfatório se a ordem é deixar rolar?

E lá vai você rolando para dentro do pires, se afogando numa pocinha de nada.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Fé e superação na Caminhada Franciscana em Bauru

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Érika Augusto

O feriado de 21 de abril amanheceu diferente em Bauru. Logo cedo, às 6h30, um ônibus vindo de São Paulo era o prenúncio de que a rotina da cidade mudaria pelos próximos dias. Assim foi a movimentação durante toda a manhã na Paróquia Santo Antônio. Ônibus vindos de São Paulo e Sorocaba (SP), Concórdia, Gaspar, Florianópolis, Santo Amaro da Imperatriz e Lages (SC), Nilópolis e Petrópolis (RJ), Curitiba e Chopinzinho (PR), frades e leigos da Custódia Franciscana do Sagrado Coração de Jesus, além dos participantes de Bauru e Agudos.
A animação ficou por conta dos jovens da paróquia, com muita música e brincadeiras, enquanto outros cuidavam da cozinha, para preparar café da manhã e almoço para as mais de 270 pessoas presentes. Frei Ademir Sanquetti, recém chegado na Paróquia, e Frei Guimarães deram as boas-vindas e deixaram todos muito à vontade.

Após o almoço, todos se reuniram na igreja para as primeiras instruções sobre a caminhada. O tema escolhido para esta caminhada foi “Redescobrindo o rosto misericordioso do Pai”. Ir. Inês, Franciscana de Ingolstadt, deu algumas luzes aos jovens, falando da passagem evangélica do Pai misericordioso. A religiosa fez um apelo aos participantes para que pudessem olhar para o outro e perceber o que ele está necessitando – na família, no trabalho, e também nestes próximos dias de caminhada.

No primeiro dia, o itinerário era curto, até a Paróquia Santa Clara, em Bauru. Os jovens percorreram 4,5 km até chegar ao destino final, onde foram recebidos com muita euforia, cantos de louvor e um lanche. Ali aconteceu a primeira missa, presidida pelo pároco, Frei Alessandro Dias do Nascimento e concelebrada por Frei Diego Melo e Frei Edvaldo Batista, ambos do SAV (Serviço de Animação Vocacional). A igreja estava repleta de fiéis, que se uniram aos peregrinos para celebrarem a Eucaristia.

Em sua homilia, Frei Alessandro falou a respeito da liberdade e do seguimento a Jesus Cristo. Os jovens, vindos de diversas realidades, foram questionados a respeito de sua decisão para participar da Caminhada. “Vivemos num mundo que valoriza o tempo de produção, o individualismo, não temos tempo para nós, para os amigos, para Deus”, dizendo que esta lógica atinge ainda mais os jovens que estão começando suas vidas de trabalho e estudo. “A juventude é chamada  para um modo de vida insustentável, que segue a tendência da moda, sendo escravos do consumismo”, afirmou. E disse que o convite de Jesus rompe as barreiras do individualismo, chamando os cristãos a colocar a vida a favor do outro. “Descobrimos a felicidade quando encontramos o Ressuscitado”, disse. E motivou os jovens a buscarem a verdadeira liberdade dos que se colocam a serviço de Deus.

Em seguida, os jovens receberam das mãos dos acólitos corações com um Tau e a inscrição Paz e Bem. Frei Diego Melo agradeceu pela acolhida e pela dedicação da comunidade com este gesto carinhoso dos corações, que foram feitos a mão. “Deus também trabalha artesanalmente”, concluiu.
Após o jantar, os jovens foram acolhidos nas casas dos paroquianos, onde puderam descansar para a continuação da Caminhada Franciscana.

De Bauru a Piratininga – 15 km rumo ao Mosteiro das Concepcionistas

A lua brilhava no céu quando os primeiros jovens foram chegando à Paróquia Santa Clara. Às 4h30 a procissão luminosa saiu, rumo a Piratininga, a 15 km de distância. No caminho, muitos voluntários ajudando, oferecendo água, frutas, carro para apoio dos que precisassem. A cidade dormia enquanto os peregrinos passavam rezando o terço e cantando. Numa esquina, eles foram surpreendidos com uma casa iluminada, com os dizeres: “Quem tem fé vai a pé”, e as janelas abertas. Numa delas estava a Dona Maria José, acamada, ao lado de uma enfermeira. Ela acenava com alegria para os jovens, que emocionados, pararam em frente à sua casa para rezar e pedir a Deus por sua saúde.

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O sol já estava a pino quando os jovens chegaram ao Mosteiro Imaculada Conceição e São José, na cidade de Piratininga. Muitos jovens nunca tinham entrado num mosteiro, e foram impactados ao entrar na humilde e bela igreja ao som do canto das religiosas enclausuradas.

A abadessa, Ir. Inês Maria, acolheu a todos com muita alegria. Apoiada em uma bengala, aos 63 anos, a religiosa brincou que a bengala era mais pelos problemas do corpo que pela idade, e disse da alegria que as irmãs estavam ao acolher tanta gente, feito inédito para elas. Frei Diego agradeceu e disse do grande significado de chegarem numa igreja que estava em construção, sobretudo para os que vivem a espiritualidade franciscana, que é o caso das irmãs e dos frades.

Os peregrinos então foram surpreendidos com um bonito gesto: os religiosos e religiosas presentes iniciaram o lava-pés dos jovens. “Deixar-se cuidar é expressão do amor”, afirmou Frei Diego. Os pés sujos e cansados da longa caminhada receberam água fresca e um beijo, simbolizando o serviço ao próximo. Alguns jovens também se sentiram motivados a lavar os pés dos companheiros, e em seguida dos religiosos.

Momento de escuta e partilha com Ir. Francisca Letícia

Após o almoço e um merecido descanso, os jovens puderam ouvir a partilha de Ir. Francisca Letícia sobre a vida monástica. A religiosa falou sobre Santa Beatriz da Silva, a fundadora da Ordem da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria e da ligação entre as religiosas e a Ordem dos Frades Menores. “O que os frades defendiam nos púlpitos, as Concepcionistas tornavam Projeto de Vida”, afirmou. Ir. Letícia disse que enquanto os jovens caminhavam, as religiosas rezavam, pedindo por eles e para que eles pudessem ter um encontro especial com Deus ao longo da experiência.

A religiosa contou de sua história vocacional e de sua decisão de entrar no mosteiro. Os jovens fizeram muitas perguntas a respeito da vida dentro da clausura. Ir. Francisca Letícia contou que sua inspiração veio de Santa Teresinha, que é padroeira das missões, mesmo sem nunca ter saído do convento. “Descobri que na oração poderia ajudar muito mais pessoas”, afirmou a religiosa, que quando jovem ajudava na Pastoral de Rua em Jaú.
A religiosa concluiu a sua fala fazendo um apelo aos jovens. “Abracem a cruz, e não a arrastem”, pediu.

No final da tarde, todos foram convidados para a Celebração Eucarística, animada pelas religiosas e pela equipe de liturgia que colabora no mosteiro. No Ato Penitencial, Ir. Francisca Beatriz convidou os presentes para contemplarem os pôsteres que estavam ao lado do presbitério. A religiosa falou da importância de restaurar a imagem de Deus em cada um. “Vá em busca da face misericordiosa de Deus. Apesar das limitações humanas, enquanto houver fé e disposição, a graça nos transforma”, afirmou.

Os jovens escolheram qual imagem mais chamava a atenção, do Bom Pastor ou do Pai Misericordioso acolhendo o Filho Pródigo. Atrás de cada pôster havia um espelho, para que eles pudessem olhar para o outro Cristo, que está dentro de cada ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus. “Esquecemos que há outro rosto sagrado, o do ser humano, o nosso. Deus sofre por nos ver sofrer, quando olhamos no espelho e não reconhecemos em nós a imagem e semelhança Dele”, disse Frei Diego.

A homilia ficou por conta do frade recém-chegado ao SAV, o diácono Frei Edvaldo Batista. “Jesus desperta nos discípulos o amor que havia se apagado após a crucificação”. O Evangelho do dia era muito propício para a Caminhada: Jesus se apresentando como caminho, verdade e vida. “Jesus não é o caminho dentro de outros caminhos, ele é O Caminho! É único, que nos traz a autêntica felicidade”, concluiu o frade.

Após o jantar, outras famílias se dispuseram a acolher os jovens em suas casas. A hospedagem foi curta: às 2h da madrugada já estavam todos reunidos para o último percurso da Caminhada Franciscana: mais 25 km até o Seminário Santo Antônio, em Agudos.

O relógio marcava 2h30 quando a oração começou. Não só os jovens e as famílias madrugaram, as irmãs também acordaram mais cedo que de costume, para partilhar com os jovens um pouco de sua rotina de oração. Todos rezaram a liturgia das horas, conduzida pelas religiosas, e assim buscaram forças para o início do terceiro dia de caminhada.

Mais uma noite de procissão luminosa, dessa vez pela cidade de Piratininga. Orações e cantos espantaram o sono e o cansaço. Os voluntários acompanhavam atentamente, oferecendo ajuda, água e frutas para os peregrinos. O dia estava raiando quando os jovens fizeram a primeira parada. Uma pausa para tomar café, descansar, alongar e ir ao banheiro. Ainda faltava muito para o ponto de chegada, e o sol logo começaria a tornar o caminho mais difícil.

Às 9h15 os jovens avistaram as torres da Paróquia São Paulo Apóstolo, em Agudos. Muita festa do lado de fora e de dentro da igreja. Frei Sílvio Trindade Werlingue, o pároco recém-chegado estava no presbitério, acolhendo os jovens que lotaram a igreja de amarelo – a cor predominante do colete usado pelos peregrinos. Uma banda animou a todos, que cantaram e louvaram, sem demonstrar sinais do cansaço que tomava conta de todos. Os paroquianos prepararam um café da manhã, que reabasteceu as energias.

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Um pouco mais adiante os jovens foram acolhidos com mais festa, na igreja matriz Santo Antônio. Já na chegada, do lado de fora, muita animação e cantos. No lado de dentro Frei José Martins falou a respeito da saudação Paz e Bem, e todos repetiram com ainda mais entusiasmo: Paz e Bem! E receberam a bênção de Santo Antônio e um pão bento na saída, para alimentar e abençoar os jovens para os últimos 5 km até o Seminário Santo Antônio. Um trio elétrico, com músicos, animou o trecho nas ruas da cidade. Os moradores e comerciantes saíam de suas casas para ver e saudar os peregrinos.

Quase na reta final da caminhada, Frei Diego fez a motivação para que a partir daquele ponto, os jovens caminhassem em silêncio até a chegada no seminário. Apesar do calor, do cansaço e da euforia pelo término do trajeto, todos seguiram silenciosos. Os voluntários e frades que esperavam no seminário até estranharam todo aquele silêncio. Talvez esperassem gritos e comemoração, mas encontraram uma procissão silenciosa rumo ao seminário. Eram 11h50 quando o grupo chegou ao destino final da Caminhada.
Antes de entrar na igreja todos tiraram os tênis, como sinal da sacralidade, de “tirar a sandália dos pés” para encontrar o Senhor. E Ele estava esperando pelos peregrinos. No altar, o ostensório com  Jesus Eucarístico esperava pelos jovens após os 45 km de Caminhada. O desejo de rezar e agradecer ao Senhor era mais forte que o cansaço. A oração que se seguiu durou aproximadamente 2 horas, onde a grande maioria permaneceu na igreja. No primeiro dia os jovens receberam um saquinho, e foram motivados a colocar dentro dele suas dúvidas e preocupações ao longo do trajeto. Dentro dele havia também incenso, que foi despejado aos pés do altar durante a oração.

Frei James Ferreira Gomes Neto, guardião do Seminário, deu as boas-vindas e expressou sua alegria pela acolhida dos jovens.

Energia e disposição para confraternização e partilha

Mesmo depois de dias tão intensos e cansativos, os jovens ainda tiveram disposição para uma tarde agradável no seminário. Brincaram na piscina, jogaram bola, pebolim.
No início da noite todos se reuniram na igreja para um momento de partilha em pequenos grupos. Alguns deram seu testemunho a respeito da Caminhada. Foi o caso do Vitor, de Chopinzinho. O jovem disse que durante o trajeto teve vontade de desistir, por causa do cansaço, mas que então sentiu que Deus falava com ele, e o animou para continuar caminhando. Chegando ao seminário, o jovem pediu que se Deus quisesse que ele seguisse o caminho da vida religiosa, que Ele tocasse seu coração, e foi o que aconteceu enquanto ele rezava aos pés de Jesus Eucarístico.

Fabiana, a idealizadora da Caminhada Franciscana em Bauru, também partilhou. Emocionada, a leiga contou do desejo de realizar uma atividade como esta, e de como foi possível tornar o sonho realidade.
No final do dia os jovens ainda tiveram ânimo para uma confraternização na piscina, com comidas, dança e música.

A experiência divina da Caminhada

No decorrer de todo o trajeto Frei Diego afirmava que aquele gesto de caminhar 45 km em poucos dias não era humano, mas divino. Somente a graça de Deus consegue explicar o sentimento que tomava conta de todos no encerramento da atividade.

Às 6h30 da manhã os participantes se reuniram para a oração da manhã, e fizeram uma dança circular. Às 8h todos estavam reunidos na igreja para a missa de encerramento. Em sua homilia, Frei Diego brincou com os jovens, perguntando qual celular eles preferiam, um modelo antigo ou um Iphone. Todos responderam que o segundo, por ser mais atual. “Jesus também nos oferece algo novo, atualizado”, afirmou o frade, falando a respeito do Evangelho deste 5º domingo da Páscoa. O frade disse também que nada daquilo que os jovens haviam experimentado era novidade: a acolhida nas casas, a ajuda dos voluntários, a oração. O que havia mudado nos jovens era o olhar. “Não há nada de novo nisso, mas nos toca pois redescobrimos o que é simples”, afirmou.
“Vivenciamos nestes dias novo Céu e nova Terra, na alegria de redescobrir o rosto misericordioso do Pai”, disse Frei Diego, que exaltou o esforço de cada um e disse que todos cumpriram a meta, mesmo aqueles que não conseguiram caminhar os 45 km. “A meta era dar o máximo de si, e foi isso que vocês fizeram”, acrescentou. “Vocês saem daqui com a missão de serem anunciadores desta Boa Nova, mostrando através de atitudes que vocês encontraram este rosto misericordioso de Deus, sem esquecer que este rosto está também em cada ser humano”, concluiu.

Na Oração Eucarística, Frei Diego fez questão de chamar no presbitério todos os religiosos, religiosas, vocacionados e vocacionadas, para rezarem juntos o Pai Nosso. O frade apresentou Frei Aristides, já idoso, que cuida da separação de resíduo reciclável na casa, e agradeceu por seu testemunho silencioso no cuidado com o outro e com o meio ambiente. O coordenador do SAV agradeceu aos voluntários, que tão prontamente abraçaram a causa da Caminhada Franciscana, trabalhando na preparação e na organização da atividade, que exigiu uma grande infraestrutura para acolher os quase 300 participantes.

Jovens sírios fazem a experiência da Caminhada
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Além da imensa diversidade entre os estados, havia também na Caminhada Franciscana de Bauru alguns participantes estrangeiros. Claudia, da Nicarágua, e os irmãos Lara, Karin e Daoud Kauss, da Síria. Karin, de 19 anos e Daoud, de 23, moram em Petrópolis há 3 anos. Eles participam da Igreja do Sagrado Coração.

Eles contam que na Síria participavam de grupo de jovens, mas que nunca tinham participado de um evento parecido. Para o jovem, o momento do lava-pés foi muito marcante.

“Durante a caminhada todo mundo estava muito cansado, mas era necessário superar a dor e com força de vontade continuávamos. Achei que seria impossível, mas fiquei muito feliz quando cheguei ao seminário”, conta Karin.

Sobre o país de origem, Daoud conta que antes da guerra a Síria era um país muito pacífico, com muita harmonia entre as diversas religiões. Com a chegada do Estado Islâmico, e os muçulmanos radicais, muitos cristãos morreram pelo fato de serem cristãos e não negarem a sua fé.

“A Síria era uma panela de pressão, todo o dia tinha um bombardeio, um ataque”, conta Karin. Os jovens contam que faltam os serviços básicos, como ir à escola. “Alguns dias ficávamos 5 dias sem energia elétrica”, afirma. Eles dizem que enquanto estavam lá, não conseguiam pensar no futuro, por causa da insegurança do que poderia acontecer. A jovem conta que ficava muito triste com os acontecimentos, porque o coração dos próprios sírios ficava insensível com tantas mortes. “A gente mudou depois da guerra. Quando cheguei no Brasil não conseguia sorrir mais”. Uma partilha tocou muito Karin, quando uma religiosa contou para eles na Caminhada que ela acordava de madrugada e rezava pelos sírios. “As pessoas querem saber da nossa história, mas rezar por isso para mim é muito importante, os meus mundos se encontram, a fé e minha origem”, afirma a estudante de engenharia civil.



sexta-feira, 22 de abril de 2016

5º domingo da Páscoa

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Jo 13,31-33a.34-35

31 Quando Judas Iscariotes saiu, Jesus disse: «Agora o Filho do Homem foi glorificado, e também Deus foi glorificado nele. 32 Deus o glorificará em si mesmo, e o glorificará logo.
33 Filhinhos: vou ficar com vocês só mais um pouco.
34 Eu dou a vocês um mandamento novo: amem-se uns aos outros. Assim como eu amei vocês, vocês devem se amar uns aos outros. 35 Se vocês tiverem amor uns para com os outros, todos reconhecerão que vocês são meus discípulos.»

Vida é o infinito de que dispomos – Pe. João Batista Libânio, sj

Tão pequenino é esse evangelho, e a humanidade precisou esperar mais de um milhão de anos para ouvir uma frase como essa. Antes, sabíamos pouco sobre a origem do ser humano. Tínhamos a narração do Gênesis, que é um hino simbólico, não é científica e nem tem essa pretensão. Depois que a palenteologia, isto é, a ciência das coisas antigas, começou a pesquisar sobre o aparecimento da humanidade, pudemos realmente descobrir a maravilha do evangelho. A história do ser humano começa de uma maneira muito violenta, muito próximo do animal. O animal se hominiza, isto é, torna-se ser humano, surge a razão, a inteligência, mas como animal, ainda é muito bruto. Ele se destrói, se mata. Havia muitos assassinatos entre pessoas do mesmo clã, de forma que os antropólogos e paleontólogos falam em homo sapiens – o homem que pensa, e homo destruens – o homem que destrói. Destruiu a natureza, as plantas, vivia em guerras.

Assim passaram centenas e milhares de anos, e lentamente nos humanizamos, até que hoje somos mais ou menos humanos. Nessa grande trajetória, a pessoa de Jesus é o gonzo que faz a porta da história girar cento e oitenta graus, de um lado a outro – até Jesus e depois dele.

Ele corta a história ao meio, não apenas quanto às datas. Se dissermos maio de 2007, essa data se refere ao nascimento de Jesus. Assim falamos antes e depois de Cristo, medimos a história e os anos. Mesmo os que não creem, não querem e não desejam, ao assinarem um cheque, assinam em nome de Jesus, pois datam sua vida a parir de seu nascimento. É impressionante! Mesmo o mais materialista dos materialistas vai firmar o cheque numa data a partir do nascimento de Jesus, mesmo que não saiba. É o gonzo histórico e geográfico, porque a Palestina se transformou até hoje num lugar de luta, de busca, de disputa. Estão aí os judeus, os palestinos, também cristãos e ortodoxos numa luta muito difícil. Interessante, o Príncipe da Paz nasce num lugar que é fonte de guerra! Assim somos nós!

Mas o gonzo que divide a história é muito mais importante. O máximo que tínhamos atingido era amar aos outros como amávamos a nós mesmos. E até a isso, apenas alguns chegam. A maioria de nós nem isso consegue. Jesus dá um passo à frente, tão gigantesco que parece um horizonte longínquo, para o qual caminhamos. Ele nos diz assim: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Não disse apenas “amai-vos uns aos outros”, mas acrescentou: “como eu vos amei”. A infinita paciência de Deus esperou dois milhões de anos para nos dizer essa frase. Alguém pode pensar que o Antigo Testamento também não conheceu esse amor. Sim e não. O Antigo Testamento dizia que devemos amar aos outros como nos amamos. É um pouco esta jogada: fazer e receber a recompensa. Jesus muda o jogo. Amar como Ele nos amou é a maior entrega, e podemos resumir isso em quatro verbos: desejar, querer, fazer, alegrar-se com o bem do outro, sem mais. Desejar o bem do outro pelo outro e pelo bem, nada mais. As mães desejam o bem de seus filhos, mas de seus filhos. O amor de Cristo nos pede que amemos qualquer pessoa. Desaparece o seu, e quem escreve para mim sabe que tenho horror aos pronomes possessivos e elimino a maioria deles. Somos tão narcisistas que enchemos tudo com nosso e meu. Os que passam por mim desaparecem, mas tantos ainda continuam. Jesus quer que desejemos o bem pelo bem e ao outro pelo outro e só. Pensem como isso é difícil! Sempre esperamos um agradecimento, um elogio, a volta. Temos uma dificuldade imensa de amar, muito mais do que podemos imaginar. Pensamos que amamos, mas nos amamos muito mais. Jesus nos fala hoje de um novo mandamento, e continua sendo novo: desejar, querer, fazer o bem, simplesmente por ser bem.

Agora vem a pergunta: como é que Jesus nos amou? Vou lhes mostrar dois grandes sinais. Foi capaz de amar o inimigo, o que muito pouca gente consegue. Pouca gente é capaz de perdoar, de dizer um sim, de dizer que perdoa, que acolhe, que reconcilia com alguém que ofendeu ou por quem foi ofendido. Temos uma dificuldade imensa de reconciliação, de perdão, de acolhida. Ficamos ofendidos, viramos o rosto, ficamos meses e anos sem falar com uma pessoa, às vezes até com um irmão, com um filho, com o pai. Tantos são os casos de quem não chegou a amar nem como se ama a si mesmo! A gente sempre fala com a gente mesmo.

Falamos com nossos botões, nos aconselhamos com os travesseiros, ficamos um tempo enorme diante do espelho, e isso é bom. É sinal de que nos gostamos e se gostássemos dos outros como gostamos de nós mesmos, já seria ótimo. Jesus vai adiante e nos diz que devemos amar também aqueles que não gostam de nós. E como é difícil! Amar é um movimento de fora para dentro. Mas ainda vem o mais importante, e Ele vai insistir nesse ponto. Qual é a melhor coisa que temos, o nosso dom maior? Não pensem que é um carro, pois isso seríamos até capazes de dar para pagar o tratamento de um pai, de um filho. Um carro é coisa, e nós damos coisas de nós mesmos. Mas Jesus não nos deu coisas, mas a sua vida – o maior dom que temos. O infinito de que dispomos chama-se vida, e nós a gastamos a cada dia, a cada instante. Nós amamos aquelas pessoas com as quais gastamos o nosso tempo, o nosso corpo, o nosso olhar, a nossa saúde. Se quiserem saber se amam alguém, perguntem se essa pessoa ocupa algum espaço no grande mundo do afeto, do tempo, do olhar, do encontro. Se a resposta for negativa, é porque ainda não amamos como Jesus. Ele é inclusivo – inclui todas as pessoas. O evangelho dá exemplos fortes. Quando, na ceia, Judas sai para entregá-lo, poderíamos pensar que Ele estaria feliz, por ter saído o traidor. Mas um pouco mais tarde, Jesus vai se encontrar com Judas e o saúda: “Amigo, a que viestes?”. Não fazia política, pois não estava em campanha eleitoral. Diz amigo, porque na verdade assim sentia. Judas não era um peso para Ele. O outro podia rejeitá-lo, mas Ele não rejeitaria ninguém.

Essa ideia de não rejeitar ninguém, de acolher as pessoas, é muito difícil, mas é por aí que poderemos construir uma sociedade. Mas parece que não caminhamos nessa direção. As pessoas mais idosas como eu, conheceram Belo Horizonte, quando tinha duzentos, trezentos mil habitantes. Podíamos passear por todo o centro sem nenhum esquema de segurança e nunca víamos nenhum assalto, a não ser alguns ladrões de galinha. Tão diferente de hoje! Contra tudo isso, só temos uma alternativa: o perdão e a reconciliação. Não serão a polícia, o exército, o judiciário corrupto que poderão acabar com a violência. Ela terminará com o nosso trabalho ao cultivar desde as criancinhas. Que elas saibam brincar com seus coleguinhas diferentes, de raça diferente, de classe social diferente, de time diferente. Que saibam brincar e não brigar. Realmente, podemos criar esse convívio.
Ama quem deseja o bem pelo bem e pela pessoa, sem nenhum outro interesse. E ainda há o mais difícil: alegrar-se com o bem dos outros. Nós queremos que as pessoas sejam reflexos nossos e não que tenham luz própria. Os próprios pais temem que os filhos cresçam por eles mesmos, e o mesmo acontece com os professores em relação aos alunos. Ainda não aprendemos a amar a pessoa por ela mesma, a querer o bem por ele mesmo. Será que quando vejo um colega de trabalho sendo promovido, quando encontro alguém feliz não fico com dor-de-cotovelo? Será que me alegro com as alegrias dos outros? Sou capaz de chorar verdadeiramente com as lágrimas dos outros? É um pouco o que acontece com Maria. Ela não aparece nos momentos de glória de seu Filho, mas sim na cruz, vendo-o humilhado, desprezado. Se aprendermos a sorrir com os que sorriem, a chorar com os que choram, a se alegrar com os que se alegram, a se entristecer com os que se entristecem, partilhar e receber o que os outros nos propiciam, teremos entendido um pouquinho do evangelho de hoje. Jesus pede a cada um de nós esse esforço, mesmo que nunca cheguemos lá. É o horizonte para o qual caminharemos por toda a vida. “Nisso conhecereis que sois meus discípulos!”

Amém.

Confira a reflexão de Frei Gustavo Medella, OFM para este 5º domingo da Páscoa