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sexta-feira, 18 de março de 2016

Domingo de Ramos

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1ª Leitura - Is 50,4-7
Salmo - Sl 21,8-9.17-18a.19-20.23-24 (R.2a)
2ª Leitura - Fl 2,6-11
Evangelho - Lc 22,14-23,56

O Deus que se entrega – Pe. João Batista Libânio, sj

Nós estamos habituados a ouvir essa leitura de longa data e, por isso, nosso coração fica um pouco insensível. Também essa narração, de certa maneira, está um pouco embelezada, porque a cena foi muito mais rude do que podemos imaginar. Hoje, depois de muitas pesquisas históricas e bastante sérias sobre a época de Jesus e sobre a sua condenação, temos muito mais informações. Essa é uma narração bastante posterior, de cristãos devotos que colocaram pormenores mais suaves, para não chocar as comunidades, tão violenta era essa espécie de morte.

Até nisso Jesus não quis ser diferente. Imaginamos que a sua crucifixão foi uma coisa rara, mas agora já sabemos que, naquela época, milhares de judeus e também pessoas de outras nacionalidades não romanas foram crucificadas. Toda rebelião, todo pequeno movimento que chamamos hoje de greve, era reprimido pelos romanos com a crucifixão. Eles não toleravam nenhuma revolta. Era um castigo tremendamente violento! Se realmente é um fato histórico, podemos dizer que Jesus foi até mesmo privilegiado, porque o costume era crucificar as pessoas bem próximas ao chão. Não se usavam cruzes bonitas, levantadas, mas ao rés do chão. Também as crucificavam totalmente nuas e não permitiam que os corpos fossem retirados. Usavam colinas que cercavam as cidades, para que os lobos e cães ferozes devorassem as vítimas, que sequer eram enterrados. De tão terrível, não podemos imaginar. Portanto, se a narração do evangelho é histórica, é muito delicada, pois Jesus teve um túmulo novo, foi envolvido em panos, o que não acontecia aos demais, que simplesmente eram comidos pelas feras. Jesus aceitou também isso, embora muito privilegiado em relação aos outros crucificados.

É bom sabermos disso, pois muitas vezes glorificamos o sofrimento como se fosse o mais importante. Mesmo na recente história do Brasil, na época do regime militar, eu mesmo conheci e conheço jovens, hoje já senhores, que foram barbaramente torturados, a ponto de não serem reconhecidos pelos colegas, tão desfigurados ficaram. Também os nazistas chegavam a encher um vagão de crianças para serem torturadas e mortas. Portanto, essa desumanidade sempre existiu e ainda existe, como podemos ver pelas notícias que nos vêm pela televisão e jornais. Jesus quis fazer parte desse submundo. Isso é o terrível! Ele quis conhecer o que havia de mais baixo na história humana. Não quis ser apenas o Filho de Deus, glorioso, que caminhou sobre as águas, como imagina nossa fantasia. Foi arrancado da vida, estraçalhado, coroado de espinhos, zombado, humilhado, cuspido, esbofeteado. Por esse lado, é como os homens de sua época.

O que há de novo, então? Por que estamos aqui reunidos? Por que colocamos uma cruz, se foi como tantos outros crucificados? Porque o significado de sua morte foi diferente. Aí está a sua originalidade. Ele não foi arrancado como um qualquer, não foi crucificado como esses dois subversivos, que chamamos de bom e mau ladrão. Quando foi agarrado, torturado e condenado, quis anunciar duas coisas, e esse foi o seu mistério. Quis anunciar que Deus mostra o seu amor mesmo nas situações mais terríveis. Lá embaixo, naquele porão, Ele olhava para o Pai e sabia que era amado ali, para nos mostrar que, se um dia estivermos também lá, poderemos ter a certeza de que Deus também nos ama. Pode ser que nos aconteça como com tantos milhares de brasileiros que um dia estiveram no submundo da tortura, que estão nos cárceres, mulheres que são traídas pelos maridos, pessoas no submundo da depressão, jovens metidos nas drogas. Jesus olha e diz que o Pai as ama aí. Essa é a sua originalidade, para nos mostrar que nunca devemos desanimar, abaixar a cabeça, nos entregar à depressão. Devemos ter a certeza de que somos envolvidos por um amor maior, porque aquele que foi o mais amado de todos também esteve lá embaixo.

Jesus não quis viver apenas de banquete em banquete, andando de iate pelos mares ou viajando de boeing. Quis viver o cotidiano no que tinha de mais trágico, para nos animar, nos dar esperança, para dizer que Deus nos ama. Tudo isso Ele fez, porque se entregou por nós, porque amava a humanidade inteira, até mesmo os carrascos que o crucificaram e torturaram. Amava Herodes, amava Pilatos. Apenas amava! Não deixou de amar ninguém, apesar de ser tratado daquela maneira. Ele se nos deu a nós, para que nos entregássemos aos outros. Como é difícil amar as pessoas, sair de si! Estamos tão egoístas, pensamos tanto em nós mesmos, nos nossos bens, nos nossos interesses que tudo é nosso, nosso, nosso e é difícil sair disso. Jesus quis nos mostrar que era capaz de sair de si, se dar a nós para nos mostrar que, tocando o nosso coração em profundidade, também seríamos capazes de, pelo menos, levantar os olhos e olhar para a dor do outro. Quem dera fôssemos capazes de não passar à margem, fechando a cara aos pobres e miseráveis, aos bêbados e prostitutas como se eles não existissem, como se fossem rebotalho da plebe. Quantas vezes não somos capazes de olhar e ver as pessoas, principalmente quando estão desfiguradas! Quantas vezes achamos que os marginalizados deveriam ser mortos! Jesus quer nos dizer que mesmo esses devem ser vencidos pelo amor. Até o último instante devemos tentar. Só se eles quiserem e naquele último segundo de vida se fecharem, aí sim, nem Deus nada mais pode fazer. Mas até o último instante em que o coração ainda bater e os neurônios ainda funcionarem, Deus estará à espera do sim de qualquer um de nós. Seja de um Hitler ou de um Stalin, Deus sempre estará à espera. Desses não sabemos se o sim veio ou não, mas temos a certeza de que Ele esperou até o último instante. Amém.

Pe. João Batista Libânio, sj – Um outro olhar, vol. 8

Confira a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz para este Domingo de Ramos: