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sexta-feira, 4 de março de 2016

4º domingo da Quaresma

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1ª Leitura - Js 5,9a.10-12
Salmo - Sl 33,2-3.4-5.6-7 (R.9a)
2ª Leitura - 2Cor 5,17-21
Evangelho - Lc 15,1-3.11-32

Naquele tempo:
Os publicanos e pecadores
aproximavam-se de Jesus para o escutar.
Os fariseus, porém, e os
mestres da Lei criticavam Jesus.
'Este homem acolhe os pecadores
e faz refeição com eles.'
Então Jesus contou-lhes esta parábola:
'Um homem tinha dois filhos.
O filho mais novo disse ao pai:
'Pai, dá-me a parte da herança que me cabe'.
E o pai dividiu os bens entre eles.
Poucos dias depois, o filho mais novo
juntou o que era seu
e partiu para um lugar distante.
E ali esbanjou tudo numa vida desenfreada.
Quando tinha gasto tudo o que possuía,
houve uma grande fome naquela região,
e ele começou a passar necessidade.
Então foi pedir trabalho a um homem do lugar,
que o mandou para seu campo cuidar dos porcos.
O rapaz queria matar a fome
com a comida que os porcos comiam,
mas nem isto lhe davam.
Então caiu em si e disse:
'Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura,
e eu aqui, morrendo de fome.
Vou-me embora, vou voltar para meu pai e dizer-lhe:
`Pai, pequei contra Deus e contra ti;
já não mereço ser chamado teu filho.
Trata-me como a um dos teus empregados'.
Então ele partiu e voltou para seu pai.
Quando ainda estava longe, seu pai o avistou
e sentiu compaixão.
Correu-lhe ao encontro, abraçou-o,
e cobriu-o de beijos.
O filho, então, lhe disse:
'Pai, pequei contra Deus e contra ti.
Já não mereço ser chamado teu filho'.
Mas o pai disse aos empregados:
`Trazei depressa a melhor túnica para vestir meu filho.
E colocai um anel no seu dedo e sandálias nos pés.
Trazei um novilho gordo e matai-o.
Vamos fazer um banquete.
Porque este meu filho estava morto e tornou a viver;
estava perdido e foi encontrado'.
E começaram a festa.
O filho mais velho estava no campo.
Ao voltar, já perto de casa,
ouviu música e barulho de dança.
Então chamou um dos criados
e perguntou o que estava acontecendo.
O criado respondeu:
`É teu irmão que voltou.
Teu pai matou o novilho gordo,
porque o recuperou com saúde'.
Mas ele ficou com raiva e não queria entrar.
O pai, saindo, insistia com ele.
Ele, porém, respondeu ao pai:
`Eu trabalho para ti há tantos anos,
jamais desobedeci a qualquer ordem tua.
E tu nunca me deste um cabrito
para eu festejar com meus amigos.
Quando chegou esse teu filho,
que esbanjou teus bens com prostitutas,
matas para ele o novilho cevado'.
Então o pai lhe disse:
`Filho, tu estás sempre comigo,
e tudo o que é meu é teu.
Mas era preciso festejar e alegrar-nos,
porque este teu irmão estava morto e tornou a viver;
estava perdido, e foi encontrado'.'
Palavra da Salvação.

Deus sempre espera – Pe. João Batista Libânio, sj

Esse evangelho é tão bonito, que nem precisa ser comentado, mas há pormenores finíssimos sobre os quais eu gostaria de chamar a atenção. O texto fala apenas de um homem e seus dois filhos, a mãe não aparece. Precisamos compreender isso dentro da cultura judaica, que valorizava apenas a figura masculina e assim imaginava Deus.

É pena que nos cansamos da bondade de Deus! Pena que nós nos acostumamos com a misericórdia de Deus, como se Ele fosse um qualquer, que podemos escolher se lhe damos ou não atenção. Não temos a mínima ideia da grandeza, do infinito desse Deus, soberano absoluto, criador e senhor de todas as coisas, que podia ser um juiz terrível, mas não quis sê-lo. Quis ser apenas bondade, apenas misericórdia. E como Jesus era o único que tinha essa experiência do Pai, pôde contar-nos essa parábola, essa história. Só Ele pôde traduzir a experiência que trazia dentro do próprio coração. Nós somos como esse filho mais velho, desligado, frio e sem amor. Queremos um reconhecimento, já que fizemos tudo, enquanto tantos não fizeram nada. Somos incapazes de reconhecer o outro como irmão. Somos esse filho mais velho que não teve coragem de olhar para a dor e o sofrimento daquele irmão que voltava de uma vida perdida, mas que se reencontrava diante de um pai que o amou infinita e incondicionalmente. Reparem que esse filho mais velho se refere àquele que voltava apenas como filho do seu pai e não como seu irmão.

Vejam o jogo maravilhoso de Lucas: diante do filho que escolhe partir, o pai fica imóvel, não se opõe e o deixa ir, levando o dinheiro pedido. Não fala nada, não se comove, mas o seu olhar ia longe, acompanhando os passos joviais e saltitantes do filho, nos caminhos e descaminhos do vício, do pecado, da prostituição, das farras. Enquanto isso, o pai continua calado, à espera. Não saiu atrás do filho, não mandou ninguém buscá-lo. Apenas esperou, como espera tantos de nós. Só Ele pode esperar, parado e silencioso. Os pais da Terra não conseguem esperar tanto.

Agora vem a mudança fantástica: quando o filho desponta no horizonte, é como se o coração lhe saltasse pela boca, e ele corre para encontrá-lo, sem sequer esperar que se aproxime. Já não é mais o homem parado, aquele que deixa o filho ir. O seu amor é tão grande, que cada minuto, cada segundo parecia uma eternidade. Nem sequer esperou a confissão do filho, acolhe-o entusiasticamente e, como diz o evangelho, cobre-o de beijos efusivos e lhe devolve todos os sinais de vida e dignidade: sandália, anel, veste, comida. Se ele vivera a grande fome, agora teria o grande banquete. Se vocês, jovens, reconhecessem a fome que passam longe de Deus e o banquete que está sempre à sua espera, nunca se afastariam dele. Pensam que o alimento de fora é o que sacia, mas esse sempre acaba, e virá a grande fome. Reparem no jogo do evangelho. A festa acaba logo, e vem a grande fome. Depois de ele ter gastado todo o dinheiro em comilança e bebedeira, vem a grande fome: fome de Deus, de sentido, de saúde, de beleza, de dignidade, de vida. Mas resta a memória, e é nisso que eu aposto e acredito.

Quando vejo tantos jovens perdidos, a minha esperança é a memória: na casa do meu pai, ninguém passa fome. Se ele não tivesse tido nem pai e nem casa, não teria do que se lembrar. Aqueles que não experimentaram o amor, dificilmente conseguirão sair do lodaçal da existência. Por isso, pais, avós, é importante que passem para seus filhos e netos, ao menos uma vez, a beleza, a bondade, a pureza, a transparência, o amor, para que, se algum dia se encontrarem enlameados, quando virem o seu corpo desfigurado pelos vícios, pelo pecado, eles sejam acordados pela memória e se lembrem que na casa do seu pai nenhum empregado está naquele estado. Essa lembrança lhe dará ânimo de voltar. A vontade de voltar é a única esperança. Sabemos que as portas para a saída são muitas, mas, para a volta, são mais raras, mas é nela que apostamos. Quantas vezes, na minha vida de conselheiro, ouvi pessoas que se reencontraram, se reconstruíram, se recriaram, porque um dia se sentiram amadas! Essa é uma marca que fica, pois a memória não é a faculdade de esquecer, mas de recordar as experiências bonitas de nossa vida. As únicas coisas que ficam são as lindas memórias da existência: o amor do pai, da mãe, dos irmãos, dos amigos. Nas noites escuras, quando a morte bate sobre nós, fechamos os olhos, e as luzes do passado se acendem e nos iluminam. Mas, se não houve lâmpadas, continuaremos no escuro.

O filho volta, porque pode voltar, tem para onde voltar. Quem fica não melhora, não sai da escravidão. Ele volta, como todos nós podemos voltar, para a casa do pai de sempre. Se algum dia vocês, jovens, estiverem perdidos, saibam que podem sempre voltar. Aqui existe beleza, existe um Deus que ama, que acolhe. Essa é a única esperança diante de tanta juventude perdida, que fará aflorar a verdade de cada um, pois não conseguimos mentir para nós mesmos. Nenhuma feiura interior pode se esconder atrás de maquilagens e corpos sarados.

Existe uma pintura maravilhosa, de um pintor do século XVII – Rembrandt – que está lá na Rússia, num museu maravilhoso. Procurem no Google, e poderão ver a figura maravilhosa de um pai circunspecto, e poderão se encantar com a capacidade de um artista em colocar tanta ternura naquele rosto. E um pormenor ainda mais bonito, é que o filho que tem a cabeça enterrada no colo do pai é acolhido por duas mãos: uma grosseira e calosa de um homem, que aperta o filho, e outra, fina e delicada de uma mãe, que o acaricia. Rembrandt não aceitou que Deus fosse só homem, mas pai e mãe. É com essas duas mãos que o filho é acolhido. Isto é Deus: com a mão de pai Ele nos aproxima, com a mão de mãe Ele nos toca. O filho mais velho está de lado – uma triste figura. É bom, bem comportado, mas tem o coração pequeno, medíocre, incapaz de amar, de perdoar. É como o católico bonzinho, regular. Não se entusiasma com o irmão que volta, não participa do banquete maravilhoso do pai, e ainda reclama de não ter um cabritinho para comer fora com os amigos. Que levemos conosco esta perguntinha para refletirmos em casa: será que, um dia sequer, em minha vida, experimentei esse amor incondicional de Deus? Amém.

Pe. João Batista Libânio, sj - Um outro olhar, vol. 8