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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

5º domingo do Tempo Comum

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1ª Leitura - Is 6,1-2a.3-8
Salmo - Sl 137,1-2a.2bc.4-5.7c-8 (R. 1c.2a)
2ª Leitura - Cor 15,1-11
Evangelho - Lc 5,1-11

Naquele tempo:
Jesus estava na margem do lago de Genesaré,
e a multidão apertava-se ao seu redor
para ouvir a palavra de Deus.
Jesus viu duas barcas paradas na margem do lago.
Os pescadores haviam desembarcado e lavavam as redes.
Subindo numa das barcas, que era de Simão,
pediu que se afastasse um pouco da margem.
Depois sentou-se e, da barca, ensinava as multidões.
Quando acabou de falar, disse a Simão:
'Avança para águas mais profundas,
e lançai vossas redes para a pesca'.
Simão respondeu:
'Mestre, nós trabalhamos a noite inteira
e nada pescamos.
Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes'.
Assim fizeram,
e apanharam tamanha quantidade de peixes
que as redes se rompiam.
Então fizeram sinal aos companheiros da outra barca,
para que viessem ajudá-los.
Eles vieram, e encheram as duas barcas,
a ponto de quase afundarem.
Ao ver aquilo, Simão Pedro atirou-se aos pés de Jesus,
dizendo: 'Senhor, afasta-te de mim,
porque sou um pecador!'
É que o espanto se apoderara de Simão
e de todos os seus companheiros,
por causa da pesca que acabavam de fazer.
Tiago e João, filhos de Zebedeu,
que eram sócios de Simão, também ficaram espantados.
Jesus, porém, disse a Simão:
'Não tenhas medo!
De hoje em diante tu serás pescador de homens.'
Então levaram as barcas para a margem,
deixaram tudo e seguiram a Jesus.
Palavra da Salvação.

O peixe que não vemos – Pe. João Batista Libânio, sj

Só ouvir o evangelho já é uma grande lição! São essas cenas da vida de Jesus que nos tocam em profundidade! Como é belo esse jogo que Lucas faz, usando uma quantidade enorme de símbolos: margem, lago, a barca que vai e que volta, a rede que não pesca nada, largar tudo e seguir o Senhor. Que sequência maravilhosa! É a nossa vida, somos nós que estamos parados na margem! Quantas vezes ficamos desanimados, céticos, sem acreditar em ninguém, em nenhuma mudança política! Agora mesmo fizeram uma pesquisa enorme no Brasil, e a grande maioria dos brasileiros disse não acreditar na política nem nos políticos. Estamos à margem! E na margem não mudaremos nada, a realidade continuará tal qual está, se não nos lançarmos para águas mais profundas.

Jesus percebe a multidão e precisa de uma cátedra para falar. Não a dos filósofos gregos, em Atenas, mas a cátedra humilde da barca de um pescador. Não uma cátedra rígida, firme, mas que se ondeia, se agita, se move e se adapta a cada pequena onda. O Mestre vai falando, ensinando, enquanto todos os olhos estão fixos nele. Entra na agitação, na oscilação, no movimento da nossa história, que não para. Se nós pararmos, ela continuará à nossa frente. Que nós, velhos, fiquemos parados, ainda se tolera, mas jovens e adolescentes parados, enquanto a história caminha, é uma tristeza terrível. O que poderemos esperar, se os que deveriam correr, ter coragem de lançar-se, são os mais medrosos? Se não têm coragem de mudar a realidade, de tomá-la na mão e perguntar o que fazer com ela? Uma outra pesquisa feita com jovens alemães – um país bem mais adiantado do que o nosso – constatou que a grande maioria quer buscar uma profissão que dê estabilidade, que não os coloque em risco. Tudo isso sinaliza que a juventude não quer mais assumir a história, entrar na barca e avançar para águas mais profundas.

Termina aí a lição sem dizer sobre o que Jesus pregou. Certamente sobre aquilo que depois ouviremos nos evangelhos: terá falado do amor do Pai, de perdão, de misericórdia, da acolhida e de tantas outras coisas que vão sendo jogadas naquelas pessoas, de pé, na praia, ouvindo o Senhor. Todos eles mal acomodados, apertados na multidão, para ouvir uma palavra do Mestre, que tocava cada coração. Mas Jesus quer avançar, ir para águas mais profundas: “Avançai, Pedro!”. Cada um de nós é Pedro. Não podemos ficar parados em águas estagnadas, estragadas e cheias de mosquitos – águas do consumismo, do egoísmo, do hedonismo, do materialismo. Temos que avançar para águas mais límpidas, mais puras, mais azuis. Entremos com Jesus no Mar da Galiléia!

Ele olha para Simão e manda que lance as redes. Mas Pedro está cético. Hoje não haveria pesca. Era um velho e experiente pescador falando para um artesão, um camponês, que certamente não entende de águas: “Hoje não há peixes, pois a água está quente, o vento está forte, e todos os peixes se foram. Tentei durante toda a noite, lancei redes à direita, à esquerda e não pesquei nada!”. Jesus continua insistindo para que Pedro lance as redes contra toda a aparência.

Como nós, Pedro confiava na aparência e na sua longa experiência. Acreditamos que, muitas vezes, em nossos corações e nos das pessoas não há peixe. Talvez uma filha que tanto queríamos que estivesse onde estamos – é o peixe que não vemos! Queremos lançar a rede, mas não vemos os peixes, que, muitas vezes, é a atitude das pessoas, a abertura, o coração que pode acolher. Tentamos uma, duas, três vezes e não pescamos nada, na aparência. Mas o Mestre Jesus é maravilhoso e continua: “Não se enganem. Vocês pensam que não há, mas estão enganados, pois sempre haverá peixes! Não percebem que o mar nunca estará vazio, que, quando eu chego, os peixes todos vêm: os peixes da bondade, da beleza, da graça que existe no coração das pessoas?! Sou eu o grande imã que vai atrair todas as pessoas! Lancem as redes e verão quantos peixes vão pegar!”. O olhar do Senhor é mais profundo e vê peixes onde nós não vemos, vê beleza e bondade onde não vemos, vê possibilidade de mudança onde não vemos. Pedro se convenceu e encheu duas barcas. E se ele tivesse acreditado nos seus olhos, na sua experiência? Os peixes vieram do olhar profundo de Jesus, que os acorda, que evoca o que há de bom em cada um de nós. É esse olhar que precisamos ter. Precisamos captar um pouquinho do olhar de Jesus para acordar nas pessoas o que têm de melhor. Há muito mais coisas bonitas no coração de cada um, mesmo naquele jovem largado, aquele que pega um carro e sai por aí a toda velocidade. Só o olhar de Jesus é capaz de acordar nesse jovem, metido na droga e na bebida, alguma coisa de melhor.

Quantas vezes acontece na nossa vida pastoral, na nossa vida sacerdotal, com vocês, catequistas do crisma?! Veem esses adolescentes com essas caras desanimadas e acreditam que naquele mar não há peixe. Lançam milhares de redes e não pescam nada. Mas as pessoas são maiores que a sua aparência, são maiores do que o que existe dentro delas, porque sempre haverá um mistério escondido nas águas. As águas cobrem o mistério humano e, com os nossos olhos, nunca poderemos atravessá-las e descobrir lá embaixo, peixes maravilhosos que estão a nadar, colorindo aquele fundo de mar. Ficamos nas ondinhas superficiais e por elas não percebemos nada, a não ser a vida monótona, sem graça e sem beleza.

Mas em quem vamos apostar? A Vulgata diz uma frase bonita, em latim: in verbo autem tuo, laxabo rete – na tua Palavra, Mestre, lançarei as redes! Na tua palavra e não na minha. Quando a minha palavra não for suficiente, quando for inútil e pobre para tocar um filho, uma filha, o namorado, aquela pessoa que eu queria tanto ajudar, aqueles jovens desorientados por aí afora, é na tua palavra que eu acredito. É na tua palavra que eu vou tentar ainda uma vez fazer alguma coisa! É nessa Palavra que vivemos! Vocês acham que nós, sacerdotes, continuaríamos se não fosse a palavra de Jesus?! Se apenas acreditássemos nos nossos olhos, nas nossas experiências, teríamos como continuar, depois de tudo que vemos e ouvimos, depois de todo o sofrimento que tocamos? Mas pela palavra do Senhor sabemos que há algo além da nossa pequenez, da nossa miopia. Há peixe lá no fundo e, mesmo que não sejam com as minhas redes, mesmo que não seja hoje nem amanhã, um dia haverá uma grande pescaria, e as redes trarão para as margens aqueles peixes que estão no mais profundo do coração das pessoas.

Pais, mães, catequistas, não tenham medo, não desanimem nunca! Sempre haverá peixe, mesmo que as nossas redes sejam aquelas da noite de Pedro, que não pescaram nenhum peixe, mas in verbo tuo – na palavra de Jesus – , os peixes serão tão abundantes, que encherão várias barcas. Amém.

Pe. João Batista Libânio, sj – Um outro olhar, vol 8

Confira o Caminhos do Evangelho para este 5º domingo do Tempo Comum: