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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

3º domingo da Quaresma

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1ª Leitura - Ex 3,1-8a.13-15
Salmo - Sl 102,1-2.3-4.6-7.8-11 (R.8a)
2ª Leitura - 1Cor 10,1-6.10.12
Evangelho - Lc 13,1-9

Naquele tempo, vieram algumas pessoas
trazendo notícias a Jesus
a respeito dos galileus que Pilatos tinha matado,
misturando seu sangue com o dos sacrifícios que
ofereciam.
Jesus lhes respondeu:
'Vós pensais que esses galileus eram mais pecadores
do que todos os outros galileus,
por terem sofrido tal coisa?
Eu vos digo que não.
Mas se vós não vos converterdes,
ireis morrer todos do mesmo modo.
E aqueles dezoito que morreram,
quando a torre de Siloé caiu sobre eles?
Pensais que eram mais culpados
do que todos os outros moradores de Jerusalém?
Eu vos digo que não.
Mas, se não vos converterdes,
ireis morrer todos do mesmo modo.'
E Jesus contou esta parábola:
'Certo homem tinha uma figueira
plantada na sua vinha.
Foi até ela procurar figos e não encontrou.
Então disse ao vinhateiro:
'Já faz três anos que venho procurando figos nesta
figueira e nada encontro.
Corta-a! Por que está ela inutilizando a terra?'
Ele, porém, respondeu:
'Senhor, deixa a figueira ainda este ano.
Vou cavar em volta dela e colocar adubo.
Pode ser que venha a dar fruto.
Se não der, então tu a cortarás.'
Palavra da Salvação.

O amor de Deus é fogo que não se consome – Pe. João Batista Libânio, sj

A primeira leitura é tão bonita, que sinto necessidade de fazer um pequeno comentário. É a parábola, a metáfora de nossa vida, ainda que pensemos que é a história do povo de Israel.

Moisés vai ao Monte Horeb, que é o mesmo Monte Sinai. Vai à montanha, que, para Israel, é o lugar da tentação, mas também da intimidade com Deus. É o silêncio de quando desligamos a televisão, o rádio e entramos no quarto; então, estamos no monte Horeb que existe em cada uma de nossas casas. Mas, certamente, não no momento em que as televisões estão gritando, as motos passando em alta velocidade. Aí todos os horebs desaparecem. O Sinai está em nossa casa! É o monte da Lei, da Torah, dos relâmpagos e tempestades. Aí Moisés vê uma sarça que arde sem se consumir. A única realidade que arde sem se consumir é um Deus que ama, é o amor de Deus, que está sempre a arder e nunca se consome. Portanto, podemos jogar a água que quisermos: a água do nosso desprezo, do nosso silêncio, da nossa indiferença. A sarça continuará ardendo, ao contrário dos amores humanos, que ardem na paixão e depois de alguns anos só restarão cinzas e nada mais.

Moisés ouve uma voz, indicando que estava próximo do sagrado. As suas sandálias, como as nossas, carregam poeira, pois pisam nas ruas, em tantos lugares contaminados. Como Moisés poderia entrar com elas no santuário? Como podemos nos aproximar de Deus carregados da poeira de nossa futilidade, do vazio, da falta de sentido? Com tudo isso, nada poderemos encontrar em Deus, porque projetaremos nele o nosso vazio terrível, e Ele nos aparecerá também vazio, mesmo que a sarça continue ardendo. Moisés tira a sandália. E nós? Será que tiramos as nossas sandálias para encontrar o Senhor?

A parábola continua: a voz que quer libertar o povo da escravidão. É claro que o povo somos nós. Como já falei em outras ocasiões, quarenta anos eles vão passar no deserto, quando toda uma geração morre. Isto é, nós morremos continuamente para alcançarmos a Terra prometida. Ninguém chegará à Terra Prometida sem antes morrer. Quarenta anos significam a nossa história. Pode-se ter noventa anos, que serão quarenta anos bíblicos. Quarenta é um número simbólico: não é preciso toda uma geração morrer para se chegar à plenitude. Nós só chegaremos à plenitude passando pela porta da morte. É bonito demais!

Pensando se tratar de um dos muitos deuses que havia naquela época, Moisés pergunta: “Como chamas?”. Javé responde ser o Deus de Abraão, Isaac, Jacó, o Deus dos vivos. Ele não é um Deus dos mortos. Podemos dizer que é o Deus dos nossos pais, dos nossos avós, da nossa família, de nossa cultura, de todos os nossos antepassados. Esse é o nosso Deus, aquele que atravessa todas as nossas tradições, toda a nossa história. Uma das coisas mais sérias das gerações de hoje é que as crianças não recebem mais esse Deus. Muitas vezes, os pais têm vergonha de falar dele, ou mesmo não sabem o que falar. O catecismo da infância foi soterrado e ficou apenas o vazio. Acabam não sabendo mais quem é Deus. As crianças e os jovens ficam sem Deus, porque não têm pai, mãe ou avós que lhes falem dele.

Mas não basta falar do Deus das nossas tradições. Isso ainda é pequeno, e Ele mesmo dá uma maravilhosa definição, de uma profundidade fantástica: “Eu sou aquele que sou!”. Nós não somos aquilo que somos. Somos fingidos, enganamos, mentimos, vivemos de aparências, somos maquiados, vestidos de tantas coisas que não são nós mesmos: queremos ostentar cargos e carros que não são nós. Talvez se nos despíssemos daquilo que não somos, viveríamos bem mais leves.

Deus é quem estará com o povo de Israel em todos os momentos da história, mesmo na morte, no fracasso, na traição. Saber que Ele é nosso Deus em qualquer situação é fantástico! Podemos nos debandar por aí afora, mas teremos sempre a certeza de que esse Deus é nosso Deus e de que podemos voltar quando quisermos. Ele estará ali, pois é o que é. Ele não desaparece, não acaba. É a sarça ardente que nunca se consome. Que metáfora linda! Ele não se acaba, e se Deus não se acaba, o seu amor também não se acaba. Se o seu amor não se acaba, em qualquer momento, poderemos voltar para Ele.

Pais, não desanimem jamais com os seus filhos, por mais perdidos que estejam na história da humanidade! Deus sempre estará ardendo de amor por eles, por aquele casal em que um mata e depois suicida, por aquele rapaz envolvido na droga. Podem voltar a qualquer hora. Podem sair, que Ele continuará dentro de cada um de vocês.

Sobre o evangelho, vou falar apenas umas poucas palavras. Ele vem corrigir um preconceito que até hoje existe. Sempre achamos que Deus nos castigou, quando nos acontece qualquer desgraça, ou que tinha mesmo que acontecer, por obra do destino. Será que Deus está sempre nos punindo? Isso está metido na imaginação das pessoas, como se Deus estivesse sempre nos cobrando. Ele não cobra nada! O amor não pode cobrar. Quando cobramos do esposo, da esposa, dos filhos, dos pais, é porque não amamos. O amor é pura gratuidade. Se Deus é pura gratuidade, nunca cobrará nada de ninguém, e nada é nada. Nunca nos esvaziará, pois é sarça ardente que arde sempre. É isso que Jesus está nos dizendo. Se caiu a torre de Siloé não foi nenhum castigo ou punição, mas erro de cálculos humanos. Se fizermos uma curva a cento e oitenta quilômetros por hora, e o carro cair no abismo, não será castigo, mas uma simples lei da física. Tiremos Deus das desgraças humanas! Deus só está olhando para nós e torcendo para que tudo dê certo, para que nunca aconteça um assalto. Mas se acontecer, Ele estará ao nosso lado, ajudando, dando-nos força, animando-nos.

O evangelho de hoje fala de esperança, de consolo, da paciência de tomar aquela figueira e cultivá-la sempre, por mais um ano, que não é temporal, mas todos os que ainda virão. Vejam-se nessa figueira! Os anos virão até o dia em que fecharmos os olhos. Só então não haverá mais chance. Para Deus, os números não existem, assim como os dias e as datas, porque o seu amor não tem calendário. Ele não tem tempo, não conhece anos, porque é eterno e infinito. Nós somos essa figueira que o amor de Deus sempre espera, e a quaresma é o momento bonito de regá-la e adubá-la Amém.

Pe. João Batista Libânio, sj - Um outro olhar, vol 8

Confira a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz para este 3º domingo da Quaresma: