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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

2º domingo da Quaresma

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1ª Leitura - Gn 15,5-12 17-18
Salmo - Sl 26,1.7-8.9abc.13.14 (R. 1a)
2ª Leitura - Fl 3,17-4,1
Evangelho - Lc 9,28b-36

Naquele tempo:
Jesus levou consigo Pedro, João e Tiago,
e subiu à montanha para rezar.
Enquanto rezava, seu rosto mudou de aparência
e sua roupa ficou muito branca e brilhante.
Eis que dois homens estavam conversando com Jesus:
eram Moisés e Elias.
Eles apareceram revestidos de glória
e conversavam sobre a morte,
que Jesus iria sofrer em Jerusalém.
Pedro e os companheiros estavam com muito sono.
Ao despertarem, viram a glória de Jesus
e os dois homens que estavam com ele.
E quando estes homens se iam afastando,
Pedro disse a Jesus: 'Mestre, é bom estarmos aqui.
Vamos fazer três tendas:
uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias.'
Pedro não sabia o que estava dizendo.
Ele estava ainda falando,
quando apareceu uma nuvem que os cobriu com sua sombra.
Os discípulos ficaram com medo
ao entrarem dentro da nuvem.
Da nuvem, porém, saiu uma voz que dizia:
'Este é o meu Filho, o Escolhido.
Escutai o que ele diz!'
Enquanto a voz ressoava, Jesus encontrou-se sozinho.
Os discípulos ficaram calados
e naqueles dias não contaram a ninguém
nada do que tinham visto.
Palavra da Salvação.

Transfigurar é ir além da figura – Pe. João Batista Libânio, sj

Essa passagem é extremamente simbólica e pedagógica: pais + agogein, isto é, que conduz a comunidade. É também muito importante para a nossa vida cristã, se levarmos em conta que não é um fato histórico da vida de Jesus. É como se escrevêssemos perguntando: como é que a nossa comunidade vai reagir, como vamos viver a experiência de Jesus? No centro de tudo está a sua figura, tão conhecida dos apóstolos. Muitos o conheceram jovem, adolescente; outros, já adulto. O evangelista sabe que um dia eles irão encontrar um Jesus desfigurado –esse é o problema todo. O mesmo Jesus que tinha uma aparência simples e normal, simpática e agradável, que vivia com eles, dormindo, conversando, passeando, era o Jesus humano, como qualquer pessoa. Mas um dia – talvez um ou dois anos à frente – seria totalmente desfigurado pela paixão, pela coroa de espinhos, pela flagelação, pelo sangue, pela crucifixão, pelas zombarias. Era possível que os apóstolos não suportassem a desfigura de Jesus. Aí o evangelista, didaticamente, coloca essa passagem como para dizer que eles não se assustassem. Abre uma cena nova, levanta um pouco a cortina, para que eles vejam além, e transfigura Jesus – figura/desfigura/transfigura.

Eles precisavam saber que além da desfiguração havia coisa muito mais bonita, muito mais profunda, porque as desfigurações em nossa vida nos machucam muito, nos causam dor, nos fazem desanimar, se não temos nenhuma transfiguração na memória. Enquanto Jesus viveu entre os homens, Ele se configurou na nossa maneira de existir – figura/configura/desfigura – e mostrou apenas um pouquinho do que seria a transfiguração. Por isso, os evangelistas trazem para colocar ao lado de Jesus dois símbolos fundamentais do Antigo Testamento: Moisés, a Lei e Elias, o Profeta! A Lei cruza com a Profecia! Aponta para o que existe como norma, como regra. A profecia vai mais longe: denuncia o erro e anuncia a vitória. Todo esse jogo o evangelista coloca diante dos três apóstolos, símbolos de toda a comunidade. Pedro, o grande apóstolo da Igreja hierárquica; João, a Igreja mais carismática, e Tiago, o apóstolo da fidelidade. Os apóstolos foram bem escolhidos, assim como as duas figuras, além da transfiguração colocada entre a figura e a desfigura de Jesus.

Olhemos para a nossa vida. Quantas situações desfigurantes vivemos?! Quantas vezes convivemos com pessoas cuja figura conhecemos e que, de repente, se desfiguram diante de nós, pela corrupção, pela decadência?! Às vezes, conhecemos um jovem simpático, alegre, festivo e, inesperadamente, ele mergulha no terrível mundo das drogas, do sexo desvairado, e a sua figura se desfigura radicalmente. Se não acreditarmos que existe para ele a chance de uma transfiguração, nosso primeiro movimento será rechaçá-lo definitivamente. Mas acreditamos que a pior figura que possa existir aqui na Terra, mesmo a pessoa mais desfigurada, terá sempre a chance da transfiguração. Um dia, ela poderá ser refeita, reestruturada, refigurada através da força, da graça, do amor das pessoas. É isso que nos anima a viver, a existir, a falar aos jovens de hoje, que não raro se perdem. Às vezes, achamos que não há mais esperança. Sempre haverá esperança!

Por isso, esse evangelho é bonito, porque, quando os apóstolos estiveram com Jesus desfigurado, não perderam toda a esperança, pois sonhavam com a transfiguração que, de fato, veio com a ressurreição. Eles viram e experimentaram, enquanto nós poderemos atravessar um túnel mais escuro, porque muitas transfigurações não poderemos ver. Quantos pais veem seus filhos desfigurados e, talvez, morram na noite escura, sem ver as transfigurações que o evangelho afirma que existem?! Há esperança para todos os seres humanos, pois a transfiguração de Jesus é símbolo e marco para todas as nossas transfigurações.
Quando, na nossa vida, conseguimos experimentar pequenas transfigurações, isso nos anima mais ainda, como quando acontece de alguém, que vimos quebrado, se reerguer. Como eu, que conheci um jovem quebrado, desfeito, saindo do túnel escuro das drogas e, de repente, ele começa a se reconstruir, e eu pude ver a sua transfiguração! Como isso reacende a nossa esperança! Transfigurações são os momentos bonitos da vida, quando tudo fica claro, como Jesus no alto da montanha, quando o rosto irradia alegria. Esses momentos são importantes, e precisamos guardá-los na memória para quando outra onda nos abater. São essas transfigurações que acontecem agora que nos fazem pensar que outras serão possíveis. Deus faz isso acontecer em todos os lugares. Não houve momento na história em que não acontecessem grandes conversões. Pessoas loucas, desanimadas, que depois viveram momentos de grande lucidez. A luz iluminou-lhes o rosto, e elas se transfiguraram.

Lembremos de Raissa e Jacques Maritain (*), que chegaram a fazer um pacto de suicídio, porque não encontravam sentido na vida. Depois, ela galgou os degraus mais altos da mística, perdendo-se em Deus numa profundidade gigantesca – uma verdadeira santa. Também ele, depois de viver desvairado, desanimado, quase desistindo, de repente, se encontra e morre como santo. Deus vai-nos mostrando que as transfigurações existem na história, e que podemos apostar nelas, porque a graça do Senhor é maior do que as nossas fraquezas.

A vida humana não é um passar em brancas nuvens, não é navegar em um lago sereno, mas é esse contraste, esse jogo de alegria e tristeza, de fé e dúvida, de amores e vinganças. Se não semearmos e não colhermos experiências que nos alimentem, como poderemos viver? Aí se nota a diferença de quem tem fé. A fé é exatamente essa luz transfigurante que não nos abandonará nos momentos mais difíceis da nossa vida. Haverá momentos em que as academias, as maquiagens e todas as outras belezas não servirão para nada, e só restará a profundidade da fé. Aí não seremos cabides de grifes, mas teremos interioridade, que só é marcada profundamente, quando a nossa consciência se faz presente a si mesmo, e nessa presença descobrimos o mistério profundo de Deus, que nunca nos deixará.

Transfiguração são momentos de profundas experiências, para que, nos momentos de desfiguração, suportemos o peso da existência, sem desânimo nem desespero. Amém.

Pe. João Batista Libânio, sj – Um outro olhar, vol. 8

Confira a reflexão para este 2º domingo da Quaresma