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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Batismo do Senhor

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1ª Leitura - Is 42,1-4.6-7
Salmo - Sl 28,1a.2.3ac-4.3b.9b-10 (R.11b)
2ª Leitura - At 10,34-38
Evangelho - Lc 3,15-16.21-22
Naquele tempo:
O povo estava na expectativa
e todos se perguntavam no seu íntimo
se João não seria o Messias.
Por isso, João declarou a todos:
'Eu vos batizo com água,
mas virá aquele que é mais forte do que eu.
Eu não sou digno de desamarrar
a correia de suas sandálias.
Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo.
Quando todo o povo estava sendo batizado,
Jesus também recebeu o batismo.
E, enquanto rezava, o céu se abriu
e o Espírito Santo desceu sobre Jesus
em forma visível, como pomba.
E do céu veio uma voz:
'Tu és o meu Filho amado,
em ti ponho o meu bem-querer.'
Palavra da Salvação

Batismo é compromisso com o futuro - Pe. João Batista Libânio, sj

Esta festa do Batismo talvez seja mais profunda do que parece à primeira vista. É necessário que façamos um esforço, um certo mergulho na Teologia, para captarmos sua profundidade.

Se olharmos a história da humanidade, perceberemos que há duas experiências que se contrapõem continuamente. Praticamente, duas estruturas. Quando o ser humano aflora e aparece a sua consciência, portanto, a sua responsabilidade, ele vem da noite do animal. Quando, no século XIX, Darwin escreveu o livro “A origem das espécies”, foi um grande escândalo. Imaginem, numa Inglaterra tão tradicional, religiosa, anglicana, de repente, esse cientista inglês diz que nós, seres humanos, não viemos da terra, criados pela mão de Deus, mas sim do longo processo evolutivo do animal! Isso foi muito humilhante para a humanidade. Um autor dizia, ironicamente, relembrando os jornais daquela época, que era melhor esquecer isso, porque era humilhante sabermos que viemos do animal, que os nossos avós foram símios – uns macacos especiais. O macaco é nosso irmão, o elo anterior. Nós somos símios. Isso é humilhante para quem imaginava Adão e Eva passeando no paraíso, os dois conversando naquela beleza. Pelo contrário, nascemos bem animais, bem violentos. Levamos um milhão e meio de anos para chegarmos a esses animais que somos hoje. E ainda há tanta violência!

O animal não tem consciência da sua violência. Mas quando Caim – não é uma pessoa física, somos todos nós – matou Abel, escondeu-se, fugiu de medo, sentiu uma marca em sua testa – a marca da culpa, do peso da consciência. O ser humano é carregado de culpa. Nós do Ocidente, principalmente, temos uma dificuldade imensa de conciliar prazer e alegria. No Ocidente, prazer está muito ligado à culpa. Por isso, apareceu Freud e depois dele todos os psicanalistas. Estão até hoje tentando arrancar das pessoas um pouco da sua culpabilidade. Este é o quadro. E sabem o que faz Jesus? Entra nas águas – outra experiência fundamental.

A água nos dá experiência de clareza, de pureza, de transformação. Quando chegamos cansados do trabalho, sentindo-nos sujos, tomamos um banho e ficamos aliviados. Por isso, a água é a experiência da limpeza, da transformação. Quando Jesus entra nas águas do Rio Jordão busca, pela primeira vez, essa experiência radical. As águas, doravante, terão força de transformar o nosso interior. Haverá uma água – naquele momento ninguém sabia qual era – que, quando tocar a nossa cabeça, tocar o nosso corpo e todas as vezes que a tocarmos, vai nos transformar. Ela não é apenas água, é a força do Espírito Santo. Naquela água há presença de Deus, presença do Espírito. Jesus quer nos passar que só a experiência profunda de um Deus livre, que nos acolhe porque quer, é que pode libertar-nos de nossas culpas. De outra maneira, não conseguimos. Todos os outros caminhos são de Sísifo (*), que levam a pedra até em cima e, quando pensamos estarmos livres da culpa, a pedra desmorona novamente. Sempre temos que reiniciar o mesmo trabalho. Essa experiência do mito grego, de carregar a pedra até o alto da montanha, é a demonstração de nossa impotência, de nossa incapacidade, de nossa impossibilidade de nos livrar das nossas faltas e culpas. Ninguém consegue. Nem padres, nem papa, nem a santa freira. Todos nós precisamos, um dia, ouvir uma palavra, precisamos de uma mão que nos toque e diga que estamos perdoados pela força de Deus. Precisamos saber que estamos perdoados, não porque buscamos, não porque atravessamos oceanos ou corremos mundo. Mas porque, um dia, Jesus entrou nas águas do Jordão e essas águas chegaram até nós. O Jordão chegou a Vespasiano!

Quando tocarmos essa água, sintamos esta experiência primigênia da humanidade. Somos novos, somos livres. Para que ser livre, para que despojarmos do peso? Apenas para esperar? Não. Para construir, para trabalhar, para comprometermo-nos. Batismo é compromisso com o futuro. Depois do perdão, não se volta ao passado. O passado deixa de existir. O perdão se volta é para o futuro. Batismo é um relançar para frente, para o futuro, é um construir. Por isso, essa comunidade deveria sentir hoje que, ao sair desta igreja, não será a mesma que entrou. Haverá mais justiça e honestidade. O dinheiro público será mais bem empregado, as pessoas serão mais responsáveis no cumprimento dos seus deveres. A cidade será mais limpa, as águas serão respeitadas, porque não a sujaremos. Uma água limpa nos faz mais limpos. É uma mudança ecológica, política, social. Tudo isso nasce dessa experiência primigênia de Jesus.

Se vocês forem à Palestina, verão um riozinho pequeno, mas aquelas águas não são mais águas poluídas, porque foram tocadas pelo corpo do próprio Filho de Deus. E são essas águas que vão modificar o nosso corpo diante da história, para fazer a nossa comunidade, a nossa família, o nosso trabalho mais bonito, mais feliz, mais gostoso, mais prazeroso. Amém.

Pe. João Batista Libânio, sj - Um outro olhar, vol. 4