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sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

4º domingo do Tempo Comum

29_jan_evangelho-01


































1ª Leitura - Jr 1,4-5.17-19
Salmo - Sl 70,1-2.3-4a.5-6ab.15ab.17 (R.15ab)
2ª Leitura - 1Cor 12,31-13,13
Evangelho - Lc 4,21-30
Naquele tempo:
Entrando Jesus na sinagoga disse:
'Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura
que acabastes de ouvir.'
Todos davam testemunho a seu respeito,
admirados com as palavras cheias de encanto
que saíam da sua boca.
E diziam: 'Não é este o filho de José?'
Jesus, porém, disse:
'Sem dúvida, vós me repetireis o provérbio:
Médico, cura-te a ti mesmo.
Faze também aqui, em tua terra,
tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum.'
E acrescentou:
'Em verdade eu vos digo que nenhum profeta
é bem recebido em sua pátria.
De fato, eu vos digo:
no tempo do profeta Elias,
quando não choveu durante três anos e seis meses
e houve grande fome em toda a região,
havia muitas viúvas em Israel.
No entanto, a nenhuma delas foi enviado Elias,
senão a uma viúva que vivia em Sarepta, na Sidônia.
E no tempo do profeta Eliseu,
havia muitos leprosos em Israel.
Contudo, nenhum deles foi curado,
mas sim Naamã, o sírio.'
Quando ouviram estas palavras de Jesus,
todos na sinagoga ficaram furiosos.
Levantaram-se e o expulsaram da cidade.
Levaram-no até ao alto do monte
sobre o qual a cidade estava construída,
com a intenção de lançá-lo no precipício.
Jesus, porém, passando pelo meio deles,
continuou o seu caminho.
Palavra da Salvação.

O meio é o caminho da liberdade – Pe. João Batista Libânio, sj

A leitura da carta de Paulo é considerada uma das páginas mais belas da literatura religiosa universal. Platão escreveu um famoso diálogo sobre o amor de Fedon, em que fala de um banquete, mas não chegou à altura de Paulo. Apesar de toda a filosofia, de toda a sua inteligência gigantesca, Platão chegou apenas até o amor filia, não foi mais longe.

Não chegou a compreender o amor agape. É diferente de ágape, que significa refeição, em português. Agape é o amor mais alto, mais elevado, e somente Paulo conseguiu chegar lá, naturalmente inspirado na prática de Jesus. A grande característica desse amor, que Platão não conheceu, é a capacidade de perdoar, de acolher o inimigo, de conter todos esses adjetivos que acabamos de ouvir. Vale a pena, um dia, com calma, abrirem essa página, lerem, sublinharem, conferirem os adjetivos com os substantivos da vida de cada um de vocês. Pela gramática, vocês devem saber que o que dá consistência e substância é o substantivo, que está segurando a realidade, que tem muitas cores, muitos matizes e, por isso, precisa dos adjetivos ao seu lado. Os adjetivos são importantes, porque nos indicam para onde devemos caminhar, pois de nada adianta caminhar se não soubermos para onde estamos indo. Essa carta é toda ela feita de adjetivos, partindo de um único substantivo, que é a caridade, o amor. Cabe-nos avaliar se eles se compatibilizam com os nossos amores, sejam entre namorados, esposos, pais e filhos, amigos, e até mesmo em relação às pessoas que são desafetas a nós.

O evangelho de hoje supõe o conhecimento da leitura do último domingo, quando Jesus entrara na sinagoga de Nazaré, provocando nos presentes um grande choque, pois a criança, o adolescente que crescera junto com eles naquela cidade, havia saído para outros lugares - para grande escândalo de todos eles –, onde realizara maravilhas. De repente, Ele reaparece e provoca um frêmito, um frison. Ele termina de ler o texto de Isaías e afirma que aquela profecia se realizava naquele menininho que crescera entre eles. Ele não era um jovem qualquer, mas viera para realizar o projeto de Deus, que é modificar o mundo, transformar a realidade, criar uma sociedade de justiça e fraternidade.

Seus milagres eram simples sinais de tudo o que a humanidade poderia fazer. Ao afirmar isso, muda todo o ânimo daquela comunidade. Vai do espanto e admiração para a fúria. A verdade é que Nazaré pretendia possuí-lo, ser a sua única dona, e Jesus não aceitou isso. A grande lição para todos nós é que ninguém é dono de ninguém, a não ser Deus. Na sociedade humana, durante milênios, nós tivemos senhores e servos, senhores e escravos, donos e possuídos. Há um fato simples na história do Rio de Janeiro, quando um belo jovem negro chega na casa de uma senhora trazendo um presente de uma certa dama da sociedade, terminando por dizer que também ele fazia parte do presente, como se fosse uma coisa que pudesse ser disposta de uma pessoa para outra. Já dois mil anos antes, Jesus não aceitou que Nazaré dispusesse de sua vida e de sua pessoa, dominando-o. Quando seus conterrâneos quiseram expulsá-lo,  empurrando-o pelo monte abaixo, Ele abriu caminho pelo meio e seguiu sua própria vontade, sem que ninguém o tocasse. Não foi pelo lado, porque trombaria nas pessoas, fosse pela esquerda ou direita. Ele escolheu o meio, para dizer de sua liberdade, sua independência, sua clareza. Nós vivemos num país em que a liberdade é muito menor do que imaginamos.

Se parássemos um instante sequer para pensar quantos mecanismos nos conduzem a cada dia, às compras, aos modismos... Frei Betto me contava que há pouco tempo, um desses galãs de novela se machucara acidentalmente, provocando um pequeno ferimento pouco abaixo do pescoço, que o obrigou a usar a camisa abotoada para escondê-lo. Poucos dias depois, muitos jovens usavam a mesma camisa abotoada até o último botão, apenas para imitar o galã da vez. A ignorância palmar leva a esses ridículos. São eles que nos comandam, nos fazendo querer, desejar, pois não somos livres. Até mesmo os Estados Unidos, que se dizem o país da liberdade, talvez sejam de menos liberdade, altamente condicionados pelos sites, pelas propagandas, pela indústria farmacêutica. Há um escritor gaúcho, Luís Fernando Veríssimo, filho do clássico Érico Veríssimo, que escreveu uma crônica muito simpática, dizendo que, se fôssemos seguir esses conselhos que rodam por aí, o dia precisaria ter mais de quarenta horas para dar conta de todos os preceitos que a mídia determina. Nós vivemos como manequins teleguiados, e Jesus hoje nos dá esta fantástica aula de liberdade: atravessou a multidão pelo meio e seguiu o seu próprio caminho.

Pe. João Batista Libânio, sj - Um outro olhar, vol. 8

Confira a reflexão para este 4º domingo do Tempo Comum: