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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

3º domingo do Tempo Comum

24_jan_evange-01-01


































1ª Leitura - Ne 8,2-4a.5-6.8-10
Salmo - Sl 18,8.9.10.15 (R. Jo 6,63c)
2ª Leitura - 1Cor 12,12-30
Evangelho - Lc 1,1-4;4,14-21

Muitas pessoas já tentaram escrever a história
dos acontecimentos que se realizaram entre nós,
como nos foram transmitidos
por aqueles que, desde o princípio,
foram testemunhas oculares e ministros da palavra.
Assim sendo, após fazer um estudo cuidadoso
de tudo o que aconteceu desde o princípio,
também eu decidi escrever de modo ordenado
para ti, excelentíssimo Teófilo.
Deste modo, poderás verificar
a solidez dos ensinamentos que recebeste.
Naquele tempo:
Jesus voltou para a Galiléia, com a força do Espírito,
e sua fama espalhou-se por toda a redondeza.
Ele ensinava nas suas sinagogas e todos o elogiavam.
E veio à cidade de Nazaré, onde se tinha criado.
Conforme seu costume, entrou na sinagoga no sábado,
e levantou-se para fazer a leitura.
Deram-lhe o livro do profeta Isaías.
Abrindo o livro,
Jesus achou a passagem em que está escrito:
'O Espírito do Senhor está sobre mim,
porque ele me consagrou com a unção
para anunciar a Boa Nova aos pobres;
enviou-me para proclamar a libertação aos cativos
e aos cegos a recuperação da vista;
para libertar os oprimidos
e para proclamar um ano da graça do Senhor.'
Depois fechou o livro,
entregou-o ao ajudante, e sentou-se.
Todos os que estavam na sinagoga
tinham os olhos fixos nele.
Então começou a dizer-lhes:
'Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura
que acabastes de ouvir.'
Palavra da Salvação.

Jesus nos propõe seu plano de metas – Pe. João Batista Libânio, sj

Cada um dos três evangelhos sinóticos, que são muito parecidos, escritos por Marcos, Mateus e Lucas, apresenta um pórtico de entrada de Jesus na vida pública diferente, mas todos com um grande discurso programático. Não são iguais, porque cada um tem uma perspectiva própria e escolhe um prisma diferente. O mais conciso é Marcos, que escreve três frases: “O tempo chegou à sua plenitude. O Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!”. Assim, Marcos anuncia o programa de Jesus bem resumidamente: Jesus no meio do povo. Mateus é mais longo. Leva Jesus para a montanha, porque tinha os olhos voltados para Moisés. Moisés na montanha, recebendo a Lei, e Jesus na montanha, proclamando oito bem-aventuranças.

Depois deles vem Lucas, que era historiador, mais aconchegante, mais estudioso. Por isso, pensa que a cidade onde Jesus vivera sua infância e juventude era o melhor lugar para Ele começar a sua vida pública. Mas Jesus já tinha ido longe, já tinha feito quase uma viagem internacional para aquela época. Fora à Judeia, bem ao sul, onde João o batizara. Lucas o traz novamente para a sua cidade, para a Galileia, para Nazaré. E agora vem a coisa mais linda: em Nazaré, todos conheciam Jesus. Lá Ele foi criança, foi adolescente, estudou na escola local, conhecia todos os coleguinhas com quem brincava. Era um jovem forte, trabalhador, camponês e artesão, trabalhava para ajudar seus pais terrenos no sustento de uma grande família. Mas Ele fica adulto, e ninguém poderia imaginar nada desse homem. Tinha frequentado as sinagogas, as escolas normais de sua época, onde os judeus aprendiam a ler e a escrever através das escrituras. De repente, num belo dia, sem ninguém esperar, com todos reunidos, Jesus entra na sinagoga, e todos olham espantados. Percebem algo diferente naquele rosto. Aquela pessoa que conheciam já não era mais a mesma.

Jesus se dirige ao púlpito, toma do encarregado o rolo de pergaminho e começa a ler uma passagem que todos conheciam, como tantas histórias que conhecemos desde a infância. Todos conheciam aquela passagem e escutaram distraidamente. Mas, de repente, Ele para, tira o véu do escondimento e se mostra como o grande enviado de Deus. Diz que eles pensavam que sabiam tudo, mas, na verdade, não sabiam o essencial. Toma um texto de Isaías, um profeta que, séculos antes dele, viu seu povo sair do exílio.

A profecia de Isaías se realizava naquele momento, na pessoa de quem a lia. O olhar de Jesus penetra no mais profundo de todos que o ouviam e, há dois mil anos, Ele proclamou cinco metas, e nenhuma delas nós conseguimos realizar até hoje.

A primeira é evangelizar os pobres. O mundo de hoje tem, provavelmente, alguns bilhões de pessoas que nunca ouviram o nome de Jesus. Penetrem no interior da China, onde há tanta miséria; caminhem pela Índia, onde verão pessoas morrendo pelas ruas; e perguntem a algum indiano, que está morrendo, se conhece o Senhor Jesus. Certamente, ele nos olhará espantado, porque nunca ouviu falar dele. Dois mil anos depois, os pobres da Índia ainda não ouviram o evangelho de Jesus.

Ele continua, dizendo que os cativos devem ser libertados. As nossas delegacias e penitenciárias continuam repletas de cativos, e acreditamos que muitos outros deveriam estar lá também. Continuamos colocando seres humanos atrás de grades, como se fossem feras. Já pensaram nessa barbaridade? É que nos acostumamos a pensar o ser humano como uma pantera, uma onça pintada, um leão, um tigre, que temos que colocar atrás das grades. Mas não são feras, e, sim, Antônio, Pedro, Maria. Geralmente pobres, largados, sofridos, frustrados na infância, não cuidados no amor, nunca tocados por um carinho, mas pervertidos, não pela natureza, não por Deus, mas pela sociedade.

Jesus viu cegos, e não só dos olhos. Não é essa cegueira que o Senhor precisa curar, essa Ele entregou aos oftalmologistas. Ele quer curar as cegueiras da nossa cultura, da nossa sociedade. A gente se acostuma a não pensar no outro. Quando imaginamos barbáries, pensamos nos campos de concentração nazistas, que mataram seis milhões de judeus – uma tragédia terrível! Mas temos que pensar nos gulags russos, que mataram talvez muito mais; temos que pensar no khmer vermelho, que liquidou um terço de todo um país. Temos que pensar naquele presidente limpo, do país mais ensabonetado do mundo, chamado United States of America: Truman - manda jogar duas bombas atômicas sobre duas cidades. Já viram monstruosidade maior? Jogar duas bombas sobre mulheres, crianças inocentes, que nada tinham a ver com a guerra. Que soldados façam guerras, passa, mas que, em suas casas, mulheres com crianças pequenas no colo, de repente, sejam atingidas por uma bomba radioativa e que anos e anos depois ainda sofram suas consequências, é inadmissível! Tudo isso o mundo inteiro olhou e achou normal. Truman não foi julgado em Nuremberg, como tantos nazistas que foram condenados, como Saddan Houssein, que foi enforcado. Os poderosos matam e continuam impunes nos seus crimes. Que diferença do programa de Jesus!

Jesus continua. Agora falando dos oprimidos pela doença, pelo trabalho, pela tristeza, pela falta de sentido na vida. Como dói ver tantos jovens que olham para o mundo e não vêm nada, só pensam em chicletes e coca-cola, no máximo uma internet discreta! Vivem uma vida vazia, numa secura interior, com um deserto no coração, enquanto o Senhor veio para libertar os oprimidos. Como não conseguimos falar uma palavra que toque o coração desses jovens? Como me sinto impotente diante de vocês, jovens! Minha palavra não chega, não os alcança. Eu queria entrar nos seus corações, mexê-los por dentro, transformá-los, fazê-los felizes. Essa é a nossa missão na Terra! Não viemos aqui para sofrer, para carregar cruzes todos os dias. Viemos para irradiar felicidade, alegria, paz, amor, carinho, respeito, ternura. Devíamos existir para cuidar um do outro e, vendo uma pessoa que sofre, abrir um horizonte para ela, ressuscitando-a por dentro.

Precisamos pensar onde estão as cegueiras que queremos curar, onde estão os cativos que queremos libertar, que cativeiro, que opressão precisamos extinguir em nossas vidas, em nossas famílias, qual a grande anistia que precisamos anunciar e realizar. Tudo isso deve acontecer dentro de cada um de nós, que temos as nossas cegueiras, nossas opressões, nossos grilhões. Deve acontecer nas nossas famílias. Onde estão os grilhões, os cativos, as cegueiras?

É isso que o Senhor queria. É isso que Ele começou e anunciou mais ainda: um tempo de graça e anistia. Um tempo em que todo o povo se reconciliaria. Em Israel, isso significava pagar todas as dívidas, recuperar todos os bens, para que tudo fosse dividido. Deus não criou o céu e a terra apenas para alguns, mas para todos os bilhões de habitantes deste mundo. Mas os homens começaram a agarrar a terra para si e a expulsar uns aos outros, como também nós fazemos. Temos casas bonitas para morar e jogamos os pobres nos morros, que, à primeira chuva, caem e os matam. Jesus não quer isso. Não quer a tristeza. Pobre Jesus, acreditou demais em nós! E nós continuamos não respondendo aos seus sonhos e utopias. Amém.

Pe. João Batista Libânio, sj – Um outro olhar, vol. 8

Confira o Caminhos do Evangelho deste 3º domingo do Tempo Comum: