PESQUISAR TEMAS E ARQUIVOS DO BLOG

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

2º domingo do Tempo Comum

17_jan_evange-01-01


































1ª Leitura - Is 62,1-5
Salmo - Sl 95,1-2a.2b-3.7-8a.9-10a.c (R. 1a.3b)
2ª Leitura - 1Cor 12,4-11
Evangelho - Jo 2,1-11

Naquele tempo:
Houve um casamento em Caná da Galiléia.
A mãe de Jesus estava presente.
Também Jesus e seus discípulos
tinham sido convidados para o casamento.
Como o vinho veio a faltar,
a mãe de Jesus lhe disse:
'Eles não têm mais vinho'.
Jesus respondeu-lhe:
'Mulher, por que dizes isto a mim?
Minha hora ainda não chegou.'
Sua mãe disse aos que estavam servindo:
'Fazei o que ele vos disser'.
Estavam seis talhas de pedra colocadas aí
para a purificação que os judeus costumam fazer.
Em cada uma delas cabiam mais ou menos cem litros.
Jesus disse aos que estavam servindo:
'Enchei as talhas de água'.
Encheram-nas até a boca.
Jesus disse:
'Agora tirai e levai ao mestre-sala'.
E eles levaram.
O mestre-sala experimentou a água,
que se tinha transformado em vinho.
Ele não sabia de onde vinha,
mas os que estavam servindo sabiam,
pois eram eles que tinham tirado a água.
O mestre-sala chamou então o noivo e lhe disse:
'Todo mundo serve primeiro o vinho melhor
e, quando os convidados já estão embriagados,
serve o vinho menos bom.
Mas tu guardaste o vinho melhor até agora!'
Este foi o início dos sinais de Jesus.
Ele o realizou em Caná da Galiléia
e manifestou a sua glória,
e seus discípulos creram nele.
Palavra da Salvação

A democracia da felicidade – Pe. João Batista Libânio

Evidentemente, João não está interessado em narrar mais um milagre de Jesus. Exagera de tal maneira as proporções do fato para que nós, inteligentes que somos, entendamos que ele quer falar de algo mais profundo. É interessante que ele não chama a ação de Jesus de milagre. Qualquer um de nós acharia que fora um grande milagre: transformar seiscentos litros de água em seiscentos litros de vinho – algo fantástico! Mas João não chama de milagre, mas de sinal – semeion, em grego, isto é, sinais externos. Sinal, então, é uma coisa visível, mas que não para nele, joga-nos para outra coisa.

Falamos de amor, amizade, saudade. São palavras, mas o mais importante é o conteúdo que passam, e isso não podemos ver. Sempre dou o exemplo do tráfego, que é o mais claro de todos. Nenhum de vocês, diante de um sinal vermelho, vai fazer poesia, porque, logo, todos os carros começariam a buzinar. O semáforo não está ali para inspirar poesia, mas simplesmente está dizendo que devemos parar o carro. Diante do sinal verde, avançamos; assim como, diante do amarelo, sabemos que precisamos estar atentos. Portanto, o sinal existe para indicar uma outra coisa além dele. Ele não vale nada nele mesmo, porque o mesmo sinal pode ter inúmeros significados, que podem até nos deixar perplexos. Se recebemos um abraço – e disso as mulheres entendem –, logo nos perguntamos o que ele significa. Pode significar traição, como o beijo de Judas, carinho, e até outras coisas, porque é um sinal e, por ser simbólico, permite muitos significados. João conclui, dizendo que foi o início dos sinais, deixando claro que viriam outros que ele mesmo descreverá depois.

Há também um outro aspecto clássico de linguística: qualquer sinal só pode ser entendido dentro de um contexto, como já lhes disse do sinal vermelho, que só tem sentido na rua. Se colocássemos um semáforo aqui no altar, todos pensariam que o padre enlouquecera, pois não há nenhum carro aqui dentro. Portanto, o semáforo só tem sentido no contexto do tráfego. Como diversas vezes já lhes falei, se formos ao Japão e estendermos a mão num cumprimento, o japonês se sentirá desafiado para uma luta de judô. É o contexto japonês, enquanto no contexto brasileiro é um simples sinal de cumprimento. Já temos, portanto, um sinal e um contexto e já podemos procurar um significado.

João deixou em aberto esse milagre, querendo nos mostrar que acontecera algo muito maior do que vimos. Faltou vinho, Maria se preocupou e pediu a ação de Jesus. Mas algo maior aconteceu, e é essa a grande questão sobre a qual temos que começar a pensar. Vejam bem: água/vinho. É mais que sabido que água é sinal de vida, pois onde há água é possível haver vida. No planeta onde vivemos, existe muito mais água do que terra, e é interessante que o chamemos de Terra e não de Água. Pela teoria evolucionista, sabemos que nós, seres humanos, viemos da água, há milhões de anos. Mas será que o vinho é melhor do que a água? Será um progresso transformar água em vinho? Sobre certos aspectos sim. Sem água não podemos viver, mas quando falamos de vinho, falamos de festa, de convívio. A vida corriqueira e banal do dia-a-dia se transforma em festa. No contexto de um casamento, encontramos bodas, festas, alegria, convívio, convivência, felicidade. Ninguém vai a um casamento com a cara funérea, mas sim alegre. As mulheres vestem seu melhor vestido, perfumam-se francesamente, para chegarem lindas, esbeltas, pois é um contexto de festa, de felicidade.

João escolhe esse contexto para o primeiro sinal de Jesus. Portanto, nunca podemos imaginar que Jesus tenha sido um profeta da tristeza, da morte, do sofrimento, um profeta da cruz, como tantos pregam. Jesus é o grande profeta da felicidade. Talvez seja isso que nunca tenhamos descoberto no cristianismo e que andou escurecendo a imagem de Jesus. Fez um Jesus sério demais, que não ria, sempre ligado à imagem da cruz, do sangue, sempre com as mãos cravadas. Com isso, não conhecemos o Jesus que começa sua vida pública numa festa de casamento, em meio à alegria e ao convívio – símbolos da grande novidade que Ele trouxe.

Jesus não se contentou com a vida, mas quis que ela fosse uma festa. Se percorrermos o evangelho, teremos a certeza de que Ele só quer a nossa felicidade. E tem mais: reparem na quantidade de vinho em que a água foi transformada. Não pensem que foi à toa que João escreveu isto – seiscentos litros! Aqui vem um detalhe profundo, e para isto eu gostaria de chamar mais a atenção: quando Jesus pensa na felicidade, não pensa apenas para alguns, mas para todos. Essa é a grande mudança! A sociedade moderna oferece a felicidade apenas para alguns. Perguntem a esses que estão na rua, jogados na sarjeta, se o sistema lhes oferece felicidade. Não! Oferece cadeia, dor, sofrimento, miséria, fome. Mas Jesus, não! Ele não se preocupou com as noventa e nove ovelhas que estavam no redil, mas com a única que se tinha perdido. Quando coloca seiscentos litros de vinho na festa de uma pequena cidade, quer dizer que todos puderam beber, sem excluir ninguém.

[...] Só com isto Ele está preocupado: que todos sejamos felizes, mas nunca à custa de ninguém. Ao cego, Ele dá a vista; ao doente, dá saúde; à mãe que perdera o filho, Ele o devolve com vida. Isto é o que Ele quer: felicidade para todos e não apenas para alguns.

Pe. João Batista Libânio, sj - Um outro olhar, vol 9

Confira o Caminhos do Evangelho para este 2º domingo do Tempo Comum: