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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Em nome do Avô, do Neto e da Brincadeira

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O fato é que Deus se cansou de ser Deus. Eu também me cansaria. Esse cansaço. Lembrei-me de um poema de Fernando Pessoa:

Tenho dó das estrelas
Luzindo há tanto tempo,
Há tanto tempo
Tenho dó delas.
Não haverá um cansaço
Das coisas, de todas as coisas,
Um cansaço de existir,
De ser,
Só de ser
 
Deus deve sentir o cansaço das estrelas.

Segundo as Sagradas Escrituras o universo começou com o cansaço. Deus se cansou das coisas do jeito como tinham sido desde toda a eternidade. Se não estivesse cansado delas - tédio - não teria criado o mundo. Heine, poeta alemão, no seu poema A canção do Criador diz que Deus resolveu criar para se curar. "A doença foi a fonte do meu impulso criador", diz Deus. "Criando, convalesci, criando, fiquei sadio de novo." Mas a doença era mais grave do que se pensava. Era feitiço. Feitiço, como se sabe, é uma palavra que gruda na outra pessoa e sobre ela opera uma transformação malvada. A bruxa diz "sapo", o príncipe vira sapo. Foi isso que os homens fizeram: falaram demais sobre Deus. Grudaram nele os seus pensamentos. E ele ficou doente.

As intenções eram boas. Achavam que Deus tinha de ser o máximo. Anselmo, um dos teólogos mais importantes da tradição cristã, disse que "Deus é aquilo maior do que pensar não se pode". Assim, se saber é bom, segue-se logicamente que saber muito é melhor. E saber infinitamente é divino. Deus, assim, tem de saber tudo: é onisciente. Ter poder é coisa boa: a gente anda, vê, faz amor, fala, come. O poder para fazer essas coisas dá alegria. Deus, alegria suprema por definição, tem logicamente de ter poder infinito, para estar eternamente alegre: ele é onipotente. E há o prazer da presença: a alegria de estar aqui, neste estúdio, cercado de objetos que me são caros, escrevendo. Mas, pelo fato de estar aqui, não estou nem nas montanhas nem nas praias. Minha presença aqui é a minha ausência de todos os outros lugares. Com Deus é diferente. Sua presença enche todos os espaços. Ele é onipresente.

Perfeições? Não as quereria para mim. Ficaria louco instantaneamente. Borges escreveu um conto sobre um homem de memória perfeita: Fulnes, o memorioso. A memória de Fulnes era tão perfeita que nela ficavam guardadas todas as folhas de uma árvore. Mas as folhas balançam com o vento. A memória de Fulnes registrava cada alteração. Na memória de Fulnes não havia uma árvore. Havia infinitas árvores: a das 14:30 e um segundo, a das 14:30 e dois segundos, a das 14:30 e três segundos - e assim sucessivamente, cada uma delas com um nome diferente. Tomem o Fulnes e o elevem ao infinito: assim seria uma mente onisciente - ela conheceria todos os bateres de asas de todas as abelhas, de todos os beija-flores, de todas as moscas, de todos os insetos e de todas as aves. Conheceria todos os espermatozoides nas ejaculações de todos os bichos; todos os movimentos de fezes e urinas; todas as sementes de capim; todos os cheiros e fedores; todos os pensamentos havidos e por haver; todas as letras, em todos os livros do mundo; todas as notas em todas as partituras musicais. Pobre Deus! Não poderia descansar nem dormir. Seus olhos sem pálpebras jamais se fechariam. Não poderiam se fechar. Não poderia gozar uma canção. Para se escutar uma canção é preciso que todas as outras canções sejam silenciadas. Mas a onisciência lhe proíbe isso. E nem poderia ler um livro de Saramago: ao texto do escritor português se misturariam os textos de todos os livros já escritos e por escrever. o mesmo pode ser dito de todas as outras perfeições divinas. Eu odiaria estar presente em todos os lugares ao mesmo tempo. Estar presente em todos os lugares é não estar presente em lugar algum. E eu odiaria ser onipotente. A onipotência me tiraria o prazer de brincar. Brincar só tem graça se houver a possibilidade do erro. Tocar piano, jogar sinuca, cozinhar, escalar montanha, rodar pião, escrever um texto: tudo ficaria sem graça porque tudo daria sempre certo, magicamente. E não há nada mais chato que isso.

Alberto Caeiro contou, num poema, que o Menino Jesus se cansou do céu e fugiu para a terra, escorregando num raio de sol. "No céu tudo é estúpido, tudo é falso, em desacordo com flores e árvores e pedras. No céu ele tinha de estar sempre sério". Preferiu ser um menino comum, que faz as coisas que os meninos comuns fazem. Mas, para que ninguém soubesse que ele havia fugido e não se pusessem, assim, à sua procura, ele fez um milagre: montou uma farsa fez com que parecesse que ele ainda estava no céu. Fugiu, deixando lá o Deus Pai e o Espírito Santo.

Alberto Caeiro é mestre em taoísmo. Mas não sabe muito as coisas da teologia. A verdade é outra. Não foi só o Menino Jesus que fugiu. Foi a Santíssima Trindade. Fugiram os três, e deixaram a farsa montada, para enganar. Fizeram isso por medo. Não de Herodes, mas dos teólogos e religiosos. Ficaram com medo de que eles começassem tudo de novo.

O Natal anuncia que Deus fugiu de ser Deus. Invejou os prazeres que os homens podiam ter e ele não: dormir, tomar banho de cachoeira, chupar mexerica, brincar, fazer amor, ter de se esforçar por conseguir. A teologia cristã dá a isso o nome de "encarnação". O Natal é Deus dizendo que divino, mesmo, é o humano.

Agora os três andam pela terra. Não mais como Pai, Filho e Espírito Santo. Esses ficaram no céu. Andam como Avô, Neto e Brincadeira. Pai não serve. Tem de ser o avô. E por que Brincadeira, em vez de Espírito Santo? Porque o Espírito Santo, na tradição teológica ortodoxa, é o que acontece entre o Pai e o Filho. (Só para os teólogos: é o filioque). Mas ora, o que acontece entre a primeira e a segunda pessoas da Trindade? Ora, o que acontece entre o Avô e o Neto é que eles brincam. Brincar é a mais divina de todas as atividades! Assim, em harmonia com o espírito do Natal, sugiro que a grave fórmula litúrgica "Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo" seja substituída pela leve (pneumática!) fórmula litúrgica "Em nome do Avô, do Neto e da Brincadeira".

Rubem Alves