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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Conchas ou asas?


O conhecimento pode dar prazer. O conhecimento pode dar sofrimento.

Quando o conhecimento dá prazer a gente quer conhecer cada vez mais. Quando o  conhecimento dá sofrimento a gente quer conhecer cada vez menos.

No início da sua Metafísica, Aristóteles afirma que "todos os homens têm, naturalmente, um impulso para adquirir conhecimento". Isso é absolutamente verdadeiro em relação ao conhecimento que dá prazer. 

O prazer que Walt Whitman sentiu ao entrar para a escola foi tão grande que ele lhe deu a forma de um poema:

Ao começar meus estudos
Me agradou tanto o passo inicial,
A simples conscientização dos fatos,
As formas, o poder de movimento,
O mais pequeno inseto ou animal,
Os sentidos, o dom de ver, o amor –
O passo inicial, torno a dizer,
Me assustou tanto,
E me agradou tanto,
Que não foi fácil para mim passar
E não foi fácil seguir adiante,
Pois eu teria querido ficar ali
Flanando o tempo todo,
Cantando aquilo
Em cânticos extasiados.

O conhecimento prazeroso é aquele que nos abre as janelas do mundo. Como se a gente estivesse viajando, e fosse vendo árvores, riachos, campos, vacas, cavalos, pássaros, casas, caminhos, nuvens. Conhecimento prazeroso é aquele que coloca diante de nós os cenários do mundo, que vão dos ovos num ninho de beija-flor até às galáxias a milhões de anos-luz de distância. Diante dos cenários que o conhecimento nos abre, os olhos e a alma ficam abobalhados de assombro. Como os de Walt Whitman menino.

Muitos séculos depois de Aristóteles, no final do século XVIII, o filósofo Emmanuel Kant  escreveu um pequeno opúsculo com o título O que é o Iluminismo? em que ele faz uma exortação que Aristóteles não entenderia. Ele diz: "Sapere Aude" - ouse saber! Mas como? Ninguém vai dizer "ouse olhar no microscópio!", "ouse olhar no telescópio!". Olhar no microscópio e olhar no telescópio são atos curiosos que atendem à nossa inclinação natural. Acontece que Kant tinha consciência de um tipo de conhecimento diferente daquele a que se referia Aristóteles. Ele sabia que há um conhecimento que não é natural por exigir a virtude moral da ousadia. A ousadia é uma atitude de contrariar aquilo que é natural. Ousadia implica coragem, fazer o proibido, enfrentar o perigo, aceitar um desafio. Dá medo entrar numa floresta desconhecida. Dá medo escalar uma montanha perigosa. O impulso natural é recuar. Mas Kant diz: "Ouse conhecer!" O que separa esses dois tipos de conhecimento?

O conhecimento a que se referia Aristóteles é o conhecimento das coisas que estão separadas do meu corpo. Conhecimento que mora na cabeça. Albert Camus, no seu livro O mito de Sísifo, observa que Galileu, que possuía um conhecimento astronômico da mais alta importância, quando se viu ameaçado pela lnquisição (as igrejas cristãs sempre tiveram medo daqueles que conheciam o que elas não conheciam), negou o seu conhecimento, voltou atrás, desdisse. Covardia? Camus diz que Galileu fez muito bem. Se o sol gira em torno da terra ou a terra gira em torno do sol é matéria de profunda indiferença. Aquele conhecimento não valia a fogueira. A vida vale mais. No entanto, ele continua, há pessoas que são capazes de morrer e matar pelas ideias mais doidas. Por quê? Porque essas ideais lhes dão razões para viver.

Ideias que dão razões para viver são aquelas ideias que fazem parte do meu corpo. Eu sei que uma ideia faz parte do meu corpo quando eu fico feliz ao vê-la confirmada por outra pessoa. É bom ouvir alguém dizer: "É isso mesmo. Estou de acordo!" Quando duas pessoas confirmam uma mesma ideia - elas conhecem o mundo do mesmo jeito estabelece-se entre elas um pacto; tornam-se uma comunidade; são irmãs. É assim que se formam as comunidades religiosas, as confrarias, alguns partidos políticos do tipo do PT, as torcidas de futebol, os grupos de adolescentes. Mas sei também que uma ideia é parte do meu corpo quando eu fico infeliz ao vê-la contestada. Meu corpo treme. Fico com raiva. Recuso-me a examinar logicamente o argumento daquele que a contesta. Preparo-me para a batalha. Se eu me preparo para sair, certo de que o céu está coberto de estrelas, e um amigo me informa que estou enganado porque começou a chover, eu posso ficar triste com o fato, mas não vou brigar para provar que o céu está estrelado. Vou simplesmente à janela para confirmar o dito. Se for verdade, levo o guarda-chuva. Mas se alguém disser que é um bom negócio derrubar as florestas para ganhar dinheiro, eu vou ficar muito bravo. Pode até ser que seja bom negócio. Se não fosse, as madeireiras não cortariam árvores. Há pessoas cujos corpos são feitos de cifrões. Seu corpo treme de felicidade ao ver a dança ascendente dos lucros. Acontece que os cifrões não circulam no meu sangue. Mas o meu corpo é feito com árvores e riachos. São as árvores e os riachos que me dão felicidade. Sabem o que eu faço quando a televisão mostra cenas de queimadas e devastações de florestas? Eu desligo a televisão. Sei que é verdade, mas eu não quero saber. Recuso-me. Contesto Aristóteles. Quero ignorar os fatos para que as árvores continuem de pé. É necessário, então, enunciar o contrário do dito pelo filósofo grego, e que é dito pela psicanálise: "Todos os homens têm, naturalmente, um impulso para evitar o conhecimento."

Esse estranho comportamento se deve ao fato de que nossos corpos não são feitos só de carne e sangue; eles são feitos de palavras. Os moluscos têm corpos moles. Falta-lhes um esqueleto. Como proteção, eles produzem conchas duras dentro das quais se fecham. Somos como os moluscos.

Frágeis diante de um mundo imenso e assustador. Tratamos, então, de nos defender: construímos conchas duras de palavras. Conhecimento sobre o mundo? Tudo bem. Tudo é permitido. Nada assusta. Mas ai daquele que tocar numa das palavras que fazem parte da minha concha. Nossa concha é sagrada. Na verdade, aquele mundo a que damos o nome de sagrado é feito com as partes da nossa concha de palavras. Ai daquele que tentar negar, contestar, destruir uma dessas palavras! O corpo inteiro se mobiliza para a batalha. Ou para a retirada. Retirada é também uma tática de guerra. Tapar os olhos, entupir os ouvidos, recusar-se a pensar. Pensar é muito perigoso. As Sagradas Escrituras relatam um sonho em que aparecia uma estátua enorme, de ferro, com pés de barro. Basta um pé de barro para que a estátua caia. O perigo do pensamento está em que ele venha a revelar que nossa estátua de ferro tem pés de barro: nossa concha é feita de gelatina. Se isso acontecer já não mais conseguiremos dormir em paz. Compreende-se, portanto, que contrariamente ao que disse Aristóteles, a nossa tendência natural seja a de evitar conhecimento. Os homens, naturalmente, esforçam-se por não conhecer.

O corpo é sagrado. E sagradas são todas as coisas que estão vitalmente ligadas a ele. Pensar uma palavra sagrada é correr o risco de trincar a concha dura que protege o nosso corpo mole. Coisas sagradas que não devem ser pensadas são ídolos. Ídolos não são para ser pensados. Ídolos são para ser adorados e usados. Compreende-se, portanto, a tendência das pessoas religiosas de se recusarem a pensar sobre suas idéias. Suas ideias religiosas - e portanto os seus deuses ficam fora do exercício do pensamento.

Mas eu não posso respeitar deuses que me proíbam o exercício do pensamento. Um deus que não sobrevive ao exercício da inteligência não pode ser deus. É um ídolo de pés de barro. Mas eu amaria e respeitaria um Deus que não temesse o pensamento e que me dissesse, como desafio:

"Ouse pensar!" Eu amaria e respeitaria um Deus que desafiasse os homens a abandonar suas conchas para se tornarem seres alados!

Rubem Alves