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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

3º domingo do Advento


1ª Leitura - Sf 3,14-18a

Salmo - Is 12,2-3.4bcd.5-6 (R.6)
2ª Leitura - Fl 4,4-7
Evangelho - Lc 3,10-18

Naquele tempo:

As multidões perguntavam a João: 'Que devemos fazer?'
João respondia:
'Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem;
e quem tiver comida, faça o mesmo!'
Foram também para o batismo cobradores de impostos,
e perguntaram a João:
'Mestre, que devemos fazer?'
João respondeu:
'Não cobreis mais do que foi estabelecido.'
Havia também soldados que perguntavam:
'E nós, que devemos fazer?'
João respondia:
'Não tomeis à força dinheiro de ninguém,
nem façais falsas acusações;
ficai satisfeitos com o vosso salário!'
O povo estava na expectativa
e todos se perguntavam no seu íntimo
se João não seria o Messias.
Por isso, João declarou a todos:
'Eu vos batizo com água,
mas virá aquele que é mais forte do que eu.
Eu não sou digno de desamarrar a correia de suas
sandálias.
Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo.
Ele virá com a pá na mão:
vai limpar sua eira e recolher o trigo no celeiro;
mas a palha ele a queimará no fogo que não se apaga.'
E ainda de muitos outros modos,
João anunciava ao povo a Boa-Nova.
Palavra da Salvação.

Que túnica iremos repartir? - Pe. João Batista Libânio, sj

Quando, em semanas passadas, líamos a passagem de Isaías, dizendo que os vales estariam cheios e as montanhas seriam aplanadas, como o grande projeto de João, imaginávamos que ele estava propondo grandes coisas. Imaginem o que seria cortar uma montanha! [...] O sonho de João era gigantesco no olhar de Isaías! Mas quando lhe perguntam o que deveriam fazer, ele diz: quem tiver duas túnicas, dê uma. Não vejo nada de tão gigantesco. É como dizer para as crianças que quem tiver uma merendeira cheia, reparta com o coleguinha que não tem nada. Será apenas isso que João quer nos dizer com tanto barulho, com tanto espalhafato, nas palavras bonitas e pomposas de Isaías? Apenas que devemos dar um pouco do que temos a alguém? Os dois conselhos exigem apenas bom senso, nada mais. Um cobrador de imposto não deve explorar, não deve subornar, não deve chantagear, mas cobrar o justo, o honesto. Que os advogados, os juízes, os políticos o façam – nada mais óbvio! Parece que o reino de Deus acontece aí, e será isso boa nova? Devemos andar muito mal para que coisas tão pequenas sejam boa nova. Se na época de João era assim, parece que dois mil anos depois, as coisas ainda não mudaram. As circunstâncias estão nos pedindo pequenas coisas para que a nossa realidade social melhore, para que consigamos caminhar de maneira mais honesta, mais justa. Coisas pequenas, sem nada de espetacular!
Penso que, neste advento, cada um de nós deve se perguntar: qual a túnica que eu vou dividir com o meu irmão? Quais as túnicas que vocês têm e podem dividir? Não aquelas que já não servem para ninguém, o restolho que sobra de uma boa faxina. Que comida eu posso repartir? Os alimentos materiais são necessários, pois há tantos carentes. Mas há também tantos carentes de uma palavra de conforto, de paciência, de alguém que sente ao lado de uma pessoa e lhe abra o ouvido para captar sua mensagem de dor. [...] Parece que, às vezes, a dor se concentra em algumas famílias, e elas sofrem tanto que, talvez o único gesto que lhes reste, seja o de Jó, olhando para Deus e dizendo: “Deus deu, Deus tirou. Bendito seja Deus!”.

Ao invés de esperar que Deus “tire”, por que nós mesmos não tiramos as coisas que nos sobram, nesta sociedade da abundância, do desperdício, ao lado da carência e da miséria? O que mais nos corta o coração, o que mais nos divide, mais nos rasga as entranhas não é que haja abundância, que as pessoas queiram comprar e ter as coisas. É que às vezes tanto consumismo é uma bofetada no rosto de quem não tem nada – exibir, esnobar, mostrar uma imensa riqueza diante de tantos miseráveis.

Ainda outro dia eu dizia, inspirado em Santo Tomás, e é bom que vocês saibam disso, pois os advogados, os juízes não sabem: se uma pessoa pegar alguma coisa, de qualquer lugar, por extrema necessidade, isso não é crime. Já ensinava Santo Tomás de Aquino: na extrema necessidade todas as coisas são comuns! Se um miserável faminto pegar qualquer coisa num sacolão para comer, ele não furtou. Apenas tirou o que de direito era dele! É o ensinamento mais tradicional da Igreja, que vem desde o Antigo Testamento, vem da criação, quando Deus disse para Adão e Eva no princípio da humanidade, que os bens eram para eles e não para os loucos que guardam. Saibam disso, pois o policial não sabe, o advogado não sabe, o juiz não sabe. Mas Deus sabe! Foi Ele que nos revelou e disse que, em caso de necessidade, o nu, o mal vestido, sem roupa nenhuma, pode apossar-se de qualquer roupa, porque é dele aquela roupa. Não cometeu furto, porque era dele.
Se soubéssemos disso, como mudaria a sociedade, como abriríamos as portas! [...] Nós trancamos, trancafiamos as nossas casas, guardamos os nossos bens, entulhamos os nossos armários de tantas coisas. Que venha um João Batista para dizer: abram os armários, abram as portas de suas casas para que as pessoas que nada têm consigam alguma coisa! Ele ainda usa uma imagem um pouco alheia a nós: joeirar o trigo. É uma imagem rural: por o trigo numa peneira, jogar para cima para que a palha seja jogada para o alto e depois queimada, enquanto o trigo será guardado. João diz que o Messias vem fazer isso. Antes que o Messias o faça, façamos nós mesmos: joguemo-nos um pouco para cima, um pouco mais alto, para mais perto de Deus. Aí o vento do Espírito poderá soprar as palhas de nossa vida. A palha que é leve, que é vaidosa, que é vazia.

Reparem que a palavra vaidade vem de vanitas, vanum, que significa vão, vazio. A vaidade é vazia. O vão é oco. As pessoas vaidosas são vazias como palha. O primeiro vento sopra, e o próprio João Batista diz que a palha será queimada num fogo inextinguível. Que o advento seja a época do sério, do peso, do grão de trigo que cai, que fica na peneira, enquanto queimamos as palhas da superficialidade, da banalidade que tanto cerca a nossa vida. Precisamos nos despregar de tudo isso, e aí sim, com um trigo bonito, um vinho bonito faremos uma bela eucaristia para entregar ao Senhor. Amém.

Pe. João Batista Libânio, sj - Um outro olhar, vol. 6

Confira a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM para este 3º domingo do Advento: