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sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Solenidade de Cristo Rei


1ª Leitura - Dn 7,13-14
Salmo - Sl 92, 1ab.1c-2.5 (R.1a)
1ª Leitura - Ap 1,5-8
Evangelho - Jo 18,33b-37

Naquele tempo:
Pilatos chamou Jesus e perguntou-lhe: 
'Tu és o rei dos judeus?' 
Jesus respondeu: 
'Estás dizendo isto por ti mesmo, 
ou outros te disseram isto de mim?' 
Pilatos falou: 'Por acaso, sou judeu? 
O teu povo e os sumos sacerdotes te entregaram a mim. 
Que fizeste?'. 
Jesus respondeu: 
'O meu reino não é deste mundo. 
Se o meu reino fosse deste mundo, 
os meus guardas lutariam 
para que eu não fosse entregue aos judeus. 
Mas o meu reino não é daqui'. 
Pilatos disse a Jesus: 
'Então tu és rei?' 
Jesus respondeu: 
'Tu o dizes: eu sou rei. 
Eu nasci e vim ao mundo para isto: 
para dar testemunho da verdade. 
Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz'. 
Palavra da Salvação

Um rei que se faz próximo – Pe. João Batista Libânio, sj

Hoje é a festa de Cristo Rei! Sem dúvida, esse título induz-nos facilmente a equívocos para interpretar a festa do Senhor. 

Um filósofo francês, chamado C. Castoriadis, trabalha com categorias um pouco difíceis, mas que podem nos ajudar – o que ele chama de imaginário social e imaginário coletivo. O que seria isso? Cada povo, cada cultura cria um universo de compreensão, de representação da realidade. Por exemplo: quando dizemos céu, sempre imaginamos algo que está em cima. Quando falamos de inferno, imaginamos o que está embaixo. Se vamos ao Japão e cumprimentamos uma pessoa esticando a mão, ela pode nos agarrar e nos jogar ao chão, pensando que é um desafio para uma luta de judô, quando apenas queremos cumprimentá-la. Mas se um japonês se curvar diante de nós, acharemos graça, mas ele estará apenas nos cumprimentando. É outro imaginário! 

O imaginário permite que nos situemos culturalmente. Por isso, quando viajamos, mudamos de imaginário e nos perdemos. Se chegarmos à Inglaterra e cumprimentarmos um inglês com tapinhas nas costas, ele pode até desmaiar, pois não gostam de serem tocados, preferem a distância. Já o baiano dá tapas para todos os lados. Tudo isso são coisas do imaginário. 

Quando falamos rei, o que podemos pensar? Pensamos em Buckinghan Palace, de Londres. O grande palácio que ocupa um quarteirão imenso, onde aparece a rainha em carruagens imensas puxadas por elegantes cavalos brancos. Ela, suave, brancosa, vestida com mantos e coroas reais. Isso faz parte de nosso imaginário: coroas, palácios, cetros, mantos, ouro, pedras preciosas. Quando ouvimos falar de Cristo Rei, imaginamos logo uma glória, como nas grandes catedrais antigas do Oriente, onde existia a grande figura do pantocrator. Panto em grego significa tudo; crator significa poderoso. Um imenso mosaico do Cristo sério, severo, dominando tudo. 

Assim fizeram os homens e mulheres do século IV em diante: projetaram o Cristo às alturas, para as glórias da realeza. Estragaram a sua figura, porque Ele sempre foi muito próximo de nós. Quando uma pessoa fica muito distante, ela se isola. Aprendam da linguística e da filosofia: uma maneira de isolar alguém, de torná-la insignificante para a nossa vida pessoal é distanciá-la de nós mesmos, projetá-la num Olimpo, colocá-la nas alturas. Lá ela só servirá para ser vista, adorada, mas não pertencerá ao nosso cotidiano. Cada um de nós poderá viver à sua maneira, porque Deus, Jesus estarão muito distantes, e Ele nunca quis isso. 

A liturgia hoje brinca conosco. Quando quer falar do Cristo Rei, não fala da ressurreição, de quando subiu ao céu entre nuvens, mas de quando está preso, julgado por um pretor romano. Daí a pouco seria coroado de espinhos, receberia uma cruz, subiria para o Calvário, toda a sua roupa seria tirada. Nu, preso a uma cruz – esse é o rei! Quanta diferença da rainha da Inglaterra, do rei da Espanha, com palácios de verão, de inverno, de primavera, de outono, de não sei mais o quê! O palácio de Cristo Rei era a cruz, sua coroa era de espinhos, seu cetro era uma cana, seu manto era um trapo vermelho sujo, jogado sobre suas costas em meio à flagelação, cobrindo seu próprio sangue. Este é o nosso rei – próximo de nós, próximo da nossa dor, de nosso sofrimento! 

Para isso Ele quis ser rei! Não queria um reinado diferente, para que, quando esbarrássemos com a solidão, a tristeza, o desespero, não tivéssemos que olhar para cima, para um rei distante. Não, bastaria olharmos para o lado. Ele está ao nosso lado! Como uma mãe que veio falar comigo sobre seu filho que estava metido na droga e levou três tiros. Está numa UTI do Hospital João XXIII. Imaginem essa mãe, em meio a tanta dor, olhar para um Cristo pantocrator, maravilhoso! É o Cristo do sangue que lhe dará forças e também fortalecerá esse filho de dezenove anos para recuperar a vida. Nenhuma proximidade é maior do que a proximidade na dor. 

Sei que há muitos jovens aqui, e por isso dou esse exemplo. Não arrisquem a vida, não gastem a vida, não se estraguem! Mas se isso acontecer, mães, pais, irmãos, jovens, saibam que o nosso rei está ao nosso lado. Não se distancia nunca! A realeza de Jesus é muito diferente! De tal maneira que só a partir do século IV é que o mostraram glorioso. Nos primeiros séculos, as imagens de Jesus que os cristãos mais próximos cultuavam nunca eram de um rei; preferiam a forma de um pastor. As primeiras imagens do Cristo, que apareciam nas catacumbas, eram de um pastor carregando um cordeirinho. Pastor e ovelha formam uma simbiose enorme – todo o carinho do pastor que carrega nos ombros a ovelha, que é frágil, pequenina. Essa era a grande imagem que os cristãos dos primeiros séculos tinham de Jesus. 

Nós tivemos medo do Jesus histórico, do Jesus que se aproximou das prostitutas, que acolheu a mulher condenada por adultério, ao invés de atirar-lhe pedras. Quando encontrou a viúva de Naim conduzindo seu filho – que provavelmente não estava morto, pois naquela época não conheciam tantos sintomas que se confundem com a morte – , Jesus para o cortejo e dá nova vida àquele que estava sendo levado ao túmulo. Jesus devolve à mãe seu filho vivo, não morto. Ele está perto de nós! Não é um rei longínquo, que pouco se importa conosco, com nossas dores, com os gritos das multidões. Esses não chegam aos ouvidos dos nossos reis terrenos, a dor do povo não chega aos seus corações, o sofrimento das massas não lhes toca a alma. Mas a Jesus interessa cada dorzinha pequena que sentimos, cada sofrimento nosso. Cada lágrima que desliza sobre a nossa face desliza também sobre a face do Senhor. 

Esse é o Rei que nós temos, e é como Ele que devemos ser para os outros – para o pai, para a mãe, para o filho. A todos daremos apoio, coragem. O pai e a mãe são reis quando estão próximos do filho, não se vulgarizando, mas colados a ele na força de pai, na força de mãe, para ressuscitá-los para a vida. Assim os mestres, professores, todos têm uma função na sociedade, vivendo colados às pessoas para dar-lhes a vida de que precisam. 
Um sociólogo francês – Alain Ehrenberg – já dizia que o grande mal, a grande doença, a grande enfermidade do século XX, mas vale também para o século atual, é a depressão. Os jornais já nos dizem que os brasileiros, cada vez mais, consomem medicamentos antidepressivos. Um povo alegre, festivo, carnavalesco, futebolesco, já começa a ficar triste, deprimido, com os olhos embaçados. São caras juvenis sem força, sem alegria, sem cor, sem cheiro, sem nada. Toca-nos ser reis para elas, mas reis que acolhem, que ressuscitam, que consolam os corações atribulados. Amém.

Pe. João Batista Libânio, sj – Um outro olhar, vol. 7

Confira a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM para este domingo, em que celebramos a Solenidade de Cristo Rei.