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segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Dia de finados


Não existem dois reinos: o reino dos vivos e o reino dos mortos, mas apenas o Reino de Deus...

Imperturbáveis como a própria morte são as frases que, repetidas vezes, vemos no pórtico dos antigos cemitérios: morituri mortuis ou hodie mihi, cras tibi. A primeira frase - morituri mortuis - expressa, em latim, com apenas duas palavras, a gratidão e a certeza dos vivos: os que ainda morrerão oferecem esta pousada àqueles que morreram. A segunda frase - hodie mihi, cras tibi - coloca na boca dos mortos, sem circunlóquios, a advertência dos mortos aos ainda vivos: o mesmo destino, hoje a mim, amanhã a ti. Para onde quer que voltemos nossa atenção, a constatação será sempre a mesma: morreremos, inevitavelmente. Sabemos disso, à saciedade. Desconhecido nos é apenas o modo e incógnita, a hora em que isto ocorrerá.

Embora tenaz e resistente, a vida é muito frágil. Um desacerto qualquer nalguma função vital ou a simples desventura de nos encontrarmos num determinado lugar, num momento de violência ou tragédia e a nossa vida se vai. E ainda que consigamos escapar ilesos desses ardis da morte, então apenas para nos encontramos com ela, mais adiante, em, no máximo, oitenta ou cem anos. Somos, fundamentalmente, mortais e a morte não é um acidente, mas a sina irremediável de todo vivente.

E, no entanto, por mais natural que seja a morte, nunca nós, homens, a acolhemos com naturalidade. Ainda que nos seja dado um longo viver, sempre a sentiremos como precoce e indevida, pelo muito ainda que quereríamos conhecer, construir, experimentar e amar. Mesmo aqueles que, aparentemente, desistiram de viver, os suicidas. Visto em profundidade, seu desejo não é morrer, mas colocar fim a uma vida experimentada como sem sentido e absurda, quase sempre envoltos pela esperança de reencontrar uma vida que mereça tal nome, do outro lado de todas as decepções.

Como quer que seja a morte, se em inesperada surpresa, se antevista, ela sempre nos fará sofrer. E, em muitos casos, dramaticamente, sobretudo porque ela encerra, aparentemente em caráter definitivo, a própria vida.

Mas, talvez, a morte não seja o fim. Se assim fosse, tudo se recomporia na harmonia de todas as contradições. Nós morreríamos, sim, porque isto é a nossa sorte e viveríamos para sempre, porque este é o nosso destino. Mas será assim? Para além dos horizontes deste mundo, há uma esperança para os mortais? Ou será a vida eterna apenas uma miragem, isto é, algo que, por força de nossos desejos, parece ser, mas não é, uma projeção do que tanto sonhamos?

A esperança de uma vida para além da morte tem suas próprias razões, frágeis como grãos de mostarda e improváveis, mas plausíveis e resistentes o bastante para abrigarem, às suas sombras, a nossa alma (Mc 4, 31-32).

A primeira razão reside em nós mesmos. É a nossa própria recusa de morrer. Não sofreríamos com a morte, se fôssemos apenas uma bio-complexidade. Nem teria a natureza, há cerca de 400.000 anos, num espantoso engenho de criatividade e empenho de paciência, depositado em nós a grandeza do espírito, a largueza esperança, a beleza dos sonhos e os desejos de eternidade apenas para tragar tudo isto, cinicamente, no abismo do nada. Assim, se sofremos com a morte, é porque queremos a vida e se, à vista da morte, choramos, é porque somos eternos. É o que significam as lágrimas, quando tristes e sinceras, sempre: um último protesto do coração humano, contra a perda e a dor, sem palavras, sem forças, mas, de todos os clamores, o mais impressionante e verdadeiro.

A segunda razão está bem próxima e reside entre nós e aqueles que, nesta vida, conhecemos e começamos a amar. Lento é o nosso crescer, vagarosos o aprendizado da sabedoria e a percepção do essencial, tardia a descoberta dos secretos caminhos do amor. Eis porque, enigmática e freqüentemente, só compreendemos em que consiste a vida lá onde já não nos é possível mais vivê-la. Temos, então, a claridade, mas falta-nos a vitalidade. Os sonhos não cessam, mas o corpo, trêmulo, já não consegue mais torná-los realidade. Haveria qualquer coisa de fundamentalmente equivocado em nós, se tivéssemos que nos silenciar para sempre, exatamente lá, onde começamos os verdadeiros diálogos e nos disséssemos adeus, nem bem houvessem se saudado os nossos corações. Não, a morte não pode ser o fim do que nem bem começou.

E, por fim, há ainda uma terceira razão para crermos que não somos apenas mortos que ainda vivem. Uma razão longínqua, apenas entrevista em seus vestígios, mas, dentre todas, a mais importante. É Deus mesmo, a infinita prodigalidade, o absoluto amor, nossa primeira origem e derradeiro fim. Se saímos de seu coração, é também para lá que voltaremos. Assim o cremos. E, se Deus existe, a nossa vida eterna.

Não se turbe o vosso coração, afirma-nos Jesus. Na casa de meu Pai, há muitas moradas (Jo 14, 1-2), afirma-nos Jesus, já próximo de sua própria morte. Ele, que, durante três anos, tentou ensinar-nos o caminho, aponta-nos, aí, nosso destino e revela-nos nossa última verdade: não a morte, mas a vida. Embora ditas à beira de sua morte, estas suas palavras não são lamentos e despedida, mas cantilenas de esperança e prenúncios de um reencontro. Pois, na esperança, todo sofrimento é suportável e só a certeza de um novo encontro pode aliviar a dor e enxugar as lágrimas de um adeus. Deus existe, assegura-nos Jesus Cristo, não como o indecifrável enigma do universo, mas como um infinito mistério de amor. Não produtos fantásticos da fortuidade, mas filhos e filhas deste mistério, é o que somos. Dele saímos e só nele estaremos, um dia, definitivamente, em nossa morada.

Inscrita em nosso coração por mãos celestiais, esta esperança foi gravada não apenas nas Escrituras Cristãs (Lc 24, 5-6), mas também nas pedras de uma tumba egípcia, há mais de quatro mil anos, em hieróglifos, os signos sagrados. Lá podemos ler: Aquele que buscais ver e saudar, na campa dos mortos, já não está mais aqui. Num pássaro de luz, ele se transformou. Como uma garça, ele se elevou aos céus e, como um condor, retornou ao infinito.

Quando chega o inverno no hemisfério norte, sem que ninguém os instrua, os pássaros erguem-se espontaneamente aos céus em incrível aventura. Conduzidos por um misterioso legado de sua espécie, seguindo apenas os pulsos magnéticos da terra, eles voam, pelas trilhas do sol, milhares de quilômetros, noite e dia, à busca apenas de permanecer na vida.

Assim há de ser também conosco, quando, no crepúsculo de todos os outonos, cair sobre nós o frio do inverno e da morte. Carregados, então, pelo fascinante destino de nossa espécie, nós voaremos, seguindo apenas os acenos da eternidade, rumo à morada da luz, o coração de Deus. E aí saberemos o que, agora, apenas intuímos e, ouvindo Jesus Cristo, o Caminho, a Verdade, a Vida, cremos: Não existem dois reinos, o reino dos mortos e o reino dos vivos, o reino da terra e o reino dos céus, mas apenas o Reino de Deus, que quis que fôssemos eternos.

É o que nos confirmam os memoriais: Finados e Todos os Santos. Nestes primeiros dias de novembro, quando o ano já prenuncia seu fim, é um costume cristão visitar o jardim dos mortos. Com imenso carinho, cuidamos de sua tumba, numa delicada mistura de pesar, saudade e gratidão. E seguindo, sobretudo, dois costumes muito antigos, ali depositamos algumas flores, como faziam já os primeiros humanos, há milhares de anos, e acendemos uma vela, como nos ensinaram, há mais de mil anos, os celtas. As flores não são apenas enfeites, mas dizem, na linguagem de seu silêncio, que também assim somos nós: deitadas no ventre da terra, as sementes parecem morrer... e, no entanto, de lá ressurgem e, em surpreendente beleza, se erguem aos céus. Também assim será conosco, quando depositados formos no escuro da terra: de lá levantar-nos-emos em nova vida. E as velas, nós as acendemos para aqueles que se foram, a fim de que, de onde estiverem, vejam nossa gratidão e saibam: nunca se apagará a chama do amor que nos uniu.

Mui sabiamente, a Igreja determinou também um dia - Todos os santos - para que nos recordássemos de todos aqueles que agora se encontram junto de Deus. Igreja sabe e, com humildade, confessa, que os santos e santas são incontavelmente mais numerosos do que aqueles homens e mulheres, que ela - em seus complexos e dispendiosos processos de canonização - declara como tais.

Eis aí a razão desta festa dedicada a todos os santos, isto é, a todos os incontáveis homens e mulheres, crianças e adultos, que, neste mundo, viveram retamente e agora, bem-aventurados para sempre, se encontram junto de Deus. Os pobres, que, neste mundo, sofreram a mais não poder, sem jamais erguerem seus braços em violência. Os que, por assim sofrerem, choraram, vítimas da inumanidade, mas mantiveram-se íntegros. Os que lutaram, ainda que sem êxito, pela justiça. Os misericordiosos, os límpidos de coração, os que amaram a paz. Esses homens e mulheres do cristianismo, de outras religiões, do paganismo, do ateísmo, pessoas que talvez nunca tenham ouvido falar de Deus ou que, segundo a medida de nossos julgamentos, viveram de maneira irregular ou imoral, mas que fizeram de sua vida um gesto de bondade e, sem o saberem, nunca estiveram longe de Deus.

É deles que fala Jesus, num dos trechos mais impressionantes de seu Evangelho: Eu tive fome e me destes de comer. Eu tive sede e me destes de beber. Eu era peregrino e me acolhestes. Eu estava nu e me vestistes. Estava enfermo e me visitastes. Eu estava na prisão e fostes me consolar. Vinde, pois, tomar posse do reino do Reino que, para vós, foi preparado (Mt 25, 31-46). A história não registrou seus nomes. Com o passar dos dias e dos anos, eles foram esquecidos pelos homens e pelo mundo. Mas eles ficaram gravados no coração de Deus, que vê o oculto de todas as vidas (Mt 6, 3-4), para sempre.

E hoje, daqui de onde estamos, desta terra às vezes tão bela, às vezes tão triste, nós erguemos até eles o olhar de nossa alma e contemplamos a sua face. Muitas delas nos são conhecidas. Nós convivemos com elas. Outras passaram por nós desapercebidas ou nunca as vimos. Outras ainda, nós nunca imaginávamos vê-las junto de Deus. Sua passagem por este nosso mundo tornou-o melhor, um pouco mais justo, mais amável, mais humano. A todas elas, em gratidão, hoje, de longe, saudamos, até o dia, em que, de perto, for-nos dado abraçar-nos, na festa final, aí sim, de todos os santos e santas, junto de Deus, nosso derradeiro destino.

Reflexão de Frei Prudente Nery, OFMCap