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segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A Primeira Missa de Frei Jean em São José da Barra

Frei Augusto Gabriel e Moacir Beggo

São José da Barra (MG) – Ordenado presbítero no sábado, Frei Jean Carlos Ajluni de Oliveira celebrou a sua Primeira Missa no domingo, solenidade de Cristo Rei, na Paróquia São José, em São José da Barra (MG). A Igreja lotou para celebrar este momento tão especial na vida do neopresbítero, que, como disse na ordenação, precisou esperar vinte anos. Talvez por toda essa experiência que passou pela formação religiosa franciscana, Frei Jean parecia um sacerdote experiente. Seguro, ele conduziu a celebração com leveza e devoção, tendo ao seu lado os concelebrantes Frei João Mannes, definidor da Província da Imaculada e Guardião na Fraternidade de Rondinha, e Pe. Janício de Carvalho Machado, pároco da Paróquia São José, além do diácono Luís Fernando Nunes Leite e do cerimoniário Frei Alan Leal de Matos.

Um grande  número de frades e religiosas de todo o país permaneceu em São José para participar desta celebração, que começou às 9 horas de uma manhã dominical  com temperatura agradável. Como é de costume na Província, o neopresbítero não faz a primeira homilia e convida uma pessoa que marcou a sua história de vida para isso, especialmente no período de formação.  Frei Jean convidou o seu conterrâneo Frei Benedito Gonçalves, mais conhecido como Frei Dito entre seus confrades. Natural de São José do Alegre (MG), Frei Dito vestiu o hábito franciscano em 1º de janeiro de 1986 e foi ordenado presbítero em 11 de dezembro de 1993. Atualmente reside na Fraternidade Nossa Senhora da Boa Viagem, na Rocinha (RJ). Frei Dito foi o primeiro formador de Frei Jean, quando ainda ingressou no Seminário Menor Santo Antônio, em Agudos.

“Eu o acompanhei naqueles primeiros tempos. É emocionante para mim – e deve ser também para Frei Lauro Formigoni que está aqui -, recordar e participar deste momento de sua vida. Frei Jean era um garotinho pequeno,  não falava nada, nas horas vagas ficava quieto. Mas hoje ele fala bastante, fala até em outras línguas!”, recordou Frei Dito, contando que encontrou Frei Jean na Rodoviária Tietê de São Paulo, às 5h30, quando recebeu o convite para ser o pregador deste dia.

“E chegou esse tempo tão sonhado na vida dele. Aliás, ontem à noite, perguntei a ele: ‘Jean, o que mudou na sua vida depois da ordenação?’ O Frei José (Francisco dos Santos) interrompeu e disse: ‘Não, ele tem que dormir primeiro uma noite para dizer se mudou alguma coisa’. Então, agora, a gente pode perguntar se mudou alguma coisa na sua vida”, disse a Frei Jean, que respondeu com um sorriso. Frei Dito continuou: “Não mudou nada. A ordenação não muda nada. Quando há uma ordenação, a gente pensa em algo mágico. Mas não vai acontecer nada disso. Ordenação só dá trabalho para a gente”, brincou.

Bem ao seu estilo mineiro, Frei Dito foi claro e didático ao falar do ministério que Frei Jean assumiu. “A gente assume um trabalho e continua sendo um irmão, porque é isso que a gente é, ou que deveríamos ser por vocação. A nossa vocação de frade é a de ser irmão. O frade assume se quiser o serviço, o trabalho presbiteral. O Frei Lauro, por exemplo, não quis assumir esse serviço. Ele preferiu outro serviço, tão santo e em pé de igualdade. O Frei Lauro, durante muito tempo, trabalhou nos nossos seminários cuidando da horta, da lavoura, dos animais, da casa. Esse serviço é tão nobre, é tão construtor do reino de Deus, como o que os presbíteros fazem. Então, a gente só assume um serviço para a Igreja”, explicou o pregador.

O REINO DE DEUS

Tomando a liturgia solene de Cristo Rei, Frei Dito lembrou que a palavra rei já leva a imaginar algo poderoso, grande. “Alguém importante, com roupas brilhantes, coroa de ouro, cetro de lado, sentado no trono. Tem até umas representações de Cristo Rei desse jeito. Eu acho que Jesus deve ter dor de barriga quando vê essas ilustrações. Ele deve ficar muito chateado com isso, porque não foi isso que ele quis. O reinado que quis – e ele falava muito do Reino de Deus – é aquele em que todo mundo fosse igual, inclusive ele. Por isso, Cristo não deve gostar dessas representações. Jesus se fez nosso irmão e serviu a nós. É dessa forma que ele quer ser visto”, ressaltou, lembrando que os apóstolos pensavam na construção física de um reino. “Mas Jesus fugia dessas coisas, porque nunca quis ser mais do que ninguém. No seu reino havia lugar para a igualdade. Jesus foi aquele que andou descalço pelas ruas ‘empoeirentas’ da Palestina. Seus pés deviam estar sempre empoeirados. Não devia ser diferente com a sua túnica. Jesus era assim e encontrou seu trono numa cruz por conta de seu desejo de fazer um mundo melhor.  O seu palácio, a sua casa, era a que ele mesmo descrevia: ‘as raposas têm tocas, os pássaros têm seus ninhos, mas eu não tenho onde repousar a cabeça’. Esse é o reinado de Jesus. Ele quis um mundo igual,  de fraternidade, de justiça, de partilha. Por isso, fez um último desejo ainda em vida: ele ensinou para nós a Eucaristia, sacramento maior de seu reino, onde todo mundo é igual, onde todo mundo come e partilha do mesmo pão”, frisou.

A CELEBRAÇÃO DA EUCARISTIA

Segundo Frei Dito, esse é certamente o maior sinal daquele que assumiu esse serviço do presbiterado. “Ontem, Frei Jean recebeu o cálice com a patena, num sinal disso. O seu serviço é aquele que vai semear o Reino de Deus. E o Reino de Deus é muito mais do que Igreja. Nem sempre nós, Igreja, traduzimos para o mundo o Reino de Deus. E aí precisamos fazer sempre o ‘mea culpa': precisamos ser mais Reino de Deus e menos Igreja preocupada com a liturgia, o rito. A Igreja precisa ser mais prática, portadora da justiça, da fraternidade, do amor, da partilha. Como presbítero somos enviados a celebrar os sacramentos. Mas isso não pode ser sempre celebração. Temos que nos recordar que antes de os sacramentos serem celebrações, eles foram vivências, foram vida. O próprio Jesus vivenciou isso. E é na vida do Senhor que os sacramentos surgiram. Na fé dos primeiros irmãos, os sacramentos foram surgindo. Então, quando a gente celebra os sacramentos, não se deve fazer dele só celebrações, mas deve se ter em conta que eles são experiências de vida que devem ser vivenciadas de novo. Se se inverte o valor das coisas, os sacramentos se tornam meras celebrações. Muito bonitas, aliás, muito bem elaboradas, mas desprovidas, descoladas da experiência que os fez surgir como sacramentos. Então essa é uma preocupação que a gente precisa ter, para que possamos ser portadores do reino de Deus”, observou.

Para o pregador, o presbítero, aquele que assume este trabalho, não pode se esquecer disso. “Ele pode fazer a celebração mais bonita que for, mas enfeitada que for, mas se ela estiver distanciada da experiência que a fez surgir, ela é nula, ela é inválida. Aliás, as diretrizes de Evangelização dizem isso: que a comunidade que celebra a Eucaristia sem preocupação nenhuma com os pequenos deste mundo, celebra invalidamente”, disse, enfatizando que o presbítero não assume esse serviço só para a Igreja, mas para o mundo.

“O que a gente deseja para o Frei Jean é isso. Que o seu serviço presbiteral possa frutificar. Para isso, ele escolheu bem o seu lema: “Permanecer na videira”. Ontem, nosso o bispo já falou sobre isso. Mas vale lembrar que a palavra permanecer  tem o sentido de facilidade: ‘ah eu estou permanecendo’, ‘estou respousando no Senhor’. Permanecer não é isso. É perpetuar no mundo as mesmas ações do Senhor. A seiva que corre em nós, ligada ao tronco da Videira, é a seiva da indignação, do amor aos pequenos, da justiça, dos pobres, dos doentes, dos sofredores. Isso não é passividade, é algo profundamente transformador e gera frutos”, ensinou.

“MEXER COM IGREJA”

Frei Dito ponderou, contudo, que essa missão tem desafios, especialmente na sociedade e também na Igreja de hoje. Ele contou que, no ano passado, o seu pai foi morar para sempre ao lado do Pai. Estava com 90 anos e sofria com a doença de Alzheimer, tendo dificuldades para reconhecer as pessoas e não falava ‘coisa com coisa’. “Quando fui visitá-lo, ele olhou para mim e eu pedi a sua bênção. Ele me olhou com um olhar meio vago e minha irmã que cuidava dele, disse: ‘Pai, você não está conhecendo? É o Dito’. Então, ele disse: ‘Oh, Dito, tudo bem? Você ainda mexe com Igreja?’ (risos).  De fato, ‘mexer’ com Igreja não é fácil. Então, Frei Jean, você vai ‘mexer com Igreja’. Você sabe que na Igreja tem de tudo, como em qualquer outro lugar. A maioria do nosso povo gosta muito de nós, vive a sua fé com devoção e profundidade, mas na Igreja aparece cada enrosco, cada gente amarga, azeda. Muitas pessoas encontram na Igreja o lugar para descarregar suas neuras. E, nesse sentido, é preciso saber como lidar com isso. Os desafios serão muitos, isso é inevitável.  Tem até movimentos dentro da Igreja querendo rezar a Missa em latim! Mas a gente precisa se alegrar com as coisas boas, com aqueles que querem ser de fato portadores do Reino de Deus. E com aqueles outros, você tem que ter paciência. Aliás, paciência é uma coisa que não deve faltar muito para você, não é mesmo, Frei Jean? Ele sempre foi assim paciente, demorava para se encolerizar, mas quando se encolerizava, sai de perto…”, revelou.

PACIÊNCIA MINEIRA

“Dizem que nós, mineiros, somos pacientes.  Não sei se é muito verdade isso. Tem até uma piadinha de mineiro para encerrar. ‘Um mineiro, em certa circunstância, foi condenado à morte. E aí, chegou o dia da sentença e o levaram para o paredão. Iria ser fuzilado. Quando o comandante da tropa chegou, disse o seguinte: ‘Você foi condenado à morte e vai ser fuzilado, mas é costume que cada sentenciado diga suas últimas palavras ou faça até um pedido’. O mineiro pensou bem e disse: ‘Eu quero comer uma jaca’. O comandante disse: ‘Puxa vida, mineiro, tanta coisa para você falar no último instante de sua vida. Você poderia pedir outras coisas…. E quer logo uma jaca?! Além disso, nem é tempo de jaca. A época de jaca é só daqui a seis meses’. O mineiro, então, disse: ‘Não tem problema, eu espero'” (risos).

“Que Frei Jean possa ser paciente com o povo de Deus, pois vale a pena, apesar de todos os problemas e desafios. Paz e bem para você”, encerrou Frei Dito.

A descontração também contagiou o neopresbítero que fez todo mundo rir quando disse após a comunhão: “Sempre quis dizer isso: agora, os avisos paroquiais!”…

No final da celebração, Frei Jean recebeu mais homenagens da comunidade e o Pe. Janício agradeceu a presença de todos e disse que a ordenação de Frei Jean foi um marco para a Paróquia. “Nesses dias, convivendo com vocês, pude conhecer um pouco a espiritualidade franciscana e o modo de vida dos frades, diferente da minha formação como diocesano em doze anos de Seminário”, contou o pároco . “Esse espírito fraterno, com certeza, contagiou a nossa Paróquia, que está celebrando as Santas Missões em preparação para o centenário da Diocese de Guaxupé”, disse. “Que esta celebração nos fortaleça ainda mais na nossa caminhada. Espero que nos encontremos mais vezes”, completou.

Fonte: Província Franciscana