PESQUISAR TEMAS E ARQUIVOS DO BLOG

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

32º domingo do Tempo Comum



1ª Leitura - 1Rs 17,10-16
Salmo - Sl 145,7.8-9a.9bc-10 (R.1)
2ª Leitura - Hb 9,24-28
Evangelho - Mc 12,38-44

Naquele tempo:
Jesus dizia, no seu ensinamento a uma grande multidão:
'Tomai cuidado com os doutores da Lei!
Eles gostam de andar com roupas vistosas,
de ser cumprimentados nas praças públicas;
gostam das primeiras cadeiras nas sinagogas
e dos melhores lugares nos banquetes.
Eles devoram as casas das viúvas,
fingindo fazer longas oraçðes.
Por isso eles receberão a pior condenação'.
Jesus estava sentado no Templo,
diante do cofre das esmolas,
e observava como a multidão depositava 
suas moedas no cofre.
Muitos ricos depositavam grandes quantias.
Então chegou uma pobre viúva
que deu duas pequenas moedas,
que não valiam quase nada.
Jesus chamou os discípulos e disse:
'Em verdade vos digo,
esta pobre viúva deu mais do que todos os outros
que ofereceram esmolas.
Todos deram do que tinham de sobra,
enquanto ela, na sua pobreza,
ofereceu tudo aquilo que possuía para viver'.

Palavra da Salvação.

O único amor que resiste ao tempo – Pe. João Batista Libânio, sj

Hoje nós temos dois textos que são mais que narrativas, pois essas já se perderam no tempo. Essa viúva do evangelho já morreu, assim como também a outra viúva de Sarepta. Mas se lemos aqui é porque essas duas leituras se transformaram numa espécie de parábola, de metáfora, isto é, uma lição para nós. As metáforas e parábolas são bonitas, porque perdem um pouco o chão do cotidiano para lançarem voo a um horizonte mais amplo de intelecção, de compreensão. 

Precisamos ter em mente que, naquela época, viúva não era o que é hoje, quando se tem INSS, seguros e muitas outras proteções. Naquela época, viúvas e órfãos eram realmente marginalizados e dependiam totalmente da generosidade de vizinhos e amigos. Essa viúva, na primeira leitura, está preparando o último pedaço de pão para ela e o filho comerem e esperarem pela morte. Chega o profeta Elias e lhe pede exatamente o pouco que ainda lhe restava para se alimentar. Vejam que teste fantástico! Mas ele segue dizendo-lhe que não tivesse medo, pois se desse aquele único pedaço de pão, nunca mais sentiria falta de nada. Quando se dá o necessário é que realmente se pode encontrar o verdadeiro amor. Certamente não é a lógica do mercado, do comércio, mas do amor. Reparem bem que o amor só cresce, se ele sai de nós. Se quisermos guardá-lo apenas para nós, ele acabará. Mesmo quando somos rejeitados, se não encontramos eco para os nossos atos de amor, cresceremos diante de Deus. É isso que Jesus veio nos ensinar. Para se ensinar amor que só busca, que só quer usufruir, não precisaria Jesus ter vindo à Terra, bastaria a TV Globo. No fundo, o que é realmente necessário somos nós mesmos, nossa liberdade, nosso tempo, nosso olhar, tudo aquilo que temos de melhor. Não é o necessário no sentido material. Podemos conseguir todo o sucesso, dinheiro, reconhecimento social, mas nada preencherá o coração humano a não ser a saída de si. A metáfora vai muito mais longe. Aqui o profeta simboliza o outro, o diferente, e o que ele diz àquela mulher é que ela precisaria dispor daquilo que ela mais prezava. E o que nós mais prezamos é o nosso tempo, nosso afeto, nossa dedicação, nossa entrega de nós mesmos, pois apenas o que sai de dentro de nós é realmente nosso. 

Reparem bem que as coisas não são nossas, pois pode vir um ladrão e levá-las, pode acontecer um terremoto, uma enchente e destruí-las. Todas as coisas podem desaparecer, mas o que realmente nunca desaparecerá somos nós mesmos. Até a nossa morte, carregamos tudo aquilo que nós somos. O profeta pede àquela mulher o que lhe era necessário, e ela dá. Ao fazê-lo, o necessário se faz abundância. Aquilo que ela acreditava que não valia nada, que era insignificante, se torna abundante. De repente, brota em nós uma força interior que não sabemos de onde vem. Quantas vezes eu encontrei pessoas que experimentaram era visível. Já citei para vocês o último livro do Frei Betto, “O diário de Fernando”, baseado na narrativa de um frade dominicano que passou quatro anos numa prisão do governo militar brasileiro. Ele conta que, algumas vezes, aqueles presos políticos eram levados para o DOPS, onde eram barbaramente torturados. Quando voltavam para a prisão, eram aclamados pelos companheiros, pela coragem de terem sofrido e lutado contra um governo injusto e explorador. Tudo isso para mostrar que eram pessoas que tiveram coragem de dar alguma coisa de si mesmas. Na última quinta-feira, o “Estado de Minas” publicou um artigo do mesmo Frei Betto, em que ele se dirige a vocês, jovens, que frequentam a internet. É de alguém que foi jovem como vocês, que passou quatro anos numa prisão por proteger pessoas perseguidas e ajudá-las a fugirem do Brasil. Foi condenado – segundo palavras do próprio juiz – por ter agido como cristão. Como essa viúva, aqueles jovens deram o pouco que tinham de si mesmos. Imaginem a alegria deles hoje, ao saberem que alguma coisa daquilo pela qual lutaram, aos poucos vem se realizando. Se hoje podemos escrever, falar livremente, se eu posso lhes contar o que estou contando agora, é porque houve jovens que lutaram por isso. Houve uma época neste nosso país em que esta homilia não poderia ser feita. Aquela viúva deu ao profeta o pão que lhe serviria de alimento, e ela pode saborear a vida que o pão lhe trouxe. 

No evangelho, Jesus conta a história de uma outra viúva, também pobre. Ela deu no templo duas moedinhas que não valiam nada. Mas não é isso que interessa. Jesus não critica nem rico nem pobre. A sua lição é muito mais profunda. Ele nos questiona sobre quando é que damos verdadeiramente alguma coisa de nós mesmos. Quando damos coisas, nem sequer atingimos a fímbria do amor. Aquela viúva deu o que ela era, o que lhe era necessário, enquanto todos os outros deram da abundância de suas coisas materiais, e nada da abundância de seus corações. Guardem essa grande diferença e, por aí, distingam as pessoas. Elas valem, não pelo que dão de coisas, mas pelo que são capazes de darem de si. Não se enganem, pois podem encontrar amores vazios, matrimônios que não resistirão ao tempo. Essa é a solidão de tantos adultos e velhos. O único amor que resiste ao tempo é o que nasce do coração das pessoas. Os amores revestidos de coisas terão a durabilidade das coisas: carro do ano, roupa da moda. Como disse um teólogo que vocês devem conhecer de nome, chamado Ratzinger, só o amor que nasce de dentro quer eternidade, faz eternidade, é eternidade. 

Pe. João Batista Libânio, sj – Um outro olhar, vol 7

Confira a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM para este 32º domingo do Tempo Comum.