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sexta-feira, 27 de novembro de 2015

1º domingo do Advento

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1ª Leitura - Jr 33,14-16
Salmo - Sl 24,4bc-5ab.8-9.1014 (R.1b)
2ª Leitura - 1Ts 3,12-4,2
Evangelho - Lc 21, 25-28.34-36

Naquele tempo disse Jesus a seus discípulos:
Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas.
Na terra, as nações ficarão angustiadas,
com pavor do barulho do mar e das ondas.
Os homens vão desmaiar de medo,
só em pensar no que vai acontecer ao mundo,
porque as forças do céu serão abaladas.
Então eles verão o Filho do Homem,
vindo numa nuvem com grande poder e glória.
Quando estas coisas começarem a acontecer,
levantai-vos e erguei a cabeça,
porque a vossa libertação está próxima.
Tomai cuidado para que vossos corações
não fiquem insensíveis por causa da gula,
da embriaguez e das preocupações da vida,
e esse dia não caia de repente sobre vós;
pois esse dia cairá como uma armadilha
sobre todos os habitantes de toda a terra.
Portanto, ficai atentos e orai a todo momento,
a fim de terdes força
para escapar de tudo o que deve acontecer
e para ficardes em pé diante do Filho do Homem.
Palavra da Salvação.

A diferença está no modo de olhar – Pe. João Batista Libânio

Esses evangelhos sempre nos causam problemas, porque estamos habituados a pensar linearmente, isto é, a nossa imaginação é tremendamente espacial. Até na linguagem popular, nas nossas conversas, usamos metáforas espaciais para realidades que não o são. Falamos para um amigo que ele anda distante de nós, mesmo que esteja ao nosso lado. Queremos falar de uma distância afetiva, mas colocamos espaço. Já a maneira de os povos antigos falarem das realidades é colocando-as numa linha de tempo. O fim do mundo é colocado também nessa linha. Viriam os anos, milhares de anos, e, lá no final, chegaria o fim do mundo, no final de uma linha, como um trem que chegasse à última estação.

Jesus não fala disso. Não fala de um prolongar-se da história até um certo momento, quando viria o fim do mundo. Pode ser amanhã, depois de amanhã. Não é nada disso! O fim do mundo aconteceu para os que viviam em Nova York, onde estavam as torres gêmeas*. Elas caíram e os mataram. Nós não estávamos lá e, por isso, estamos aqui vivos. A fala de Jesus é qualitativa, é de outra natureza.

Ele nos pede um outro olhar para a realidade, que está aí, igualmente, para todos. Mas os olhares não são iguais, isso é o que ainda não percebemos claramente. Chove para todos, vem a doença para todos, todos morrem, todos têm alegrias e tristezas – todos, sem exceção. Ainda agora houve a maior falência da história dos Estados Unidos: uma firma que tinha mais de um bilhão em capital faliu. Uma falência gigantesca que nem somos capazes de imaginar. Quem trabalhava nessa empresa estava numa torre maravilhosa que desabou. Para eles, chegou o fim do mundo, chegou o Senhor. É o advento! Temos que compreender que o Senhor quer é que tenhamos olhos atentos para ver. Quantas vezes ouvi pessoas dizerem que não mereciam uma doença, um desastre?! Não se trata de merecer ou não, mas de saber olhar, porque os acidentes, as doenças estão aí. O que o Senhor diz é que precisamos aprender a olhar. Sabem o que aconteceu com Noé? Ele estava fazendo a barca e todos comendo, dançando, enquanto nuvens negras cobriam o céu. Ele fechou a arca, colocou dentro a família, todas as famílias dos animais, e as pessoas continuaram na maior festa. Ninguém se deu conta de nada, até que veio o dilúvio, e todos morreram.

Jesus não fala de fatos históricos, mas ensina como devemos olhar. Se estivéssemos lá, se tivesse acontecido daquela maneira... O único que viu foi Noé, os outros estavam cegos diante do mesmo fato, dos mesmos acontecimentos. Noé viu, e os outros não viram. Não se trata, portanto, de um acontecimento real, objetivo, mas da forma de se olhar.

O Evangelho traz uma visão interessantíssima nesse sentido. Certa vez, Jesus fez um milagre. O povo aclamou a maravilha: “Deus nos visitou!” Virou o fariseu e disse que Ele fazia milagre em nome de Belzebu. Para o mesmo fato, um diz que era Deus, outro que era o demônio. O mesmíssimo milagre de Jesus, para o fariseu, era obra de Belzebu, para outros, foi a visita de Deus.

Aprendam: o que nós, cristãos, devemos fazer é saber olhar as realidades. Seríamos muito mais felizes se soubéssemos ver mensagens e palavras nas dores, nas alegrias e nos sofrimentos também. Em quaisquer acontecimentos, deveríamos olhar e perguntar: “o que o Senhor me fala nesse acontecimento?” Essa é a pergunta que devemos fazer. É isso que Jesus quer falar, não de fim de mundo, de cair estrelas. Nada disso! Se Ele estivesse pregando para os americanos, teria lhes perguntado o que significou para eles a queda das torres, o que esse fato lhes dizia, o que Deus queria lhes falar através dele. Mas, ao contrário, eles querem guerra, querem vingança, porque não entendem nada da presença do Senhor. Ele passou e não o viram. Para que acumular tanta coisa? Para que construir uma coisa tão grandiosa que dois aviões destroem em segundos? Para que acumular tantos bens? Como diz esta passagem do Evangelho: o fazendeiro vendo uma colheita imensa, manda construir um paiol gigantesco e enche tudo. Deus lhe diz: “Eu quero a tua alma ainda esta noite!” O fazendeiro não aprendera nada, pois pensava que, acumulando, seria mais. Se tivesse um olhar de participação, um olhar bonito, pensaria em como distribuir a riqueza com que Deus o tinha cumulado, e tudo seria diferente! A mesma colheita, para um, é ganância, para outro, é participação. O que importa não é a colheita, mas o olhar.

Tenho insistido muito em minhas pregações que nós somos cristãos pelo olhar. Em qualquer acontecimento, podemos ler uma mensagem. Não é que Deus queira aquele acontecimento. Não é isso! Deus não quer a morte de ninguém, não quer acidente de ninguém, não quer que nenhuma torre caia. Ele não quer isso! Mas, caindo a torre, perguntemos: “E agora, o que eu penso disso?” É isso que o Evangelho quer nos mostrar. Que tenhamos olhos para não deixar passar um acontecimento sequer. Vem um ano político, um ano eleitoral. Uma boa hora de nos perguntar: “O que o Senhor quer de nós?” O que quer dizer, para nós, uma eleição? Não como político ou membro de um partido. Também isso, mas mais como cristão. O que isso exige de mim?

Essas são as perguntas do cristão sobre qualquer coisa, sejam sucessos ou fracassos. Devemos ver Deus no sucesso e no fracasso. Não que Ele queira o fracasso, mas também posso vê-lo lá. Talvez me animando, para que eu me reerga, para que não soçobre. Num fracasso matrimonial, numa separação dolorosa, num pai que não é como a gente quer, o que eu vejo? Deus quer o meu mal? Claro que não! Deus quer o melhor para todos nós, mas, se não vem o melhor, busquemos enxergar o que Ele nos ensina naquele fato. É o primeiro passo para aprendermos a ser cristãos. Amém.

(*) referência ao atentado de 11.09.01, contra os Estados Unidos.

Pe. João Batista Libânio, sj – Um outro olhar, vol. 6

Confira a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM para este 1º domingo do Advento: