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segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Superação, positividade e oração: o pedido do Papa aos jovens

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Grande momento na tarde deste sábado dia 28 de novembro em Kampala no Uganda: o encontro do Papa Francisco com milhares de jovens no Kololo Air Strip, um espaço dedicado a grande eventos que já foi um aeroporto.

E foi falando de improviso que a mensagem do Papa Francisco esvoaçou pelos corações do jovens que acolheram o Santo Padre com grande alegria. Disse-lhes para sempre lutarem e a terem esperança. Nas palavras que proferiu o Papa sublinhou que uma experiência negativa pode ser sinal de esperança com a força de Jesus:

“Diante de uma experiência negativa, sempre há a possibilidade de abrir um novo horizonte, de abrir com a força de Jesus. Transformar a amargura em esperança. Isso não é magia, é obra de Jesus, que tudo pode. Ele é o Senhor. Jesus sofreu a experiência mais negativa da história: foi insultado, recusado e assassinado. E Jesus, com o poder de Deus, ressuscitou. Ele pode fazer em cada um de nós o mesmo com cada uma das experiências negativas” – afirmou o Papa que perguntou ainda aos jovens se estão prontos para transformar o ódio em amor.

“Nas vossas veias corre o sangue dos mártires, e por isso têm a fé e a vida que têm agora”. Abram as portas dos vossos corações e deixem Jesus entrar, exortou o Papa.
“Quando Jesus entra na tua vida ele ajuda a lutar contra todos os problemas, contra uma depressão, contra a sida. Pedir ajuda para superar esta situação. Mas sempre lutar. Lutar com meu desejo, e lutar com minha oração” – afirmou o Papa na conclusão do seu discurso aos jovens.

Confira na íntegra:

Boa tarde! Boa tarde! Obrigado pela vossa presença.

Falarei na minha língua materna.

Ouvi, com grande tristeza no coração, os testemunhos de Winnie e de Emmanuel. Enquanto ouvia, perguntava-me: poderá uma experiência negativa servir para alguma coisa na vida? Sim! Tanto Emmanuel como Winnie viveram experiências negativas. Winnie pensava que não haveria futuro para ela; a vida era um muro na sua frente. Mas Jesus foi-lhe fazendo crer que é possível, na vida, fazer um grande milagre: transformar um muro num horizonte, um horizonte que me escancare o futuro. Perante uma experiência negativa – e muitos, muitos de quantos estão aqui, tiveram experiências negativas – há sempre a possibilidade de abrir um horizonte, de abri-lo com a força de Jesus. Hoje Winnie transformou em esperança a sua depressão, a sua amargura. Isto não é magia; é obra de Jesus, porque Jesus é o Senhor, Jesus pode tudo. E Jesus sofreu a experiência mais negativa da história: foi insultado, rejeitado e assassinado. Mas Jesus, pelo poder de Deus, ressuscitou. Ele pode fazer o mesmo em cada um de nós, com qualquer experiência negativa, porque Jesus é o Senhor.

Imagino – e todos juntos podemos imaginar – o sofrimento de Emmanuel, quando via os seus companheiros serem torturados, quando via os seus companheiros serem assassinados. Mas Emmanuel foi corajoso. Sim, teve coragem, porque ele sabia que, se o apanhassem no dia em que escapasse, matavam-no. Mas arriscou, teve confiança em Jesus e escapou. E hoje temo-lo aqui, 14 anos depois, formado em Ciências Administrativas. Sempre é possível! A nossa vida é como uma semente: para viver, é preciso morrer. E, às vezes, morrer fisicamente como sucedeu com os companheiros de Emmanuel; morrer como morreram Carlos Lwanga e os mártires do Uganda. Mas, através desta morte, há uma vida, uma vida para todos. Se eu transformo o negativo em positivo, sou um triunfador. Mas só é possível fazer isto com a graça de Jesus. Tendes a certeza disto? ... Não ouço nada! 
Tendes a certeza disto? [jovens: Sim!] Estais dispostos a transformar, na vida, todas as coisas negativas em positivo? [jovens: Sim!] Estais dispostos a transformar o ódio em amor? [jovens: Sim!] Estais dispostos a transformar a guerra em paz? [jovens: Sim!] Estais cientes de que sois um povo de mártires, de que nas vossas veias corre sangue de mártires e, por isso, possuís a fé e a vida que agora tendes? [jovens: Sim!] E esta fé, esta vida é tão bela que se chama a «pérola da África».

Parece que o microfone não funcionava bem. Às vezes, nós também não funcionamos bem; sim ou não? … E, quando não funcionamos bem, a quem devemos ir pedir que nos ajude? … Não vos ouço. Mais forte! [jovens: Jesus!] A Jesus! Jesus pode mudar a tua vida. Jesus pode derrubar os muros que tens à tua frente. Jesus pode fazer com que a tua vida seja um serviço para os outros.

Um de vós poderia perguntar-me: E, para isso, há uma varinha mágica? Se quiserdes que Jesus mude a vossa vida, pedi-Lhe ajuda. A isto chama-se rezar. Compreendestes bem? Rezar! Pergunto-vos: Vós rezais? [jovens: Sim!] De verdade? [Sim!] Rezai a Jesus, porque Ele é o Salvador. Nunca deixeis de rezar! A oração é a arma mais forte que tem um jovem. Jesus ama-nos. Pergunto-vos: Jesus ama a alguns e a outros não? [Não!] Jesus ama a todos? [Sim!] Jesus quer ajudar a todos? [Sim!] Então abri-Lhe a porta do vosso coração e deixai-O entrar: deixo entrar Jesus na minha vida. E, quando Jesus entra na tua vida, ajuda-te a lutar, a lutar contra todos os problemas de que falou Winnie, a lutar contra a depressão, a lutar contra o SIDA… Pedi ajuda para superar estas situações, mas sem deixar de lutar: lutar com o meu desejo e lutar com a minha oração. Estais dispostos a lutar? Estais dispostos a desejar o melhor para vós? [Sim!] Estais dispostos a rezar, a pedir a Jesus que vos ajude na luta? [Sim!]

E há ainda uma terceira coisa que vos quero dizer: todos nós estamos na Igreja, pertencemos à Igreja. Certo? [Sim!] E a Igreja tem uma Mãe; como se chama? [Maria!] Não percebi... [Maria!] Rezai à Mãe! Quando uma criança cai e se aleija, começa a chorar e vai procurar a mãe. Quando temos um problema, o melhor que podemos fazer é ir aonde está a nossa Mãe; e rezar a Maria, nossa Mãe. Estais de acordo? [Sim!] E vós rezais a Nossa Senhora, à nossa Mãe? [Sim!] E vós aqui [dirigindo-se a um grupo de jovens] pergunto: vós rezais a Jesus e a Nossa Senhora? [Sim!]

Então temos três coisas. A primeira: superar as dificuldades. A segunda: transformar o negativo em positivo. A terceira: oração. Oração a Jesus, que pode tudo. Jesus, que entra no nosso coração e muda a nossa vida. Jesus, que veio para me salvar e deu a sua vida por mim. Rezai a Jesus, porque Ele é o único Senhor. E, porque na Igreja não somos órfãos mas temos uma Mãe, rezai à nossa Mãe. E como se chama a nossa Mãe? [Maria!] Mais forte! [Maria!]

Muito vos agradeço por me terdes escutado. Agradeço-vos porque quereis mudar o negativo em positivo; porque quereis lutar contra o mal, com Jesus ao vosso lado. E sobretudo agradeço-vos porque tendes vontade de nunca deixar de rezar. Agora convido-vos a rezar juntos à nossa Mãe, para que nos proteja. Estamos de acordo? [Sim!] Todos juntos? [Sim!] [recitação da Ave Maria... Bênção]

E, por favor, um último pedido: rezai por mim; rezai por mim! Preciso. Não vos esqueçais. Até à próxima!

Pontífice recorda mártires de Uganda


Na manhã deste sábado, dia 28 de novembro, o Papa Francisco presidiu à Eucaristia no Santuário de Namugongo na cidade de Kampala, capital do Uganda. Homenageou o ecumenismo de sangue de católicos e anglicanos durante as perseguições aos cristãos.
Nos 50 anos da canonização dos mártires do Uganda, dos quais se destaca S. Carlos Lwanga, o Papa Francisco afirmou que o que dá alegria e paz duradouras são a honestidade e a integridade e não os prazeres mundanos e os poderes terrenos.

Primeiro foi a visita do Santo Padre ao Santuário anglicano onde o Papa prestou homenagem aos mártires torturados e mortos no final do séc. XIX. O abraço ao bispo anglicano e a oração em silêncio. Depois a Missa no Santuário católico consagrado por Paulo VI no lugar onde S Carlos Lwanga foi queimado juntamente com os seus 21 companheiros a 3 de Junho de 1886. Uma herança cristã para levar Cristo ao mundo:
“ Não nos aproximamos desta herança com uma recordação de circunstância ou conservando-a num museu como se fosse uma jóia preciosa, Honrámo-la verdadeiramente e honramos todos os Santos, quando levamos o seu testemunho a Cristo nas nossas casas e aos nossos vizinhos, nos lugares de trabalho e na sociedade civil, quer fiquemos nas nossas casas, quer andemos no mais remoto canto do mundo.”

“Não apenas a sua vida foi ameaçada mas foi-o também a vida dos rapazes mais jovens confiados aos seus cuidados (…) não tiveram temor de levar Cristo aos outros, mesmo com o custo da vida. A sua fé tornou-se testemunho; hoje, venerados como mártires o seu exemplo continua a inspirar tantas pessoas no mundo.”

O testemunho destes mártires – disse o Santo Padre – mostra como não são os prazeres humanos ou os poderes terrenos que nos dão paz e alegria, mas a honestidade e integridade. “Construir uma sociedade mais justa, que promova a dignidade humana, sem excluir ninguém, que defenda a vida, dom de Deus, e proteja as maravilhas da natureza, a criação, a casa comum” – afirmou o Papa na conclusão da sua homilia tendo recordado ainda que tudo começa na família, escola de amor e misericórdia, onde se exprime o cuidado com os idosos, os pobres, viúvas e órfãos.

Confira na íntegra:

«Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo» (Act 1, 8).

Desde a Idade Apostólica até aos nossos dias, surgiu um grande número de testemunhas que proclamam Jesus e manifestam a força do Espírito Santo. Hoje lembramos, com gratidão, o sacrifício dos mártires ugandeses, cujo testemunho de amor a Cristo e à sua Igreja chegou, justamente, até «aos confins do mundo». Recordamos também os mártires anglicanos, cuja morte por Cristo dá testemunho do ecumenismo do sangue. Todas estas testemunhas cultivaram o dom do Espírito Santo na sua vida e, livremente, deram testemunho da sua fé em Jesus Cristo, mesmo a preço da vida, e vários deles numa idade muito jovem.

Também nós recebemos o dom do Espírito para nos fazer filhos e filhas de Deus, mas também para dar testemunho de Jesus e torná-Lo conhecido e amado em todos os lugares. Recebemos o Espírito, quando renascemos no Baptismo e quando fomos reforçados com os seus dons na Confirmação. Cada dia somos chamados a aprofundar a presença do Espírito Santo na nossa vida, a «reavivar» o dom do seu amor divino para sermos, por nossa vez, fonte de sabedoria e de força para os outros.

O dom do Espírito Santo é-nos concedido para ser partilhado. Une-nos uns aos outros como fiéis e membros vivos do Corpo místico de Cristo. Não recebemos o dom do Espírito só para nós mesmos, mas para nos edificarmos uns aos outros na fé, na esperança e no amor. Penso nos Santos José Mkasa e Carlos Lwanga que, depois de ter sido instruídos na fé pelos outros, quiseram transmitir o dom que receberam. Fizeram-no em tempos perigosos: não só a vida deles estava ameaçada, mas também a vida dos mais novos, confiados aos seus cuidados. Dado que tinham cultivado a fé e crescido no amor a Deus, não tiveram medo de levar Cristo aos outros, inclusive a preço da vida. A fé deles tornou-se testemunho; venerados hoje como mártires, o seu exemplo continua a inspirar muitas pessoas no mundo. Continuam a proclamar Jesus Cristo e a força da Cruz.

Se nós, como os mártires, reavivarmos diariamente o dom do Espírito que habita nos nossos corações, tornar-nos-emos certamente naqueles discípulos-missionários que Cristo nos chama a ser. Sê-lo-emos sem dúvida para as nossas famílias e os nossos amigos, mas também para aqueles que não conhecemos, especialmente para quantos poderiam ser pouco benévolos e até mesmo hostis para connosco. Esta abertura aos outros começa na família, nos nossos lares, onde se aprende a caridade e o perdão, e onde, no amor dos nossos pais, se aprende a conhecer a misericórdia e o amor de Deus. A referida abertura exprime-se também no cuidado pelos idosos e os pobres, as viúvas e os órfãos.

O testemunho dos mártires mostra a quantos, ontem e hoje, ouviram a sua história que os prazeres mundanos e o poder terreno não dão alegria e paz duradouras. Mas são a fidelidade a Deus, a honestidade e integridade da vida e uma autêntica preocupação pelo bem dos outros que nos trazem aquela paz que o mundo não pode oferecer. Isto não diminui a nossa solicitude por este mundo, como se nos limitássemos a olhar para a vida futura; pelo contrário, dá uma finalidade à vida neste mundo e ajuda-nos a ir ter com os necessitados, a cooperar com os outros em prol do bem comum e a construir uma sociedade mais justa, que promova a dignidade humana, sem excluir ninguém, que defenda a vida, dom de Deus, e proteja as maravilhas da natureza, a criação, a nossa casa comum.

Queridos irmãos e irmãs, esta é a herança que recebestes dos mártires ugandeses: vidas marcadas pela força do Espírito Santo, vidas que ainda hoje testemunham o poder transformador do Evangelho de Jesus Cristo. Não tomamos posse desta herança com uma comemoração passageira ou conservando-a num museu como se fosse uma jóia preciosa. Mas honramo-la verdadeiramente, como honramos todos os Santos, quando levamos o seu testemunho de Cristo para os nossos lares e a nossa vizinhança, para os locais de trabalho e a sociedade civil, quer permaneçamos em nossas casas, quer tenhamos de ir até ao canto mais remoto do mundo.

Que os mártires ugandeses juntamente com Maria, Mãe da Igreja, intercedam por nós, e o Espírito Santo acenda em nós o fogo do amor divino.

Omukama Abawe Omukisa! Deus vos abençoe!

Todos os Santos da Ordem Seráfica

Santo do dia: Santo André



Entre os Doze apóstolos de Cristo, André foi o primeiro a ser seu discípulo. Além de ser apontado por eles próprios como o "número dois", depois, somente, de Pedro. Na lista dos apóstolos, pela ordem está entre os quatro primeiros. Morava em Cafarnaum, era discípulo de João Batista, filho de Jonas de Betsaida, irmão de Simão-Pedro e ambos eram pescadores no mar da Galiléia.

Foi levado por João Batista à verde planície de Jericó, juntamente com João Evangelista, para conhecer Jesus. Ele passava. E o visionário profeta indicou-o e disse a célebre frase: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo". André, então, começou a segui-lo.

A seguir, André levou o irmão Simão-Pedro a conhecer Jesus, afirmando: "Encontramos o Messias". Assim, tornou-se, também, o primeiro dos apóstolos a recrutar novos discípulos para o Senhor. Aparece no episódio da multiplicação dos pães: depois da resposta de Filipe, André indica a Jesus um jovem que possuía os únicos alimentos ali presentes: cinco pães e dois peixes.

Pouco antes da morte do Redentor, aparece o discípulo André ao lado de Filipe, como um de grande autoridade. Pois é a ele que Filipe se dirige quando certos gregos pedem para ver o Senhor, e ambos contaram a Jesus.

André participou da vida publica de Jesus, estava presente na última ceia, viu o Cristo Ressuscitado, testemunhou a Ascenção e recebeu o primeiro Pentecostes. Ajudou a sedimentar a Igreja de Cristo a partir da Palestina, mas as localidades e regiões por onde pregou não sabemos com exatidão.

Alguns historiadores citam que depois de Jerusalém foi evangelizar na Galiléia, Cítia, Etiópia, Trácia e, finalmente, na Grécia. Nessa última, formou um grande rebanho e pôde fundar a comunidade cristã de Patras, na Acaia, um dos modelos de Igreja nos primeiros tempos. Mas foi lá, também, que acabou martirizado nas mãos do inimigo, Egéas, governador e juiz romano local.

André ousou não obedecer à autoridade do governador, desafiando-o a reconhecer em Jesus um juiz acima dele. Mais ainda, clamou que os deuses pagãos não passavam de demônios. Egéas não hesitou e condenou-o à crucificação. Para espanto dos carrascos, aceitou com alegria a sentença, afirmando que, se temesse o martírio, não estaria "pregando a grandeza da cruz, onde morreu Jesus".

Ficou dois dias pregado numa cruz em forma de "X"; antes, porém, despojou-se de suas vestes e bens, doando-os aos algozes. Conta a tradição que, um pouco antes de André morrer, foi possível ver uma grande luz envolvendo-o e apagando-se a seguir. Tudo ocorreu sob o império de Nero, em 30 de novembro do ano 60, data que toda a cristandade guarda para sua festa.

O imperador Constantino trasladou, em 357, de Patos para Constantinopla, as relíquias mortais de santo André, Apóstolo. Elas foram levadas para Roma, onde permanecem até hoje, na Catedral de Amalfi, só no século XIII. Santo André, Apóstolo, é celebrado como padroeiro da Rússia e Escócia.

Encontramos o Messias
Das Homilias sobre o Evangelho de João, de São João Crisóstomo, bispo
(Hom. 19,1: PG 59,120-121)

André, tendo permanecido com Jesus e aprendido com ele muitas coisas, não escondeu o tesouro só para si mas correu depressa à procura de seu irmão, para fazê-lo participar da sua descoberta. Repara o que lhe disse: Encontramos o Messias (que quer dizer Cristo) (Jo 1,41). Vede como logo revela o que aprendera em pouco tempo! Demonstra assim o valor do Mestre que o persuadira, bem como a aplicação e o zelo daqueles que, desde o princípio, já estavam atentos. Esta expressão, com efeito, é de quem deseja intensamente a sua vinda, espera aquele que deveria vir do céu, exulta de alegria quando ele se manifestou, e se apresa em comunicar aos outros a grande notícia.

Repara também a docilidade e a prontidão de espírito de Pedro. Acorre imediatamente. E conduziu-o a Jesus (Jo 1,42), afirma o Evangelho. Mas ninguém condene a facilidade com que, não sem muita reflexão, aceitou a notícia. É provável que o irmão lhe tenha falado pormenorizadamente mais coisas. Na verdade, os evangelistas sempre narram muitas coisas resumidamente, por razões de brevidade. Aliás, não afirma que acreditou logo, mas: E conduziu-o a Jesus (Jo 1,42), e a ele o confiou para que aprendesse com Jesus todas as coisas.Estava ali, também, outro discípulo que viera com os mesmos sentimentos.
Se João Batista, quando afirma: Eis o Cordeiro e batiza no Espírito Santo (cf. Jo 1,29.33), deixou mais clara, sobre esta questão, a doutrina que seria dada pelo Cristo, muito mais fez André. Pois, não se julgando capaz de explicar tudo, conduziu o irmão à própria fonte da luz, tão contente e pressuroso, que não duvidou sequer um momento.

Fonte: Paulinas

domingo, 29 de novembro de 2015

Todos os Santos da Ordem Franciscana

Santos Franciscanos











































Santos canonizados da primeira ordem, 110; Santas canonizadas da segunda ordem, 9; Santos e Santas canonizados da terceira ordem regular e secular, 53; Religiosos da primeira ordem beatificados, 161; Religiosas da segunda ordem beatificadas, 34; da terceira ordem regular e secular, 95 beatificados.
Total de membros das ordens franciscanas canonizados e beatificados, no fim do milênio, 482.
No aniversário da aprovação da regra de São Francisco Honório III, no dia 29 de novembro de 1223, a ordem franciscana recolhe-se em oração festiva para contemplar a grandiosa árvore de santidade nascida daquele livrinho que Francisco dizia ter recebido do próprio Jesus e constituía a “medula do Evangelho”.

Era esse precisamente o projeto de vida e o carisma do pobrezinho: ser sal da terra e luz do mundo, fazer reviver na Igreja o Evangelho em sua pureza, ou seja, apresentar perante os homens a vida de Cristo em todas as suas dimensões: desde a pobreza ao zelo pela salvação de todos, do anúncio da Boa Nova ao sacrifício da cruz.

Quem poderia contar a imensa multidão de Santos, Beatos, Veneráveis e Servos de Deus – se quisermos utilizar esta terminologia canônica – ou melhor ainda, de todos os irmãos e irmãs, sem nome e sem rosto, que nos limites da sua fragilidade viveram a perfeição evangélica, fazendo da regra franciscana a norma da sua vida? É um imenso capital de santidade e de amor, muitas vezes desconhecido, outras vezes esquecido, quando não mesmo desprezado pelo mundo! O bem dá menos nas vistas do que o mal; no entanto, a história do bem, tantas vezes anônima e despercebida, tem escrito o nome e o rosto de Cristo. É essa história que impede o mundo de cair no desespero e fecunda as atividades da Igreja.

São Francisco disse um dia aos irmãos, numa explosão de alegria: “Caríssimos, consolai-vos e alegrai-vos no Senhor! Não vos deixeis entristecer pelo fato de serem poucos, nem vos assusteis da minha simplicidade nem da vossa, pois o Senhor me revelou que há de fazer de nós uma inumerável multidão e nos propagará até os confins do mundo. Ele me mostrou um grande número de pessoas a vir ter conosco, com o desejo de viverem segundo a nossa regra. Ainda me parece ouvir o ruído dos seus passos! Enchiam diversos caminhos, vindos de todas as nações: eram franceses, espanhóis, alemães, ingleses, uma turba imensa de várias outras línguas e nações”.

Ao ouvirem estas palavras, uma santa alegria se apoderou dos irmãos, pela graça que Deus concedia ao seu Santo.


sábado, 28 de novembro de 2015

Santo do dia: São Tiago das Marcas


São Tiago das Marcas é com João de Capistrano, Bernardino de Sena e Alberto de Sarteano, uma das quatro colunas da Observância Franciscana, a singular reforma do século XV, que propôs novamente, frente a um humanismo exagerado, o retorno à vida pobre, simples e ao zelo apostólico dos primeiros tempos do franciscanismo.

Natural de Monteprandone, na província de Ascoli Piceni, região das Marcas, na Itália, São Tiago nasceu no dia 1º de setembro de 1391. Seu nome de batismo era Domingos Gangali e, ainda pequeno e órfão, foi educado pelo tio, que o conduziu sabiamente no seguimento de Cristo. Estudou em Perugia, onde se diplomou em direito civil junto com o grande São João de Capistrano.

Decidiu deixar a profissão para ingressar na Ordem dos Franciscanos, onde estudou teologia e ordenou-se sacerdote. Quando vestiu o hábito, tomou o nome de Tiago, que logo foi completado com o “das Marcas”, em razão de sua origem. Foi discípulo de outro santo e seu contemporâneo da Ordem, Bernardino de Sena, que se destacava como o maior pregador daquela época, tal qual conhecemos.

Ele era magro e só dormia 3 horas por noite e usava um hábito feito de pano grosso. Ele jejuava dia sim, dia não. No final o papa proibiu que ele jejuasse porque sua saúde era de interesse público. O bom senso do Papa Sixtus IV foi notável para a época ao recomendar ao santo que cuidasse de sua saúde. Mas São Tiago comia apenas pão, feijão, alho e cebola. Dizia que o Espirito Santo o inspirava a grandes sermões com grande poder e ferocidade e com sucesso incrível, mesmo com o estômago vazio.

E era verdade. Em Camerino, certa vez seu discurso quase fez com que a plateia queimasse seu adversário. Em Aquila, 40 mil pessoas aguardavam ele descer do púlpito para dar o que seria hoje uma espécie de autógrafo. Queriam que ele escrevesse o nome de Jesus em um pedaço de pergaminho.

Para conseguir satisfazer a demanda, os frades do convento produziam milhares desses pergaminhos e Tiago colocava sua mão neles abençoando a todos os pergaminhos.

Diz a tradição que sua benção curava várias doenças.

Também Tiago das Marcas consagrou toda a sua vida à pregação. Percorreu toda a Itália, a Polônia, a Boêmia, a Bósnia e depois foi para a Hungria, obedecendo a uma ordem direta de Roma. Permanecia num lugar apenas o tempo suficiente para construir um convento novo ou, num já existente, restabelecer a observância genuína da Regra da Ordem Franciscana.

Depois, partia em busca de novo desafio ou para cumprir uma das delicadas missões em favor da Igreja, para as quais era enviado especialmente, como fizeram os papas Eugênio IV, Nicolau V e Calisto III. Participou na incursão da cruzada de 1437 para expulsar os invasores turcos muçulmanos. Humilde e reto nos princípios de Cristo, nunca almejou galgar postos na Igreja, chegando a recusar o cargo de bispo de Milão.

Viveu em extrema penitência e oração, oferecendo seu sacrifício a Deus para o bem da humanidade sempre tão necessitada de misericórdia. Mas os severos e freqüentes jejuns a que se submetia minaram seu organismo, chegando a receber o sacramento da unção dos enfermos seis vezes. Mesmo assim, chegou à idade de oitenta anos.

Faleceu em Nápoles, pedindo perdão aos irmãos franciscanos pelo mau exemplo que foi a sua vida. Era o dia 28 de novembro de 1476. Seu corpo foi sepultado na igreja de Santa Maria Nova, daquela cidade. A sua biografia mostra muitos relatos dos prodígios operados por sua intercessão, tanto em vida quanto após a morte. O papa Bento XIII canonizou Tiago das Marcas em 1726 e marcou o dia de sua morte para a celebração de sua lembrança.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

1º domingo do Advento

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1ª Leitura - Jr 33,14-16
Salmo - Sl 24,4bc-5ab.8-9.1014 (R.1b)
2ª Leitura - 1Ts 3,12-4,2
Evangelho - Lc 21, 25-28.34-36

Naquele tempo disse Jesus a seus discípulos:
Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas.
Na terra, as nações ficarão angustiadas,
com pavor do barulho do mar e das ondas.
Os homens vão desmaiar de medo,
só em pensar no que vai acontecer ao mundo,
porque as forças do céu serão abaladas.
Então eles verão o Filho do Homem,
vindo numa nuvem com grande poder e glória.
Quando estas coisas começarem a acontecer,
levantai-vos e erguei a cabeça,
porque a vossa libertação está próxima.
Tomai cuidado para que vossos corações
não fiquem insensíveis por causa da gula,
da embriaguez e das preocupações da vida,
e esse dia não caia de repente sobre vós;
pois esse dia cairá como uma armadilha
sobre todos os habitantes de toda a terra.
Portanto, ficai atentos e orai a todo momento,
a fim de terdes força
para escapar de tudo o que deve acontecer
e para ficardes em pé diante do Filho do Homem.
Palavra da Salvação.

A diferença está no modo de olhar – Pe. João Batista Libânio

Esses evangelhos sempre nos causam problemas, porque estamos habituados a pensar linearmente, isto é, a nossa imaginação é tremendamente espacial. Até na linguagem popular, nas nossas conversas, usamos metáforas espaciais para realidades que não o são. Falamos para um amigo que ele anda distante de nós, mesmo que esteja ao nosso lado. Queremos falar de uma distância afetiva, mas colocamos espaço. Já a maneira de os povos antigos falarem das realidades é colocando-as numa linha de tempo. O fim do mundo é colocado também nessa linha. Viriam os anos, milhares de anos, e, lá no final, chegaria o fim do mundo, no final de uma linha, como um trem que chegasse à última estação.

Jesus não fala disso. Não fala de um prolongar-se da história até um certo momento, quando viria o fim do mundo. Pode ser amanhã, depois de amanhã. Não é nada disso! O fim do mundo aconteceu para os que viviam em Nova York, onde estavam as torres gêmeas*. Elas caíram e os mataram. Nós não estávamos lá e, por isso, estamos aqui vivos. A fala de Jesus é qualitativa, é de outra natureza.

Ele nos pede um outro olhar para a realidade, que está aí, igualmente, para todos. Mas os olhares não são iguais, isso é o que ainda não percebemos claramente. Chove para todos, vem a doença para todos, todos morrem, todos têm alegrias e tristezas – todos, sem exceção. Ainda agora houve a maior falência da história dos Estados Unidos: uma firma que tinha mais de um bilhão em capital faliu. Uma falência gigantesca que nem somos capazes de imaginar. Quem trabalhava nessa empresa estava numa torre maravilhosa que desabou. Para eles, chegou o fim do mundo, chegou o Senhor. É o advento! Temos que compreender que o Senhor quer é que tenhamos olhos atentos para ver. Quantas vezes ouvi pessoas dizerem que não mereciam uma doença, um desastre?! Não se trata de merecer ou não, mas de saber olhar, porque os acidentes, as doenças estão aí. O que o Senhor diz é que precisamos aprender a olhar. Sabem o que aconteceu com Noé? Ele estava fazendo a barca e todos comendo, dançando, enquanto nuvens negras cobriam o céu. Ele fechou a arca, colocou dentro a família, todas as famílias dos animais, e as pessoas continuaram na maior festa. Ninguém se deu conta de nada, até que veio o dilúvio, e todos morreram.

Jesus não fala de fatos históricos, mas ensina como devemos olhar. Se estivéssemos lá, se tivesse acontecido daquela maneira... O único que viu foi Noé, os outros estavam cegos diante do mesmo fato, dos mesmos acontecimentos. Noé viu, e os outros não viram. Não se trata, portanto, de um acontecimento real, objetivo, mas da forma de se olhar.

O Evangelho traz uma visão interessantíssima nesse sentido. Certa vez, Jesus fez um milagre. O povo aclamou a maravilha: “Deus nos visitou!” Virou o fariseu e disse que Ele fazia milagre em nome de Belzebu. Para o mesmo fato, um diz que era Deus, outro que era o demônio. O mesmíssimo milagre de Jesus, para o fariseu, era obra de Belzebu, para outros, foi a visita de Deus.

Aprendam: o que nós, cristãos, devemos fazer é saber olhar as realidades. Seríamos muito mais felizes se soubéssemos ver mensagens e palavras nas dores, nas alegrias e nos sofrimentos também. Em quaisquer acontecimentos, deveríamos olhar e perguntar: “o que o Senhor me fala nesse acontecimento?” Essa é a pergunta que devemos fazer. É isso que Jesus quer falar, não de fim de mundo, de cair estrelas. Nada disso! Se Ele estivesse pregando para os americanos, teria lhes perguntado o que significou para eles a queda das torres, o que esse fato lhes dizia, o que Deus queria lhes falar através dele. Mas, ao contrário, eles querem guerra, querem vingança, porque não entendem nada da presença do Senhor. Ele passou e não o viram. Para que acumular tanta coisa? Para que construir uma coisa tão grandiosa que dois aviões destroem em segundos? Para que acumular tantos bens? Como diz esta passagem do Evangelho: o fazendeiro vendo uma colheita imensa, manda construir um paiol gigantesco e enche tudo. Deus lhe diz: “Eu quero a tua alma ainda esta noite!” O fazendeiro não aprendera nada, pois pensava que, acumulando, seria mais. Se tivesse um olhar de participação, um olhar bonito, pensaria em como distribuir a riqueza com que Deus o tinha cumulado, e tudo seria diferente! A mesma colheita, para um, é ganância, para outro, é participação. O que importa não é a colheita, mas o olhar.

Tenho insistido muito em minhas pregações que nós somos cristãos pelo olhar. Em qualquer acontecimento, podemos ler uma mensagem. Não é que Deus queira aquele acontecimento. Não é isso! Deus não quer a morte de ninguém, não quer acidente de ninguém, não quer que nenhuma torre caia. Ele não quer isso! Mas, caindo a torre, perguntemos: “E agora, o que eu penso disso?” É isso que o Evangelho quer nos mostrar. Que tenhamos olhos para não deixar passar um acontecimento sequer. Vem um ano político, um ano eleitoral. Uma boa hora de nos perguntar: “O que o Senhor quer de nós?” O que quer dizer, para nós, uma eleição? Não como político ou membro de um partido. Também isso, mas mais como cristão. O que isso exige de mim?

Essas são as perguntas do cristão sobre qualquer coisa, sejam sucessos ou fracassos. Devemos ver Deus no sucesso e no fracasso. Não que Ele queira o fracasso, mas também posso vê-lo lá. Talvez me animando, para que eu me reerga, para que não soçobre. Num fracasso matrimonial, numa separação dolorosa, num pai que não é como a gente quer, o que eu vejo? Deus quer o meu mal? Claro que não! Deus quer o melhor para todos nós, mas, se não vem o melhor, busquemos enxergar o que Ele nos ensina naquele fato. É o primeiro passo para aprendermos a ser cristãos. Amém.

(*) referência ao atentado de 11.09.01, contra os Estados Unidos.

Pe. João Batista Libânio, sj – Um outro olhar, vol. 6

Confira a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM para este 1º domingo do Advento:



Em favela de Nairóbi, Papa pede terra, teto e trabalho para todos


O Papa Francisco iniciou o terceiro dia de atividades em Nairóbi, nesta sexta-feira (27/11), com uma visita a Kangemi, uma das grandes favelas da capital.

“Na verdade, me sinto em casa ao partilhar este momento com irmãos e irmãs que – não tenho vergonha de o dizer – ocupam um lugar especial na minha vida e nas minhas opções. Estou aqui, porque quero que saibam que suas alegrias e esperanças, angústias e sofrimentos não me são indiferentes. Sei das dificuldades que enfrentam, todos os dias! Como não denunciar as suas injustiças”?, questionou o Pontífice.

Desta forma, o Papa se deteve em um aspecto que os discursos de exclusão não conseguem reconhecer ou parecem ignorar: a sabedoria dos bairros populares. Citando a sua Encíclica “Laudato Si”, o Pontífice explicou que “se trata de uma sabedoria que “brota da resistência obstinada do que é autêntico, dos valores evangélicos que a sociedade opulenta, entorpecida pelo consumo desenfreado, parece ter esquecido”.

Vocês, acrescentou Francisco, são capazes de “tecer laços de pertença e de convivência que transformam a sua existência em uma experiência comunitária, onde são abatidos os muros e as barreiras do egoísmo”. E ponderou:

Cultura popular

“A cultura dos bairros populares, permeada por esta sabedoria particular, tem características muito positivas, que são uma contribuição para o tempo em que vivemos; ela se exprime mediante valores concretos de solidariedade, dar a vida pelo outro, preferir o nascimento à morte, dar sepultura cristã aos seus mortos, oferecer hospitalidade aos doentes, partilhar o pão com quem tem fome, ter paciência e fortaleza nas grandes adversidades. Esses valores são baseados nisto: todo ser humano é mais importante do que o deus dinheiro. Obrigado por nos lembrar que existe este outro tipo de cultura!”

Neste sentido, o Papa quis começar a reivindicar estes valores, que não são cotados na Bolsa: valores que não são objeto de especulação e nem têm preço de mercado. O caminho de Jesus teve início na periferia, entre os pobres e pelos pobres. Reconhecer isso não significa ignorar a terrível injustiça da marginalização urbana. As feridas provocadas pelas minorias concentram o poder, a riqueza e esbanjam egoisticamente enquanto a crescente maioria deve se refugiar em periferias abandonadas, contaminadas, descartadas.

Desafios

Isto se agrava ainda mais, frisou Francisco, diante da injusta distribuição do terreno que, em muitos casos, leva inteiras famílias a pagarem aluguéis abusivos por habitações em condições imobiliárias completamente inadequadas. O Papa recordou ainda o grave problema da sonegação de terras por parte de “empresários privados” sem rosto.

Aqui, o Santo Padre referiu-se a outro grave problema: a falta de acesso às infraestruturas e serviços básicos, de modo particular, à água potável: “O acesso à água potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque determina a sobrevivência das pessoas. Negar a água a uma família, sob qualquer pretexto burocrático, é uma grande injustiça”.

Este contexto de indiferença e hostilidade, de que sofrem os bairros populares, se agrava, disse o Papa, quando a violência se espalha e as organizações criminosas, ao serviço de interesses econômicos ou políticos, utilizam crianças e jovens como “bala de canhão” para os seus negócios sangrentos. E exortou:

Educação

“Peço a Deus que as autoridades assumam em conjunto o caminho da inclusão social, da educação, do esporte, da ação comunitária e da tutela das famílias, porque esta é a única garantia de uma paz justa, verdadeira e duradoura. Estas realidades são uma consequência de novas formas de colonialismo, que pretendem que os países africanos sejam peças de um mecanismo e de uma engrenagem gigantesca. Na verdade, não faltam pressões para que sejam adotadas políticas de descarte, como a redução da natalidade”.

Por fim, Francisco propôs retomar a ideia de uma respeitosa integração urbana, sem erradicação e paternalismo, sem indiferença e mero confinamento. A dívida social e ambiental para com os pobres das cidades pode ser paga com o direito sagrado dos três “T”: terra, teto e trabalho.

O Papa concluiu seu discurso com o seguinte apelo:

“Quero chamar a atenção de todos os cristãos, especialmente dos Pastores, para que renovem o impulso missionário; tomem iniciativas contra as tantas injustiças; envolvam-se nos problemas dos vizinhos e os acompanhem nas suas lutas; salvaguardem os frutos do seu trabalho comunitário e celebrem juntos todas as vitórias, pequenas ou grandes. Esta é uma tarefa talvez a mais importante, porque os pobres são os destinatários privilegiados do Evangelho”.

Rezemos, trabalhemos e nos comprometamos, disse por fim o Papa, para que cada família tenha um teto digno, acesso à água potável, energia para iluminar, cozinhar e melhorar suas casas; que todo o bairro tenha ruas, praças, escolas, hospitais, espaços desportivos, recreativos e artísticos; que todos possam gozar da paz e da segurança que merecem.

O bairro de Kangemi

Kangemi é um bairro onde se encontra uma das favelas de Nairóbi, situada em um pequeno vale, que confina com a favela de Kalangware. Kangemi conta com uma população multiétnica de mais de 100 mil pessoas, cuja maioria pertence à tribo Lubya. A paróquia local conta com cerca de 20 mil fiéis e é dedicada a São José Operário. Confiada aos Padres Jesuítas, possui um ambulatório, um Instituto Técnico Superior e um Centro de Assistência às mães mais necessitadas e diversas iniciativas profissionais.

Fonte: News.VA

Mudanças climáticas constituem desafio para humanidade

KENYA-VATICAN-POPE-AFRICA























A última atividade do Papa na tarde desta quinta-feira no Quênia, foi a visita à sede das Nações Unidas em Nairobi. O Papa foi acolhido pela Diretora Geral, a senhora Saleh Work Zewede, e pelos responsáveis pelas questões do Ambiente e do Habitat, os dois aspectos de que se ocupa essencialmente essa sede da ONU.

Depois da assinatura do livro de ouro, o Papa foi levado num pequeno carro eléctrico para o parque, onde foi convidado a plantar uma árvore, gesto, cujo significado simbólico, serviu-lhe depois de ponta pé de saída no seu discurso, em espanhol, aos cerca de três mil delegados, diplomatas e pessoal da ONU, que o escutavam. Um discurso dirigido à África, ao mundo, em que o Papa abarcou, sempre na esperança duma melhoria, diversos temas: desde o ambiente, às injustiças sociais que provocam tanta violência no mundo, à urbanização descontrolada com todas as suas consequências, à Organização Mundial do Comércio.

Plantar uma árvore – disse – é um convite a perseverar na luta contra a desflorestação e a desertificação, a proteger a biodiversidade de pulmões do planeta como a bacia fluvial do Congo; é uma incitação a continuar unidos e confiantes na capacidade humana de “inverter todas as situações de injustiça e deterioração de que sofremos hoje”.

O tom estava, portanto, dado para abordar a questão ambiental, um dilema perante o qual se encontra a humanidade – disse o Papa: “melhorar ou destruir o meio ambiente”.
“O clima é um bem comum, um bem de todos” e por isso as mudanças climáticas são um problema global que requerem o empenho responsável de todos para o seu melhoramento – insistiu Francisco, exprimindo apreço pelas iniciativas neste sentido. E considerou importante o encontro internacional que vai ter lugar nos próximos dias em Paris, o chamado COP21, sobre a questão das energias renováveis e não poluidoras. O Papa convidou a evitar a “tentação de cair num nominalismo declamatório com efeito tranquilizador sobre as consciências “ e a dar um sinal claro do “grande compromisso político e econômico de reconsiderar e corrigir as falhas e distorções no modelo atual de desenvolvimento”

“Por isso espero que a COP21 leve à conclusão dum acordo global e “transformador” baseado nos princípios de solidariedade, justiça, equidade e participação, e vise a consecução de três objectivos complexos e, ao mesmo tempo, interdependentes: a redução do impacto das alterações climáticas, a luta contra a pobreza e o respeito pela dignidade humana”.

Retomando várias vezes conceitos expressos na sua encíclica sobre o ambiente, Laudato Si, como a ideia de planeta como casa comum, pátria de toda a humanidade, o Papa disse que devemos aceitar humildemente a nossa interdependência, mas não como “sinônimo de imposição ou submissão de uns em função dos interesses de outros, do mais fraco em função do mais forte”

“É necessário um diálogo sincero e franco, com a colaboração de todos”: políticos, cientistas, empresas, sociedade civil.
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Confiante de que, não obstante os males do passado, o ser humano é capaz de ultrapassar-se a si mesmo e “voltar a escolher o bem, a regenerar-se”, e a “assumir com generosidade as suas graves responsabilidades”, o Papa disse que isto requer, que se coloque “a economia e a política ao serviço dos povos” e em harmonia com a natureza.

O caminho indicado pelo Papa para essa mudança de rumo, tão necessária é, ao lado das soluções políticas e econômicas, a educação e a formação, por forma a promover novos estilos de vida e fazer com que crianças, jovens e adultos adotem a cultura do cuidado (de si próprio, do outro, do meio ambiente). Nada da cultura do descarte que tem levado a sacrificar pessoas no altar no lucro e do consumo. É um desafio cultural, espiritual e educativo, o que o Papa propõe à humanidade e acredita “que estamos a tempo de o impulsionar”. Caso contrário será a “globalização da indiferença” ou, pior ainda, a resignação a diversas formas de tráfico, escravaturas, trabalho forçado, prostituição, tráfico de órgãos, fluxos migratórios… insistiu Francisco, mencionando os chamados migrantes econômicos, que, “não sendo reconhecidos como refugiados nas convenções internacionais, carregam o peso da sua vida abandonada sem qualquer tutela normativa”

“São muitas vidas, muitas histórias, muitos sonhos que naufragam nos nossos dias. Não podemos ficar indiferentes perante isto. Não temos o direito”.

O Papa passou depois a falar do rápido processo de urbanização que leva ao crescimento desmedido e descontrolado das cidades e que se tornam pouco saudáveis, com preocupantes sintomas duma trágica ruptura dos vínculos de integração e comunhão social que leva à violência, ao narcotráfico, ao desenraizamento, ao anonimato social.
Bergoglio encorajou “quantos trabalham a nível local e internacional por garantir que o processo de urbanização se torne num instrumento eficaz para o desenvolvimento e a integração”. A este respeito referiu-se à próxima Conferência Mundial Habitat-III a ter lugar em Quito, no Equador em Outubro de 2016, esperando que seja um momento para identificar formas de responder a estas problemáticas.

Por fim referiu-se à X Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio que vai ter lugar daqui a poucos dias, precisamente em Nairobi. A este respeito Francisco disse que muito se tem trabalhado neste sector no sentido de fazer com que as relações comerciais entre os Estados contribuam para o desenvolvimento dos povos, mas que “ainda não se chegou a um sistema de comercio internacional equitativo e totalmente ao serviço da luta contra a pobreza e a exclusão.”

“Espero que as decisões da próxima Conferência de Nairobi não sejam um mero equilíbrio de interesses contrapostos, mas um verdadeiro serviço ao cuidado da casa comum e ao desenvolvimento integral das pessoas, sobretudo das mais abandonadas”.
O Papa sugeriu uma adequação ordenada e não traumática das normas comerciais de modo que a interdependência e a integração das economias não se faça em prejuízo de sectores sociais importantes como a saúde, recordando que a eliminação de doenças como a malária e a tuberculoses, a cura das chamas doenças “órfãos” e sectores desfavorecidos da medicina tropical reclamam uma atenção política primária, acima de qualquer outro interesse comercial ou político.
O Papa concluiu chamando atenção para a beleza e a riqueza natural da África, que levam a louvar o Criador; um património da humanidade, que enfrenta, todavia, o constante risco de destruição devido ao egoísmo humano. E reiterando um desejo já expresso na ONU em Nova Iorque, também desta fez, o Papa manifestou a vontade de que as obras das Organização das Nações Unidas e as relações multilaterais sejam “penhor dum futuro seguro e feliz para gerações futuras”, pondo de lado interesses sectoriais e ideologias e procurando o interesse comum. E concluiu com estas palavras:

“Asseguro uma vez mais o apoio da Comunidade Católica e o meu de continuar a rezar e colaborar para que os frutos da cooperação regional, que se expressam hoje na União Africana e nos múltiplos acordos africanos de comércio, cooperação e desenvolvimento, sejam vividos com vigor e tendo sempre em conta o bem comum dos filhos desta terra. A bênção do Altíssimo esteja com todos e cada um de vós e dos vossos povos. Obrigado”.

Íntegra do discurso:

Desejo agradecer o amável convite e as palavras de boas-vindas da Senhora Sahle-Work Zewde, Directora-Geral do Gabinete das Nações Unidas em Nairobi, bem como do Senhor Achim Steiner, Diretor Executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e do Senhor Joan Clos, Director Executivo da ONU-Hábitat. Aproveito esta oportunidade para saudar todos os funcionários e quantos colaboram com as instituições aqui presentes.
Quando me dirigia para esta sala, convidaram-me a plantar uma árvore no parque do Centro das Nações Unidas. De boa vontade aceitei cumprir este gesto simbólico e simples, cheio de significado em muitas culturas.

Plantar uma árvore é, em primeiro lugar, um convite a perseverar na luta contra fenômenos como a desflorestação e a desertificação. Lembra-nos a importância de proteger e administrar responsavelmente aqueles «pulmões do planeta repletos de biodiversidade [como bem podemos apreciar neste continente com] a bacia fluvial do Congo», lugares essenciais «para o conjunto do planeta e para o futuro da humanidade». Por isso, é sempre digna de apreço e encorajamento «a tarefa de organismos internacionais e organizações da sociedade civil que sensibilizam as populações e colaboram de forma crítica, inclusive utilizando legítimos mecanismos de pressão, para que cada governo cumpra o dever próprio e não-delegável de preservar o meio ambiente e os recursos naturais do seu país, sem se vender a espúrios interesses locais ou internacionais» (Laudato si’, 38).

Por outro lado, plantar uma árvore incita-nos a continuar confiando, esperando e sobretudo dando-nos as mãos para inverter todas as situações de injustiça e deterioração que sofremos hoje.

Dentro de poucos dias, começará em Paris uma reunião importante sobre as alterações climáticas, onde a comunidade internacional como tal se confrontará mais uma vez sobre esta problemática. Seria triste e – atrevo-me a dizer – até catastrófico se os interesses particulares prevalecessem sobre o bem comum e chegassem a manipular as informações para proteger os seus projetos.

Neste contexto internacional em que se põe o dilema – que não podemos ignorar – de melhorar ou destruir o meio ambiente, cada iniciativa, pequena ou grande, individual ou colectiva, tomada para cuidar da criação, indica o caminho seguro para aquela «criatividade generosa e dignificante, que põe a descoberto o melhor do ser humano» (ibid., 211).

«O clima é um bem comum, um bem de todos e para todos. (…) As mudanças climáticas são um problema global com graves implicações ambientais, sociais, econômicas, distributivas e políticas, constituindo atualmente um dos principais desafios para a humanidade» (ibid., 23 e 25), cuja resposta «deve integrar uma perspectiva social que tenha em conta os direitos fundamentais dos mais desfavorecidos» (ibid., 93). Pois «o abuso e a destruição do meio ambiente aparecem associados, simultaneamente, com um processo ininterrupto de exclusão» (Discurso à ONU, 25 de Setembro de 2015).
A COP21 é um passo importante no processo de desenvolvimento dum novo sistema energético que dependa o mínimo possível dos combustíveis fósseis, busque a eficiência energética e se estruture sobre o uso de energia com baixo ou nulo conteúdo de carbono. Estamos perante o grande compromisso político e econômico de reconsiderar e corrigir as falhas e distorções no modelo atual de desenvolvimento.

O Acordo de Paris pode dar um sinal claro nesta direção, desde que se evite, como já tive ocasião de dizer diante da Assembleia Geral das Nações Unidas, «a tentação de cair num nominalismo declamatório com efeito tranquilizador sobre as consciências. Devemos ter cuidado com as nossas instituições para que sejam realmente eficazes» (ibidem). Por isso, espero que a COP21 leve à conclusão dum acordo global e «transformador», baseado nos princípios de solidariedade, justiça, equidade e participação, e vise a consecução de três objectivos complexos e, ao mesmo tempo, interdependentes: a redução do impacto das alterações climáticas, a luta contra a pobreza e o respeito pela dignidade humana.
Apesar de tantas dificuldades, vai-se afirmando a «tendência de conceber o planeta como pátria e a humanidade como povo que habita uma casa comum» (Laudato si’, 164). Nenhum país «pode atuar à margem duma responsabilidade comum. Se queremos realmente uma mudança positiva, devemos aceitar humildemente a nossa interdependência, isto é, a nossa sã interdependência» (Discurso aos movimentos populares, 9 de Julho de 2015). O problema surge quando pensamos que a interdependência é sinônimo de imposição ou submissão de uns em função dos interesses dos outros. Do mais fraco em função do mais forte.

É necessário um diálogo sincero e franco, com a colaboração responsável de todos: autoridades políticas, comunidade científica, empresas e sociedade civil. Não faltam exemplos positivos que nos mostram como uma verdadeira colaboração entre a política, a ciência e a economia é capaz de obter importantes resultados.

Estamos cientes, porém, de que «os seres humanos, capazes de tocar o fundo da degradação, podem também superar-se, voltar a escolher o bem e regenerar-se» (Laudato si’, 205). Esta tomada de consciência profunda leva-nos a esperar que, se a humanidade do período pós-industrial poderia ser recordada como uma das mais irresponsáveis da história, «a humanidade dos inícios do século XXI [seja] lembrada por ter assumido com generosidade as suas graves responsabilidades» (ibid., 165). Para isso é necessário colocar a economia e a política ao serviço de povoações onde o «ser humano, em harmonia com a natureza, estrutura todo o sistema de produção e distribuição de tal modo que as capacidades e necessidades de cada um encontrem um apoio adequado no ser social» (Discurso aos movimentos populares, 9 de Julho de 2015). Não se trata duma utopia fantasista, antes pelo contrário é uma perspectiva realista que coloca a pessoa e a sua dignidade como ponto de partida e para a qual tudo deve confluir.

A mudança de rumo que precisamos não é possível realizá-la sem um compromisso substancial para com a educação e a formação. Nada será possível, se as soluções políticas e técnicas não forem acompanhadas por um processo educativo que promova novos estilos de vida. Um novo estilo cultural. Isto requer uma formação destinada a fazer crescer em meninos e meninas, mulheres e homens, jovens e adultos a adoção duma cultura do cuidado (cuidado de si próprio, cuidado do outro, cuidado do meio ambiente) em vez da cultura da degradação e do descarte (descarte de si mesmo, do outro, do meio ambiente). A promoção da «consciência duma origem comum, duma recíproca pertença e dum futuro partilhado por todos [permitir-nos-á] o desenvolvimento de novas convicções, atitudes e estilos de vida. [É] um grande desafio cultural, espiritual e educativo que implicará longos processos de regeneração» (Laudato si’, 202), que estamos a tempo de impulsionar.
Muitos são os rostos, as histórias, as consequências evidentes em milhares de pessoas que a cultura da degradação e do descarte levou a sacrificar aos ídolos do lucro e do consumo. Devemos ter cuidado com um sinal triste da «globalização da indiferença»: habituarmo-nos lentamente ao sofrimento dos outros, como se fosse uma coisa normal (cf. Mensagem para o Dia Mundial da Alimentação, 16 de Outubro de 2013), ou, pior ainda, resignarmo-nos perante formas extremas e escandalosas de «descarte» e de exclusão social, como são as novas formas de escravidão, o tráfico de pessoas, o trabalho forçado, a prostituição, o tráfico de órgãos. «É trágico o aumento de emigrantes em fuga da miséria agravada pela degradação ambiental, que, não sendo reconhecidos como refugiados nas convenções internacionais, carregam o peso da sua vida abandonada sem qualquer tutela normativa» (Laudato si’, 25). São muitas vidas, muitas histórias, muitos sonhos que naufragam nos nossos dias. Não podemos ficar indiferentes perante isto. Não temos o direito.
Há tempos que, a par da degradação do ambiente, temos sido testemunhas dum rápido processo de urbanização que com frequência, infelizmente, leva a um «crescimento desmedido e descontrolado de muitas cidades que se tornaram pouco saudáveis (…) e que não funcionam» (ibid., 44). E constituem também lugares onde se difundem preocupantes sintomas duma trágica ruptura dos vínculos de integração e comunhão social, que leva ao «aumento da violência e [ao] aparecimento de novas formas de agressividade social, [ao] narcotráfico e [ao] consumo crescente de drogas entre os mais jovens, [à] perda de identidade» (ibid., 46), ao desenraizamento e ao anonimato social (cf. ibid., 149).

Quero manifestar o meu encorajamento a quantos trabalham, a nível local e internacional, por garantir que o processo de urbanização se torne um instrumento eficaz para o desenvolvimento e a integração, a fim de assegurar a todos, especialmente às pessoas que vivem em bairros marginalizados, condições de vida dignas, garantindo os direitos básicos à terra, ao tecto e ao trabalho. É preciso promover iniciativas de planificação urbana e cuidado dos espaços públicos, que apontem nesta direcção e prevejam a participação dos moradores locais, procurando contrariar as numerosas disparidades e as áreas de pobreza urbana, não só económicas mas também e sobretudo sociais e ambientais. A próxima Conferência Habitat-III, prevista em Quito no mês de Outubro de 2016, poderia ser um momento importante para identificar formas de responder a estas problemáticas.

Dentro de poucos dias, esta cidade de Nairobi acolherá a X Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio. Em 1967 o meu predecessor Paulo VI, face a um mundo cada vez mais interdependente e antecipando-se de alguns anos à presente realidade da globalização, refletiu sobre o modo como as relações comerciais entre os Estados poderiam ser um elemento fundamental para o desenvolvimento dos povos ou, pelo contrário, causa de miséria e exclusão (cf. Populorum progressio, 56-62). Embora reconhecendo que muito se tem trabalhado neste sector, parece todavia que ainda não se chegou a um sistema de comércio internacional equitativo e totalmente ao serviço da luta contra a pobreza e a exclusão. As relações comerciais entre os Estados, parte essencial das relações entre os povos, podem servir tanto para danificar o ambiente como para o recuperar e preservar para as gerações futuras.

Espero que as decisões da próxima Conferência de Nairobi não sejam um mero equilíbrio de interesses contrapostos, mas um verdadeiro serviço ao cuidado da casa comum e ao desenvolvimento integral das pessoas, sobretudo das mais abandonadas. Em particular, quero associar-me às preocupações de tantas realidades empenhadas na cooperação para o desenvolvimento e na assistência sanitária – incluindo as congregações religiosas que dão assistência aos mais pobres e excluídos –, a respeito dos acordos sobre a propriedade intelectual e o acesso aos medicamentos e à assistência sanitária de base. Os tratados de livre comércio regionais sobre a proteção da propriedade intelectual, particularmente no sector farmacêutico e das biotecnologias, não só não devem limitar os poderes já concedidos aos Estados pelos acordos multilaterais, mas, antes, deveriam ser um instrumento para garantir um mínimo de atenção sanitária e de acesso aos tratamentos essenciais para todos. Os debates multilaterais devem, por sua vez, dar aos países mais pobres o tempo, a elasticidade e as excepções necessárias para uma adequação ordenada e não traumática às normas comerciais. A interdependência e a integração das economias não devem comportar o mínimo dano aos sistemas sanitários e de proteção social existentes; pelo contrário, devem favorecer a sua criação e funcionamento. Alguns temas sanitários, como a eliminação da malária e da tuberculose, a cura das chamadas doenças «órfãs» e os sectores desfavorecidos da medicina tropical reclamam uma atenção política primária, acima de qualquer outro interesse comercial ou político.

A África oferece ao mundo uma beleza e uma riqueza natural que nos levam a louvar o Criador. Este patrimônio africano e de toda a humanidade enfrenta um risco constante de destruição, causado por egoísmos humanos de todos os tipos e pelo abuso de situações de pobreza e exclusão. Ao nível das relações econômicas entre os Estados e os povos, não se pode deixar de falar dos tráficos ilegais que crescem num contexto de pobreza e que, por sua vez, alimentam a pobreza e a exclusão. O comércio ilegal de diamantes e pedras preciosas, de metais raros ou de alto valor estratégico, de madeiras e material biológico, e de produtos animais, como no caso do tráfico de marfim e o consequente extermínio de elefantes, alimenta a instabilidade política, a criminalidade organizada e o terrorismo. Também esta situação é um grito dos homens e da terra que deve ser escutado pela comunidade internacional.


Na minha recente visita à sede da ONU em Nova Iorque, formulei o desejo e a esperança de que a obra das Nações Unidas e de todos os processos multilaterais possa ser «penhor dum futuro seguro e feliz para as gerações futuras. Sê-lo-á se os representantes dos Estados souberem pôr de lado interesses sectoriais e ideologias e procurarem sinceramente o serviço do bem comum» (Discurso à ONU, 25 de Setembro de 2015).
Asseguro uma vez mais o apoio da Comunidade Católica e o meu de continuar a rezar e colaborar para que os frutos da cooperação regional, que se expressam hoje na União Africana e nos múltiplos acordos africanos de comércio, cooperação e desenvolvimento, sejam vividos com vigor e tendo sempre em conta o bem comum dos filhos desta terra.
A bênção do Altíssimo esteja com todos e cada um de vós e dos vossos povos. Obrigado.

Fonte: News.VA e Vaticano