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quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Diálogo inter-religioso é semente de bem e amizade


Acompanhe abaixo a Audiência Geral desta semana, que contou com a presença de diversos líderes religiosos, em comemoração pelo Cinquentenário da promulgação da declaração conciliar "Nostra Aetate", que mudou a relação da Igreja com os judeus e estabelecendo novas bases em relação aos muçulmanos, os budistas, os hindus e demais religiões não-cristãs.

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

Nas Audiências Gerais participam com frequências pessoas ou grupos pertencentes a outras religiões; mas a audiência de hoje é totalmente especial, para recordarmos juntos o cinquentenário da Declaração do Concílio Vaticano II Nostra ætate, sobre as relações da Igreja católica com as religiões não cristãs. Este tema era muito importante para o beato Papa Paulo VI, que já na festa de Pentecostes do ano precedente ao fim do Concílio, tinha instituído o Secretariado para os não-cristãos, hoje Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso. Por isso, manifesto a minha gratidão e dou as minhas calorosas boas-vindas a pessoas e grupos de várias religiões, que hoje quiseram estar presentes, especialmente a quantos vieram de longe.

O Concílio Vaticano II foi um tempo extraordinário de reflexão, diálogo e oração para renovar o olhar da Igreja católica sobre si mesma e sobre o mundo. Uma leitura dos sinais dos tempos em vista de uma atualização orientada por uma fidelidade dupla: fidelidade à tradição eclesial e fidelidade à história dos homens e das mulheres do nosso tempo. Com efeito Deus, que se revelou na criação e na história, que falou por meio dos profetas e ultimamente no seu Filho que se fez homem (cf. Hb 1, 1), dirige-se ao coração e ao espírito de cada ser humano que procura a verdade e os modos para a pôr em prática.

A mensagem da Declaração Nostra ætate é sempre atual. Evoquemos brevemente alguns dos seus pontos:

— a crescente interdependência dos povos (cf. n. 1);
— a busca humana de um sentido da vida, do sofrimento, da morte, interrogações que sempre acompanham o nosso caminho (cf. n. 1);
— a origem e o destino comuns da humanidade (cf. n. 1);
— a unicidade da família humana (cf. n. 1);
— as religiões como busca de Deus ou do Absoluto, no contexto das várias etnias e culturas (cf. n. 1);
— o olhar benévolo e atento da Igreja sobre as religiões: sem nada rejeitar daquilo que nelas existe de belo e de verdadeiro (cf. n. 2);
— a Igreja considera com estima os crentes de todas as religiões, apreciando o seu compromisso espiritual e moral (cf. n. 3);
— aberta ao diálogo com todos, a Igreja é ao mesmo tempo fiel às verdades em que crê, a começar por aquela segundo a qual a salvação oferecida a todos tem a sua origem em Jesus, único Salvador, e que o Espírito Santo está em ação, como fonte de paz e amor.

Houve numerosos eventos, iniciativas e relações institucionais ou pessoais com as religiões não cristãs ao longo destes últimos cinquenta anos, e é difícil recordá-los todos. Um acontecimento particularmente significativo é o Encontro de Assis, de 27 de outubro de 1986. Ele foi desejado e promovido por São João Paulo II, que um ano antes, portanto há trinta anos, dirigindo-se aos jovens muçulmanos em Casablanca desejava que todos os crentes em Deus favorecessem a amizade e a união entre os homens e os povos (19 de agosto de 1985). A chama acesa em Assis propagou-se no mundo inteiro e constitui um sinal de esperança permanente.

Merece uma especial ação de graças a Deus a verdadeira mudança que nestes cinquenta anos se verificou nas relações entre cristãos e judeus. Indiferença e oposição transformaram-se em colaboração e benevolência. De inimigos e estranhos, passamos a ser amigos e irmãos. Com a Declaração Nostra ætate o Concílio traçou o caminho: «sim» à redescoberta das raízes judaicas do cristianismo; «não» a todas as formas de anti-semitismo e condenação de qualquer injúria, discriminação e perseguição que delas derivam. O conhecimento, o respeito e a estima recíprocos constituem a senda que, se é válida de modo peculiar para a relação com os judeus, vale analogamente também para as relações com as demais religiões. Penso de maneira especial nos muçulmanos que — como recorda o Concílio — «adoram o Deus único, vivo e subsistente, misericordioso e todo-poderoso, criador do céu e da terra, que falou aos homens». Eles referem-se à paternidade de Abraão, veneram Jesus como profeta, honram a sua Virgem Mãe Maria, esperam o dia do juízo e praticam a oração, as esmolas e o jejum.

O diálogo de que temos necessidade não pode deixar de ser aberto e respeitoso, pois só assim se revela fecundo. O respeito recíproco é condição e, ao mesmo tempo, finalidade do diálogo inter-religioso: respeitar o direito dos outros à vida, à integridade física, às liberdades fundamentais, ou seja, de consciência, de pensamento, de expressão e de religião.
O mundo olha para nós, crentes, exorta-nos a colaborar entre nós e com os homens e as mulheres de boa vontade que não professam religião alguma, pede-nos respostas eficazes sobre numerosos temas: a paz, a fome e a miséria que afligem milhões de pessoas, a crise ambiental, a violência, em particular a cometida em nome da religião, a corrupção, a degradação moral, as crises da família, da economia, das finanças e sobretudo da esperança. Nós, crentes, não temos receitas para estes problemas, mas dispomos de um recurso enorme: a oração. E nós crentes, oramos. Devemos rezar. A oração é o nosso tesouro, no qual nos inspiramos segundo as respectivas tradições, para pedir os dons pelos quais a humanidade anseia.

Por causa da violência e do terrorismo difundiu-se uma atitude de suspeita ou até de condenação das religiões. Na realidade, não obstante religião alguma esteja imune do risco de desvios fundamentalistas ou extremistas em indivíduos ou grupos, é preciso considerar os valores positivos que elas vivem e propõem, e que constituem nascentes de esperança. Trata-se de elevar o olhar para ir mais além. O diálogo assente no respeito confiante pode produzir sementes de bem que, por sua vez, se tornam rebentos de amizade e de colaboração em muitos campos, e sobretudo no serviço aos pobres, aos mais pequeninos e aos idosos, na hospitalidade aos migrantes, na atenção a quantos vivem excluídos. Podemos caminhar juntos, cuidando uns dos outros e da criação. Todos os crentes de todas as religiões. Juntos, podemos louvar o Criador por nos ter oferecido o jardim do mundo, para o cultivar e preservar como um bem comum, e podemos realizar programas compartilhados para debelar a pobreza e garantir condições de vida digna a cada homem e mulher.

O Jubileu Extraordinário da Misericórdia, que está à nossa frente, é uma ocasião propícia para trabalharmos juntos no campo das obras de caridade. E neste setor, onde conta sobretudo a compaixão, podem unir-se a nós muitas pessoas que não se sentem crentes ou que vivem à procura de Deus e da verdade, pessoas que põem no centro o rosto do próximo, em particular o semblante do irmão ou da irmã em necessidade. Mas a misericórdia à qual somos chamados abrange toda a criação, que Deus nos confiou para sermos os seus administradores e não exploradores ou, pior ainda, destruidores. Deveríamos ter sempre o propósito de deixar o mundo melhor do que o encontramos, a partir do ambiente em que vivemos, dos pequenos gestos da nossa vida cotidiana.

Caros irmãos e irmãs, quanto ao futuro do diálogo inter-religioso, a primeira coisa que devemos fazer é rezar. E rezar uns pelos outros: somos irmãos! Sem o Senhor, nada é possível; com Ele, tudo se torna possível! Possa a nossa oração — cada qual segundo a sua tradição — aderir plenamente à vontade de Deus, o qual deseja que todos os homens se reconheçam irmãos e vivam como tais, formando a grande família humana na harmonia das diversidades.

Fonte: Vaticano